Capítulo 4 - Nithrya de Solvéria (Parte 1)
Ástrea não foi feita para homens.
Foi feita para predadores.
O Arquiteto da Caça acreditava em uma verdade simples:
Toda criatura, cedo ou tarde, precisa matar.
As que não conseguem… morrem.
Então por natureza, só existem dois tipos de seres.
Os que são capazes de matar.
E os que são incapazes de matar.
Mesmo um soldado que passou pelos treinamentos mais brutais e degradantes da história humana; que foi moldado para ser uma máquina de matar, no final, no momento de empunhar a espada, ele seria incapaz de matar alguém a sangue frio — se ele estivesse na segunda categoria.
Estes homens, acabavam morrendo em combates que eles já haviam ganhado.
É estimado que esse lado B da humanidade, não duraria mais que três dias dentre esta floresta de carne e sangue de Ástrea.
Já o Segundo grupo…
Com a capacidade de se adaptar a todo e qualquer ambiente hostil, a falta de misericórdia, e a imprevisibilidade de seus atos grotescos e sanguinários, revelavam serem grandiosos… Predadores.
Prontos para matar.
E, se preciso, devorar.
E quanto à taxa de sobrevivência, seria indeterminado dizer. Especulada a morte por doenças venéreas, ou, por combates inconvenientes.
E você pode estar se perguntando, a qual grupo eu pertenço, correto?
Hu, hu, ha, há.
Por muito tempo achei que pertencia ao segundo grupo.
Até entender que meu problema nunca foi matar.
Foi aprender a parar de comer.
Cure o Fio!
28 de dezembro, 675 a.R
Jardins Mortuários de Solvéria, Ástrea.
Nunca conheci meus pais biológicos. Tudo o que me lembro… era acordar em um grande bosque, iluminado por vagalumes que dormiam nos salgueiros, a margem de riachos translúcidos.
Era tanta cor, tanta vida, tanta pureza… que me dava nojo.
E não me restou outra solução, se não vomitar.
Claro que meu pequeno espetáculo iria atrair a atenção dos moradores daquele maldito lugar.
Eu fui acolhida por um casal que sempre sonhou em ser pais — bem conveniente.
Eles me chamaram de Nithrya, a cria desgarrada de Solvéria.
Desde então, tive a melhor criação possível, vesti as melhores roupas tecidas e me serviram a mais gostosa comida disponível.
E mesmo assim, nada me satisfazia.
A melhor pior parte sempre foram os aniversários.
A prana era tão concentrada que alguns não sobreviviam a troca de poros. Uma causa bem boba pra morrer. Afinal, era como a troca de pele de uma serpente.
Mas havia um motivo, uma maldição.
O povo de Solvéria foi banido do caminho da cura há séculos atrás, após o ato de consumação de um Arquiteto com uma Perecível qualquer. Esse ser “divino” traiu a Mãe de toda a vida, a Arquiteta da Opulência.
Agora, mesmo que recebam algum tipo de tratamento, ou cura. Não traria efeito.
Então morrer pela troca anual de poros, ou até mesmo de resfriado, pode se dizer algo normal.
Ainda assim, Solvéria continuava ridiculamente viva.
Os Salgueiros Luminescentes derramavam seus galhos sobre os riachos cristalinos, iluminando as margens durante a noite como se a própria Opulência observasse aquele lugar maldito.
Nos pastos cresciam os Sinos de Gergelim, campos inteiros de flores pendentes que tilintavam ao vento e alimentavam boa parte da vila. Diziam que o som trazia paz aos Perecíveis.
Eu odiava aquele som.
Os Vaculiz também não ajudavam. Vacas azuis de dois rabos e chifres enrolados que botavam ovos sempre que estavam felizes. Os moradores as tratavam como tesouros vivos.
Eu também odiava elas.
Havia ainda os Shaluris, peixes albinos grandes o bastante para arrastar uma criança pela correnteza. Todos os anos eles subiam os riachos em direção às nascentes para desovar. Seus filhotes eclodiam durante a jornada e continuavam a subida como se já soubessem o caminho.
