Capítulo 142: Manipulados pelo manipulador charlatão
O cavalo simplesmente caiu de traseiro, expulsando aquele grande peso no seu dorso. Ele estava cansado. Suspirava com a língua para fora, como se estivesse buscando por água ou algo para comer.
Croma havia caído por cima do Handares, mas logo se levantou quando percebeu que suas costas estavam sufocando sua cabeça.
— Você está bem?! — Croma encurvou ligeiramente as costas, como se estivesse se certificando de que não havia danificado o rosto dele.
— Sim. — Levantou enquanto pousava a mão na cabeça em um alívio. Depois sorriu, levantando uma perna de cada vez. E então se levantou de vez. — E pensar que dessa vez eu consigo me levantar.
— Sim! Toda vez que você caia e ficava pedindo ajuda me deixava triste… Mas agora posso dizer que estou muito feliz!
Deu um sorriso, um sorriso tão lindo e corado que combinou perfeitamente com o sol se pondo no horizonte.
Handares balançou a cabeça positivamente com um sim lindo de ouvir. Pelo menos para aquela mulher.
Enquanto isso, o cocheiro se levantava com uma faca tirada do seu bolso para tentar fisgar a garota como uma refém. Mas falhou assim que entrou no campo de visão de Handares. Ele pegou Croma pelo ombro e achegou ela ao seu peito, suas bochechas rubras antes de perceber que estava prestes a ser apunhalada com a faca.
Handares agora segurava a lâmina da faca, a palma da sua mão vertendo sangue. Seus olhos se encontraram. O do homem como o de um predador tentando sobreviver. O cenho estava franzido e os lábios cerrados de amargor.
Ao passo que, mesmo sentindo a dor da lâmina que penetrava sua carne enquanto ele a segurava, Handares ofereceu um sorriso para aquele homem.
— Calma, nós não vamos te fazer mal.
— Eu não quero ser preso! — A superfície da pele do seu corpo ficou banhada por um tom prata. — Mesmo que para isso eu tenha que acabar com vocês dois!
— Experimenta… — Croma semicerrou os olhos como um felino predatório, prestes a exibir suas presas.
— É sério! Se quiser, pode pegar o cavalo e ir embora! Nós somos pacíficos!
Handares soltou a lâmina daquela faca como uma prova da sua pacificidade.
— Tudo bem, eu vou embora!
Ele recuou, não dando de costas, para àqueles dois. Continuou apontando a faca. Então quando finalmente chegou no cavalo, guardou a faca na bainha, colocou no bolso e carregou aquele animal já cansado para se debater naqueles braços de ferro.
E continuou recuando para longe daqueles dois, sem dar as costas.
— Que mal agradecido! — Croma encheu as bochechas. — Deveríamos ter o largado, assim o cavalo não teria se cansado.
— Não fale isso. Nós fizemos a nossa parte, fizemos o bem. Meus pais sempre disseram que não há melhor coisa em fazer o bem, mesmo que não haja retribuições de imediato. A longo prazo você colherá os seus frutos e aqui estou hoje, sou o exemplo da retribuição de toda bondade que fiz até agora.
— É, você tem razão. Parece que eu também tenho muito a aprender. — Depois de trocarem um sorriso, Croma emitiu: — Bem, vamos caminhando antes que o sol se ponha de vez e a gente acaba se encontrando com um doido qualquer.
Em resposta, Handares a carregou em seus braços. As bochechas da garota ficaram quentes, sua boca tremulou e
a frequência cardíaca aumentou.
— O-O que?!
— É que eu quero tanto correr! Mas não posso convidar uma donzela cansada como você para uma corrida, pois não?
De todas as palavras que Handares havia dito, ‘donzela’ foi o que fez seu coração aquecer. Ela se limitou a um sorriso.
— Tem certeza que vai me aguentar? Não que eu seja muito pesada, mas talvez eu seja areia demais para você.
— Eu puxei uma caravana, então vou ficar bem!
