Os Dragões Brancos - Capítulo 06
“Você insultou publicamente o homem a quem sirvo e depois saiu como se nada tivesse acontecido. Para mim, isso é inaceitável.” A voz de Riftan era baixa e ameaçadora. “Quando terminarmos aqui, você voltará ao salão de banquetes, se curvará diante de Evan Triton e pedirá desculpas de maneira respeitosa pelo que fez antes.”
“Você não pode estar falando sério,” Wolfgar zombou, incrédulo.
Riftan se aproximou, sua voz ficando perigosamente suave. “Olhe para mim. Você deveria ter medo. Como você disse, eu sou um animal, capaz de atrocidades que você sequer conseguiria imaginar — e sem nem piscar.” Ele rosnou como um leão mostrando os dentes. “Evan Triton é magnânimo o bastante para perdoar até mesmo a escória como você. Eu não sou tão generoso. Quando fico irritado, eu ajo. E da maneira mais cruel possível.”
Seja lá o que Wolfgar viu nos olhos de Riftan, foi o bastante para fazê-lo empalidecer como um fantasma.
Riftan empurrou o nobre para longe e fez um gesto com o queixo em direção ao salão. “Se entendeu, vá buscar o perdão dele. Agora.”
“Seu canalha miserável!” Wolfgar rugiu, se libertando e puxando a espada. “Você acha que pode me ameaçar? Você está morto! Amanhã, em vez de uma cerimônia de cavalaria, será a sua execução!”
“Veremos quem vai acabar na forca,” murmurou Riftan, avançando lentamente.
Wolfgar, que parecia pronto para brandir a espada, hesitou e deu um passo para trás. “O que quer dizer com isso?”
“Você realmente acha que o rei Reuben não sabe o que o marquês de Ardenbrook anda tramando pelas suas costas?”
Ursuline captou o medo intenso que passou pelo rosto de Wolfgar antes que ele pudesse disfarçá-lo.
“Eu não sei de nada disso!” Wolfgar bradou, tentando ocultar sua reação.
“Permita-me explicar. Sua Majestade sabe que seu avô está manipulando a prata e fabricando grandes quantidades de derhams para financiar as forças da oposição.”
Ursuline engasgou com a revelação.
Wolfgar ficou tenso e lançou um olhar desconfiado a Riftan. “Imagino que tenha provas, já que é ousado o bastante para difamar o nome de um marquês.”
“Infelizmente, não há provas físicas. O marquês é muito cuidadoso nesse sentido. Cobriu bem os rastros.”
Um sorriso satisfeito surgiu nos lábios de Wolfgar. “Então você nem terá o consolo de uma morte rápida. Vai ser punido também por caluniar meu avô. Seus membros serão rasgados—”
“Mas os seus rastros ficaram.”
Wolfgar engoliu as palavras e cerrou o maxilar.
Riftan prosseguiu com calma: “O marquês prometeu dar-lhe o título, não foi? Você se esforçou para fazer todo o serviço sujo como se fosse propriedade dele, Wolfgar Ricaydo. Quanto mais eu investigava, mais via apenas o seu nome envolvido.”
Sem conseguir responder, Wolfgar permaneceu em silêncio.
“Deixe-me dar um conselho,” Riftan continuou. “O marquês nunca teve a intenção de fazer de um Ricaydo seu herdeiro. Ele só está usando o neto estúpido e ingênuo para os próprios fins. Quanto mais você corre para servi-lo, mais coloca sua família e sua vida inútil em risco.”
“Q-Que provas…”
“Vá pedir ao rei Reuben. Eu já entreguei tudo a ele. Faz um bom tempo, aliás.” Riftan deu um leve tapa no rosto pálido de Wolfgar. “Sua Majestade está sendo generoso ao ignorar suas brincadeiras por consideração ao seu pai.”
Wolfgar cambaleou para trás. Ursuline nunca tinha visto o irmão arrogante tão intimidado.
Para piorar, Riftan acrescentou: “Deixe-me lhe dar mais um conselho. Se quiser manter sua posição de herdeiro, é melhor começar a se comportar. Porque, pelo que parece, Sua Majestade prefere o outro Ricaydo como futuro conde.”
Riftan lançou um olhar para Ursuline, que permanecia parado de forma constrangida no corredor. Wolfgar estreitou os olhos vermelhos de raiva para o irmão.
Tremendo, o Ricaydo mais velho permaneceu imóvel enquanto Riftan sussurrava em seu ouvido: “Entendeu agora? O que está esperando? Vá implorar.”
Wolfgar se virou bruscamente e saiu apressado em direção ao salão. Riftan o observou por um momento antes de guardar a adaga e se virar para os jardins.
