Capítulo 140: Uma luz de esperança
Muitos podiam considerar aquele poder como algo positivo, mas para ela não. Não havia alegria naquilo. Íris queria ser amada de verdade. Nunca havia sentido o que era ser amada de verdade, desde sempre as pessoas ficavam sobre os seus encantos. Faziam tudo o que ela queria e a cobriam de elogio.
Era enjoativo. Ela queria ser normal como outras pessoas, ser criticada e ser zangada; ser normal. Mas seu rosto belo de morrer não ajudava. Para piorar, quando as pessoas se apercebiam de que estavam sobre seus encantos quando o efeito passava, procuravam se distanciar. Fugir dela. Essa habilidade extra que ela nunca conseguiu controlar se tornou uma maldição.
Tentou usar qualquer máscara, mas seus olhos cor de rosas eram suficientes para ativar o encanto. A única maneira era nunca mais abrir os olhos, nunca mais mostrar o rosto. Passou a vida a fugir de um lugar para outro, se escondendo em bosques e cavernas abandonadas, mas no final foi encontrada de noite enquanto dormia num rochedo na caverna e fora presa. Sua habilidade havia sido classificada como uma habilidade proibida.
Até o dia em que Calcária lhe salvou. Essa aventureira rank S, que passeava pelo bosque, a encontrou sendo levada e pediu a custódia dela aos soldados. O governador Fortunato ll de Nova Sola acabou entregando-a nas mãos da aventureira rank S, atribuindo-lhe todas as responsabilidades sobre ela.
Calcária tirou a venda dos seus olhos e lhe ofereceu uma máscara especial, que cobria seu rosto, mas permitia que conseguisse ao menos mostrar os seus olhos falsos, pois os verdadeiros eram fulminantes. Para que não fosse mais perseguida e presa, Calcária disse que ela tinha de virar uma aventureira rank S. Assim quem sabe conseguisse quebrar essa maldição ou dominasse ela.
— Eu te amo, Íris!!! — disse Zestas, agitando a garrafa. — Eu faço tudo por você!
— É, eu sei!
Ela deu um sorriso malicioso.
— Não, eu amo mais — disse o Eskilo, subindo na mesa em posição de quatro. Agarrou o seu peito. — Meu coração é todo seu!
— Por favor, Íris, me dê um beijo!!!
Essas palavras jamais sairiam de Luvru em situações normais. Ele fez beicinho.
— Que fofo, mas não. — Colocou sua mão em frente ao rosto como um limitador.
As moças da guilda, os aventureiros e os seus guardas formaram um círculo ao seu redor, ansiando por atenção, por suas ordens. Eles queriam satisfazer seus desejos.
— Por favor, nós vamos fazer tudo o que você pedir! Por favor, nos dê suas ordens!
Ela simplesmente deu um sorriso para aquele falso amor. Não adiantava azedar a cara ou zombar deles, eles não se mostravam indignados, pelo contrário, a amavam ainda mais.
— E agora, qual é a punição que eu dou para vocês dois? — Olhou para aqueles dois zombeteiros com um sorriso de malícia, mas logo desfez esse sorriso. — Ah, mas é melhor não dessa vez… Estamos em uma reunião importante. Senhor Luvru disse que eu não deveria usar isso, pelo menos quando ele estivesse presente… Ah, certo! — Ela colocou de volta a máscara. O efeito só se quebrava quando ela colocava de volta a máscara ou ficava inconsciente.
Todos voltaram ao normal. Seus olhos voltaram ao normal. E agora estavam confusos olhando um para os outros, mas depois de alguns minutos eles se lembrariam do que aconteceu. Mas os que estavam acostumados a isso, simplesmente olharam para a Íris com uma expressão irritada.
— Eu avisei…
— Calma, eu não fiz nada demais, Luvru. Quando a memória aparecer, você vai saber.
— Mas você joga sujo mesmo… — disse Zestas. Nesta altura os demais voltavam para suas posições iniciais. Os guardas para o trono, as meninas para a recepção e os aventureiros novatos para o quadro das missões. —Só espero que eu não tenha corrido nu por aí…
— Eu também. Dá última vez foi muito vergonhoso. Alguns aventureiros não me respeitam por isso.
Não respeitavam antes. Íris apenas havia atiçado isso.
— Huphm! É só não me provocarem! — Cruzou os braços.
— Tudo bem, tudo bem, eu paro.
— Eu também, desculpa, Írizinha…
— Não precisam exagerar — disse ela, cruzando as pernas. — Agora vamos à reunião!
— Hein? Eu tô ouvindo isso de você?
— Você nunca diz isso — Eskilo concordou com o Zestas.
Fémur, como sempre, tremeu e soltou um gemido.
— Eu disse, não disse? Estou feliz! — Ela deu um grande sorriso. — Muitas das nossas reuniões são chatas, mas essa em questão é do meu especial interesse. Porque vamos falar do manipulador charlatão, a minha esperança!
— Como assim sua esperança? — questionou Zestas, pousando a garrafa. — Você por acaso tá sabendo de algo que eu não estou sabendo?!
— Não, Zestas, hahahahaha! Acho que é porque ambos têm os mesmos talentos. Manipulação… Entendeu?
— Ah, sim! É mesmo!
Ele bebericou novamente. Fémur tremeu.
— Não é isso! É que ele tem o poder de ver o futuro, não é? Então eu quero conhecê-lo para que veja o meu futuro!
— É… Faz sentido. Por que será que eu não perguntei a ele? Acho que vou perguntar para ele da próxima vez!
Luvru olhou para seu companheiro de boca grande severamente.