Todo aquele lugar respirava vida.
Vida demais.
Cor demais.
Felicidade demais.
Talvez fosse por isso que eu nunca consegui me sentir parte dele.
Porém foi numa manhã estranhamente silenciosa que ele chegou.
Eu percebi primeiro.
Não porque fosse inteligente.
Nem porque tivesse algum dom especial.
Mas porque Solvéria nunca era silenciosa.
Os Sinos de Gergelim cantavam com o vento.
Os Shaluris agitavam a superfície dos riachos.
Os Vaculiz mugiam nos pastos enquanto perseguiam uns aos outros com seus dois rabos.
Naquele dia…
Nada.
Absolutamente nada.
Até os vagalumes pareciam ter abandonado os Salgueiros Luminescentes.
Então eu ouvi alguém dizer:
— Ele está aqui.
Nenhum nome foi pronunciado.
Não era necessário.
O medo que percorreu a vila respondeu por todos.
Portas foram fechadas.
Janelas trancadas.
As crianças recolhidas para dentro das casas.
Como se aquilo pudesse protegê-las.
Eu, por outro lado, fui procurar.
Encontrei-o perto de uma das nascentes.
Sentado sobre uma pedra.Sozinho.
Um Vaculiz morto repousava ao seu lado. As escamas prateadas de um Shaluri estavam espalhadas pela margem, e vários Sinos de Gergelim haviam sido arrancados do solo e largados ao acaso.
Aquilo deveria ter me indignado.
Mas não me indignou.
Eu apenas observei.
O homem era enorme.Seus braços pareciam troncos secos de árvores. Cicatrizes cobriam sua pele como raízes secas.
E seus olhos…
Pareciam os olhos de um animal faminto que havia vivido tempo demais.
Ele mastigava lentamente um pedaço de carne.
Como se estivesse completamente sozinho no mundo.
Sem levantar a cabeça, perguntou:
— Não vai fugir?
— De quem?
Um sorriso torto surgiu em seu rosto.
— De mim.
Olhei ao redor.
Para o Vaculiz aberto.
Para os peixes espalhados.
Para os campos destruídos.
Depois voltei a encará-lo.
— Não vejo motivo.
Finalmente seus olhos encontraram os meus.
Pela primeira vez desde que cheguei, tive a sensação de que alguém estava realmente me observando.
Não minhas roupas.
Não meu rosto.
Não o que eu dizia.
A mim.
O sorriso desapareceu.
E algo diferente surgiu em seu lugar.
Curiosidade.
— Você é estranha.
— O quê?
Bufei.
Aquilo eu já tinha ouvido antes.
Dos moradores.
Dos anciões.
Dos meus pais.
De praticamente todo mundo.
— Não sou tão estranha assim.
Ele soltou uma gargalhada.
Uma gargalhada verdadeira.
Daquelas que fazem os ombros tremerem.
— Não.
Pela primeira vez, ele se levantou.
Era ainda maior do que eu imaginava.
— Você é muito pior.
Por algum motivo…
Aquelas palavras me agradaram.
Mais do que deveriam.
Seus olhos desceram para o cadáver do Vaculiz.
Depois voltaram para mim.
— Me diga, cria de Solvéria.
Aquele sorriso retornou, intrometido, predatório.
— Quando foi a primeira vez que você sentiu fome?
A pergunta me pegou desprevenida.
Fome?
Pisquei algumas vezes.
— Não sei.
— Mentira.
— Estou falando sério.
Ele me encarou por alguns segundos.
Depois apontou para os campos ao redor.
— Você nasceu aqui?
— Não.
— Cresceu aqui.
— Sim.
— Então nunca passou fome.
Revirei os olhos.
— Claro que passei.
— Não.
A resposta veio seca.
— Você comeu menos do que queria. Isso não é fome.
Aquilo me irritou.
— E qual seria a diferença?
Ele arrancou um dos Sinos de Gergelim do chão e o girou entre os dedos.
