Capítulo 143: Pesadelo
Depois de deixarmos a região semiárida, encontramos um extenso e longo bosque que fazia a ponte entre as terras do norte e as terras do centro. Uma região neutra basicamente, que possuía algumas cavernas muito oportunas para viajantes que desejavam descansar antes de continuar viagem.
Golem estava lento e cansado. Nós também.
Encontramos abrigo em uma caverna escura, mas com uma vista para as estrelas do céu, embora algumas árvores ciumentas tendiam a ofuscar aquela paisagem noturna. O som dos costumeiros grilos, estava soando como um lembrete de que não estávamos sozinhos. Haviam insetos de todo tipo espalhados pelo bosque.
Mas pelo menos não tínhamos que nos preocupar com monstros ou animais selvagens, pois o fluxo de passagem de aventureiros em suas missões garantia a eliminação de qualquer ameaça.
E por falar em ameaças, fiquei alerta, com o punho cerrados e olhos na entrada com arbustos, esperando qualquer eventualidade quando ouvi passos farfalhando. Mas era apenas
Theresa, que havia saído com o Rein para buscar lenhas para acender uma fogueira enquanto eu zelava pela Meredith que não resistiu aos encantos do sono e pelo Zernen que ainda não havia acordado.
Eu esfreguei dois gravetos até formar uma chama, que nos ofereceria calor e luz, mas atraia consigo alguns insetos voadores curiosos, mas não o suficiente para se aproximar daquela fonte de calor e daquela fumaça.
— Ah, que fome! — murmurei, encostado na parede ao lado de Meredith e Zernen que dormiam lado a lado.
Rein e Theresa estavam do outro lado das chamas.
— Aguente um pouco até amanhã quando chegarmos na minha cidade.
— Espera aí, sua casa é na próxima cidade?
O espanto do Rein era também o meu. Embora eu soubesse que Theresa morava no norte, não lembrava a localização exata da sua casa. Não fazia ideia de que ficava tão perto assim.
— Eu só não quis dizer antes para vocês não perguntarem sobre lá. Não gosto muito de falar da história de lá. Embora seja conhecida por todo o reino, as pessoas fazem questão de querer saber da boca de quem vem de lá.
Agora que falou isso, fragmentos de lembranças sobre o que havia acontecido na terra de Theresa acabaram aparecendo na minha mente, despertando uma tristeza há muito adormecida.
A história de Theresa era tão pesada quanto a de Meredith.
— Mas você sabe que nós não somos esse tipo de pessoa, não é?
— É… — Ela sorriu. Rein e eu retribuímos o sorriso. — Tem razão. Vocês não são mesmo.
— Já agora, Rein, por que naquela hora você estava pegando sua cabeça com dor? É algo que acabei pensando e que me deixou um pouco preocupada.
— Não é nada. É que eu sou fraco contra eletricidade, meu poderes ficam fracos e minha cabeça doí muito, algo que ainda não superei. — Cerrou um dos punhos, trêmulo, não pelo frio, mas por algo que ainda não sabíamos.
— Acho que todos nós temos nossas fraquezas — disse Theresa.
— É, Oceano disse algo assim. Mas minha família não quer saber disso. Eu até mesmo fugi de casa.
— Sério mesmo? Por causa disso?!
Rein balançou a cabeça positivamente quando eu disse isso. Ao que parece, ele fazia parte de um conjunto de quatro irmãos. Todos inicialmente possuíam uma fraqueza em seus poderes, mas com o treinamento rigoroso do seu pai, acabaram superando, somente ele não havia superado sua fraqueza, razão pela qual era alvo de zombaria de toda sua família.
Isso o levou a fugir para morar com seus tios, pessoas gentis que o acolheram, mas com o consentimento de seus pais que não queriam mais saber dele. Rein recebeu o devido valor e cuidado que um filho devia ter. Seus tios nunca puderam ter um filho como sempre desejaram, então para eles foi um júbilo cuidar de seu sobrinho rejeitado.
A partir daí, as portas só se abriram na vida do Rein. Conheceu o Oceano através da amizade entre o seu tio e a mãe e acabou entrando nos caçadores da lua.
— Apesar de eu ter recebido tanto amor, toda vez que fico tão impotente quando estou diante de raios, fico desmoralizado.
— É o mesmo que eu…— murmurei, me lembrando do momento em que me senti, na verdade, desmoralizado ou talvez com inveja do Handares. — Ainda, é o mesmo que eu…
Agora sim me lembrei do momento em que fiquei desmoralizado no barco na quarta dimensão e depois recebi um tapa na cara da Meredith.
—Mas você foi capaz de teletransportar toda a gente naquela hora, não foi?
Ele fez que sim com a cabeça diante da pergunta da Theresa.
— Oceano me disse que sempre que eu ficar desmoralizado era para eu me lembrar das pessoas que sempre acreditaram em mim.
