Índice de Capítulo

    Seu ouvido ficou abafado, como se estivesse submerso na água. Empurrando Hebaron Nirtha para o lado, Riftan correu para dentro da tenda, de onde uma luz fraca escapava. Lá dentro, três ou quatro figuras estavam aglomeradas ao redor de uma cama. Ele prendeu a respiração ao se aproximar. O rosto no travesseiro, mal visível na penumbra, o deixou paralisado.

    O clérigo agachado se levantou assim que avistou Riftan. “Graças ao Senhor! O exército da coalizão voltou—”

    “Por que você não está cuidando dela?”

    O clérigo recuou diante da reprovação afiada. “N-Nós fizemos tudo o que podíamos,” ele balbuciou, defensivo. “Os ferimentos externos e ossos quebrados foram curados, mas… a falta de mana e o sangramento interno estão além das capacidades de cura da magia.”

    Riftan virou a cabeça para o clérigo. “Sangramento interno?”

    Gotas de suor se formaram no rosto enrugado do clérigo. “É com tristeza que informo… que Lady Calypse estava grávida.”

    Um zumbido encheu os ouvidos de Riftan. Sua visão começou a embaçar, mas ele se forçou a se manter focado.

    “Normalmente, o sangramento para depois que o feto é expulso,” continuou o clérigo mecanicamente, “mas… parece que há restos ainda dentro dela. Casos assim não são incomuns, mas não podem ser tratados com magia. Só podemos fortalecê-la com magia e esperar que o sangramento pare.”

    Depois de uma pausa, a voz do clérigo se tornou mais pesada. “Sugiro que se prepare para o pior. Se o sangramento não parar…”

    Riftan franziu o cenho. As palavras confusas do velho não faziam sentido. Uma espessa parede invisível parecia separá-lo do mundo. Os sons estavam abafados, como se estivesse submerso, e uma névoa enevoava tudo ao seu redor.

    Mesmo assim, os lábios enrugados do clérigo continuavam a se mover. Depois de encará-los em branco por um momento, Riftan baixou o olhar para a cama. A visão do rosto pálido dela o atingiu, e ele sentiu seu coração afundar. Um suor frio brotou em suas costas. Seus olhos deviam estar enganando ele; isso não podia ser real.

    Ele estendeu a mão para tocar o rosto sem cor dela, os dedos congelando com o frio da pele. Depois de sentir sua bochecha e pescoço, sua mão se moveu sob o cobertor. Sua saia molhada e fria grudava em seus dedos como algas marinhas. Foi então que a realização o atingiu.

    Ela estava sangrando.

    “Precisamos… precisamos parar o sangramento,” ele murmurou em pânico, os olhos se movendo de um lado para o outro.

    O sangramento precisava parar, mas como? O sangue morno continuava a encharcar sua saia. Parecia que todos os nervos de seu corpo estavam em chamas. Se não conseguissem pará-lo, ela ia morrer. Ele ia perdê-la.

    Tremendo, Riftan se levantou e arrancou um monte de linho do suporte como um louco. Ao começar a retirar o cobertor, hesitou, preocupado que ela pudesse estar com frio.

    Sua mente estava vazia. Ele a viu tremer, completamente sem saber o que fazer. Um momento depois, ele a cobriu apressadamente com o cobertor novamente e deslizou a mão por baixo dele para sentir sua perna fria e úmida. À medida que o lençol ficava mais molhado, um arrepio percorreu seu corpo como se ele fosse o único a perder sangue.

    Numa ação puramente instintiva, ele pressionou o linho entre suas pernas. Havia apenas um pensamento em sua cabeça: parar o sangramento.

    Foi então que alguém se aproximou por trás e colocou uma mão em seu braço. “Você precisa parar, Senhor Riftan. Isso não vai—”

    Naquele momento, a corda esticada que o mantinha quase se rompeu. Ele empurrou furiosamente a mão intrometida, fazendo o homem cair para trás. Algo se quebrou atrás dele. Ouvindo o barulho, vários cavaleiros irromperam na tenda.

    “Comandante! O que diabos está acontecendo—” ressoou uma voz rouca, seguida por uma mão forte agarrando o ombro de Riftan, puxando-o para trás.

    Riftan lutou ferozmente, lutando contra aqueles que tentavam separá-lo dela. Os gritos de uma besta ecoavam ao longe.

    Levou um momento para ele perceber que os sons angustiantes eram seus próprios. Mais pessoas correram, tentando prendê-lo. Riftan se debatia sem saber por que estava lutando. Quatro pares de mãos, talvez mais, o seguravam como correntes.

    Os esforços de Riftan se tornaram mais frenéticos, como um animal preso numa armadilha. O som de objetos quebrando e gritos alarmados enchia seus ouvidos abafados enquanto braços fortes o pressionavam contra o chão.

