Os Dragões Brancos - Capítulo 02
Triton soltou um som de aprovação, seus olhos castanhos brilhando de interesse.
“Quem é seu instrutor?”
“Estou aprendendo com Sir Van Arthus.”
“Ah, Arthus.” Triton acariciou a barba bem aparada e assentiu. “Um sujeito formidável. Lembro dele como um homem de temperamento difícil. Deve ser um desafio ser seu aluno.”
Ursuline permaneceu em silêncio.
Triton sorriu, como se entendesse.
“Pois faça o seu melhor, rapaz. Em breve, precisaremos de mais cavaleiros capazes.”
Uma expressão preocupada cruzou o rosto do conde ao ouvir isso.
“Ouvi dizer que há movimentos estranhos em Dristan. Devemos esperar uma guerra no Leste?”
“Dristan sempre empunha armas à primeira oportunidade. Mas minhas preocupações vão além de Dristan. Como sabe, sempre haverá aqueles descontentes com a ordem estabelecida.”
O conde silenciou, provavelmente se lembrando do Marquês de Ardenbrook e de seu próprio filho mais velho. Quando voltou a falar, sua voz estava carregada de pesar.
“Quanto mais espadas servirem a Sua Majestade, melhor.”
“Falando nisso, sou grato por ter aceitado ser testemunha dessa cerimônia, Lorde Ricaydo. Sua presença facilitou bastante para que eu convencesse os outros nobres.”
“Não foi problema algum. Pelo que ouvi, trata-se de um jovem excepcional. Um homem com tanto talento deve receber o que lhe é devido.”
O conde falou em tom benevolente, mas não parecia muito interessado no jovem de quem havia aceitado ser testemunha. Mudou de assunto imediatamente.
“E então, por quanto tempo pretende ficar na capital?”
“Pretendemos cavalgar para o nordeste assim que a cerimônia terminar. Fomos informados de que a região de Sylvaros foi devastada por grifos, então decidimos passar a temporada lá para exterminá-los…”
Sua voz calma se perdeu no ar. Ursuline, que até então ouvia a conversa apenas com atenção superficial, tentando disfarçar o tédio, passou a observar o homem com curiosidade. Triton franzia o cenho com tanta força que marcas profundas se formaram ao redor dos olhos, como se estivesse com uma dor terrível.
Não só isso: o salão, antes ruidoso, havia mergulhado num silêncio estranho.
Com uma expressão apreensiva, Ursuline seguiu o olhar deles — a tempo de ver um homem corpulento e de presença intimidadora entrando no salão.
De repente, Ursuline se sentiu minúsculo.
O recém-chegado tinha cabelos negros como breu e pele dourada, com um porte que rivalizava com os nortistas. Mesmo a olho nu, parecia ter mais de seis kevettes e um hech de altura, com força emanando de seus ombros largos e pernas longas e ágeis.
No entanto, não era o físico robusto ou os movimentos ágeis e ameaçadores que haviam silenciado a multidão. À medida que o homem se aproximava, Ursuline não pôde deixar de ficar tenso.
O traje do homem era simples demais.
Suas botas gastas eram comuns, e a túnica preta de lã que usava não exibia um único bordado. Além disso, o colete sobre a túnica parecia ser para proteção, e o cinturão grosso e a longa espada em sua cintura deixavam claro que não estavam ali por questões de moda.
Ele parecia mais pronto para o campo de batalha do que para um salão de banquetes.
A única peça formal que o homem havia posto antes de entrar no palácio era a ombreira de aço sobre o ombro, que ostentava o emblema de sua ordem de cavalaria.
“O que, em nome dos céus, você está vestindo?” suspirou Triton, lançando um olhar desaprovador ao seu escudeiro, agora parado diante dele.
O homem arqueou uma sobrancelha e respondeu secamente:
“Não foi o senhor quem mandou que eu vestisse minha melhor roupa?”
Ele parecia imune aos olhares pesados da multidão.
“Esta é a roupa mais cara que possuo,” acrescentou.
“Eu não mandei você se vestir para a guerra!” retrucou Triton. “O que fez com a roupa que lhe enviei?”
“Aquelas peças ridículas de tecido?”
O homem torceu o nariz, visivelmente desgostoso.
“Dei para Nirtha. Provavelmente ele já as converteu em dinheiro. Disse que ia sair para beber e levou todos os homens com ele.”
Triton mordeu os lábios, como se fosse xingá-lo, mas apenas balançou a cabeça.