Croma sentiu os músculos de Handares ficarem duros como uma pedra, mas ao mesmo tempo tão macios que poderia descansar neles até o amanhecer. Handares então começou a correr com um sorriso no rosto, deixando um rastro de poeira para trás. Chegou a ultrapassar o homem de ferro que carregava seu cavalo, deixando-o encharcado de areia, e continuou correndo enquanto pensava no quão bom era poder correr.
Handares tinha um vigor muito forte. Croma se surpreendeu com isso. Haviam corrido tanto, mas ele não ostentava muitas gotas de suor como era esperado, e não suspirava como ela que apenas por correr ao mercado já sentia dor na região de barriga e o peito quente.
Seus pés só pararam quando chegou no orfanato. Ele a descarregou no chão como uma dama. Ela jamais esqueceria aquele momento, suas bochechas esquentavam somente de lembrar da sensação confortável que sentia, a pele quente e macia em contato com a outra, o vento apalpando seu rosto e balançando suas vestes.
— Para! Para! Para! — Balançou a cabeça negativamente de uma maneira frenética, com as bochechas rubras e um sorriso bobo. Algo que Handares não estava compreendo, mas se contentou com um sorriso no rosto de croma, mas este não demorou para desaparecer quando ele disse para eles entrarem naquela casa.
O sol já havia desaparecido, o céu agora estava azul escuro com as estrelas e as nuvens penduradas nele como um belo enfeite naquela paisagem exuberante.
Handares pegou na mão dela novamente, com as mãos suadas permeando uma na outra, os dedos entrelaçados como uma certeza de que ele estava com ela e ajudaria a enfrentar aquela situação.
Com passos nem lentos, nem velozes, ambos chegaram naquela porta e abriram juntos, com as mãos sobrepostas.
Seus olhos encontraram, à primeira vista, um ambiente que caracteriza o orfanato sempre que a noite chegasse, as crianças sentadas num tapete, a mesa posta com aqueles dois sentados tentando comer aquelas batatas doce para não se preocupar. Mas suas preocupações acabaram quando seus olhos encontraram aqueles dois, a colher caiu na mesa, e eles se levantaram depois de recuar a cadeira.
— Handares… — emitiram ambos. Nikolas e Croma em seus jalecos. As crianças deixaram sua refeição e foram abraçar aqueles dois com um sorriso no rosto.
Os olhos de Nikolas se encheram de brilhos ao ver seu irmão sem muletas. Ele não estava se curvando ao chão como devia ser, estava em pé, firme. Antonella havia lhe contado desse feito, mas ele não queria acreditar até ver com os seus próprios olhos o milagre que sempre desejou, que tanto ansiava. Havia passado muito do seu tempo para que conseguisse ver aquela visão.
Nikolas e Antonella se aproximaram. As crianças abriram um espaço entre aqueles dois irmãos. Suas mãos tremiam enquanto eram erguidas para encontrar o corpo um do outro.
— Handares, me diz que isso não é um sonho…
— Não, não é, irmão! Eu consigo andar, irmão!
Foram se aproximando um contra o outro sob o olhar das crianças sorridentes, e dos olhos marejados daquelas duas.
— Irmão, eu consigo andar! — gritou com lágrimas nos olhos e envolveu de uma vez os braços no corpo do seu irmão. Passaram pelas axilas e formaram uma corrente umbilical, que os conectava! — Eu consigo andar!
— Eu estou vindo!
Bateu nas costas dele e a afagou.
— Você está andando, Handares! É um milagre!
— Eu estou andando!
Repetiu de novo, e de novo, como um lembrete de que sua esperança durante todo esse todo tempo, embora tenha fraquejado, jamais havia se apagado.
Enquanto aqueles dois desfrutavam do calor fraternal um do outro, aquelas duas se encararam enquanto se aproximavam uma da outra.
— Antonella, eu…
Recebeu um tapa que fez seu rosto virar para o outro lado, e quando virou recebeu um abraço. As mãos envolvendo da sua cintura as costas superiores.
— Sua maluca!
Lágrimas saíram dos seus olhos.
