Capítulo 104: Admirável mundo cruel
Um dia se passou desde então.
A canoa se aproxima cautelosa
A escada de corda despenca pela lateral.
E um após o outro.
Eles descem sem olhar para cima.
Já se distanciando do navio, um último aceno para os homens lá em cima, que voltam a trabalhar a todo vapor.
Remadas após remadas, desbravando algumas pequenas ondas. A costa que antes parecia tão distante, já é uma realidade.
Os píeres vão ganhando cor, forma, vida.
Inúmeros botes atracados, balançam sobre aquela água escura.
Vários homens e algumas mulheres, desfilam de um lado para o outro sobre as madeiras que reclamam a cada pisada.
Algumas redes com pequenos peixes começam a aparecer saindo de algumas canoas, e caixas de madeira de outras.
A vegetação costeira se eleva nas laterais da pequena praia. Raízes primeiro, despontam como estacas, e depois o verde as cobre e some para o fundo.
— Está bem maior. — Adão contempla a floresta que cerca aquele trecho de areia.
— O quê? — Shymphony o indaga.
— Quando eu parti aquela vez, mal tinha arvores por aqui.
— Os moradores vêm a várias gerações, prantando arvores e protegendo a floresta. — Helvetia explana com olhar perdido em meio as pessoas que circulam mais à frente.
A poucos metros de um píer, os remos cessam o trabalho.
— Nós dependemos dela e ela de nós. — Um dos canoeiros fala enquanto vislumbra o verde com olhar de paz.
Helvetia se levanta com a uma corda grossa em mãos e a arremessa com precisão em um dos pilares que se sobressaem um pouco do píer.
— Impressionante. Como sempre! — O outro canoeiro a admira enquanto ajeita o chapéu de bambu amarelado em sua cabeça.
— Com prática fica fácil. — Ela sorri enquanto ajeita o seu chapéu que se destaca em meio aos outros dois.
— Aliás, como faz para conseguir um desses aí? — Shymphony questiona Helvetia, após perceber que muitos homens e mulheres tem chapéus amarelados, mas só ela tem um daquela cor.
Os dois homens ficam em silêncio e com olhar para baixo após a pergunta.
— Sorrir!
Quando a voz de Helvetia toca o ouvido dos canoeiros, eles levantam a face e vislumbram ela sorrindo. A admiração toma conta de seus olhos e boca.
— Como assim? — Agora quem fica curioso é Adão.
— Sorria meu caro felino, mesmo que o inferno toque seu coração. Sorria. — Ela termina de falar já em cima do píer e estendendo a mão para ele.
Por algum motivo que ele não compreende, ela lhe transmite uma paz imensurável. Sorrindo de leve, ele aceita a ajuda e sobe para o píer.
— Bom, você já sabe o caminho. Então ficamos por aqui. — Um dos canoeiros tira o chapéu por um momento para cumprimentá-la.
— Obrigada! Até mais Heitor. — Helvetia o corresponde e se vira indo em direção a areia avermelhada.
Eles nem terminaram de se afastar, e outro grupo já se aproxima dos canoeiros a procura de seus serviços.
— Eles devem ser bem famosos por aqui. — Shymphony fala ainda dando uma última olhada para eles.
— Os melhores. — Helvetia para e se vira de frente para eles enquanto olha para a água ao fundo. — Olhem novamente para o lago, e me dizem o que veem?
Os três se viram ao mesmo tempo, e varrem cada metro a sua frente.
— Faz sentido! — Shymphony é a primeira a perceber.
— Realmente! São os melhores. — Adão concordo enquanto sente seus pelos se arrepiarem.
Sarah observa em silêncio com o olhar fixo nas canoas que são jogadas de um lado para o outro pelas ondas que agora parecem maior do que antes. Os navios ao fundo parecem estar mais distantes do que se lembra.
— Eles não só, sabem traçar as melhores rotas, como controlam perfeitamente o ritmo entre as ondas. Por isso foi tão confortável nossa chegada. — Helvetia explica enquanto vai se virando para seguir caminho.
Adão e Shymphony dão uma última olhada nos dois canoeiros já preparando outra viagem.
Sarah ainda repara em uma canoa que desponta o bico para o alto enfrentando uma onda, e sumindo depois dele. Seu olhar focado se dispersa junto de um suspiro. Então ela se vira para seguir Helvetia.
— Aliás, eles são irmãos né? — Shymphony indaga enquanto dá os primeiros passos na areia.
— Como percebeu? — Helvetia a olha de canto.
— Eles não trocaram palavras em nenhum momento da viagem. — Shymphony responde. — Mas até aí, a experiência também pode fazer isso. Mas quando eles te olharam, da mesma maneira. Não só diz que cresceram juntos, como compartilham os mesmos sentimentos.
— Muito bom! — Helvetia sorri com o olhar observador a frente, algumas barracas surgem primeiro, entre elas algumas trilhas vãs em frente, e logo viram estradas que cortam barracões e casas. E bem ao fundo é possível ver mais arvores.
— Conhece eles desde criança né? — Shymphony também observa as estradas avermelhadas.
— Sim, brincávamos juntos desde pequenos. — Ela para, esperando uma carroça passar sendo puxada por um boi. O homem montado nela, sorri, levanta o chapéu e segue viagem. Mas por um momento o olhar dele de canto não parece nada gentil.
— Foi por isso que você esperou tanto no navio? — Adão tem uma expressão mais séria no rosto após ver o olhar daquele homem.
