Capítulo 53: O Começo do Fim
— Ah! Que dia cansativo!
Dei um suspiro enquanto abria a porta da minha casa ao som de alguns grilos que cantavam, escondidos nos arbustos da casa.
Crii! Crii! Crii!
Era de noite, então era o normal deles.
Mas enfim, lar doce lar. Não via a hora de descansar depois do trabalho cansativo, realmente não sei se nasci para aquilo.
Levantei os braços, bocejando enquanto atravessava o corredor estreito da casa, iluminado por lâmpadas incandescentes do tipo douradas.
Atravessei o primeiro desvio do corredor que encontrei, que levava a sala de estar onde se encontrava a minha amada mulher assistindo sua novela das 19. Ao mesmo tempo, o cheiro apetitoso vindo da cozinha, fez minha barriga roncar.
“Calma barriguinha, chegamos na hora certa”, pensei enquanto apreciava aquela linda donzela em seu pijama branco cingido de emblemas de corações rosas. Seus lisos cabelos castanhos pousavam sobre seus delicados ombros. Suas delicadas mãos seguravam o controle remoto, aumentando o volume da TV.
— Oi, amor.
Nossos olhos se encontraram.
— Olá, flor do dia!
Nossos sorrisos também se encontraram.
— Papa! Papa!
Olhei para baixo, contemplando uma criança de cabelos verdes com apenas uma fralda cobrindo sua parte íntima. Era o meu querido bebê, Zernezinho, que puxava a bainha da minha calça.
Ele sorriu para mim com todos os dentes. Um estranho e sinistro, que me fazia questionar se realmente esse era o meu filho.
— Amor, vem sentar! A nossa novela já começou!
— Ainda bem que eu despachei aquela papelada, caso não, iria perder a minha preciosa novela!
Corri para o sofá e me sentei ao lado da minha esposa, esticando meu braço atrás da sua cabeça para tocar seu ombro. A criança começou a gatinhar para outra parte da sala, nos deixando bem a sós.
Alexandra, como sempre, cheirava a cerejeiras, fragrância que roubava suspiros apaixonados de mim.
— Como foi no trabalho hoje?
— Nem me fale — falei enquanto olhava para abertura da novela, ao som de uma música agradável. — De novo resolvendo o problema daquelas pestes que eu tenho certeza de que é o professor Xavier quem manda para mim, porque quer me fazer perder a paciência!
Infelizmente, por falta de oportunidades melhores neste país, acabei me tornando o diretor de uma escola de bairro.
— Esse Xavier é problemático. Por que não manda ele embora?
— Querida, não é bem assim, preciso reunir provas efetivas contra ele primeiro, já que é o estado quem contrata os professores.
— Quanta burocracia, não é?
— É…
Minha barriga começou a roncar. Passei a mão nela em um afago e encontrei os olhos da minha querida.
— A comida?
— Você sabe, amor, dona Theresa é sempre vagarosa a cozinhar. Outro dia a encontrei perdendo tempo, testando outros ingredientes e a repreendi, mas parece que ela ainda planeja continuar com esse comportamento abusivo.
Desse jeito, vamos ter que arranjar outra empregada.
— Vou conversar com ela. — Ainda segurando o ombro delicado dela, impus a mão na borda da boca para amplificar o som da minha voz. — Theresa!!!
— Patrão!
Ouvi sua voz vinda da cozinha. Depois meus olhos foram atraídos para minha donzela que apontava para a TV brilhante, mostrando uma ruiva e uma empregada entrando em uma casa de madeira.
— Olha, amor, já começou!
— Wow! Parece que a Meredith está prestes a descobrir a verdade. Eita que isso tá ficando bom!
Agora as mãos dela estavam na maçaneta da porta do quarto enquanto a empregada mordia os dedos nos lábios com uma cara apreensiva.
— Ela vai abrir a porta. Será que a empregada estava certa ou não?
Meus olhos foram atraídos para aquela mulher com um jaleco cobrindo seu vestido xadrez de empregada.
— O patrão me chamou?
— Ah, sim. A comida?
— Amor! Amor! Ela abriu!
Alexandra se remexeu enquanto apontava para a TV com as bochechas rubras. Meus olhos voltaram-se para aquela cena, que revelava dois pombinhos abraçados numa cama com uma coberta branca escondendo sua nudez. Os olhos de Theresa, inexpressivos, também embarcaram para aquela tela.
