Capítulo 8: O poder de ver o futuro
— A verdade, Meredith, é que eu tenho o poder de ver o futuro.
Ela arregalou os olhos.
Essa também era a desculpa que inventei para que o Zernen viesse comigo.
— Mas é claro que eu não sei controlar, nem nada! — Balancei as mãos negativamente antes que ela provavelmente começasse a pedir para eu ver mais do futuro como Zernen havia feito. — As vezes aparece, as vezes não!
— O futuro? — Se colocou sentada na cama, encostada suas costas na parede castanha. — Então isso explica tudo.
“Sim, isso explica tudo.” Fiz que sim com a cabeça.
— Parece que você ganhou na loteria com esse poder, não é, Jarves? Que poder insano! Esse é o tipo de poder que só existe em lendas!
— É mesmo?
Zernen tinha razão. Se bem me lembrava, nem mesmo os vilões do reino das trevas tinham esse tipo de poder. Embora eu não tivesse esse poder, eu tinha algo muito maior, o roteiro todo em minhas mãos!
— O quão longe você viu?
A pergunta deveria ser: o quão longe eu sei? Sei de tudo, cara Meredith. E estou aqui precisamente para acabar com o final horrível dessa história.
— Sei lá, é um poder que eu não consigo controlar. Meio que eu observo a pessoa e o futuro dela aparece nos meus olhos.
Não de todo mentira, afinal de contas eu precisava olhar a pessoa para me lembrar do seu futuro.
— Por que não me disse nada? Mesmo sabendo que a minha vida corria perigo, você… — Ela mordeu os lábios. Suas sobrancelhas curvaram, pesando um pouco seus olhos em uma expressão abatida. — Me deixou para morrer.
— Eu acho que não, hein — respondeu Zernen. — Se não ele não estaria aqui.
— É como o Zernen disse, eu sabia que você seria salva por aquele homem, mas ainda assim me preocupei e decidi vir a sua trás.
“Ok, agora eu disse a verdade verdadeira.”
“Que sensação boa!” Sorri.
— Por que? Eu não te tratei mal?
“Me tratou sim, muito mal. Esperava mais de você, Meredith!”
Se bem que eu não a podia culpar por ter agido daquele jeito depois que anunciei que ela seria traída publicamente.
— Eu não levo as coisas a peito.
Empus a mão contra o peito como se fosse um monge que havia alcançado iluminação e agora estava distribuindo perdão a torto e a direita.
— Jarves é um cara legal, não é?
Balancei a cabeça positivamente.
“Zernen sabe das coisas.”
— Realmente o mundo dá voltas. A pessoa que eu mais desprezei, hoje está me ajudando.
“Pegou a grande lição de moral, não é, Meredith?”
— Peço perdão por tudo.
Esse era o lado fofo que eu adorava nela, quando ela percebia que estava errada, não hesitava em se desculpar.
— Só se for perdão em forma de dinheiro! Hahaha!
Zernen começou a rir.
Esse garoto me superou em ambição, não, ele extrapolou os limites.
— Zernen, dinheiro não é tudo nessa vida.
— Tenho que concordar. — Meredith assentiu. — Meu pai dizia que a pequena felicidade se encontra nas coisas mais simples.
Seu pai como sempre um sábio, embora a história tenha se passado depois da morte dele. Sendo assim, não tive a chance de conhecê-lo, mas sabia que Meredith tinha um grande apego emocional a ele.
— Não é tudo, mas traz felicidade.
— Felicidade momentânea você quis dizer — disse Meredith, olhando para o Zernen. — Porque o amor ao dinheiro é a raiz de todos os males. É só ver como o nosso reino está por causa do maldito dinheiro. Eu quase fui morta por conta de míseras moedas!
Eu tinha que concordar com a Meredith. Apesar do dinheiro ter os seus benefícios, ele também podia causar grandes estragos.
