Índice de Capítulo

    Com um movimento rápido, ela seca a lágrima e estende a mão na direção de Sarah sem se virar.

    — Agora já pode me dar. — A voz de Helvetia sai mais tranquila do que o esperado.

    Sarah pega a mochila, e tira um tecido igual o que está usando.

    — Sério que você precisava passar por tudo isso? — Adão indaga ao vento enquanto para em frente a uma pequena trilha que vai sumindo em meio à mata.

    — Só queria garantir que eles saibam que ainda estou viva. — Helvetia sorri enquanto vai se cobrindo. Então começa a adentrar a floresta pela trilha.

    — Se não tivermos nenhum contra tempo, dá para montar acampamento a beira do deserto antes de escurecer. — Ao terminar de falar, ela faz uma pausa repentina na caminhada e se vira para eles.

    — Acho melhor assumirmos a forma…

    Mesmo antes dela terminar, Shymphony já está assumindo a frente enquanto dá um toque em seu ombro.

    Adão e Sarah também já estão posicionados.

    Helvetia sorri e sente um leve arrepio de empolgação tomando conta do corpo.

    — Será que tem algum Gila por aqui? — Sarah vai lançando olhares curiosos para os lados enquanto seguem caminhada.

    — Eles vivem no deserto, se lembra? — Adão sorri de leve. A cada passo, ele tenta se acostumar com o barulho de alguns galhos quebrando pela trilha a frente.

    — Gila não é aquela raposa? — Shymphony indaga sem se virar. Ela está mais relaxada que os demais.

    — Eu ouvi falar que dos animais no deserto, eles são os mais selvagens de se domar e conseguir montar. — Helvetia também entra na conversa.

    — Eu li que tinham criado alguns por perto dessa vila. — Sarah ainda insiste nos olhares em meio a árvores e arbustos.

    — Foi por isso que você aceitou tão fácil? — Adão olha de relance para a mochila de Sarah e retorna a observar o entorno.

    — Se bem que quando eu era criança, ouvi falar de algo parecido. — Helvetia coloca a mão no queixo enquanto encara o escudo de Shymphony.

    — Qualquer coisa eu uso você. — Sarah lança um olhar sobre o ombro na direção dele, e fica séria por alguns segundos.

    Adão até perde a compostura por um momento, alternando o olhar rapidamente entre a mata e ela.

    Então Sarah ri e solta um pouco ar, voltando a olhar para frente.

    — Ah! Me lembrei. — Helvetia atrasa a passada um pouco para ficar lado a lado com Sarah. — Uma família de mercadores encontrou três Gilas filhotes em algum lugar, e trouxeram para cá. Começaram a criá-los para serem montarias. Eles ganhavam muito dinheiro. Me lembro que tinham uma casa bem grande.

    — Tinham? — Shymphony lança uma olhada bem rápida por cima do ombro

    — Homens, mulheres, crianças, os Gilas e até outros animais. Todos desapareceram da noite para o dia. — Agora o arrepio que ela sente é por outro motivo.

    — Estranho… — Shymphony joga palavras ao ar.

    — Alguns animais são bem rancorosos. Talvez eles tivessem uma mãe, que os encontrou, e devorou todos que estavam por perto. — Adão até muda o tom da voz propositalmente.

    Sarah arregala os olhos para frente e para baixo enquanto faz um bico pro lado com a boca

    Helvetia, ao ver tal reação, vira o rosto e coloca a mão na boca se controlando o máximo que pode, e mesmo assim deixa alguns risos escaparem.

    — Mesmo se fosse o caso. Teria sangue, ou alguém escutaria os gritos. — Shymphony volta a jogar palavras ao ar.

    — A casa deles era um pouco afastada das demais, quase adentrando a floresta. Seria difícil escutar algo sem ter uma audição muito boa. E só velhos ricos moravam por aquelas bandas. — Helvetia retoma a compostura com o olhar vago para frente.

    — E quanto ao sangue? — Shymphony volta a olhar por cima do ombro.

    — Não tinha uma gota, nem sinal de luta. — Helvetia fala enquanto volta a olhar para o escudo. — Pelo menos é o que dizem.

    — Podem ter se mudado para outro lugar. — Adão explana sem perder o foco.

    — É o que a maioria acredita. — Agora é Helvetia quem lança um olhar por cima do ombro. — Parece que eles deviam bastante moedas e mercadorias para muitas famílias influentes da vila, inclusive a minha. E fugiram por causa disso.

    — Sua família e tão ruim assim? — Shymphony fala enquanto se espreguiça para o alto.

    — Eu não falei? — Helvetia olha para os braços torneados dela enquanto faz tais movimentos. — Quem não paga as moedas, são forçados a fazer trabalho escravo por um tempo.

    Sarah até olha diretamente para ela por um momento.

    — Que mania esse povo tem de ficar escravizando os outros. — Shymphony cerra o punho direito que está no alto enquanto termina de se espreguiçar. — Se eu encontro alguém assim, sei não…

    — Eu te entendo. — Helvetia sorri ao ouvir tais palavras. Não foi a única. — Esse foi o motivo de eu ter sido expulsa. Libertei alguns escravos que estavam sendo presos no porão.

    Sarah sorri discretamente.

    O silêncio toma conta após essa fala. Todos ali pensam na mesma coisa, mas nenhum ousa falar.

    E assim permanecem por vários minutos, voltando o foco ao redor da trilha.

    Um assunto ou outro vem à tona por algum tempo, e depois o silêncio retoma.

