Extra com o ponto de vista do Ursuline
Os Dragões Brancos - Capítulo 01
“Hoje em dia, parece que qualquer um pode ser nomeado cavaleiro.”
Wolfgar Ricaydo saltou de seu enorme cavalo de guerra cinzento, clicando a língua em desaprovação.
O homem de expressão sombria que o seguia de perto tomou as rédeas. “Concordo plenamente!” disse com entusiasmo. “Simplesmente não consigo entender por que Sua Majestade gostaria de enobrecer aquele mestiço.”
“Sem dúvida, essa palhaçada toda é só para testar a paciência da corte,” rosnou Wolfgar. “Todo mundo sabe que nosso soberano adora jogar pedras em águas calmas.”
“Ouvi dizer que o Conde Valmir se recusou a testemunhar a cerimônia.”
“O Conde Valmir é um homem de princípios,” comentou Wolfgar, antes de acrescentar, num tom cortante: “É uma pena que eu não possa dizer o mesmo do meu pai. Imaginar que ele aceitaria participar dessa bobagem só para agradar o rei…”
“Irmão.”
Incapaz de ouvir mais aquela conversa, Ursuline se aproximou dos dois.
Os olhos, azul-escuro de Wolfgar examinaram o irmão mais novo de cima a baixo. Um lampejo de hostilidade passou pelo seu rosto, mas logo desapareceu.
“Que surpresa,” disse Wolfgar, estendendo a mão para dar um tapa no ombro de Ursuline, que agora estava visivelmente mais alto do que alguns anos atrás. “Como você cresceu. Quase não te reconheci.”
“Sim, faz tempo.”
Wolfgar apertou o ombro de Ursuline com força quase dolorosa antes de soltá-lo. “Veio com o Pai?”
“Estou treinando com a Guarda Real desde o ano passado,” respondeu Ursuline, com calma.
“Guarda Real?” As sobrancelhas de Wolfgar se franziram. “O Pai pretende que você entre para os cavaleiros reais?”
Ursuline se enrijeceu levemente, sentindo a hostilidade no tom do irmão.
Wolfgar soltou um sorriso cínico e murmurou: “Parece que ele ainda está ocupado bajulando a família real.”
“O Pai apenas serve à coroa como um súdito leal de Sua Majestade.”
Até então, Wolfgar o olhava de cima com arrogância. Diante da resposta de Ursuline, agarrou brutalmente um punhado dos cabelos dourados do irmão e puxou sua cabeça de um lado para o outro, como se examinasse um potro.
“Já tem pelo no rosto. Quantos anos você tem agora?”
“Farei dezessete em quatro meses.”
“Vai levar mais alguns anos até se tornar útil como cavaleiro.”
Ursuline se esforçou para não fazer uma careta.
Wolfgar cravou os olhos nele, falando cada palavra como se quisesse gravá-las em sua mente:
“Lembre-se disso, garoto. Um dia, você será meu vassalo. Pode treinar com a Guarda Real o quanto quiser, mas não posso permitir que vire um cachorrinho fiel como nosso pai. Está me entendendo?”
Em vez de responder, Ursuline apenas o encarou, com os olhos carregados de rancor.
Com os lábios apertados de desgosto, Wolfgar largou seu cabelo com um puxão.
“Deveria pedir ao Pai para me entregar você como meu escudeiro. Preciso fazer alguma coisa antes que ele te estrague completamente.”
Então deu-lhe umas palmadinhas nas costas, como se seu comportamento violento tivesse sido apenas uma brincadeira, e seguiu pelo corredor que levava ao Palácio de Drachium.
Ursuline ficou olhando em sua direção por um bom tempo antes de se virar, ajeitando os cabelos desgrenhados.
Como sempre, um encontro com Wolfgar Ricaydo o deixava ansioso e com um gosto amargo na boca. Ele massageou o ombro dolorido enquanto se lembrava dos olhos arrogantes do meio-irmão.
Wolfgar, com sua atitude arrogante, desprezava o pai gentil e reservado.
Tendo perdido a mãe ainda criança, Wolfgar havia sido criado pelo avô materno, o Marquês de Ardenbrook, e por isso teve pouco contato com o pai.
Além disso, o Marquês de Ardenbrook sempre se opusera ferozmente ao Armistício dos Sete Reinos e nutria grande hostilidade pela família real de Wedon. Era natural, então, que não visse com bons olhos o genro leal ao rei Reuben.
Wolfgar, por sua vez, simpatizava com o avô.
Não achei que ele viria a essa cerimônia…
Ursuline lançou um olhar desconfiado para os homens de Wolfgar reunidos num canto do campo de treinamento.
O que ele estaria tramando? Será que planejava causar problemas no palácio para provocar uma ruptura entre o pai e Sua Majestade?
Enquanto refletia sobre isso, o som de um kopel ecoou à distância.
Ele se virou para os portões e viu uma fileira de cavaleiros vestindo mantos, azul-escuro entrando no palácio. Apesar da distância, Ursuline reconheceu imediatamente o emblema dos Dragões Brancos em seus tabardos.
