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    Respirando o ar frio da manhã, ele se dirigiu ao campo de treino. Ainda era muito cedo, então o local estava vazio. Após observar ao redor, caminhou até a armaria para escolher uma espada para o treinamento. Nesse momento, o som agudo de metal se chocando o fez parar.

    Ursuline franziu a testa. Quem estaria duelando com espadas de verdade a essa hora? Dois cavaleiros cabeça-quente lutando ao amanhecer para evitar serem pegos?

    Curioso, Ursuline abandonou a armaria e seguiu em direção ao campo de duelo. Lá, em uma área cercada, viu dois homens cruzando espadas com ferocidade.

    O estrondo do metal se chocando o fez recuar um passo. A cada colisão, faíscas saltavam na luz pálida da alvorada, e o barulho rasgava o ar, fazendo seu corpo se enrijecer sem querer.

    “Bem patético para alguém que andou se gabando tanto. Desde quando você começou a jogar sério?” provocou uma voz familiar.

    Enquanto descia os degraus para se aproximar, Ursuline reconheceu quem falava. Naquele instante, o sol da manhã despontou sobre os muros, iluminando os rostos dos duelistas.

    Eram os dois que Ursuline havia visto no banquete na noite anterior — Riftan Calypse, se lembrava? O escudeiro mestiço duelava com seu superior, manejando uma espada longa que parecia emitir uma luz azulada. Ele a balançou em um arco diagonal.

    “Você não vivia me enchendo para eu melhorar minha defesa?” retrucou Riftan.

    “Eu mandei você melhorar sua defesa, não atacar como um cachorrinho” retrucou Triton. “Santo Deus, vou ter que te treinar do zero de novo.”

    Riftan soltou uma risada ruidosa antes de investir com um golpe certeiro. Triton quase não conseguiu desviar, mas um sorriso malicioso surgiu em seu rosto. Ele parecia tão briguento que era difícil acreditar que era o mesmo homem imponente da noite passada.

    “Agora sim! Hora de ensinar uma lição ao meu escudeiro insolente.”

    Triton foi o primeiro a atacar. Seu oponente, que parecia impossível de ser dominado, recuou alguns passos para evitar o golpe. Triton não desperdiçou a oportunidade. Sua lâmina rompeu a guarda do adversário e avançou com precisão para a junção entre o pescoço e o ombro. Riftan ainda tentou aparar o golpe, mas a espada de Triton já estava apontada para sua garganta.

    Percebendo que não tinha saída, Riftan franziu a testa e admitiu a derrota.

    “Você venceu.”

    Triton jogou a espada sobre o ombro e soltou uma gargalhada.

    “É sempre um prazer te vencer. Muito mais divertido do que derrotar o Nirtha.”

    Riftan, no entanto, parecia indiferente à derrota. Enquanto embainhava a espada, disse, com frieza:

    “Você parece satisfeito, então vou voltar para o meu quarto. Dormi menos de três horas por sua causa.”

    “Nem pense nisso. Ainda não terminei de te dar uma lição” retrucou Triton, segurando-o pelo ombro, quando Riftan tentou pular a cerca. “Já soltamos um pouco de raiva, agora fale. O que está te incomodando?”

    Riftan apenas o encarou como se ele estivesse falando bobagem.

    Triton soltou um leve suspiro.

    “Você anda particularmente rebelde esses dias. Bom, você sempre foi, mas está piorando conforme se aproxima a cerimônia de cavaleiro. O que foi? Está arrependido de se tornar cavaleiro?”

    “Não precisa se preocupar. Não vou desistir de me tornar um cavaleiro dos Dragões Brancos” respondeu Riftan, encostando-se à cerca e cruzando os braços. “Só não vejo por que gastar tanta energia com algo tão inútil. Já passei no teste dos Dragões Brancos. Pra que servir algumas palavras decoradas para o rei e um alto sacerdote?”

    Triton franziu a testa.

    “Você não leva o juramento a sério?”

    “Pra falar a verdade, acho que essa conversa toda de juramento, honra e cavalheirismo é uma grande besteira.”

    Ursuline sentiu algo crescer dentro dele. Se não estivesse apenas ouvindo às escondidas, teria avançado direto contra o homem.

    Riftan Calypse estava insultando os princípios que cavaleiros consideravam mais preciosos do que a própria vida. E ele não parou por aí.

    “Conheci muitos cavaleiros, e a maioria só fala em honra, mas nunca demonstra. No fim, é só um quadro bonito, e eu me recuso a repetir essas palavras absurdas.”

    “Entendo” respondeu Triton, acariciando a barba. “Então, não é que você não leve o juramento a sério. Você o leva a sério demais.”

    O sorriso arrogante de Riftan desapareceu. Ele franziu a testa e lançou um olhar furioso ao superior.

    “Você ouviu o que eu disse?”

    “Ouvi” confirmou Triton, dando um sorriso. “Você não quer fazer um juramento que não possa cumprir. Em outras palavras, está consciente demais do peso que suas palavras vão carregar.”

    Riftan levantou a voz, indignado:

    “Eu só odeio fingir que existe algo que, na prática não existe!”

    “A honra existe, meu amigo” disse Triton, em tom grave. “Sem honra, nobres e reis não poderiam existir.”

    “Não me venha com isso. Já vi muitos nobres sem um pingo de vergonha ou escrúpulos.”

