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    Agora que parei para pensar, precisamos arrumar um jeito de se disfarçar para que o povo da cidade de Theresa não nos denuncie como havia acontecido na cidade de Nova Sola. Eu estava cansado de ser perseguido, sendo sincero. Isso estava começando a se tornar desgastante.

    — Não iremos precisar de disfarces dessa vez!

    O que? Meus ouvidos estavam delirando ou Theresa estava mesmo dizendo palavras tão abençoadas como essas, que pareciam um presente caído do céu?

    — Repete? Quer dizer, digo, assim a gente vai ser pego!

    Apesar de confiar cegamente que Theresa jamais diria palavras assim à toa, eu precisava ouvir dos seus lábios o porquê delas.

    E eu não era o único.

    — Vão perceber isso quando chegarmos lá.

    Acho que a esse ponto Theresa não nos trairia, então decidimos confiar nela.

    — E agora? Como vamos descer? — questionei, observando o chão a vários metros. Este se estendia a uma cidade no fundo protegida por um muro e um portão grande suficiente para a passagem de uma caravana.

    A partir daqui as terras do norte eram muito baixas em relação às terras do centro e sul porque no passado o rei decidiu governar sobre as masmorras para que elas não se manifestassem, e como as terras do norte não era tão habitadas, elas serviriam como ponte de manifestação das masmorras.

    Era uma informação que hoje em dia não passava de contos de fadas e continuaria assim por um bom tempo.

    — Não é óbvio?! Pulando!

    Zernen não se conteve, saltou como se soubesse voar.

    — Bom, caminhando para o lado da margem, é possível chegar em segurança. — Theresa apontou para aquele lado onde havia uma descida mais segura embora inclinada. — Mas como a minha cidade é porta para o comércio e às vezes há aglomeração, então a aventureira Calcária fez um elevador.

    Theresa apontou para um pedestal que se estendia ao chão onde tinha um barril suficiente para carregar duas pessoas.

    — Como esperado da Calcária! — Meredith deu um sorriso. — Ela é a minha figura como aventureira. Uma das razões de me tornar aventureira é ser como ela!

    Sorri com os olhos brilhantes. Era fascinante como tudo estava conectado. Meredith via Calcária, tia do herói, como uma figura. E de fato não era para menos, Calcária era uma aventureira rank S cujo poder era a criação de objetos mágicos como o lenço de invisibilidade mágica que o senhor Zestas havia oferecido a Theresa.

    Embora seu poder de criar objetos mágicos fosse fascinante, era complexo e demorava muito tempo para desenvolver essas peças.

    Ela, dentre todos os aventureiros, foi a que mais se esforçou para adquirir o posto rank S. Seu poder não era apropriado para lutas prolongadas por conta da componente ‘tempo’, que os seus objetos levavam. Algumas armas que ela criava perdiam o efeito ou tinham um tempo muito curto de uso.

    E ela foi capaz de superar essa fraqueza, se tornando um exemplo a seguir para as mulheres do seu reino.

    — Ela é a minha favorita também entre os aventureiros rank S.

    Era o verdadeiro oposto da aventureira Íris que conseguiu chegar ao posto S quase tão rápido quanto Oceano chegou ao posto A graças a sua habilidade extra “amor à primeira vista”. Apesar dela ser bonita e estilosa, eu tinha medo dessa mulher e se pudesse evitaria contato com ela. De todas as habilidades de hipnose que conhecia, a dela era a mais forte de todas. Nem mesmo Zernen seria capaz de resistir aos seus encantos.

    O meu pesar era que ela nunca chegou a encontrar o amor que tanto desejou encontrar. Morreu em Batalha. Assim como Meredith, ela era mais uma vítima do autor desta história.

    — Eu também vou seguir o mesmo caminho que o Zernen. — Meredith pulou dali, os ventos elevando os cabelos dela. — Afinal, eu sou ex aventureira! Uhuuu!

    Bem que eu também gostaria de dar uma de aventureiro e pular, mas eu não era fora de comum como aqueles dois. Só de olhar para baixo, eu já me imaginava esparramado no chão, todo ensanguentado, com os membros deslocados, enquanto me contorcia em agonia.

    Rein simplesmente se teletransportou para ali embaixo.

    Havia restado eu e Theresa apenas.

    — Bem, vamos.

    Balancei a cabeça positivamente e a segui ao pedestal. Quando chegamos ali, ela clicou em um dos botões que fazia aquele barril ir para cima. Lentamente. Acho que se fossemos pelo caminho da margem seria mais rápido em comparação a essa velocidade que me fazia ficar sonolento.

    — Eles fizeram bem em pular. Apesar de ser algo viável, esse elevador só funciona uma vez por dia.

    — Que inútil.

    Theresa deu uma risada, entrando no barril com uma cara de enjoo. Fui o segundo a entrar e não evitei perguntar o porquê daquela cara enquanto ela clicava no botão para nos levar para baixo.

    Eu estava com medo dela confirmar os meus pensamentos, de que na verdade ela não estava gostando nada de compartilhar o mesmo espaço comigo.

