Pov do Riftan - Capítulo 36
Triden o olhou com desagrado enquanto Riftan se apressava para colocar sua espada no chão e olhava preocupado para o seu antebraço.
“Quem disse que acabou? Ainda posso continuar com o duelo.”
“Você vai deixar esse estúpido duelo prejudicar a recuperação do seu braço?”
Riftan retaliou com raiva, irritado consigo mesmo. Ele não seria capaz de se perdoar se o comandante acabasse se machucando porque ele estava tentando mostrar sua força e habilidades na frente de uma mulher. O braço do comandante ficou mais fraco do que antes devido às expedições de vários meses. Riftan olhou seriamente para o pulso do comandante e abaixou sua postura.
“Seria melhor se você fosse ao mago e tivesse um feitiço de recuperação lançado.”
“Ei, você está ficando cada vez mais tedioso a cada dia.” Triden resmungou e enfiou sua espada de volta na bainha presa à sua cintura. “Eu sou um cavaleiro, então pare de me tratar como um velho fraco.”
“É meu dever como vice-comandante cuidar do meu superior. Se você não está satisfeito com minha posição, então você deveria se recuperar o mais rápido possível de sua lesão.”
Riftan arrastou seu teimoso comandante para visitar um mago e receber magia de cura. No entanto, apesar de ver o pulso inchado de Triden voltar ao seu estado normal, isso ainda não o fez se sentir melhor. Ele estava cansado de si mesmo por cometer erros sempre que perdia o controle.
“Pare de franzir a testa assim.” Triden o cutucou no ombro e suspirou. “Eu fui quem pediu para você duelar, certo? Eu ficaria ofendido se você tivesse facilitado para mim.”
“… duelos deveriam ser leves e descontraídos.” Riftan retrucou e varreu a mão do ombro. Triden deu de ombros e pegou sua capa.
“Você sempre esteve no campo de batalha desde que se tornou um cavaleiro e nunca teve um descanso tão longo. Não é de se admirar que você esteja tenso.”
Riftan sentiu suas bochechas esquentarem. O líder parecia ter notado como ele estava agitado naqueles dias. Triden o encarou com olhos perspicazes e falou.
“Mas pelo menos apareça no banquete esta noite. Esta noite é o último banquete. Até agora, fomos concedidos hospitalidade; seria apenas correto expressar nossa gratidão.”
“… as negociações para a compensação dos danos da guerra acabaram?”
Triden assentiu. “Agora é hora de seguir para o palácio real e apresentar um relatório. Você estará livre por enquanto.”
Era apenas certo sentir alívio após ouvir essas palavras, mas Riftan, em vez disso, só sentia solidão e vazio inundarem dentro dele. Ele proferiu suas palavras indiferentemente, tentando afastar seus sentimentos.
“É bom ouvir isso.”
O comandante o instruiu a comparecer ao banquete repetidamente e então saiu da enfermaria. Naquela noite, Riftan adentrou a sala do banquete, usando uma expressão estoica. Mesmo que o comandante não o instasse a comparecer, teria sido difícil para ele resistir à tentação de pelo menos dar uma olhada na garota naquele dia. Aquela seria a última, última noite em que ele poderia colocar um fim a essa confusão.
Seus olhos passeavam pelo magnífico salão, com determinação queimando em seu coração. Como aquela noite era o último dia do banquete, o salão estava decorado mais ricamente do que nunca. Uma melodia de alaúde ecoava no vasto salão dourado, ao lado havia longas mesas alinhadas com vinhos fragrantes e fartos, comida gordurosa e frutas frescas.
Os nobres sentados estavam todos vestidos com roupas luxuosas feitas de tecidos caros. Na cabeceira das mesas longas estava o Duque Croyso, que vestia uma roupa de seda e pele. Sentada ao lado dele, estava Maximillian Croyso, vestida com um elegante vestido de veludo. Riftan lutava desesperadamente para evitar encará-la por muito tempo, pedindo a um dos servos por uma bebida. O comandante, que estava sentado em frente a ele, lhe deu um sorriso.
“Você é obediente apesar de suas reclamações.”
“Não se acostume. Não envergonhei o comandante mais cedo hoje? Só vim por enquanto para reconstruir meu prestígio.”
“… tenho que fazer algo sobre este braço inútil em breve.”
Triden disse com um resmungo e franzindo a testa. “Aguente só um pouco, vou polir suas maneiras rudes em breve.”
Riftan escondeu seu sorriso contra o copo de vinho. A atitude descontraída de Triden parecia fazê-lo se sentir um pouco melhor. Ele relaxou, comeu e bebeu. Até mesmo conversou com seus colegas cavaleiros de vez em quando. Mas não demorou nem meia hora para sua atenção voltar para a garota sentada ao lado do duque.