    Logo, ele se viu deitado de bruços no chão, ofegante como uma fera amarrada. O homem que o segurava rugiu em seu ouvido: “Controle-se, droga! Sua senhoria vai ficar bem. Absolutamente bem!”

    A tenda estava em ruínas naquele momento. Os olhos brilhantes de Riftan absorveram o caos antes de ele se levantar. Para seu horror, percebeu que suas mãos estavam cobertas de sangue.

    Inicialmente, temeu que fosse o dela. Isso foi antes de ver a mancha se espalhando na tapeçaria e perceber que era seu próprio sangue.

    Ele tentou focar sua visão. Apesar do sangue escorrendo e dos ossos expostos de seus nós dos dedos, não sentia dor alguma. Sua espinha poderia muito bem ter sido arrancada do corpo. Sentia-se entorpecido, sua mente em branco. Até mesmo o ato de se firmar parecia uma tarefa impossível. Ele soltou um suspiro entrecortado.

    Então, uma voz delicada cortou seus pensamentos paralisados. “R-Riftan.”

    Ele ergueu a cabeça, encontrando um par de olhos cinzentos desfocados. Sacudindo furiosamente as mãos que o prendiam, ele cambaleou até o lado dela.

    “Onde… está…” ela murmurou, sua voz mal audível, “Rif… tan?”

    “Estou aqui,” ele disse sem fôlego. Ele segurou sua mão, trêmula e fria como um pássaro moribundo, dentro de sua própria mão trêmula. Sua testa se franzia; ela não podia vê-lo?

    Ele se inclinou e as palavras se derramaram num jorro.

    “Estou aqui, Maxi. Estou bem aqui.”

    Suas pestanas tremularam, e ela murmurou como uma criança sonolenta, “Eu… estou… com frio.”

    Uma dor lancinante queimou sua garganta como se tivesse engolido um carvão quente. Engasgando com um soluço, ele pegou qualquer pedaço de tecido ao alcance e começou a cobri-la.

    “Me desculpe. Me desculpe. Vamos te aquecer. Eu vou—”

    À medida que seus olhos se fechavam novamente, Riftan segurou sua mão em pânico. Abriu a boca para implorar que ela olhasse para ele, mas tudo o que saiu foi um gemido sufocado. Ele não conseguia compreender por que isso estava acontecendo.

    Apenas alguns meses atrás, ela dançava num campo, uma coroa de flores na cabeça. Agora, ela jazia numa cama coberta de sangue. Como isso tinha acontecido? E por quê?

    O que deu errado? Quando tudo desandou?

    Quando ele a arrastou para sua vida amaldiçoada. No momento em que segurou sua mão.

    Apertando os dedos nos seus, ele enterrou o rosto no lençol.


    Ao entardecer, um leve tom de cor voltara ao seu rosto. Encostado numa das vigas da tenda, Riftan mantinha os olhos fixos nela. Sua vigilância intensa parecia perturbar as clérigas, que executavam suas tarefas em silêncio, com expressões temerosas.

    O tempo passava agonizantemente devagar. O amanhecer rompeu enquanto ele continuava a fitar seus olhos fechados.

    Finalmente, Riftan olhou para a entrada da tenda, de onde a luz azulada do amanhecer se infiltrava. Hebaron levantara a aba da tenda para espiar dentro. O cavaleiro robusto estava totalmente armado, o rosto sombrio.

    “Localizamos os monstros. Precisamos da sua ordem para persegui-los.”

    Riftan piscou lentamente, então se ergueu com esforço. “Preparem Talon.”

    “Eu posso liderar os homens.”

    “Faça como eu digo.”

    Hebaron abriu a boca como se fosse argumentar, mas logo assentiu. Riftan pegou o cinto de espada que havia descartado antes e lançou um olhar cansado para trás, para sua esposa. Embora suas pernas protestassem, ele sabia que seria melhor para ela se ele não estivesse lá.

    Ele saiu da tenda, dominado pela crença supersticiosa de que precisava ficar o mais longe possível dela. Seu coração se sentia vazio, como se estivesse deixando metade de si para trás. Mesmo assim, ele tinha que lutar. Era tudo o que sabia fazer.

    No momento em que o pensamento cruzou sua mente, tudo se tornou claro. Ele tinha que mantê-la o mais longe possível de sua vida atribulada.

    Mas isso era possível?

    O céu clareava a cada minuto. Riftan olhou para cima por um tempo antes de se virar para o portão da cidade, onde os cavaleiros o esperavam. Ele lançou um último olhar para a tenda, o rosto endurecido, e partiu para a batalha.

    Pesadelo em Eth Lene – Fim

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