    “E um dia eles pagarão o preço. Um nobre sem honra é tão bom quanto um morto.”

    Apesar da convicção na voz de Triton, Riftan parecia ainda não acreditar. Triton o olhou com seriedade, mas sorriu enquanto falava.

    “Deixe-me explicar de um jeito que você entenda. Digamos que eu tenha um exército de centenas de homens, todos armados até os dentes com espadas, armaduras e escudos. Se eu quisesse, poderia saquear comida e mercadorias de fazendeiros indefesos, ou tirar à força os bens de mercadores ricos sem pagar o que lhes é devido. Poderia até capturar pessoas inocentes para torturar ou matar por prazer, ou fazer o que quisesse com inúmeras jovens bonitas. Mas eu nunca, nem em um milhão de anos, faria algo assim. Porque minha honra me impede.”

    Quando Riftan não respondeu, Triton continuou:

    “Se eu não conhecesse a honra, o povo das minhas terras fugiria para proteger sua riqueza, suas vidas e suas esposas e filhas. Os mercadores também se recusariam a negociar comigo. Você e qualquer outro que estivesse sob meu comando não iriam querer me seguir, e só restariam à minha volta brutos imorais. Eventualmente, eu perderia minha riqueza e minha influência. E, quando isso acontecesse, eu não poderia mais ser considerado um nobre. Em resumo, se eu perder minha honra, perco tudo.”

    “Essa é uma maneira bem pragmática de colocar as coisas” murmurou Riftan.

    “Bem, você gosta de ser pragmático, não gosta?” respondeu Triton.

    Percebendo que havia convencido o teimoso, pequenas rugas se formaram nos cantos dos olhos de Triton.

    “O poder anda de mãos dadas com a tentação” disse ele, dando um tapinha nas costas de Riftan. “A cerimônia de cavalaria é o momento em que você declara formalmente que não se deixará levar pelos seus desejos e levará uma vida honrada. A partir daí, inúmeros olhos estarão atentos para ver se você cumprirá seu juramento. E, se levar uma vida devotada ao código de cavalaria, o nome Calypse carregará honra.”

    “Entendi” respondeu Riftan, balançando a cabeça com resignação. “Eu nunca consigo vencer sua lábia dourada. Vou me comportar até a cerimônia acabar. Então, por favor, chega de sermões.”

    “Receio que isso não seja suficiente” disse Triton, erguendo o indicador com uma expressão severa. “Espero que esteja vestido de forma apropriada para o próximo banquete. E confio que se comportará com a máxima decência.”

    Riftan pareceu horrorizado e murmurou algo, mas suas palavras se perderam no burburinho dos cavaleiros que haviam acabado de chegar para o treinamento matinal. Ursuline franziu a testa ao ver dezenas deles entrarem no campo. Estava tão absorto na conversa que perdera a chance de treinar.

    Ursuline apressou-se para o campo de treinamento, mas, mesmo enquanto praticava, não conseguiu parar de pensar na conversa entre Riftan Calypse e Evan Triton.

    Ele nunca duvidara da existência da honra. Nascido na casa nobre de Ricaydo, a honra era algo natural para ele. O mesmo valia para Wolfgar.

    Mas… será que Wolfgar realmente conhece a honra?

    Ele se fez uma pergunta que poderia lhe custar a vida, caso Wolfgar descobrisse. Wolfgar Ricaydo havia cometido exatamente os atos desonrosos que Evan Triton descrevera — saques, estupros e até o assassinato de inocentes para sua diversão. Fora repreendido por essas ações, mas não de maneira severa o suficiente para perder seu direito de sucessão.

    Ele havia sido exonerado de seus crimes após confessá-los diante de um alto sacerdote, e logo se tornaria o próximo Conde Ricaydo.

    E eu serei feito seu vassalo.

    Uma emoção intensa subiu dentro dele. Ele desferiu um golpe brutal contra o boneco de treino, rasgando o couro resistente e espalhando areia pelo chão.

    Ursuline olhou fixamente para a bagunça antes de recobrar os sentidos. Ao seu redor, o campo de treinamento havia ficado em silêncio. Arthus, que corrigia a postura de outro escudeiro ali perto, se aproximou com um olhar preocupado.

    “O que houve?”

    Ursuline controlou a respiração e respondeu:

    “Acho que me empolguei um pouco demais.”

    Arthus olhou para o boneco rasgado e soltou uma risadinha.

    “Quer impressionar todo mundo que está te observando, não é?”

    Ursuline franziu o cenho, sem entender, até perceber que havia cavaleiros de outras regiões no campo também. Imediatamente corou de vergonha.

    Arthus balançou a cabeça.

    “Entendo seu desejo de mostrar suas habilidades, mas não podemos ter você estragando o equipamento. Vá até aquele canto e esfrie a cabeça.”

    Ursuline obedeceu e se afastou para uma área mais reservada. Os outros escudeiros retomaram seu treinamento. Enquanto ouvia o som ritmado das espadas de madeira se chocando, Ursuline tentou acalmar suas emoções.

    Como segundo filho, seu destino era obedecer e servir ao irmão mais velho. A única consolação era que teria liberdade para viver sua vida até o momento em que Wolfgar herdasse o título do pai. Ursuline se agarrou a esse pensamento e se forçou a esquecer a conversa entre Evan Triton e Riftan Calypse.


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