Ursuline, que parecia em transe, acordou de repente e segurou o braço de Riftan. “O que você disse agora… é verdade?”
“Pergunte ao seu irmão.” Riftan afastou sua mão com frieza.
Ursuline mordeu o lábio. “Mesmo que seja… eu nunca poderia me tornar o próximo conde. Meu pai com certeza vai encobrir tudo para proteger meu irmão e—”
“Por acaso parece que me importo com os assuntos da sua família?” cortou Riftan. “Tanto faz quem vai ser o próximo conde Ricaydo. Eu só queria que aquele imbecil pagasse pelo que falou.”
Riftan apoiou o pé no corrimão, se preparando para pular a cerca. Estava claro que não tinha o menor interesse por Ursuline.
Algo despertou dentro de Ursuline e, num impulso, ele agarrou o colarinho de Riftan. “Agora o Wolfgar vai fazer de tudo para se livrar de mim! Isso é culpa sua! Como pôde ser tão irresponsável quando foi você quem—”
“Solte,” rosnou Riftan.
Ursuline recuou, assustado.
Riftan ajeitou o colarinho com calma e disse: “Graças a mim, agora você conhece o ponto mais fraco e fatal de Wolfgar Ricaydo. Em vez de reclamar, deveria pensar em como pode usar isso.”
“Mas o que eu poderia…”
O olhar de irritação de Riftan parecia acusá-lo de querer ser alimentado na boca como uma criança. Ursuline corou de vergonha.
Riftan suspirou e sua voz suavizou um pouco. “Se eu fosse você, buscaria a ajuda do rei Reuben. Use o que aprendeu hoje para pressionar seu pai. Existem inúmeras maneiras de tomar o lugar do seu irmão antes que ele acabe com você.”
Quando Ursuline continuou em silêncio, Riftan concluiu: “Acho que já falei o suficiente.” Então, ele se afastou rapidamente.
Ursuline olhou em volta, mas o homem já havia sumido. Ele cerrou os punhos. Por alguma razão, seu corpo inteiro tremia. Era como se o mundo ao seu redor estivesse desmoronando.
Na manhã seguinte, Wolfgar Ricaydo e seus homens deixaram o palácio às pressas antes do amanhecer. Com seu filho mais velho fora de cena, o conde parecia muito mais tranquilo. Logo no início da manhã, mandou chamar Ursuline.
“Wolfgar finalmente deve ter criado juízo. Ontem, ele pediu desculpas a Lorde Triton na frente dos nobres por ter se dirigido a ele de maneira tão desrespeitosa,” disse o Conde Ricaydo, sorrindo para o filho mais novo.
Ursuline encarou o rosto do pai. Normalmente, teria se sentido decepcionado ao ver aquele brilho de esperança tola em seus olhos, mas, naquele dia, não sentiu nada.
Lembrou-se do que Riftan Calypse havia dito na noite anterior: seu irmão cometera traição, e o rei Reuben possuía provas incriminadoras. Se quisesse, o rei tinha plenos direitos para mandar Wolfgar Ricaydo para a forca a qualquer momento. Talvez agora, convencer seu pai a destituir Wolfgar do posto de herdeiro, em nome da honra da família, não fosse tão difícil.
Mas… é isso mesmo que eu quero?
Confuso, Ursuline franziu a testa. Sempre quisera se ver livre da influência de Wolfgar, mas jamais havia almejado se tornar conde.
“De qualquer forma, é melhor começarmos a nos preparar para a cerimônia de nomeação. Quero que você fique ao meu lado hoje.”
A voz animada do pai o arrancou dos pensamentos. Assim que o conde estalou os dedos, os criados entraram trazendo caixas com roupas luxuosas e adornos. Em qualquer outra ocasião, Ursuline teria se mostrado relutante, mas, dessa vez, obedeceu sem questionar, vestindo-se conforme as ordens do pai. Sua mente ainda estava presa à revelação chocante da noite anterior, e ele mal tinha energia para se preocupar com outra coisa.
“Você está deslumbrante. Fui abençoado com um filho tão belo em minha velhice.”
O conde o contemplou com orgulho antes de pegar seu manto. Em seguida, deixou o quarto e partiu em direção à catedral, localizada na parte mais ao norte do palácio. Ursuline seguiu o pai através da longa galeria ladeada de pilares brancos e pelos extensos jardins.
Pouco depois, avistaram a imponente torre do sino e a entrada em arco. Ursuline avançou cauteloso. De cada lado do corredor que levava ao altar, havia fileiras de quase uma centena de testemunhas — nobres trajando seus melhores mantos, cavaleiros em posição de escolta e sacerdotes vestidos com túnicas brancas.