[O que vocês pensam que estão fazendo?]
— Eita! Hehehe! Foram pegos no flagra!
— Aí, eu não perdoava! Será que ela perdoa?
De repente a TV se desligou, justo no momento quando estava ficando bom.
— O que aconteceu?
Segui o dedo indicador da Theresa, que me levou ao culpado, o Zernezinho havia tirado o cabo da tomada.
— Por que a gente teve uma criança mesmo?
— É, agora que você falou nisso, não sei o porquê.
Alexandra dedilhava o dedo no queixo numa postura pensativa.
— Patrões… — Dona Theresa murmurou, semicerrando os olhos.
— É brincadeira, dona Theresa!
Comecei a rir enquanto Alexandra se levantava para resolver o estrago que Zernezinho fez.
— Enfim, mudando de assunto, recebi reclamações suas. Posso saber o que está acontecendo consigo para demorar tanto para fazer a janta?
— Bem, é que, sabe…
Enquanto dona Theresa procurava uma desculpa perfeita, a tela da TV finalmente voltou a brilhar. Alexandra veio se sentar ao meu lado enquanto carregava Zernezinho no colo.
— Sabe, patrão, eu tenho feito alguns experimentos, digo, algumas misturas de ingredientes para deixar a comida mais atrativa!
— A minha cozinha não é um laboratório, ouviu, dona Theresa? Se quiser fazer experimentos, compre sua cozinha, suas panelas e seus ingredientes, me entendeu?
— Sinto muito.
Dona Theresa encurvou a cabeça.
— Não tem isso de sinto muito, dona Theresa. Você precisa sofrer uma punição por gastar o meu dinheiro em experiências tolas.
— Dependendo da punição, senhor, eu aceito.
Tirei os meus sapatos e um poderoso cheiro de chulé se espalhou por toda sala, fazendo todos apertarem seus narizes enquanto abanavam o braço no ar.
— Faça massagens nos meus pés!
— O que?!!!
Alexandra retirou a mão do nariz por um instante e me olhou com aqueles olhos arregalados.
Nessa altura, o canal onde passava a novela das 19 estava sintonizado e Meredith estava chorando de joelhos esparramados enquanto segurava uma espada ensanguentada com a empregada afagando suas mechas ruivas com lágrimas nos olhos.
“Droga! Perdi a parte boa das coisas.”
Dona Theresa arregalou os olhos com uma expressão de nojo.
— Vamos, dona Theresa. Não quer um aumento?
— Aumento?
Ela ficou um pouco surpresa, sua boca se abriu como um peixinho. Por outro lado, Alexandra me repreendeu com uma cara emburrada.
— Jarves!
— O que? Quando eu digo para você me fazer massagens, você nega. Então o que eu posso fazer, hein? Eu até contratei uma empregada, porque você não queria cozinhar para mim.
— Humph! Faça o que quiser.
Ela desviou os olhos, ainda com a mão no nariz.
— Tudo bem… — Dona Theresa se agachou enquanto fazia uma expressão de aversão. Do tipo de quem queria vomitar. — Eu faço.
Os meus olhos brilharam e um sorriso subiu ao meu rosto, quando dona Theresa colocou as mãos nos meus pés.
Trak! Trak!
Espera, esses sons vinham dos meus pés?
— Dona Theresa, o que pensa que está fazendo?
— A massagem, senhor, não foi o que pediu?
Trak! Trak!
Ela continuava estrangulando meus pés com aquelas mãos duras feito uma pedra.
— Não! Não desse jeito! Pode parar!
— Mas é que está bom! Sabe, eu descobri que o meu talento é quebrar pés, digo, fazer massagens!
— Quebrar pés? Não, para, por favor!
Olhei para Alexandra na esperança de que ela pudesse parar essa dona louca, mas ela balançou a cabeça negativamente e começou rir junto daquela bebê, seus risos eram tão estranhos que pareciam querer me devorar.
— Não…!
“Alguém me tira daqui!”
“Nãooooooo!”
(…)
— Dona Theresa, para por favor!
Acordei, esticando um dos braços na direção do teto.
Infelizmente, os meus olhos se encontraram com os de Theresa. Ela olhava para mim com cara de nojo enquanto cruzava os braços.
— Quem é dona Theresa?
