Capítulo 144: De volta ao Ninho
Bom, eu contei tudo o que havia acontecido comigo no fundo da masmorra, mas não pensei que eles fossem me tratar como um louco…
— Vozes na cabeça? Você precisa mesmo tomar medicamentos!
Zernen foi o primeiro a rir. Até deixou seu baú na grama para segurar sua barriga.
Tirando ele, estávamos sentados em um tronco de uma árvore velha no meio de um círculo de árvores robustas e vívidas.
— Tem certeza que não foi um pesadelo? — disse Theresa. Rein e Meredith ainda não haviam se pronunciado, mas pelas suas caras dava para ver que também estavam achando esquisita essa minha história. Bem, não os culpo, acho que eu também não acreditaria se fosse outra pessoa.
— Não foi não! Se fosse, eu saberia!
— Eu acredito no Jarves — Meredith disse enfim, roubando um sorriso do meu rosto. — Até porque Belia naquele momento manifestou um comportamento muito estranho. Ela se mostrou muito interessada no Jarves do nada!
— O fim está próximo… — Rein repetiu essas palavras enquanto segurava o queixo com a mão. — Por que ele estaria te alertando sobre isso? Não seria melhor fazer uma surpresa?
Tinha que admitir que ele havia levantado um bom ponto.
— Então o Jarves não está louco?
Fiz que não com a cabeça ante as palavras do Zernen. E ele se sentou por cima do seu baú por fim.
— É um bom ponto — disse Theresa.
— Não é?
Sorri.
— Se ele está à espreita, faz sentido ser ele quem enviou a Belia. Mas se ele enviou, como fez isso? E parando para pensar, se ele está espreita, significa que ele viu o futuro?
— É um bom ponto — disse Theresa novamente.
— É, é mesmo um bom ponto.
Concordei.
— É, é um bom ponto.
Rein também disse. Zernen foi o último, deixando Meredith com as sobrancelhas tremendo e as veias rompendo a testa.
— Pessoal, eu estou tentando fazer uma análise, colaborem!
— Tá parecendo a Frida. — Dei uma pequena risada, mas desfiz ao ver o quão severa estava sua cara. Ainda bem que ela não tinha os mesmos poderes que Frida, se não eu estaria ferrado.
— É um bom ponto de verdade. Desculpa, eu não disse para parecer repetitivo, mas é que estava pensando — disse Theresa.
— Eu também — continuou Rein.
— Eu também! — Zernen levantou a mão.
— Aí, desce essa mão! — eu disse.
— Mas sério, pessoal, é uma loucura se o que vocês dizem for verdade! Isso significa que seremos perseguidos por mais seres como Belia, não é?!
Zernen estava animado demais para o meu gosto.
— Cruz credo! — disse Theresa, atraindo seus olhos e seu sorriso manhoso.
Ao passo que Meredith cerrou os dentes enquanto franzia as sobrancelhas.
— Só de pensar que mais pessoas possam ter seus corpos usurpados, me dá raiva! Muito raiva!
Agora que a questão Belia fora levantada, pelo que me lembre, Meredith foi a última oponente a confrontá-la. Eu havia me esquecido totalmente de perguntar o desfecho que ela teve nas mãos dela.
— Meredith…
Seus olhos encontraram os meus.
— O que aconteceu com a Belia?
— Sabe que eu não sei.
Ela também estava perdida como eu.
— Eu deixei ela a cargo daquele homem de cabelos brancos.
— Ah, não…. — Balancei a cabeça negativamente. Meredith também fez o mesmo com a cara atordoada, já prevendo o que eu iria dizer. — Isso quer dizer que a Belia pode estar viva!
— Cruz credo! Não digam isso!
— Quê? Ela tá viva! Bem que eu possa chamar ela para uma segunda batalha, já que da última vez ela me pegou desprevenido!
Simplesmente ignoramos o Zernen e sua paixão por lutas.
— É isso… — Continuei. — Belia só pode ser destruída pelas três grandes magias.
E o herói não tinha nenhuma delas.
— Então quer dizer que nem se eu despedaçasse ela até não sobrar nada eu iria conseguir?
— Acho que não. Zernen daquela vez explodiu ela e ela foi ainda capaz de tomar o corpo do seu irmão.
— Caramba, só de pensar que em breve teremos mais desses monstros! Vamos, Jarves, me diga! Quais magias ele tem?!
Seus olhos haviam assumido o brilho de estrelinhas.
Novamente ignoramos o Zernen.
— Então só as três grandes magias podem derrotar eles… Essas magias já não são muito comuns como eram no passado.
Theresa tinha razão. O cruzamento de pessoas com diferentes magias acabou diluindo essas magias, o que quer dizer que agora tínhamos mais pessoas com magias especiais do que elementares.
Mas isso não era problema, já que a pessoa aqui a minha frente seria a inventora de um método eficaz para combatê-los. Dei um sorriso enquanto não parava de olhar para ela.
— Por que está me olhando tão intensamente? Não gosto dessa sensação.
Theresa fez cara de enjoo.
— Você não gosta de ser apreciada, Theresa? — questionou Zernen, olhando para ela fixamente. — O que é bom precisa ser apreciado!
— O que? Não estou gostando dessa conversa.
— Eu também não — disse Meredith. Rein deu um sorriso descontraído. — Como estamos saindo de algo sério para isso? Belia pode estar a solta! E… — Fez uma cara de pavor. — Tenho medo que ela decida ir atrás da minha família.