Lembrei como se fosse ontem, quando a minha mãe me deu várias chineladas por eu ter perdido o dinheiro que era para fazer compras dos ingredientes para o jantar nos jogos de azar. As minhas intenções eram boas, eu só queria multiplicar o dinheiro!
— Dinheiro traz tristeza também — murmurei, com aquelas vagas lembranças passando pela minha mente.
— Tá. Tá. Vocês dois têm razão. Mas isso é só para quem não sabe usar bem o dinheiro!
“Um ponto para o Zernen.”
— É … — disse Meredith, suspirando. — E pensar que o Reziel, o amigo e mordomo do meu pai, me trairia dessa forma. É inacreditável!
— É, esse é um dos maiores defeitos do ser humano — afirmei.
— Eu quero vê-lo… — Amassou o cobertor com o punho enquanto cerrava as sobrancelhas ligeiramente. — Preciso saber quem está por detrás disso tudo!
— Não é difícil adivinhar, não é?
Nossos olhos se encontravam.
— O que?
— Graziela.
— Mas por quê?
— Porque ela é a amante do seu noivo, boba. Digo, Meredith!
Droga! Acabei chamando ela assim de novo. Se o herói me ouvisse chamando ela assim, me mataria.
Se bem que, esse apelido só veio depois que eles pegaram intimidade um pelo outro.
— Agora tudo faz sentido. — Segurou o queixo, pensativa. — As peças se encaixam.
— Amante? Peças? Do que vocês estão falando? — questionou Zernen, logo bocejando enquanto levantava os braços ao alto. — Que sede. — Ele se levantou, indo até a porta. — Fiquem aí montando as peças, que eu vou beber um vinho.
— E o dinheiro?
— Ah, eu tenho outro. Hahahahaha! — Ele tirou outro saco de dinheiro do seu bolso. E começou a atirá-lo sequencialmente, as moedas se agitando em tintilar. — Eu fiquei com medo de perder que separei em duas sacolas. A que te entreguei e está.
“Você definitivamente passou dos limites, Zernen.”
— Você me assusta.
Quando eu disse, ele saiu da porta enquanto se fartava de rir.
— Então ela deve ter persuadido o Reziel a fazer isso. — Voltei os meus olhos a Meredith que continuava com a mão no queixo, mas com uma expressão atordoada. — Com a minha morte, o Faisal seria todo dela!
— É isso mesmo.
Balancei a cabeça. Ela bateu ambos os punhos na cama com o cenho franzido.
— O que eu fiz para essa mulher?
“Nem na história original eu entendi isso.”
— Não sei. Acho que é só inveja mesmo.
— Ah… — Ela tentou se levantar, mas começou a tossir. — Cof! Cof!
— Aquele rapaz que te salvou comprou umas poções de cura para você. — Entreguei as minhas que estavam numa sacolinha no bolso. — Beba e descanse, que em breve você se sentirá melhor.
— Ah, obrigada. — Ela recebeu em suas mãos. — Embora eu quisesse agradecê-lo pessoalmente, já que ele salvou a minha vida.
“Não se preocupe, esse momento chegará em breve. Não, farei de tudo para que esse momento chegue e vocês vivam felizes para sempre.”
— Eu tenho a certeza de que você vai se encontrar com ele novamente!
— Suas visões?
— Não, minhas palavras mesmo.
Depois de esvaziar aquela garrafinha com líquido roxo, ela olhou para mim seriamente.
— Você disse que, se eu seguisse os meus planos de viagem, eu iria ver o que aconteceria. Então isso quer dizer que… Nesse momento, Faisal pode estar com a Graziela e eu tenho que voltar para pegá-los no flagra.
“Bingo. Nossa, como essa mulher é boa em montar o quebra cabeça!”
Não esperaria menos dela. Afinal, uma das qualidades que me faziam admirá-la era a inteligência.
— Infelizmente você terá que passar por isso.