— Então continue fazendo isso, que já é o suficiente.
Theresa colocou as mãos no ombro dele, que agradeceu com um sorriso. E depois olhou para mim. — O mesmo vale para você, Jarves.
— Obrigado.
Dei um sorriso.
— Já agora, lembrei. O que você queria dizer, Jarves?
Os meus olhos e os do Rein se encontraram.
— Eu? Nada.
— Aquilo da caverna.
Lembrei.
— Ah, aquilo… — Rodopiei a minha cabeça. — É mesmo, não é? Eu queria dizer para todo mundo ao mesmo tempo. Pode ser?
— Contanto que não seja urgente, tudo bem — disse Rein.
— É urgente, mas não é como se fossemos fazer algo para mudar. Então acho que podemos esperar até que todos estejam acordados.
Ambos compreenderam. E como não tínhamos mais assunto, não nos restou nada se não tentar dormir para repor as forças. Rein decidiu que ele se manteria acordado como vigia e depois dormiria pela manhã, então confiamos nosso sono a ele enquanto deitávamos naquela superfície dura, nada confortável.
(…)
— Você não disse que queria uma renda mensal? Aqui está!
Ao som da voz do Faisal que estava somente de cueca, vi uma caixa segurada por suas mãos descarregarem sacos moedas nas minhas costas enquanto minhas mãos e pernas estavam amarradas pelas correntes de Graziela, cujo corpo estava envolvido em um lençol branco. Ela sorria para mim enquanto balançava sua língua de um lado para outro. Eu estava num quarto de madeira muito semelhante ao seu ninho de amor, mas sem porta para fugir, sem janela para pular.
— É isso, agora você não tem do que reclamar!!!
— Não, eu tenho do que reclamar sim! O meu corpo está sendo esmagado!
Eu me contorcia e gemia por esse peso que abalava as minhas costas, meus ossos agora estavam estalando e minhas costelas estavam doendo.
— Ei, eu não fiz nada para vocês! Por que vocês estão me incomodando?! Não fui eu não, foi a Meredith! Eu só observei tudo como um simples expectador!
— Então você achou aquilo certo? — Quando ele agachou, seus olhos negros e vazios envolveram os meus como se eu estivesse sob hiponse.
— É isso! Você está feliz com aquilo?!
Agora era Graziela que se agachava para me questionar isso.
—Eu não sei! Por favor, tira esse todo dinheiro de cima de mim!!! Socorro!!
(…)
Depois do grito, os meus olhos se abriram para a realidade, mas ainda parecia que eu estava naquele pesadelo, porque eu sentia algo muito pesado sobre o meu corpo.
— Por favor!!!
Gritei novamente.
O peso saiu do meu corpo.
— Aí, desculpa! Desculpa! — disse Meredith, agora de joelhos dobrados e bochechas coradas. Enquanto eu me esticava, ainda sentindo a sensação de dor nas costas, como se os meus ossos tivessem sido partidos.
— Não se preocupe, acontece!
Não era incomum pessoas que dormiam no mesmo espaço dormirem no corpo das outras. Uma vez, quando fui dormir em casa da minha tia, aconteceu o mesmo com os meus primos.
— Eu realmente sinto muito! — Coçou seus cabelos desgrenhados que lhe davam o destaque de uma adolescente na fase rebelde.
Me limitei a dar um sorriso. Theresa do outro lado apenas nos observava.
— Eu tentei tirar ela do seu corpo, mas ela era pesada demais… — Theresa deu uma desafinada quando lembrou que havia dito palavras que normalmente uma mulher não ia querer ouvir.
— Eu estou gorda?!
Aí estava, a clássica pergunta feminina!
Meredith começou a rodear seu corpo voluptuoso com as curvas acentuadas
enquanto passava a mão na sua barriga.
— Bem, pesar muito não é sinônimo de gordura, não é mesmo? — Theresa sorriu.
— Ah, não… — Meredith encurvou a cabeça cabisbaixa. — Eu tô virando homem…
De fato mexer com espada, correr de um lado para outro deixou Meredith com alguns músculos, mas não o suficiente para compará-la à aquelas lutadoras de MMA do meu mundo.
— Não se preocupe, o seu corpo está ótimo! É apenas o corpo de uma mulher muito forte!
Levantei o polegar, mas ela não queria saber disso. Theresa havia ferido uma parte sensível para as mulheres, quando elas não se achavam mais delicadas como pétalas. Apesar de ser uma guerreira, Meredith ainda era uma princesa e queria continuar sendo uma.
— Mudando de assunto, Jarves, qual pesadelo você teve? Tava fazendo uma cara sinistra!
Theresa, você não poderia simplesmente mudar de assunto de uma maneira mais natural possível ou vir com um papo de consolo para essa mulher cuja sensibilidade fora ferida?
— O que? Você teve um pesadelo?!
Meredith magicamente desfez sua cara cabisbaixa e olhou para mim toda preocupada.