Era a primeira vez que ela ficava tanto tempo no banquete, mas ela não conversou com ninguém. Ela sentou calmamente com uma expressão indiferente que parecia tão fria que ele não tinha certeza se ela era a mesma garota gentil que brincava carinhosamente com o gato.
Riftan deu um gole no seu copo de vinho e a observou cuidadosamente. Onde você está machucada? Ele se perguntou enquanto olhava para o rosto dela, que estava branco como um pergaminho, e seus olhos que afundaram escuros como se fossem forçados a esconder todas as emoções.
Aquela poderia ser a última vez que ele poderia vê-la, ele ansiava para vê-la sorrir pelo menos uma vez para durar a vida toda, mas ele estava tão decepcionado e preocupado que não conseguia evitar se mexer inquieto em sua cadeira, hesitando se deveria se aproximar dela ou não.
“Você deve estar entediado com o banquete, Sir Calypse.”
A cabeça de Riftan virou para a voz inesperada. Uma mulher bonita e atraente em um vestido rosado estava sorrindo para ele. Riftan apenas arqueou uma sobrancelha, mas a mulher corajosamente lhe lançou um sorriso e estendeu audaciosamente uma mão para ele.
“Também estou ficando entediada com toda essa conversa. Quero animar meu humor, mas não tenho o parceiro certo. Você se importaria de ser meu parceiro de dança?”
Era costumeiramente incomum uma mulher pedir a um homem para dançar primeiro. Riftan ficou surpreso com a ousadia da mulher, mas o comandante chutou sua canela sob a mesa. Ele se levantou relutantemente, enquanto o comandante o advertia com os olhos que humilharia a dama se ele não aceitasse a oferta. Um sorriso satisfeito surgiu nos lábios da mulher.
“Ouvi dizer que você participou ativamente do conflito e desempenhou um papel enorme. Sua majestade deve estar muito orgulhosa de você.”
Enquanto caminhavam desajeitadamente para o meio do salão, a mulher sussurrou suavemente para ele. Riftan franzia a testa enquanto tentava lembrar seu nome. Apesar de ter sido apresentado a ele outro dia, ele não conseguia lembrar de mais nada sobre ela, além de que ela era a irmã mais nova de um cavaleiro. Riftan acenou brevemente como resposta.
“É um alívio que tenha acabado, mas é uma pena que tenha durado mais do que o esperado.”
“O Rei é um homem rigoroso?”
“Ele espera muito de seus súditos.”
“Ouvi rumores de que o Rei tem um carinho especial por você.”
Riftan deu um sorriso cínico, o rei só estava interessado em suas habilidades. No entanto, como não encontrou motivo para divulgar essa informação, permaneceu em silêncio. Apesar de seus modos rudes, a mulher continuava a tagarelar e se envolver durante a dança. Riftan olhou de relance para Maximilian Croyso enquanto girava a mulher.
Inesperadamente, encontrou seus olhos ao virar a cabeça. Será que ela estava olhando para mim? Riftan estava farto de si mesmo por ter pensamentos tão expectantes.
Assim que a música mudou, ele se afastou da mulher como um animal escapando de uma armadilha, mas a mulher foi mais rápida. A nobre mulher, cujo nome ele não se lembrava, de repente tropeçou em seus braços e se apoiou nele.
“Estou me sentindo um pouco tonta. Devo ter bebido demais. Gostaria de voltar para meu quarto e descansar… você poderia me ajudar?”
Ele soltou um suspiro diante do convite descarado dela. As mulheres nobres o tratavam exatamente de duas maneiras diferentes. Primeiro, evitando-o como se estivesse carregando uma praga, e segundo, tratando-o como um cachorro de estimação para brincar na cama. A mulher agora parecia ser do segundo tipo.
“Hoje é a última noite do banquete. Eu quero ter um momento especial.”
Ela lhe lançou um olhar sedutor, pressionando seu corpo macio contra ele. Riftan tentou afastá-la friamente, mas não queria causar um escândalo, então a acompanhou para fora do salão do banquete.
Assim que entraram em um corredor escuro e deserto, a mulher investiu contra ele. Riftan se sentiu como um cadáver sendo presa por uma harpia. A mulher envolveu seus braços esguios em torno de seu pescoço como cipós e lambeu os lábios vorazmente. Riftan a afastou com uma carranca.
“Parece que você está completamente em seus sentidos. Você pode voltar para seu quarto sozinha.”
