Capítulo 04: Sentimentos
Alguns minutos depois.
— Mas, Sarah… você não pode resolver tudo com violência. Eu sei que isso te incomoda, você é diferente. Mas não deve levar isso pro lado negativo. — A voz da diretora permanece firme, porém, moderada.
Sarah mantém a cabeça baixa, ouvindo em silêncio.
— Se você não melhorar esse seu comportamento, vamos ser obrigados a te expulsar do colégio.
“Não! Eu não quero sair daqui, não quero abandonar meus amigos!”
Sarah se desespera internamente. Então levanta sua cabeça com o olhar assustado.
Lágrimas escorrem.
A expressão de medo se mistura com a de tristeza.
— Eu sei que você não quer isso. Me prometa que essa será a última vez que esse tipo de coisa acontecerá. — A diretora estica o braço sobre a mesa, e suavemente toca o rosto de Sarah. Enxugando um pouco das lágrimas que escorrem. — Promete?
Sarah balança com a cabeça de forma positiva. Os ombros relaxam. Um leve sorriso surge em seu rosto ao sentir o calor daquele gesto gentil.
— Você é forte, as pessoas zombam e te olham com inveja e desprezo. Mesmo assim, ainda consegue sorrir. Um dia, vai ter orgulho de ser assim! — Márcia termina a fala com a voz serena e imbuída de otimismo.
A porta se abre.
— Com licença. Márcia. Eu trouxe o Gabi — Marcos vai empurrando a porta com cuidado. — Venha, ela não vai te morder!
Sarah enxuga as lágrimas às pressas.
— Não precisa ter medo de mim! — A voz da diretora se direciona em um tom calmo até Gabi.
— Não é de você… — Gabi ao entrar pela porta já lançando um olhar a procura de Sarah. Ao encontrá-la, decide manter distância, ficando ali encostado do lado da porta com um pedaço de papel higiênico enfiado no nariz.
— Tudo bem. Pode ficar aí. — Márcia não insiste.
— Vamos Gabi, peça desculpas para Sarah, assim como conversamos lá no banheiro.
— Gabi. — Sarah se levanta e se aproxima dele de cabeça baixa. — Se não quiser, não precisa me perdoar, eu acabei exagerando.
— Exagerou? Eu pensei que ia morrer! — Ele murmura por um instante.
— Ei, não precisa exagerar! — Marcos o repreende colocando a mão em seu ombro.
Sarah olha na face de Gabi, e estende sua mão como um gesto de paz.
Ele a encara diretamente nos olhos. Porém, não encontra nenhum vestígio daquela fera que o amedrontou a pouco. Depois de uma breve suspirada, se desgruda da parede.
— Tudo bem, eu também não devia ter te insultado. Desculpa! — Ele estende a mão direita ao terminar de falar. Então os dois se cumprimentam.
— Sarah, você pode ir. Vou conversar um pouco com ele! —Com um sorriso no rosto, Márcia se despede de Sarah. — Venha Gabi, sente-se!
Sarah caminha para fora da diretoria. E a porta se fecha a suas costas. Ela para pôr um segundo e ao invés de ir para o lado da quadra, se direciona para o outro.
— Gabi, sei que não tenho o direito de te pedir isso…, mas queria te pedir um favor. Poderia não comentar com seus pais o que aconteceu? Sabe… a Sarah é uma menina complicada de lidar, ela aparenta ser forte para todo mundo. Mas é frágil por dentro, se deixa com facilidade pelas emoções. — O tom cuidadoso na voz de Márcia, atinge diretamente onde precisa.
— Não se preocupe, vou inventar uma desculpa. Meu pai iria tirar sarro de mim se soubesse que apanhei de uma menina. — Ele solta um leve riso em forma de sopro de ar pelo nariz, fazendo com que um dos papéis no nariz caia. E o breve sorriso no rosto logo se transforma em expressão de dor. Então ele se abaixa para pegar o papel.
— Bom garoto. Agora pode voltar para a quadra! — Marcos o libera.
Gabi se levanta sem demora e se retira da sala. Ao encostar a porta e se virar, se vê frente a frente com Sarah.
— Toma. Coloca isso no nariz, vai melhorar! — Ela oferece um pequeno saco plástico com gelo dentro, que acabou de pegar na cozinha com as tias.
— Obrigado… — Gabi timidamente agradece enquanto se encaminha para a quadra. — Você não vem?
Ela balança a cabeça recusando. Enquanto em pensamentos, está preocupada com seus amigos. Quando ainda estava na quadra, percebeu que eles não estavam por lá.
— Bom… até! — Ele segue seu caminho.
Após alguns minutos os procurando pelos corredores e atrás dos blocos de salas. Ela escuta uma conversa vinda de trás do ginásio. Então encosta na quina da parede e tenta observar o que está acontecendo. Seus olhos se arregalam com o que vê, e logo um sorriso desponta em sua face.
— A gente poderia sair qualquer hora sabe. Andar um pouco a noite… O que você acha? — Bernardo está sentado e encostado em um muro.
Ele acaricia o rosto de Marcela, que está deitada com a cabeça em seu colo. Seus cabelos longos se espalham pelas pernas.
Ela olha diretamente no fundo dos olhos dele enquanto passa a mão de leve em seu rosto.
— Eu queria muito isso, mas não sei se meu pai vai deixar. Ele anda muito preocupado. — O olhar dela se desvia por um momento, observando uma folha despencando tortuosamente ao seu lado. — Eu vou precisar inventar alguma desculpa. — Ela volta o olhar para ele com o rosto corado.
— Conversa com a Sarah, ela com certeza vai te ajudar! — Bernardo lança uma ideia ao ar enquanto aprecia seus fios dourados.
— Mas… e nós? O que eu vou falar para ela? — Marcela se levanta e se senta encostada ao seu lado. Em seguida, escora sua cabeça no ombro dele.
— O que tem eu?
Sarah aproveita a brecha para dar um flagrante nos dois pombinhos. Ela faz uma entrada surpresa com a voz um pouco alta, como se quisesse assustar alguém.
Marcela se levanta num pulo, completamente avermelhada.
— Pronto, agora ela sabe! — Bernardo só aceita.
— Como se fosse segredo que vocês gostam um do outro. Só vocês não viam. — Sarah diz sorrindo.
— Estava tão na cara assim? — Bernardo questiona ao ar enquanto olha para o lado disfarçando.
Sarah não responde, apenas sorri de olhos fechados.
— Eu procurei vocês por toda escola, eu quase me ferrei, fui para direção…
Sarah começa a contar para eles o ocorrido, enquanto Bernardo se levanta e os três começam a caminhar para quadra.

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