Índice de Capítulo

    18 de outubro de 1999 – Periferia de Eva – Zona 47

    O leve e contínuo vento que balança as copas das árvores, trazem consigo nuvens escuras, indicando que hoje o astro-rei não ocupara seu palco.

    Sarah está saindo de casa vestindo uma blusa toda cinza.

    Já no portão de casa, escuta sua mãe a chamando.

    — Ei! Não vai levar guarda-chuva? Aliás, não quer que eu ou seu pai te leve?

    — Não, ele precisa dormir. Ficou acordado até tarde feliz com o jogo.

    — Annnn… Só de lembrar no que aquele homem jogou ontem noite….

    Após um momento de suspiro, Leila retoma.

    — Não seja por isso, eu te levo!

    — Você não vai viajar? Não pode se atrasar! Só pega o guarda-chuva que eu vou caminhando. — Sarah termina sua fala olhando para o céu nublado.

    Leila à observa com admiração. — Só um momento! — Ela corre para dentro.

    No meio tempo em que ela entra, Sarah se senta na calçada e fecha os olhos para cessar todo estímulo visual. O vento que circunda o local aumentou de intensidade desde quando abriu a porta da varanda mais cedo.

    Algo batendo em sua cabeça interrompe o momento.

    Olhando por cima da cabeça e para trás, sua mãe com sorriso bobo se apresenta.

    — Justo o maior? Sério? — Sarah dá uma leve resmungada, pega o guarda-chuva e dá um beijo no rosto de sua mãe.

    Nesse momento Leila encosta testa na de Sarah e fecha os olhos.

    — Filha, nunca se esqueça! Não importa quem você é…

    — …e sim quem você quer ser! — Sarah completa a fala. ­— Não vou esquecer. — Um sorriso de boca fechada surge naturalmente. — Boa viagem mãe!

    — Se cuida na escola, ok?

    — Pode deixar. — Sarah já está na calçada caminhando. Se vira e faz uma rápida careta de deboche enquanto mostra a língua. Se vira de novo e segue seu caminho.

    Leila e pega de surpresa e fica sem reação, mas logo volta a sorrir e entra em casa.

    No caminho para escola o vento se intensifica. No alto, as nuvens começam a escurecer cada vez mais o céu. Tudo parece estar prestes a desabar. Sarah acelera os passos e se prepara para atravessar uma rua.

    Quando pisa no asfalto.

    Uma borboleta preta com manchas vermelhas que brilham, quase se choca com sua face. Em um movimento de pura reação, consegue desviar para o lado.

    Nesse momento ela para e observa a borboleta seguindo seu caminho. Mais sendo levada pelo vento que propriamente voando livremente.

    A borboleta aparenta voar com lentidão na perspectiva de Sarah, até que ela some por detrás de um muro cinza.

    Não que a borboleta não estivesse rápida. Mas naquela pequena bolha de tempo em que Sarah entrou por um breve momento, a borboleta estava batendo as asas como se estivesse em uma filmagem em câmera lenta.

    Ao sumir, tudo volta ao normal, e as primeiras gotas de água despencam colidindo contra o asfalto.

    O portão da escola está logo ali, há um quarteirão de distância. Sarah observa que Marcela acabou de chegar e está descendo de um carro.

    Acelerando seus passos, consegue se aproximar da janela do carro antes que ele parta. Com duas batidas rápidas no vidro, ela é notada.

    — Oi Sarah, tudo bem?

    Ele esboça um sorriso enquanto termina de abaixar o vidro.

    — Tudo sim. Minha mãe ligou para você?

    — Ligou sim, se estiver chovendo muito eu te levo. Pode ficar tranquila.

    — Obrigada, até mais!

    Ela volta a acelerar as passadas, pois começa a sentir a chuva engrossar. Quando alcança Marcela no pátio. Já chega dando uma cutucada na lateral da barriga com o guarda-chuva. Marcela dá um salto para o lado colocando a mão onde foi atingida, olhando assustada para o lado.

    Ela rapidamente desfaz a cara de tensão e dá um suspiro.