Eu não queria falar disso para não acordar uma frustração ainda maior na Meredith, então procurei algo para me esquivar disso. Olhei justamente para o lado da Theresa onde estava a minha desculpa.
Rein ainda estava dormindo quando disse que iria zelar por nós?
Não, isso não iria servir. Seria óbvio demais. Continuei rodando os olhos até por algum motivo não encontrar Zernen. Ele não estava ali.
— Cadê o Zernen?!
Dei um grito dramático de desespero.
— Acho que ele deve ter saído para respirar um pouco de ar lá fora.
— O que? E você fala isso tão naturalmente?!
— Jarves, não muda de assunto!
Meus olhos encontraram os o da Meredith e logo depois os daquele cabeça de ferro que decidiu aparecer na entrada com um ar de surpresa, mas trazendo consigo uma repreensão que não lhe cabia.
— Isso mesmo, Jarves! Não muda de assunto!
— Seu louco! — Rastejei como um bebê que engatinha em direção a ele enquanto lágrimas de crocodilo se acumulavam em meus olhos. — Nunca mais faça isso!
— Hahaha! Eu já sabia que Theresa ia me curar!
— Mentiroso!
— Depois de ela ter curado um paralítico, o que a impediria de curar um carvão?
Acabei de ficar assustado. Como ele podia estar falando isso com essa naturalidade absurda?
Mas depois dei um sorriso. Era o Zernen mesmo. Ele estava de volta, com os parafusos em falta como sempre foi.
— Acho que devem ser sequelas — dei um sorriso zombeteiro.
— Aí Theresa, eu te devo uma! Mas não vou poder te pagar com o dinheiro do baú, porque você sabe, não sabe?!
— Você me deve a vida, e isso não tem dinheiro que pague.
— É mesmo! Tudo bem. Já sei como pagar!
Esse burro não ouviu que não há dinheiro que pague uma vida?
— É só eu salvar sua vida, não é mesmo? Que a gente fica quites!
Pior que fazia sentido. Dei uma risada. E não fui o único, Theresa e Meredith me acompanharam. Rein acabou acordando, se deparando com aquele clima divertido que normalmente nos caracterizava.
— Agora, me diga, que pesadelo você teve?
Meredith estava interessada no meu pesadelo demais para o meu gosto. Ela até pegou o meu ombro com uma cara digna de filme de terror.
— Tá, tá, eu conto! Mas por que você tá tão interessada no meu pesadelo? Todo mundo tem pesadelos, não têm?
— Bom, pesadelos de pessoas que veem o futuro não são normais.
Aí ela tinha um ponto.
— E não se esquece de contar aquilo, Jarves.
Rein veio com essa.
Parecia que eu estava sendo cercado por jornalistas curiosos. Um microfone nas mãos de cada um deles cairia bem.
— Eu tive um pesadelo com o Faisal e a Graziela, de novo… — murmurei, me encostando na parede rochosa.
— Bem que eu pensei que seria isso. Já que uma vez você murmurou isso… — disse Meredith com aquela cara que eu queria ter evitado, a cara de quem estava se remoendo com lamentações do passado. — Desculpa, é tudo culpa minha.
— Isso é normal. Se resolve com poções — disse Theresa.
— Você está tendo pesadelo com a nossa renda mensal? Hahahahaha! Quando você recebeu de dinheiro?!
Acho que Zernen gostaria de ter os meus pesadelo.
— Ele já não é mais nossa renda mensal, Zernen.
— Hi, é mesmo! É uma pena que ele morreu.
Foram simples palavras, mas tiveram o poder de mexer comigo e com a Meredith. Nossos olhos ficaram arregalados.
— Aí, ninguém aqui vai ficar depressivo. Vamos, vamos caminhar e mudar de assunto!
Minha barriga e da Meredith começaram a roncar.
— É isso mesmo, passado fica no passado — disse Rein. — Não foi isso que já havíamos falado?!
— É verdade, eu superei isso — disse Meredith, olhando para mim com um sorriso. — Eu também tinha pesadelo com o Faisal todas as noites em que eu dormia, mas pela primeira vez depois de tanto tempo eu não sonhei mais com ele…
Meredith estava suportando tanto sofrimento por esse tempo todo.
— E se você também puder entender, vai passar!
— É, não é?!
Sorri. Dessa vez meu sonho lúcido havia falhado, justo quando eu queria dar continuidade ao meu casamento com Alexandra.
Então deixamos aquela caverna e seguimos pelo bosque a pé, sem o nosso precioso golem para nos carregar. Ele estava sem energia. Mas de certa forma, caminhar, sentir a terra e as folhas roçando sua pele enquanto nossos olhos eram agraciados pelo verde da flora e seus insetos era uma sensação boa.
— Tudo começou naquela caverna…
Tomei a liberdade e comei a contar sobre o que havia acontecido naquele dia antes que eu me esquecesse.

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