— Eh, Ah…
Tentei me explicar, mas Theresa se virou com um rosto emburrado e caminhou até a porta, deixando um recado por último.
— Acorde, Zernen. A comida está pronta.
Dito isso, ela fechou a porta.
Fui em direção ao Zernen que também murmurava e o cutuquei diversas vezes nas costas, mas ele relutava acordar, só dizia: ” Agora não…”
Não teve jeito. Tive que empurrá-lo. Quando caiu do outro lado da cama, levantou com o seu modo combate ativo.
Estava com os punhos erguidos e um olhar de predador.
— O que? Onde?
— Aqui?
Apontei para mim, que estava atrás dele. Quando nossos olhos se encontraram, ele baixou os punhos.
— Ah, Jarves, é você…
— A comida já está pronta.
— Sério? Opa, já ia te dar um soco por ter me acordado do meu sonho, mas como suas motivações foram boas, eu deixo passar!
— Ei, espera um pouco aí, eu também fui acordado… Eu acho? Eu fui? Enfim, o que interessa é que você não é o único que estava tendo um sonho bom!
Tirando a última parte.
— Ah, é mesmo? O que você sonhou?
— Nada de mais, sonhei com minha família. E você?
— Eu? — Fiz que sim com a cabeça quando ele apontou o dedo contra seu peito. — Bem, eu, ah, sonhei com moedas.
— Moedas? O que tem de bom nisso?
— Sim, é divertido demais. — Sorriu com os punhos levantados e olhos brilhantes. — Você deveria experimentar isso!
— Nã, algo que me diz que você está mentindo.
— Por que eu faria isso?
— Porque você sonhou com uma garota e não quer dizer!
— Como sabe… digo, não, não! — Balançou ambas mãos negativamente, reafirmando com a cabeça. — Eu sonhei com moedas! Moedas!
— É uma garota parecida com a Istar?
— Hum, quer saber, eu estou com muita fome! Vou comer, tchau!
Ele ficou corado e saiu correndo dali. Eu o persegui enquanto gritava para que ele me explicasse quem era essa tal garota. O pior é que eu nem tinha como adivinhar, porque não me lembrava de existir uma garota com as mesmas feições que Istar.
— Zernen, espera!
Fechei a porta, continuando a minha corrida no corredor.
Pegando no corrimão da escada, comecei a descer enquanto observava o Zernen parado no primeiro degrau com olhos que pareciam ser de admiração e espanto. Além disso, eu também podia ouvir vozes de crianças misturadas com as de adultos ressoando lá embaixo.
Me apressei a descer e, quando coloquei os meus pés no rés do chão, arregalei os olhos, perplexo com o que contemplava.
De onde vinham aquelas todas as crianças?
Umas 12 no total foram os que meus olhos conseguiram alcançar, e no meio delas, apenas duas se destacavam, os irmãos da Meredith. O destino e suas brincadeiras de mau gosto. Bem, elas estavam sentadas em mesinhas arredondadas, próprias para crianças, que curiosamente não estavam lá quando chegamos.
Meredith e Theresa estavam sentadas ao lado de dois adultos vestidos de sobretudo numa mesa quadrada. Suas bocas e mãos gesticuladas pareciam tecer diálogos divertidos e agradáveis.
— Agora sim!!!
Zernen levantou os braços como um avião e correu para se juntar às mesas das crianças. De repente, enquanto observava aquele louco se sentar entre aquelas criancinhas, um cheiro muito bom atraiu o meu nariz, os meus olhos foram direcionados para o balcão de onde parecia vir o cheiro.
Provavelmente atrás do balcão ficava a cozinha.
Fui caminhando até a mesa onde estavam Theresa e os demais, quando vozes ressoaram por meus ouvidos.
— Olha, não é o charlatão manipulador?!
— Isso! Isso! Eu vi a foto dele na nova guilda dos aventureiros!
“Por que eu? Quando Meredith, Zernen e Theresa estavam aqui?”
“Bem, Theresa, não sei se já tinham feito um dela, mas o Zernen… A Meredith… Será que é por que o meu rosto é único e inconfundível?”
— É, ele mesmo! O rosto dele é o único e inconfundível!
Dessa vez, era Zernen, que também se juntou às crianças para me acusar.