— Quando um Vaculiz nasce, a primeira coisa que encontra é alimento.
Apontou para os riachos.
— Os Shaluris nascem cercados de água.
Apontou para a vila.
— E você nasceu cercada por abundância.
Observei os campos dourados.
Os salgueiros.
As casas.
Os riachos.
Nunca havia faltado nada.
Nem comida.
Nem abrigo.
Nem proteção.
Nem carinho.
Nada.
— Então?
— Então você não sabe o que é fome.
Sua voz parecia quase decepcionada.
— Você sabe o que é desejar alguma coisa. Sabe o que é querer mais. Sabe o que é curiosidade.
Ele balançou a cabeça.
— Mas fome? Não. Fome é quando seu corpo decide por você.
Senti um arrepio percorrer minha espinha.
Pela primeira vez desde que o encontrei, seus olhos pareciam mais perigosos do que suas cicatrizes.
— Fome é quando a escolha desaparece. Quando cada pensamento leva ao mesmo lugar. Quando tudo que existe à sua frente se transforma em alimento.
Olhei para o Vaculiz morto ao seu lado.
Então para os Shaluris espalhados pela margem.
Depois para ele.
— E você sabe o que é isso?
A gargalhada dele foi baixa.
Sem humor.
— Eu vivi tempo suficiente para esquecer tudo, menos isso.
O vento atravessou os campos.
Os sinos tilintavam ao longe.
Pela primeira vez, senti que havia algo triste naquele homem.
Não, como se ele estivesse tão desgastado quanto seu corpo.
Consumido.
Como uma lâmina que se desgastou até restar apenas o cabo.
— Quem é você?
Ele observou os riachos.
Os salgueiros.
A vila.
Como se estivesse vendo algo muito distante.
— Os habitantes de Ástrea me deram muitos nomes.
Meu corpo se inclinou para frente sem que eu percebesse.
— Que nomes?
Um sorriso torto surgiu em seu rosto. Daqueles que não alcançam os olhos.
— Predador da Floresta de Carne e Sangue. O Açougueiro dos Campos Rubros. A Fera de Ástrea.
Cada nome parecia mais absurdo que o anterior.
Mais impossível.
Mais mentiroso.
Mas, por algum motivo, nenhum deles soava errado.
— E seu nome de verdade?
Apenas uma risada curta, cansada, saiu de seus lábios rachados.
— Nome?
Seus olhos voltaram para mim.
— Faz tanto tempo que—
— NITHRYA!
A voz atravessou os campos como um trovão.
Eu me virei imediatamente.
Meus pais.
Correndo.
Desesperados.
Minha mãe quase tropeçou em uma cerca enquanto vinha em minha direção.
Meu pai parecia prestes a arrancar os próprios cabelos.
— Nithrya!
— Pelos Arquitetos, o que você está fazendo?!
Quando voltei olhar para a margem do riacho…
O homem já estava de pé.
— Espere!
Ele ignorou.
— Ei!
Nenhuma resposta.
— Seu nome!
O gigante caminhou em direção aos pinheiros da fronteira norte.
Sem olhar para trás.
Sem parar.
Como se já tivesse esquecido que eu existia.
Minha mãe me abraçou com tanta força que mal consegui respirar.
— Você perdeu a cabeça?!
Meu pai olhava nervosamente para a floresta.
Para o lugar onde o estranho desapareceu.
— Não se aproxime dele novamente.
— Vocês conhecem ele?
Nenhum dos dois respondeu imediatamente.
Os olhares que trocaram foram resposta suficiente.
Medo.
Medo verdadeiro.
Daqueles que fazem adultos parecerem crianças.
— Quem era ele?
Meu pai engoliu em seco.
— Alguém que não deveria estar em Solvéria.
Mas eu quase não o ouvi.
Porque minha atenção continuava presa na floresta.
Na direção em que o gigante havia desaparecido.
E na pergunta que ele deixou para trás.
“Quando foi a primeira vez que você sentiu fome?”

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