— Se encontrou com ele? É amigo dele? Como ele é pessoalmente? — Íris bateu a mesa e aproximou seu rosto, olhando o Zestas profundamente, com olhos de quem vê a alma.
— Não, íris. — Luvru atraiu seus olhos e dos demais curiosos. — Não é o que você pensa. Só fizemos contato com ele quando estávamos caçando o rei dos bandidos.
— Rei dos bandidos… É, eu ouvi que teve um confronto em Ahrmanica. Você se feriu, por acaso?!
— Não acha que é tarde demais para perguntar?
— Desculpinha!
— Como sempre, vocês ficam com o prato principal. E então, quero ouvir mais detalhes sobre toda essa história — disse Eskilo. Fémur concordou, balançando a cabeça positivamente: — Eu também.
Íris se sentou.
— As motivações do rei dos bandidos não são claras, mas ele parece saber muito mais do que imaginamos. — Luvru se lembrou de quando ele mencionou sobre Pousos, uma pessoa muito especial para ele. — Ao que parece, ele possui magia de cópia… Foi capaz de criar dimensões totalmente diferentes e trazer criaturas falantes…
— Criaturas falantes? Como elas são?! — questionou Eskilo com as bochechas rubras. Novas criaturas significavam novas comidas. Havia se tornado aventureiro porque queria comer novas espécies de monstros. Muita da carne em si era imprópria para o consumo, mas ele sabia temperar, era um mestre na cozinha. — Nhamo! — Lambeu os lábios oleosos.
— Não sei ao certo… Não as vi. Sond não soube me detalhar com exatidão. Quando o resto dos caçadores da lua estiverem reunidos, vou pedir que façam uma descrição muito bem elaborada.
— Ah, também não esqueci que tinham os tal dos gêmeos que conseguem fazer qualquer coisa tocando uma música… — disse Zestas.
— Você disse fazer o que quiser, é isso?!
Íris ficava cada vez mais emocionada. Juntou os braços e entrelaçou as mãos com os olhos brilhantes como estrelinhas.
— É… É isso mesmo, embora eu não tenha visto a extensão do seu poder…
— Nossa! Eu queria ter estado lá!
— Eu também… Quantas carnes.. — Continuou lambendo os lábios enquanto fantasiava novas carnes.
— E-Eu também… Queria comer e descobrir novos ossos… Quais sons eles têm quando são partidos? E-he-he…
Após esse comentário, Fémur recebeu olhares negativos. Estava escrito em suas expressões: você é estranho. Seja normal. Ele estremeceu e encurvou a cabeça, olhando para o chão de madeira solitário como ele.
— Continuando. O charlatão manipulador, sua equipe e caçadores da lua tiveram que passar por provas nas dimensões que referi para resgatar crianças capturadas por um ser milenar…
— Desculpa interromper! — Eskilo levantou a mão. — Mas que ser é esse?! — Lambeu os lábios.
— Ah, vá! Deixe esses seus fetiches de lado — disse Íris.
— Tenho de concordar com Íris dessa vez. — Zestas balançou a cabeça, girando a garrafa agora vazia na mesa. Eskilo apenas deu um suspiro aborrecido e cruzou os braços.
— Não sei ao certo, mas é a criatura prevista pelo charlatão manipulador. Só ele pode nos dar mais detalhes. Por isso, companheiros, eu venho propor que demos uma chance ao manipulador charlatão e sua equipa!
— Eu aceito! Aceito! — Íris levantou a mão como se quisesse alcançar o céu, mas na verdade, queria alcançar o seu objetivo. — Super aceito!
— Eu também… — disse Zestas, girando a garrafa para apontar para o Eskilo.
— Eu também aceito, se isso for me fazer provar mais carnes!
Agora a garrafa apontava para o Fémur.
— E-Eu n-não sei… N-Não deveríamos falar c-com… o rei primeiro?
— Claro, inclusive tenho uma sessão marcada com o rei para amanhã. E eu acredito que ele vai aceitar depois que ouvir tudo que tenho a dizer.
— E-Então s-se for assim, eu a aceito!— disse com a voz trêmula.
— Nesse caso, todos aceitamos! — Íris levantou o punho.
— Não, ainda faltam aqueles dois… — comentou Zestas.
— Bom, são cinco contra dois. Vão fazer aqui? Na verdade, seis, já que a mestre Calcária também aceitaria. Ela é fascinada por coisas novas, você sabe, não é?
— É, é verdade!
— Acho que todos aventureiros são fascinados por coisas novas, afinal somos aventureiros, entenderam?
Todo mundo deu uma risada no quão óbvio as palavras do Eskilo haviam soado.
— Agora dou por encerrada essa reunião.
— Só uma coisa, mestre Luvru…. — Íris levantou sua mão, o olhando com olhos brilhantes. — Você sabe a localização do charlatão manipulador?
— Não, lamento.
— Ah, é mesmo? — Com um sorriso malicioso, ela retirou a máscara, atraindo os olhos de todo mundo que se encontrava naquela sala para ela. Então pegou no queixo do Luvru com a ponta dos dedos para o ciúme dos outros e olhou no fundo dos seus olhos misteriosos. — Me diga, qual é a localização do charlatão manipulador?
— Ele segue para as terras do norte. Pela região semiárida ao norte de Nova Sola.
— Perfeito, rumo às terras do norte! — Íris levantou o punho com um sorriso e saiu dali nas correrias, abandonando toda aquela gente ao encontro do manipulador charlatão: sua esperança.

Regras dos Comentários:
Para receber notificações por e-mail quando seu comentário for respondido, ative o sininho ao lado do botão de Publicar Comentário.