“Fui um tolo por deixá-lo agir por conta própria.”
“O que visto não muda quem eu sou. Se me vestisse como um nobre, só serviria para ser ridicularizado,” disse o homem, com um cinismo frio.
Triton abriu a boca para retrucar, mas, vendo que o conde ainda estava ao lado deles, conteve-se. Virou-se com um sorriso forçado, como se nada tivesse acontecido.
“Ah, que falta de modos da minha parte. Peço desculpas. Este sujeito indisciplinado é o jovem escudeiro cuja cerimônia de cavalaria o senhor tão gentilmente concordou em testemunhar. Seu nome é Riftan Calypse.”
Ele então cutucou o homem com o cotovelo.
Relutante, Riftan deu um passo à frente e fez uma breve reverência.
“É uma honra conhecê-lo.”
“Que sujeito interessante. Ainda mais do que os rumores diziam,” murmurou o conde, num tom neutro.
Ursuline, porém, sabia que não havia nenhum elogio escondido naquela fala.
Triton, também percebendo a sutileza, pousou a mão no ombro de Riftan e disse:
“Peço que o perdoe. Ele ainda não está acostumado com as formalidades da corte.”
O conde apenas pigarreou.
Talvez achando melhor se retirar, Triton afastou o escudeiro.
“Parece que já tomei muito do seu tempo. Vamos nos retirar.”
Conduziu Riftan através do salão, enquanto Ursuline os observava.
O rosto do escudeiro se contraiu em um muxoxo quando Triton aparentemente começou a repreendê-lo, e Ursuline se surpreendeu com o quanto ele parecia jovem.
Quantos anos ele teria?
Certamente estava no início ou meados dos vinte, já que ainda não era cavaleiro.
Perdido em pensamentos, Ursuline se sobressaltou ao ouvir a voz calma de seu pai.
“É um jovem impressionantemente bonito.”
Ursuline olhou para o pai, surpreso. Por um momento, nem soube a quem ele se referia, já que sua própria impressão de Riftan Calypse era tão intensa que uma descrição tão morna parecia inadequada.
O conde Ricaydo balançou a cabeça.
“Mas ele precisa aprimorar seus modos, ou acabará se tornando um estorvo para Sua Majestade.”
Ursuline não respondeu.
O conde soltou um suspiro profundo.
“Parece que Lorde Triton pretende moldar esse jovem para ser seu braço direito. Sua Majestade também está de olho nele, então, no mínimo, deve ser alguém de talento excepcional. Ambos são muito criteriosos nesse aspecto. Não seria ruim fazer amizade com ele. Você lidará bastante com os Dragões Brancos quando se tornar membro oficial dos cavaleiros reais.”
“Wolfgar… quer me tomar como seu escudeiro.”
“É mesmo?”
Profundas rugas se formaram na testa do conde. Ele olhou para o filho com olhos cheios de preocupação e perguntou, gentilmente:
“E o que você acha disso?”
“Se possível… eu gostaria de me juntar aos cavaleiros reais.”
O pai pareceu refletir por um instante antes de sorrir.
“Então, fique tranquilo. Falarei com Wolfgar.”
Apesar da garantia, Ursuline permaneceu desconfiado.
O conde sempre fora indulgente com seu filho mais velho.
Ainda assim, Ursuline guardou seus pensamentos para si e apenas assentiu.
Logo depois, o conde levou Ursuline para conhecer vários conhecidos.
Enquanto repetia cumprimentos educados, Ursuline não pôde deixar de lançar olhares para Evan Triton, que também se esforçava para apresentar seu subordinado aos convidados.
Riftan Calypse, porém, parecia pouco disposto a colaborar.
Um alto sacerdote estava visivelmente irritado, o rosto vermelho de indignação com algo que o escudeiro dissera.
No fim, Triton foi obrigado a tirá-lo do salão.
Ursuline observou-os sair, meio distraído, até ser puxado de volta à realidade pela insistência de seu pai, que o conduziu até os oficiais do palácio.
Naquela noite, Ursuline só conseguiu se retirar para seu quarto depois de ser apresentado a todos os nobres importantes no banquete.
Uma vez em seu quarto, ele desabou na cama e só abriu os olhos pouco antes do amanhecer.
Ficou olhando para o teto por um momento, depois se levantou para lavar-se e vestir o uniforme de treino recém-lavado. Então, saiu do alojamento e caminhou pela manhã ainda cinzenta.
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