“Por que está sendo tão chato?” Ela fez um bico e olhou provocativamente para ele. Ele a encarou ferozmente, como se questionasse sua audácia em tocar naquele assunto. A mulher continuou a falar como se o repreendesse. “Não seja tão difícil e rígido. O que estou dizendo é vamos brincar um pouco.”
“Peço desculpas, mas não estou interessado nesse tipo de brincadeira. Encontre outra pessoa.”
“Não estou interessada em outras pessoas.” A mulher sorriu languidamente, pressionando-se contra ele provocativamente e segurou sua bochecha. “É a primeira vez que vejo alguém tão bonito quanto você. Você é exatamente como aqueles deuses adorados pelos pagãos malvados. É verdade que sua espécie conhece 180 maneiras de prazer?”
Riftan sentiu arrepios pelo corpo inteiro com os olhares que ela lhe lançava. Ele se estremeceu com o pensamento ridículo da mulher e rudemente tirou as mãos dela de cima dele.
“Minha espécie? Você está me acusando de apostasia1?”
“Eu só estava…”
“Me tornei um cavaleiro diante da igreja sagrada. Sabia que posso exigir punição por essas palavras insultuosas suas?”
A retaliação fria de Riftan distorceu o rosto da mulher.
“Você fala demais e o que está dizendo não faz sentido.” Ela o encarou arrogantemente e virou-se.
“Ótimo. Vá procurar outra pessoa.”
A mulher se afastou cheia de si. Riftan limpou os lábios úmidos e alisou sua roupa que estava desarrumada quando a mulher o puxou com os braços. Ele estava de péssimo humor.
Ele não estava com vontade de voltar para o salão do banquete, mas estava receoso que as pessoas que o vissem sair pensassem que ele estava se divertindo secretamente com a mulher se não voltasse. Além disso, Maximillian provavelmente pensaria da mesma forma se ele não retornasse.
O que importa? Ela não se importa de qualquer maneira se eu desaparecer e me afogar ou não com outra mulher. Estou só pensando demais.
Apesar de dizer essas palavras para si mesmo, ele estava se dirigindo rapidamente para o salão do banquete. Riftan alisou o cabelo nervosamente. Ele não gostava de como se sentia inquieto, como se tivesse sido pego fazendo algo errado no corredor escuro.
“Você acha que é verdade que a filha do Duque está procurando candidatos entre os cavaleiros para ser seu marido?”
Assim que estava prestes a sair do corredor escuro e entrar no salão do banquete, ele ouviu homens cochichando entre si. Riftan lançou um olhar afiado para os nobres tagarelas.
Dentro do salão do banquete, as pessoas dançavam sob as cintilantes velas ao som de um bardo cantando uma epopeia heroica ao som de um alaúde. Os homens cochichando pareciam aproveitar a agitação atual e desfrutavam de uma conversa secreta. Riftan continuou a ouvir. Uma voz lenta e embriagada falou.
“Ela ainda não é muito jovem?”
“Ela tem dezesseis anos e fará dezessete em alguns meses. Essa é a idade perfeita para se casar.”
Um homem elegantemente vestido respondeu enquanto sorria e encostava os lábios na taça de vinho. “Ela é velha o suficiente, há rumores de que ela está mostrando o rosto com mais frequência para encontrar um pretendente.”
“Mostrando o rosto com frequência?! Ela ficou um pouco mais tempo do que o normal no banquete hoje, mas sempre aparece literalmente e desaparece em um piscar de olhos, não é?”
“Isso prova muito então. Você sabe o quanto o Duque de Croyso mima sua filha mais velha? Entre os cavaleiros vassalos, apenas alguns deles já viram o rosto dela antes. Nem mesmo seus servos falam sobre ela. Tudo sobre essa senhora é velado.”
Outro homem entrou na conversa. “Ouvi rumores de que sua saúde não é muito boa. O Duque de Croyso preza tanto por sua filha que construiu uma enorme capela dentro do castelo e destacou quatro padres de alta patente para ficarem lá.”
“Parece que ela tem sido doente desde criança, então está sendo superprotegida assim.”
Um homem de aparência relativamente mais velha disse como se tivesse pena dela. Riftan se enrijeceu enquanto observava Maximillian Croyso mais de perto. Ela estava sentada ao lado de seu pai, seus olhos observando o baile com uma expressão cansada e ansiosa.
Será que é por isso que ela está tão sombria, é porque está doente?
A simples ideia de ela estar seriamente doente perfurou seu coração. As vozes discretas dos homens continuaram, Riftan ouvindo-as através de seus ouvidos atordoados.
- tem o sentido de um afastamento definitivo e deliberado de alguma coisa, uma renúncia de sua anterior fé ou doutrinação.[↩]
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