Croma também deitou lágrimas enquanto sentia sua bochecha quente e dolorida.
— Desculpa! Você pode me perdoar?!
— Só se você me prometer que nunca mais fará algo assim novamente!
— Sim, eu prometo! Nunca mais!
O abraço se apertou ainda mais, reforçando a confiança restabelecida uma na outra. Quando deixaram de se abraçar, as crianças haviam voltado para terminar de devorar suas batatas. Eles foram se sentar naquela mesa com quatro lugares postos com os seus respectivos pratos, mais um lembrete de que aguardavam fielmente a sua chegada.
Handares sentou ao lado do seu irmão. Croma sentou ao lado da sua amiga.
— Eu quero pedir perdão! — Nikolas encurvou a cabeça, seu cabelo tocando na mesa. Cerrou os dentes. — Por tudo o que eu fiz durante esse tempo todo! Eu sou uma pessoa ruim, nem merecia o sacrifício que fizeram por mim!
— Você não é uma pessoa ruim, nunca foi. Levanta a cabeça e olha ao redor…
Nikolas passou os olhos por eles e depois as crianças que comiam feliz, tudo isso graças ao dinheiro que ele enviava quando recebia algo do seu trabalho de aventureiro rank B.
Depois que Nikolas foi preso, uma peste assolou aquele lugar e deixou algumas crianças órfãs. Na altura, ninguém estava se preocupando com elas, então o Handares tomou a dura decisão de vender a casa a um bom preço para comprar um lugar barato como esse e empreender em um negócio de venda de ervas medicinas e alguns alimentos, gerenciado por Croma e pela Antonella num mercado.
Antonella também foi uma vítima da peste, por isso se identificou com a causa e decidiu apoiar Handares. Já Croma chegou um tempo depois, pedindo por um emprego para poder ajudar sua família no vilarejo que estava perecendo à fome.
— Os nossos pais teriam orgulho de você.
— De você também!
Ambos sorriram.
— Já agora, eles conseguiram escapar bem, né? — perguntou Antonella.
— Bom, tivemos alguns sobressaltos…
Handares contou o que havia acontecido, deixando aqueles dois chocados, mas com sorrisos no final ao saberem que tudo havia corrido bem.
— Essa Theresa não para de me impressionar — disse Antonella com um sorriso no rosto. — Espero um dia ser como ela.
— É um grupo muito forte. Espero que possamos nos encontrar novamente, devo um pedido de desculpas a todos eles. Na verdade, queria fazer algo para ajudá-lo, mas voltei à estaca zero.
Tentou usar seu poder de esticar a mão, mas apenas seus dedos se esticavam por alguns centímetros.
— Sabe o Jarves e a Theresa? Eles têm défice de mana, mas ambos se superaram, de modo a conseguir lutar por aquilo que acreditam. Então irmão, com isso quero dizer, que você também conseguirá arranjar um jeito de dar a volta e eu estou aqui para te apoiar!
Ao ouvir isso, Nikolas deu um sorriso.
— É… É verdade!
— Mas agora temos algo para nos preocupar — disse Croma, reunindo seus olhos. — Aqueles soldados, eles conheceram nossos rostos. Eles podem vir atrás de nós.
— Quanto a isso, não se preocupem — disse Nikolas, atraindo olhares esperançosos. — Vocês dirão que foram manipulados pelo manipulador charlatão.
— Irmão, isso não! — Cerrou um dos punhos, franzindo o cenho ligeiramente.— Não podemos fazer isso!
— Eu também não acho certo — disse Antonella. Croma, depois de morder os lábios, emitiu: — Mas é o único jeito. Sei que doi.
— Vocês não precisam falar nada, eu mesmo direi que minha preciosa família foi manipulada pelo manipulador charlatão. Sei que isso soa como ingratidão, mas nada mais pode piorar a situação deles do que já está.
Era verdade. Um silêncio doloroso tomou conta dos seus lábios e perdurou por muito tempo, o silêncio de um justo que não se levantaria diante de uma injustiça; pior do que quem comete injustiça.

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