— Se pegássemos qualquer um, já seria uma viagem difícil. E com todo esse peso, provavelmente afundaríamos em alguns metros. — Helvetia volta a caminhar.
Sarah e Shymphony também perceberam o olhar, e estão mais sérias e concentradas.
Após passarem a primeira barraca, Helvetia para e se vira para eles.
— Podem relaxar. — Ela suspira antes de falar. — A verdade é que não sou muito bem-vinda aqui. —
Ela para de falar um pouco e olha de canto para um lado e para o outro.
— Minha família foi quem fundou essa vila. Por isso se acham no direito de cobrar de cada pessoa que mora aqui, algumas moedas todas as estações.
— Isso explica como você tem tantas moedas. — O olhar de Adão se esconde para o lado.
— Seria o caso, se eu não tivesse sido expulsa. — Agora quem olha de canto é ela. — Mas essas marcas brancas em meu braço, ainda fazem de mim parte deles.
— Por que não esconde? — Shymphony observa novamente as marcas que contrastam com a pele.
— Meus ancestrais sobreviveram ao deserto, e carregavam essa marca com orgulho. — Ela sorri. — Seria uma desonra ao legado deles.
— Eu achei que era por causa do chapéu. — Adão exclama enquanto observa alguns olhares como o de antes vindo para eles.
— Esse chapéu só piora as coisas. — Ela até toca nele e dá uma mexida para cima e para baixo. — Ele é a marca de uma assassina.
Quando essa última palavra escapa, o olhar de Adão e Shymphony voltam a ficar sério, mas agora voltados para ela.
Sarah continua observando de canto algumas pessoas que os observa.
— É uma longa história, mais tarde eu conto a vocês. Vamos? — Ela volta a caminhar, Sarah até pensa em segui-la, mas ao ver os dois ainda parados, desiste. Ela sorri disfarçadamente.
— É difícil confiar em uma pessoa assim… Eu entendo. — Helvetia também desiste da caminhada.
— Não é por que você tenha matado alguém, muito menos o motivo. Mas sim o nível de perigo que estamos nesse exato momento. — Shymphony ainda séria, vagueia o olhar para todos os cantos possíveis. Adão faz o mesmo.
— Ninguém vai nos atacar aqui, realmente podem relaxar. — Ela olha por um momento para Sarah que está mais tranquila que os dois. E depois busca encarar a areia.
— Esses olhares são muito inquietantes. — Shymphony explana voltando a olhar para ela.
— São o olhar de desprezo. — Sarah se pronuncia dando alguns passos na direção de Helvetia.
— Vocês nunca devem ter sentido isso, por Atlântis nãos pergunta seu passado, nem se importa se você é diferente.
Helvetia toca no ombro de Shymphony com leveza enquanto olha nos olhos dela.
— Aqui fora, o mundo te despreza de tantas formas, que se você não for forte, irá cair. — Olhando para Adão, ainda vê ele focado ao redor. — Aliás, eu conheço um lugar que fazem o melhor peixe assado de toda vila.
Sarah até ri de leve ao ver a expressão dele mudar tão repentinamente.
Shymphony encara o chão, perdida em pensamentos.
— Relaxem. Guardem o foco de vocês para quando entrarmos no deserto. — Helvetia volta a iniciar a caminhada, que agora sim, é seguida pelos três.
Caminhando entre pessoas que usam roupas bem parecidas com as de Helvetia. Aos poucos eles vão se acostumando com o lugar, com o movimento, as construções e os olhares.
Uma parada para desfrutar de alguns peixes que foram assados diretamente na brasa enquanto estavam enrolados em folhas longas. Faz Adão se lembrar de quando estava na ilha com Sarah.
Voltando a seguir caminho, agora com a barriga cheia. Adão e Shymphony nem parecem os mesmos de antes. Eles sorriem, provocam um ao outro e até puxam o tecido avermelhado que cobre seus corpos.
Sarah e Helvetia caminham alguns passos à frente.
— Você também não deve ter tido uma vida fácil. — Helvetia deixa as palavras se perderam no ar.
— Nem me lembre. — Sarah joga o olhar para o alto.
— Qual foi o seu problema?
— Inveja! — Sarah olha para ela e volta a olhar para frente.
— … — Helvetia fica sem saber o falar por um momento. — Porquê?
— Por que eu era a melhor. — Ela sorri de leve.
— De fato, isso gera bastante inveja. — Ela olha de canto a adaga e volta a olhar para a floresta quem vem se aproximando a frente.
— No começo eu me sentia mal por ser diferente. Mas depois, percebi que isso que me faz ser tão forte. — Sarah encara a palma de sua mão aberta.
— Você me parece uma pessoa normal. Forte de fato. Tirando aquela sensação antes. Você parece uma mulher normal. — Helvetia olha para Sarah e para seus fios negros que despontam para fora do tecido que cobre sua cabeça.
— Não se engane, eu também sou uma assassina. — Sarah até muda o tom por um momento com a voz mais suave e o olhar mais calmo.
Adão e Shymphony até param a intriga nesse momento, e começam a andar mais centrados e observadores.
— Você teria coragem de matar uma amiga querida?
— Helvetia fala se escondendo por baixo do chapéu. — Pois esse é meu crime imperdoável.
Sarah até sente seu coração parar por um momento enquanto busca olhar ela.
Algumas lágrimas despontam pela pele morena de seu rosto.

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