Parecia que os rumores sobre o carinho especial do rei por Riftan Calypse eram mesmo verdadeiros. Nem mesmo os filhos das famílias mais renomadas conseguiriam reunir uma audiência tão numerosa. Até o conde Ricaydo pareceu surpreso ao ver tantos convidados. Após hesitar brevemente, retomou a compostura e se acomodou na primeira fileira do banco reservado, ao lado do corredor. Ursuline sentou-se junto a ele, conseguindo assim uma visão melhor do rei Reuben III, posicionado do outro lado do altar.
O soberano de Wedon usava uma coroa de ouro cravejada de rubis e diamantes sobre seus cabelos dourados, e um manto de veludo vermelho pendia de seus ombros. Parecia mais jovem e imponente do que nunca.
Erguendo-se de seu assento, proclamou com voz firme:
“Com todas as partes interessadas reunidas, vamos dar início à cerimônia.”
Assim que o rei falou, os sacerdotes que aguardavam no transepto começaram a cantar um hino roemiano. A solenidade da música fez Ursuline estremecer. Ele sentiu a boca secar enquanto olhava para a entrada.
Logo, Riftan Calypse, vestido com uma armadura prateada, entrou na catedral. Ursuline prendeu a respiração involuntariamente. Quando o futuro cavaleiro cruzou o ponto onde a nave se encontra com o transepto, a luz do sol atravessou as vidraças coloridas e iluminou seu rosto. Naquele momento, ele parecia um ser de outro mundo.
“Avance e tome seu lugar diante do altar,” disse o rei Reuben.
Riftan Calypse caminhou lentamente até o altar e se ajoelhou. Ele demonstrava tanta reverência que era difícil imaginar que se tratava do mesmo homem que zombava do código de cavalaria.
Uma onda de confusão tomou Ursuline. Riftan Calypse não possuía nenhuma das qualidades de um cavaleiro de verdade. Era desrespeitoso, arrogante e não se importava com a honra. Além disso, não hesitava em explorar as fraquezas dos outros para intimidá-los, e também não tinha receio de usar táticas traiçoeiras, como atacar sob a capa da escuridão ou fazer ameaças cruéis para ganhar vantagem. Até aquele momento, toda a sua conduta estava longe do ideal de um cavaleiro.
No entanto, Ursuline não conseguia tirar os olhos do rosto de Riftan, banhado pela luz resplandecente. Talvez fosse porque ele sabia que tudo o que Riftan fizera era para proteger a honra de outra pessoa, e não a sua própria.
Lutar pela honra de alguém mais não seria a causa mais nobre da cavalaria? Enquanto refletia sobre isso, ouviu a profunda voz de Riftan recitar o juramento da cerimônia de sagração.
“Neste lugar, eu juro solenemente,
Diante dos meus inimigos, nunca cederei ou desanimarei,
Aos humildes, concederei a luz da misericórdia,
Mesmo contra a morte, segurarei a honra firmemente.
Aqueles que ousarem desafiar vossa sagrada ordem,
Serei a lâmina vingativa, seu juízo verão,
Pelos vossos súditos, um escudo firme serei…”
Riftan levantou a cabeça lentamente. Ursuline sentiu um arrepio percorrer sua espinha. Ele soubera, instintivamente, que estava sendo testemunha do renascimento daquele homem.
“Este juramento, gravado na alma, para todos declarar,
Eu, Riftan Calypse, inicio hoje tão ousado,
Como cavaleiro, meu caminho está selado, minha lealdade é imensurável.”
O rei Reuben III levantou sua espada e a colocou sobre o ombro do jovem, declarando:
“Todos os presentes são testemunhas de seu juramento solene, e assim, eu te dou o título de Riftan Calypse, cavaleiro do Reino de Wedon.”
Logo após o anúncio do rei, o coro começou a cantar em barítono, celebrando a cavalaria de Rosem Wigrew e dos doze cavaleiros. Riftan Calypse se levantou lentamente. Ele aceitou o cálice do sacerdote e bebeu o vinho vermelho.
Quando a cerimônia finalmente terminou, Evan Triton e os outros Dragões Brancos saíram da fileira para parabenizar seu companheiro.
Enquanto observava de longe, Ursuline percebeu o que realmente desejava. Nunca tivera o desejo de ser o Conde Ricaydo. O que sempre quisera era se tornar um cavaleiro. Desde o momento em que segurou pela primeira vez uma espada, almejava encontrar alguém a quem pudesse oferecer sua lealdade sem reservas.
Agora tudo parecia mais claro.
Ursuline se aproximou de seu pai, que conversava com outros nobres.
“Há algo que desejo dizer.”
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