Agora que ela falou isso, bateu uma tristeza no meu coração. Como eu não havia pensado tão longe no quão danoso seria ter esse ser livre?
Mas por agora….
— Ela está atrás de mim! Então não se preocupe, Meredith! Ela virá atrás de mim. Por incrível que pareça, essa raça é muito vingativa, quando tem um alvo em mente, eles não largam o pé até acabar com ele.
— É mesmo, ela nem mesmo hesitou em pular naquela hora para te perseguir….
Balancei a cabeça positivamente. Meredith então deu um sorriso, pressionando a mão no peito.
— Nesse caso, então estaremos à espera dela caso ela decida aparecer!
— Isso mesmo!
— Hahaha, é assim que se fala! — Zernen colidiu ambos os punhos, provocando estalos. — Dessa vez ela não escapa!
— Ei, pessoal… — Nossos olhos foram atraídos para o Rein. — Querem fazer uma corrida de cavalo? Como aquela que fizemos em Nova Sola. Nós estamos precisando relaxar.
Não era uma má ideia, esse assunto estava fazendo subir a minha pressão, pelo menos, a que eu acreditava ter.
— Parece uma boa ideia! — disse Zernen. — Eu já estava querendo algo para me divertir! Já aviso que quero ser um cavalo!
— E eu o cavaleiro. — Levantei a mão.
— Eu já tenho o meu cavaleiro! — Zernen bateu no baú.
— Isso é batota. Seres humanos pesam mais do que um baú, Zernen.
Meredith, Rein e eu balançamos a cabeça, concordando com Theresa. Mas apenas isso não bastava, Zernen pedia por uma solução melhor, já que ele não queria voltar a carregar dois pesos e Rein estava só, quando dessa vez era uma corrida de cavalo, não uma simples corrida como daquela vez.
E a solução que chegamos era que o Rein ia carregar o baú enquanto Meredith e Zernen seriam o cavalo de eu e de Theresa.
Por que? Porque Rein não tinha um físico forte como eu, então o peso do baú para ele seria o equivalente a esses dois carregando nós dois.
Foi tudo lógica da Theresa. E não teve nenhuma objeção.
— Prontos? — Assentimos com a cabeça. — Vamos!
Ao som do Rein que carregava o baú, começamos a correr. Eu estava montado no Zernen que acelerava, mas estava perdendo para Meredith.
— Tudo bem que você é pesado, mas eu ainda vou vencer essa!
— Supere os seus limites!
Levantei o punho.
A lógica de Theresa estava certa até demais. Rein era o terceiro. Havia corrido pouco, mas seu rosto estava cheio de suores e não parava de suspirar. Acho que esse era o resultado de usar mais o teletransporte do que os seus próprios pés.
A corrida estava indo muito bem até Zernen decidir transformar isso em uma guerra. Ele provocou a Meredith, lançando um chute invisível contra as suas pernas.
Ela teve que saltar para não ser atingida.
— Ei, isso é batota, Zernen!
Não adianta, ele não me ouviu. Estava sorrindo. Mas se ele pensava que aquelas duas iriam ficar paradas, ou melhor correndo, e receber as suas investidas quietas, ele estava enganado.
E eu tive que pagar por seu engano.
Meredith usou sua expansão de peso, e tornou nossas vestes tão pesadas quanto uma armadura. Zernen reduziu os passos de tal modo que aquelas duas haviam desaparecido no horizonte daquelas árvores. Até mesmo o Rein que era o mais lento acabou nos ultrapassando e desapareceu no horizonte como um lembrete de que havíamos sido reduzidos a passos de tartaruga.
— Satisfeito?
— Isso é batota!!! — Ele gritou. — Mas elas vão ver só! — Ele recuou as suas mãos para trás.
— Ei, Zernen, você não está pensando nisso…
— Acho melhor você proteger seu traseiro com mana ou alguma coisa, porque eu vou…
— Seu idiota, não faz isso!
No ápice do meu desespero, tentei deixar suas costas, mas era tarde demais, seu corpo começou a brilhar enquanto eu gritava para ele parar.
— Explosãoooo!
Quando fechei os olhos, pensando que era o fim, não aconteceu nenhuma explosão.
Abri os olhos e pude suspirar de alívio.
— Eu estou sem mana?
É claro que depois daquela explosão que ele soltou contra os soldados, não haveria como ele ter muito mana sobrando. Dei um sorriso, agradecendo por isso.
— Jarves, transfere sua mana para mim!
— Eu já não tenho mana também. Vamos ter que ir na corrida mesmo.
— Ah, que droga!
Zernen teve que se esforçar. Rangendo os dentes, enrijecendo os músculos, sendo engolido de suores, foi assim que chegamos ao terceiro lugar no fim do bosque, um lugar desértico que formava um penhasco. Mas daquele lugar agora era possível ver uma cidade com muitas polpas misturadas com casas. Ela se estendia até uma floresta com uma montanha no centro.
— Vocês demoraram.
E eu ainda tinha que ouvir isso da Meredith que repousava as mãos no quadril com um ar de superioridade.
Caímos no chão ao lado do Rein que também estava transpirando e deixamos nossos braços abertos como aves abatidas.
— Finalmente, chegamos às terras do norte. Estou de volta, Baume.
Theresa, que estava de costas no limite daquele penhasco, abriu suas mãos como uma ave que havia voltado ao seu ninho.

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