“Esse maldito traidor…”
— Crianças…
A professora tentou apaziguar o ambiente, dizendo às crianças que eu era gente boa e que tudo não passava de boatos, mas as crianças colocaram a mão no fogo para me atirar pedras.
“Ah, droga…”
Elas ficaram caladas graças às intervenções repreensivas que Meredith e a professora fizeram e selaram suas bocas com expressões emburradas.
“Não tenho escolha.”
Fui me sentar em um lugar isolado das mesas dos outros, numa mesa bem no canto da parede, mas advinha quem veio me incomodar?
— Theresa…
Ela se sentou na cadeira oposta à minha.
— Por que está se isolando? Isso não combina com você.
— Está zoando com a minha cara? Não viu que tentei me aproximar, mas as crianças me condenaram.
Incluindo o Zernen, ele também era criança.
— São apenas crianças, você sabe como são crianças.
— Mas não muda que palavras machucam, não importa de quem ou de onde venham.
Theresa encostou a mão na bochecha e deu um sorrisinho.
— Tá com dodoi, né? Deixa que a médica aqui vai te curar!
— Você é mesmo péssima em animar pessoas.
Pelo menos, de um jeito divertido.
— Tá, Jarves. Escuta, você não foi o único que passou por isso. — Seus olhos voltaram-se para Meredith, que conversava alegremente com aqueles dois. — Meredith também passou pelo mesmo, mas veja só como ela continua sorrindo. Sorrindo verdadeiramente.
— Eu e Meredith somos diferentes.
— Sim, na verdade, eu até esperava que você fosse o mais compreensível. Espera… — Theresa começou a sorrir. — Não me diga que está fingindo frustração de propósito?
— Não, eu só decidi aceitar os meus sentimentos e não ser falso. Ser falso também cansa.
— Então seja verdadeiro a partir de agora.
“Difícil isso, hein… Eu carrego tantos segredos e mistérios…”
— Vou tentar. Embora isso não mude o meu estado melancólico.
— Toma. — Theresa tirou uma poção do bolso do jaleco e me entregou. — Um presentinho, mas não toma agora, tá bom? Só no caso de emergência.
— O que é isso?
— É uma poção que aumenta mana. Legal, não é?
Sorriu.
— Muito! — Dei um grande sorriso. — Só por esse presente, minha autoestima já aumentou!
— Então vamos nos sentar com os outros, já que já se sente melhor.
— Acho que vou ter que ficar triste mais vezes.
— Bom para você, daí você se consola sozinho. Quital, perfeito, não é?
Theresa recuou a cadeira, levantou e saiu andando para encontrar os outros.
“Que mulher…”
Também me levantei dali e me juntei aos outros, que me receberam de braços abertos e com um sorriso no rosto.
Meredith me apresentou a professora dos miúdos, Leiliane era o nome dela e o cara ao seu lado era seu marido. Eles se conheceram na mesma escola e exerciam funções diferentes.
Ele era um dos guardas da escola e um aventureiro rank C nas horas vagas, o mais forte do seu rank por sinal.
Só não conseguiu subir para B, porque sua habilidade era bastante limitada.
Ao que parece, eles estavam em excursão em alguns pontos da cidade de Ahrmamica. Nem pretendiam chegar a esse ponto, mas como as crianças insistiram em conhecer a favela, eles não tiveram escolha, se não levá-las até o lugar mais próximo da favela, que era esse aqui.
— Bem, desculpem a demora, mas eis a comida…
A gerente carregava duas bandejas fartas de carnes grelhadas, batatas fritas, uma iguaria igual à pizza e algumas panelinhas de ferro.
Deixou tudo na nossa mesa, a mesa dos adultos. E começou a distribuir os alimentos nas mesas das crianças. Quando Zernen, que estava babando, queria pegar um dos pedaços, ela o repreendeu.
— Não. Não. Ainda não.
— Por que?
— Porque precisamos comer todos ao mesmo tempo. É uma tradição de família, devemos comer e agradecer juntos, porque existem os que moram na rua e não têm nada disso.
— Olha, Jarves, estão contando sua história.
Zernen olhou para mim enquanto ria, mas para o seu azar, só ele estava rindo sozinho. Ele não só ficou sem graça, como recebeu outra repreensão da gerente.
Encurvou as costas, aproximando seu rosto dele enquanto balançava o dedo com as sobrancelhas ligeiramente cerradas.