    — Só podia ser. Nem sei por que ainda me assusto, aff. — Ela faz uma repentina cara de dor.

    — A para! Nem doeu! — Sarah minimiza a reação de Marcela.

    — Aé? Vem cá! — Então Marcela sai em disparada atrás de Sarah que foge em direção ao refeitório.

    — Aiaiaiaiai, me protege, ela quer me bater! — Sarah se esconde atrás de Bernardo que está sentado em um banco, comendo um pedaço de pão e tomando um leite com chocolate.

    Silêncio.

    Bernardo olha para Marcela e depois para Sarah

    — A que menos precisa de proteção aqui é você! — Ele tenta disfarçar o riso.

    Sarah dá um empurrão atrás da cabeça dele e se senta no banco ao seu lado.

    — Sem graça. — Ela resmunga baixinho.

    Marcela se senta em um banco de frente para Bernardo enquanto pega um pouco de fôlego.

    — Deixa eu contar… se estiver chovendo quando a aula terminar, seu pai vai me dar carona até em casa, daí eu vou pedir para você ficar lá comigo. Porque meu pai vai estar trabalhando, e minha mãe vai viajar meio-dia. Só para eu não ficar sozinha sabe.

    Sarah explica seu plano elaborado para Marcela. Bernardo só escuta.

    — Mas você sempre fica sozinha. Acho que ele não vai deixar. — Marcela demonstra receio com o plano.

    — Espera aí, eu não terminei… daí a tarde, por volta das duas horas, o Bernardo vai lá em casa. — Sarah franze testa e em silêncio faz um leve bico com a boca e lança olhares uma hora para Bernardo e outra hora para Marcela.

    — Interessante… gostei. Que horas seu pai volta? — Bernardo fala após dar uma última averiguada na caneca já vazia.

    — Ele volta só de noite, mas o pai dela vem pegá-la a tarde eu acho. — Sarah o responde enquanto volta seus olhos para Marcela.

    — Mas eu posso pedir para ele deixar eu dormir na sua casa, o que você acha?

    — Perfeito! Aí você pode tentar dar uma escapadinha de noite sabe. — Sarah lanças essas palavras em Bernardo e dá uma leve cutucada com o dedo na barriga dele. O que o faz se encolher para o lado na tentativa frustrada de se esquivar.

    — AAAI! Pera! Eu tenho que ver com minha mãe, já vou ficar a tarde toda fora, se ela não se importar. Aliás que horas seu pai costuma ir dormir?

    — Ele chega cansado lá pelas nove horas, toma banho, janta e vai para cama normalmente lá pelas dez horas.

    — Olha, minha mãe levanta cedo para limpar as ruas, então ela dorme muito cedo. Já vai estar roncando a essas horas. Eu acho que dá para dar uma escapada.

    — Fechado então! Agora vamos para aula, porque tem prova da Guilda dos Caçadores e eu não estudei nada. — O rosto de Sarah claramente demonstra uma leve preocupação com o que está por vir.

    — Aham… sei! Você nunca estuda e sempre vai bem nas provas. — Marcela a acusa.

    — Como futuro Caçador Sombrio, essa prova será moleza! — Bernardo se gaba enquanto mantém a tranquilidade.

    — Eu já falei para vocês, o segredo é se concentrar na aula. Os professores raramente cobram conteúdo de tarefa. Eu vivo falando.

    Sarah já está se levantando e puxando a frente dos dois rumo a sala de aula.

    Um manto negro, tão denso quanto a própria escuridão.

    É a primeira coisa que todos notam quando a mulher da guilda chega com as provas.

    Sarah é a primeira a terminar.

    Outra professora vem, e depois mais uma. Assim a manhã logo se vai. Enquanto isso a chuva perdura despencando lá fora.

    Como se o próprio mundo fosse acabar.

    Apoie-me

    Regras dos Comentários:

    • ‣ Seja respeitoso e gentil com os outros leitores.
    • ‣ Evite spoilers do capítulo ou da história.
    • ‣ Comentários ofensivos serão removidos.
    AVALIE ESTE CONTEÚDO
    Avaliação: 100% (1 votos)

    Nota