— Nesse caso, não podemos perder tempo. — Ela tentou se levantar novamente, mas não conseguiu. Seu corpo doía. Gemeu. — Aí!
— Não se esforce. Eu não disse que seria daqui a três dias?
— Esse é o segundo dia, não é?
— É…
— Eu estou de fato admirada com essa sua habilidade. Com toda certeza que se o rei dessa nação descobrir isso, não vai te deixar em paz.
— Planeja contar?
Eu estaria em maus lençois se Meredith contasse sobre o meu suposto poder, mas a resposta que ela me deu soou como um alívio.
— Não. Quem você pensa que eu sou?
— Sei lá, talvez isso ajude vocês contra reinos adversários, golpes de estado, etc.
— É. Mas você não é um objeto, é?
— Não.
Balancei a cabeça negativamente, me sentindo mais aliviado.
— Então isso será o nosso segredo. — Posicionou o dedo nos lábios com um sorriso formado. — Ninguém precisa saber disso e você deve viver a sua vida normal como ela é.
“É por isso que eu te adoro, Meredith!”
O quanto eu queria gritar isso não estava escrito, mas me confirmei apenas com a troca de nossos sorrisos.
— Muito obrigado — agradeci. — Você é mesmo uma pessoa maravilhosa!
— Você acha?
— É… Definitivamente Faisal não te merece.
— Então você me acha linda?
Quando ela fez aquela pergunta absurda, não deixei de reparar detalhadamente em seu rosto lindo como rosas, o que me fez falar aquelas palavras sem pensar e para piorar, com as bochechas apimentadas.
— A mais linda da história!
— Hã?
Ficou boquiaberta, incrédula.
— Digo, da história do reino! Nunca houve alguém que se equiparasse a sua beleza!
Eu havia exagerado, mas não me arrependi de dizer aquelas palavras com as bochechas quentinhas. Ver Meredith curvando a cabeça enquanto corava, foi o meu melhor presente que pude receber hoje.
— Você é a primeira pessoa que me elogia desse jeito!
Ela soltou um sorriso angelical, com as bochechas ainda rubras.
Lembrei que ela disse isso para o herói.
“Droga, não deveria ser desse jeito. Preciso consertar isso!” Bati o meu rosto quando realmente me dei conta do que eu estava fazendo e olhei para com um leve sorriso.
— Guarde essas palavras para a pessoa que você gosta, entendeu?
— Mas a pessoa que gosto, me traiu…
Ela ficou cabisbaixa.
— Como eu disse, Faisal não te merece. Estou falando da pessoa que você vai gostar no futuro!
Arregalou os olhos, com as bochechas novamente vermelhas.
— O quão longe você viu o meu futuro?
“Droga! Tenho que parar de falar.”
— Não vi nada, só tô falando. Afinal, você vai desfazer o noivado com ele, não vai? E depois disso, vai precisar encontrar alguém, não é?
— Vai saber… Na verdade, eu acho que estou deixando de acreditar no amor.
Seus olhos começaram a ficar rodeados de lágrimas.
— Descansa, tá bom? Minha mãe costumava dizer que não há nada que o tempo não cure.
Isso quando eu reclamava de dor com a surra que eu levava dela.
— O meu pai também dizia o mesmo.
— E então, o seu pai não era o sábio das coisas? Acredite nele! Vai passar!
Levantei o polegar com um sorriso.
— Muito obrigada, por estar aqui comigo.
Depois de retribuir o meu sorriso, ela abandonou a dureza da parede e se colocou deitada na cama, com o rosto contra o travesseiro. E então, estendeu a mão para mim e pediu que eu segurasse. Segurei, avermelhado, enquanto me sentia honrado.
Seus olhos se fecharam enquanto seus lábios se curvaram em um sorriso.
“Ah…enquanto o herói não estiver aqui, eu cuidarei de você, Meredith.”
Sorri, sentindo a sensação calorífica das suas mãos macias.

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