— Menino muito mau! Não se pode rir disso, porque um dia podemos ser nós! O mundo dá voltas, sabia?
— Sinto muito. — Zernen lamentava enquanto curvava a cabeça.
— Bom, menino.
Ela sorriu, apoiando as mãos no quadril. Antes que ela saísse para ir buscar mais comida, decidi perguntar seu nome.
Ela era um verdadeiro anjo.
Eu até estava cogitando conversar com ela mais tarde e quem sabe não rolaria algo a mais?
Uma garota solteira, cozinheira de mãos cheias e com uma pousada para cuidar. Onde você apanha isso tudo? Só nesse mundo, porque no meu mundo isso não acontece.
— Qual é o seu nome, anjo?
— Ah, meu nome é Belia!
— Belia, é? Um nome meio único, mas para uma garota única, faz sentido!
Sorri e não sei porquê, mas senti olhares estranhos me encarando.
Bem, enfim, Belia foi buscar mais comida. Quando voltou, agrupou os pratos, os talheres e, por fim, serviu nos pratos das crianças.
Depois disso, fechamos os olhos enquanto ela recitava algumas palavras de agradecimento pela comida na mesa.
“É, eu acho que vou propor que ela venha conosco, afinal eu não quero que uma pessoa tão bonita, tão boa e simples quanto essa pereça nas mãos de monstros.”
“Até preferia deixar Theresa cuidando da pousada se ela reclamasse.”
“Pensa numa parceria de viagem perfeita!”
— Vamos comer!
Zernen foi o primeiro a devorar uma carne. Quando nós, os demais, estávamos prestes a tocar na comida com toda calma do mundo, Theresa bateu na mesa e nós olhamos para ela.
— Não comam! Eu sabia…
Theresa, que estava do meu lado, empurrou um dos pratos, que continha uma gosma violeta em forma de carne.
— Essa mulher tinha algo de errado! Vejam, é veneno!
— Veneno? Não é, se fosse isso eu…
Zernen largou a carne e caiu com a cadeira, deixando as crianças assustadas.
Seu rosto, de pouco em pouco, ficava violeta.
Todos olhamos para a gerente, parada ali, rente a uma das mesas das crianças, com um sorriso gentil no rosto.
— Bem, a comida não caiu bem nele, porque ele provavelmente comeu muito rápido, mas comam, comam, comam devagar que está muito bom!
— Por que o rosto dele está ficando violeta? Na escola, a professora nos ensinou que violeta é cor de veneno!
O que essa criança disse era verdade.
Também me ensinaram o mesmo no fundamental.
— Explique-se, Belia.
— Fracamente, teria sido melhor se vocês…
No mesmo instante em que Belia falava, o soco da Meredith que havia pulado da sua cadeira e saltado a mesa estava prestes a atingir seu rosto, mas ela impediu isso, dando um grande salto para trás.
Meredith ficou agachada, com o punho no chão, mas o olhar na Belia.
— Se vocês tivessem comido a comida, teriam sido felizes da vida, mas como não o fizeram, provaram do terror.
Uma fumaça negra a envolveu, tão densa e espessa, que não a conseguimos ver.
— O que é isso?
A professora indagou, com os olhos arregalados.
— Crianças para trás! Façam como treinamos em caso de algum ataque!
As crianças foram para trás do Ur e a professora foi acolher o Zernen estatelado no chão.
Depois que aquela fumaça negra se foi, uma nova pessoa se apresentou diante de nós.
Não pode ser…
Eu não conseguia acreditar no que via. Ainda era o corpo da gerente, mas agora estava envolto a uma armadura roxa e prata, que deixava a pele dos antebraços e dos joelhos nua. Ela continha uma tatuagem de espinhos negros, que se estendiam pela pele nua que a armadura permitia, especialmente a do rosto. Seus olhos eram rodeados por esses espinhos. Mas o que realmente a identificava como o ser que era, era aquele chifre de unicórnio na sua testa.
Aquela não era sua forma primordial, mas ainda sim era ela.
— Quem é você?
Meredith questionou, espantada. Theresa estreitou os olhos e emitiu.
— Parece uma pessoa diferente.
Não era de se espantar que não a reconhecessem, afinal fazia séculos desde que uma criatura como essa não dava as caras nesse mundo…
— Belia, a gosma. Prazer e bem-vindos ao começo do fim.
Um anjo caído…

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