Os Dragões Brancos.
Era uma ordem de cavaleiros que vinha ganhando fama no leste nos últimos anos. Ursuline permaneceu nos degraus, observando os que chegavam.
Cada um deles era robusto e se movia com agilidade. O homem que seria nomeado naquele dia estava entre eles.
Ele se deslocou até a extremidade do campo de treinamento para conseguir uma visão melhor.
Segundo os rumores, o futuro cavaleiro era um espadachim que herdara a arma de um dos doze cavaleiros do Monarca Darian, Sir Miguel.
O palácio inteiro fervilhava de histórias sobre como ele havia ascendido de origens humildes para se tornar um cavaleiro vassalo do rei.
Ursuline se perguntava que tipo de pessoa ele seria.
“Aí está você.”
Uma voz chamou por trás.
Ursuline se virou e viu um homem imponente, vestido com o uniforme dos cavaleiros reais, descendo os degraus da torre.
Ursuline imediatamente endireitou as costas. “Sir Arthus.”
“Seu pai está procurando por você,” disse o homem, aproximando-se com passos largos e dando-lhe um tapinha gentil nas costas. “Acredito que ele queira apresentá-lo aos nobres realistas antes da sua cerimônia de cavalaria no próximo ano. Você deveria se trocar e ir para o salão de banquetes.”
Ursuline franziu a testa. “Mas, Comandante, o senhor e Sir Rubrick já haviam concordado em ser testemunhas da minha cerimônia.”
“Quanto mais testemunhas numa cerimônia de cavalaria, melhor. Seu pai deve prezar muito por você. Veja, muitos dos convidados deste evento são seguidores leais de Sua Majestade, então tenho certeza de que ele quer que você faça algumas boas conexões,” respondeu Arthus, com um sorriso travesso.
Ursuline conteve um suspiro.
Era irritante que seu pai ainda o tratasse como uma criança, apenas por ter nascido em seus anos avançados. Reprimindo o incômodo, Ursuline seguiu em direção aos seus aposentos.
Ursuline vestiu trajes formais e foi para o castelo principal.
Passou por centenas de criados que iam e vinham de um edifício a outro, carregando lenha, baldes de água e garrafas de vinho.
A quantidade de pessoas trabalhando era impressionante.
Ele atravessou os jardins movimentados e entrou no grande salão, iluminado com milhares de velas.
Há mais gente aqui do que eu esperava.
Ursuline olhou ao redor, surpreso com a vastidão do espaço e a multidão presente.
Aquela cerimônia de cavalaria havia provocado bastante controvérsia.
Quando a decisão do rei de conceder título e terras a um escudeiro de origem humilde — um que já fora até mercenário — veio a público, muitos manifestaram sua desaprovação, e até os nobres reais não pareciam muito satisfeitos.
Ainda assim, o salão estava lotado com centenas de convidados.
Ursuline logo entendeu o motivo.
Estão todos curiosos.
A poucos passos dele, um grupo de nobres cochichava, especulando se “o plebeu” apareceria no salão.
Ursuline deduziu que a maioria estava ali para ver pessoalmente o futuro cavaleiro de quem tanto se falava.
Lançou-lhes um olhar irônico antes de seguir para o interior do salão, onde viu nobres de alta posição reunidos ao redor de uma longa mesa.
Usavam gibões extravagantes, casacos de pele enfeitados com joias e chapéus emplumados, todos conforme a última moda.
Ursuline percorreu com os olhos os nobres ricamente vestidos até localizar seu pai entre eles. Aproximou-se com cautela.
“Fui informado de que o senhor me procurava.”
O conde parou um instante antes de levar o cálice à boca e se virou.
Seu rosto enrugado se iluminou de calor.
“Você chegou.”
O pai de Ursuline se levantou e o puxou para junto de um dos nobres.
“Gostaria que conhecesse alguém. Este é Lorde Evan Triton, um visconde e velho amigo meu. Com certeza já ouviu falar dele. É aquele excêntrico que recusou o posto de comandante dos cavaleiros reais para liderar um grupo de independentes no Leste.”
Ele deve estar falando dos Dragões Brancos.
Ursuline observou o homem esguio com curiosidade.
Era de meia-idade, com cabelos castanhos ondulados e olhos castanho-escuros.
Trazia no rosto um sorriso cordial enquanto falava com o conde.
“Que rapaz bonito. Deve ter muito orgulho dele, meu lorde.”
Ursuline franziu levemente as sobrancelhas.
O homem o tratava como se fosse uma criança de cinco anos, o que feriu seu orgulho.
Ainda assim, Ursuline manteve a compostura e apenas inclinou a cabeça em respeito.
“É um prazer, Lorde Triton. Meu nome é Ursuline Ricaydo. Estou atualmente treinando no palácio para me tornar cavaleiro.”
Regras dos Comentários:
Para receber notificações por e-mail quando seu comentário for respondido, ative o sininho ao lado do botão de Publicar Comentário.