    — Não, não é nada com você, Jarves.

    Ainda estávamos descendo a passos de tartaruga.

    — É que me lembrou de quando tive que entrar em um barril de vinho. Foi bizarro.

    — E você entrou em um barril de vinho para fazer o que?

    — Para te salvar. Foi quando estávamos na dimensão da sereia.

    — Ah…

    Lembrei.

    — Sinto muito!

    — Por que você sente muito? Você não fez nada.

    — Eu sinto muito por você. Não por mim. Você deve estar passando por um transtorno, não é?

    — Não é para tanto. — Ela fez uma esfera verde aparecer na sua mão e a plantou na sua cabeça. — Afinal eu sou médica.

    — Poxa, eu também queria ter uma magia! Não ter magia é um… — Desviei os olhos e virei para encontrar Meredith e Zernen fazendo um castelo de areia enquanto Rein estava sentado desenhando na areia com o dedo. — Deixa para lá.

    — Mas você já não tem magia de tempo?

    O tal do roteiro…

    “Ah, a minha suposta magia.”

    — Senhor Alexodoro disse para eu considerar ela inútil porque eu não controlo.

    — É, de fato uma magia que a gente não controla é inútil. Mas você ainda é novo. — Colocou sua mão no meu ombro. Nesta altura o elevador havia pousado em terra firme. — Você com certeza vai controlar um dia, é só ter paciência.

    Não falei nada. Agora eu tinha vergonha o suficiente para não alimentar a esperança de Theresa de que um dia eu controlaria esse poder inexistente. Descemos do baú com um salto, sendo que havia uma tranca que havíamos notado somente agora. Abri por curiosidade só para ver como funcionava e ele desceu ao chão.

    Theresa seguiu caminhando enquanto eu fechava aquela porta, e por vias das dúvidas, testava se aquilo só funcionava uma vez por dia. Não estava subindo.

    Dei uma pequena risada e fui andando até outros, que já haviam começado a andar em direção ao portão com dois guardas, em armadura platina, sentados em duas cadeiras. Suas lanças estavam encostados contra a parede, mas perto o suficiente para eles pegarem e se protegerem contra intrusos.

    Engoli em seco quando eles se levantaram e fizeram uma cara feia enquanto pegavam suas lanças. Meredith estava com a mão em prontidão na bainha da espada. Rein mexia as mãos. Zernen cerrava os punhos e eu observava a naturalidade com que Theresa encarava aqueles dois guardas magrinhos com cabelos negros curtos alinhados na régua. Não havia medo, nem incertezas nos olhos dela.

    E então paramos, bem próximos a eles, mas ainda em prontidão para qualquer investida.

    — Theresa?

    — Eu mesma. Há quanto tempo Karlos e Louro.

    — Theresa é você mesma!

    Do nada a expressão de cara assustadora fugiu dos seus rostos e deu lugar a um sorriso de um bebê que acabava de receber um doce. Seus olhos castanhos e amarelos ganharam vida. Eles soltaram suas lanças no chão e deram um abraço na Theresa.

    — Caramba, a quanto tempo!

    Theresa entrou na onda, afagando suas costas.

    — Você cresceu muito, quase não a reconhecia! Mudou até o cabelo!

    Depois de desfazerem o braço, o de olhos amarelos meteu a mão no bolso e tirou um papel dourado. — E por falar em reconhecer, olha isso.

    O rosto de Theresa numa versão meia idade estava desenhado naquele papel. Valia 1000 moedas de ouro. Era tão engraçado que comecei a rir enquanto segurava meu estômago. Theresa tomou o papel e passou a observar com uma cara nada surpreendida.

    — Quem é essa mulher?

    — Caramba! — Zernen arrancou o papel da mão de Theresa. — É o mesmo valor que eu! Se a gente se entregar, deve sair 2000 moedas de ouro!

    — Aí, vocês não iam aproveitar esse dinheiro, não é, Zernen? — Meredith deu um sorriso.

    — Temos mais de onde veio.

    Seu companheiro tirou o do meu rosto enquanto o outro tirava dois que ilustravam Meredith e o Zernen. Mas o que obviamente chamou a atenção de todo mundo foi o meu.

    — Caramba, um milhão!!! Mas você não estava nos dez mil?!

    Os olhos do Zernen brilhavam como diamantes.

    — Isso deve ser coisa do Xavier — disse Meredith. — Aquele homem não tem jeito…

    — Com licença! — Zernen se aproximou dos soldados, apontando para o papel que continha o meu rosto. — Quero entregar o manipulador charlatão! Onde posso levantar a minha recompensa?!

    Eu sabia que o Zernen estava brincando, e o que me assustou foi aqueles guardas não tratarem aquilo como uma brincadeira.

    —Você pensou que só porque salvou nossas vidas e fez prosperar nossa cidade a gente faria vista grossa? Lamento dizer, mas você, Theresa e companhia estão todos presos.

    Ambos apontaram suas lanças para nós com uma cara de poucos amigos, ou melhor, de muitos inimigos.

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