    Já passa do meio-dia. Os estômagos de Sarah e Adão reclamam há algum tempo, mas nenhum deles ousa pedir por uma pausa.

    Os quatro estão totalmente focados e em silêncio. A tensão toma conta do ar. Suas respirações são lentas e controladas enquanto caminham. Em alguns míseros instantes, um deles lança um olhar para o lado e a volta pra frente o mais rápido possível.

    — Só mais alguns metros. — Helvetia sussurra ao ponto de só os três ouvirem.

    Sem esboçar nenhuma reação, eles continuam.

    Mais à frente, uma pequena clareira se apresenta. À terra avermelhada misturada com algumas vegetações rasteiras, são a única coisa no local.

    — Vamos fazer uma pausa aqui para se alimentar! — Helvetia fala mais alto que o necessário.

    — Ainda bem! Estou com tanta fome que mal consigo andar! — Adão também entra na onda.

    Alguns sorrisos surgem escondidos em meio as árvores.

    Shymphony é a primeira a sentar após fincar o escudo no chão ao lado.

    Os outros sentam ao redor.

    — Acho que eles não conseguem ouvir daqui. — Adão sussurra.

    — Provavelmente ladrões. — Helvetia fala enquanto desenrola o pano que carregava em meio a roda, dificultando a visão de quem está entre as árvores.

    Uma mão desponta por cima de uma moita e aponta para esquerda, e depois para a direita.

    — Cinco? Seis? — Shymphony sussurra enquanto observa o pano de Helvetia se abrir e revelar cordas, pontas de lanças, facas pequenas e médias, alguns frascos com líquidos esverdeados e as estacas de madeiras. Esses são os que ficam mais aparente, existem vários bolsos volumosos escondendo mais coisa nesse pano.

    — Oito ao todo. — Adão exclama sem tirar os olhos do pano. Ele até paralisa por um momento ao ver o que ela tira de um dos bolsos.

    — Se lembra? — Helvetia o indaga sem perder o ritmo.

    Ele acena positivamente com a cabeça.

    — Uma furada, e uma dor aguda imediatamente toma conta do local. Em seguida, o veneno começa a paralisar o alvo até ele cair duro e morrer por falta de ar. — Helvetia fala enquanto vai passando alguns com muito cuidado para eles.

    — É! Você quase morreu mesmo. — Shymphony olha para Adão enquanto pega alguns espinhos alongados que Helvetia lhe dá.

    — Vou ler alguns livros depois. — Ele sorri envergonhado.

    — Finquem eles com as pontas para cima e espalhados. Mas deixem um espaço no meio. — Helvetia é a primeira a fincar um com movimentos disfarçados.

    — Vocês querem comer carne? — Agora é Shymphony que fala mais alto.

    — Cada um vai para um lado. E eu vou ficar bem aqui no meio, indefesa. — Ela até dá uma risada.

    — Tem certeza? — Adão a questiona, enquanto observa ela encaixar algumas pontas de lanças nas estacas, e depois mergulhá-las de leve em um dos frascos.

    — Em campo aberto, eu tenho a vantagem. — Helvetia olha para os três por um momento e retoma. — Consegue ir sem o escudo? — Ela nem olha enquanto fala, de tão focada que está nas pontas das lanças.

    — Sem problema. — Ele é leve, se precisar, não existe em usar. — Shymphony sorri enquanto admira seu escudo.

    — Sarah, você vai primeiro. Depois você Shymphony, e por último você meu caro felino. — Helvetia já começa a enrolar o pano deixando algumas lanças para fora e misturadas com à terra. — Eles devem focar nas mulheres primeiro e depois em você. Então quando entrar na mata, tente ser rápido para ajuda-las.

    — Quando terminarmos, voltamos te ajudar. — Shymphony repara que as mãos dela não estremecem nem por um instante.

    — Deve vir um ou dois no máximo atrás de mim. — Helvetia suspira fundo. — Queria tanto guardar o máximo de suplementos para depois.

    — Espero não precisar matar ninguém — Shymphony suspira olhando para o chão.

    — Se fugirem, será o melhor cenário. — Helvetia explana e olha mais uma vez de relance para a mata atrás de Shymphony.

    — Eles estão parados a algum tempo já. Devem estar esperando a gente começar a comer. — Adão arrasta de leve suas garras na terra.

    — Se tiverem flechas, pode ser um problema, melhor irmos logo. — Shymphony vai se levantando. Helvetia e Sarah fazem o mesmo.

    — Sarah! Você busca lenha. E você, algumas ervas para o tempero. — Após a fala em tom alto, às duas se viram de costas e aos poucos vão se aproximando da mata.

    — Eu vou dar uma olhada por aí, para ver se tem alguém. — Adão também se levanta enquanto fala mais alto. Antes de começar a se afastar, ele dá uns tapas no tronco cheio de água. — Não vá beber tudo em. — Ele sorri enquanto se distancia.

    Helvetia volta a se abaixar, e finge mexer em alguma coisa.

    Após alguns minutos sozinha, arbustos e galhos chacoalham em volta da clareira.

    Ela se levanta olhando ao redor e dá um passo mais largo por cima dos espinhos, se posicionando ao centro.

    O primeiro desponta a pisar na clareira.

    Helvetia o encara com olhar sério.

    Então outros barulhos vêm de todos os cantos ao redor.

    — Tá de brincadeira? — Ela murmura.

    Um após o outro.

    Todos os oito se apresentam.

    Banhados por uma luz frágil de um sol tímido.

    Revelam as linhas brancas em seus braços.

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