Capítulo 107: Inevitável
Voltando vários minutos no tempo
Mesmo antes que Helvetia possa pensar em algo sobre tal situação, se vê obrigada a fazer uma esquiva para baixo. Nesse instante uma flecha corta o ar zunindo. Sem perder o embalo do movimento, ela pega uma das lanças enquanto com um curto impulso, executa um salto vertical.
Sem fazer barulho, uma lança desponta em trajetória rasa, fincando bem aos seus pés. Ainda no alto, ela observa dois homens se aproximando pelas laterais a toda velocidade. Os dois portam adagas brancas, feitas de osso serrilhado.
Quando aterrissa, sem perder um instante se quer, pisa na lança fincada, quebrando-a em duas metades. Uma das partes acaba dando uma saltitada com o impacto. O suficiente para pega-la e arremessa-la enquanto gira.
O sangue esguichando pela boca sufoca mais que a própria lança atravessada na garganta daquele da esquerda que vinha se aproximando.
Um segundo de hesitação do que vinha pela direita, foi o suficiente para ela projetar uma estocada para trás, atingindo bem no meio de sua barriga. Parando-o a um passo dos espinhos.
Em um ato mais instintivo do que pensado, ele força o corpo para trás tentando tirar a lança de dentro dele. Helvetia a suga com força enquanto vai retomando a compostura.
Falhando na tentativa de se libertar, ele busca arremessar sua adaga como último recurso. Só que, em um movimento brusco e curto, ela arranca a lança de sua barriga e estoca novamente na parte inferior do queixo. Esse último movimento, Helvetia faz sem olhar, pois já está encarando o arqueiro a esquerda, que estava prestes a disparar novamente.
O que acaba não acontecendo, tendo em vista sua última tentativa. Procura esperar um momento mais apropriado. Ele lança um olhar para sua esquerda e encara um dos homens com linhas brancas na horizontal no braço. Esse homem acena positivamente com a cabeça, sem tirar os olhos de Helvetia.
Um passo após o outro, o arqueiro, vai andando de costas até desaparecer na mata.
Helvetia já em pé sente um leve incomodo enquanto ouve os últimos gemidos de dor do homem a suas costas. Então ela respira fundo, se agacha, pega as outras três lanças e finca elas bem do seu lado. Os cinco que permanecem, observam cada movimento com atenção.
Ela abre os braços, de chapéu abaixado, e faz um movimento sutil com as mãos, mas um movimento universalmente conhecido como, vem para dentro. Ela o executa olhando para o chão enquanto busca controlar a respiração.
— Desgraçada. — Um deles sussurra enquanto carrega uma espada longa, que parece pesar a cada passo que dá
Aproveitando a deixa, o lanceiro também procura uma passada mais para o lado enquanto aos poucos vai se aproximando mais lentamente que o da espada. Ele caminha como se estivesse seguindo uma linha imaginária que circula a clareira e aos poucos vai indo para o centro.
Os outros três acompanham cada movimento. Dois dos que estão parados, estão lado a lado. Uma carrega um escudo e uma espada curta. E o outro uma alabarda de lâmina curvada
Aquele com as linhas brancas, observa enquanto faz um gesto sutil com as mãos à meia altura, mandando alguém esperar. Após mais alguns passos do homem da espada, o geste muda para um punho serrado. No mesmo instante, o lanceiro acelera suas passadas, disparando em uma corrida frenética circulando a clareira. O que porta a espada também acelera em linha reta se deixando embalar por um coração que acelera centímetro.
O lanceiro ainda porta mais uma lança em mãos e outra nas costas. A que está na mão, é um pouco menor que a anterior que foi arremessada.
A dois metros de Helvetia, o homem levanta a espada confiante.
A um metro dela, quando iria iniciar o movimento de golpear, uma dor aguda força seus pés a ficarem leves e consequentemente perder a base. Antes mesmo que possa cair, Helvetia enquanto se abaixa, posiciona uma das lanças com a ponta para cima e fincada na diagonal. Duas coisas acontecem nesse momento. Outra flecha passa cortando o ar vinda de entre as árvores, e o homem da espada tem seu pescoço perfurado pela lança. Ele não chega nem a cair por completo no chão e fica escorado ali mesmo já sem vida.
Aproveitando a abertura que ela deixou, o lanceiro dispara a que estava na mão. Helvetia não vê outra saída, se não, deitar por completo no chão. A lança passa raspando e cai fincada um pouco a frente. Então ela estica a mão e pega algo que é imperceptível para quem a observa, e se levando fazendo um gesto de arremesso na direção do lanceiro que coloca uma das mãos na frente para tentar defender algo que nem vê.
Todos olham com estranheza por alguns segundos. Mas quando o corpo dele cai no chão se debatendo e sufocando. Os quatro arregalam os olhos, buscando uma pista, um sinal, algo que possa elucidar o que se passa.
— Você não merece essas marcas. — Helvetia fala em alto e bom-tom, lançando um olhar direto para o homem com as linhas brancas no braço.
Ela pega uma das lanças fincadas no chão e a aponta para ele.
— Se quiser, pode fugir correndo contar para eles que falharam. — Ela termina a fala, esboçando um sutil sorriso de canto de boca. O suficiente para ele perder a compostura e tirar duas soqueiras brancas escupidas em puro osso. E com o olhar enfurecido, ele começa a dar alguns passos para frente enquanto equipa elas.
Os outros dois olham um para o outro e após respirarem com calma, também começam a dar passos para frente, eles também exibem linhas brancas em seus braços.
Enquanto se aproximam, não desviam o olhar dela nem por um segundo.
Quebrando o cenário imaginada por qualquer um ali. Helvetia se vira na direção dos dois, pega o escudo e executa um pulo largo para frente, e inicia uma corrida frenética na direção deles. O homem com as soqueiras até paralisa por um momento sem saber como reagir. Mas ao vê-la broqueando a primeira estocada da alabarda, inicia sua corrida sem pensar muito.
Esse foi seu último ato de liberdade.
No metro seguinte já se viu no chão perdendo o controle do próprio corpo e do ar que agora se recusa a entrar.
Com o escudo bloqueando a estocada, e depois um golpe curto e lateral de espada. Ela força a ponta de baixo do escudo contra o escudo dele, e perfurando a madeira, o fazendo grunhir de dor.
No instante seguinte dele abrir a guarda, ela passa uma rasteira, o derrubando, e posicionando o escudo acima da cabeça para bloquear outro golpe da alabarda, agora na vertical.
O que faz o metal do escudo dourado ressoar um pouco além de um escudo comum. O cabo da alabarda vibra, fazendo o homem perder o foco.
Morte!
Esse é o destino daqueles que perdem o foco em momentos como esse.
Com a espada curta que o outro deixou escapar, ela estoca bem na barriga dele com a mão esquerda.
Após tal golpe, ela se recompõe.
Agora olhara para o pobre coitado todo desarmado parada a sua frente.
O olhar dele, não transpassa arrependimento, nem medo.
— Muito bom! — Ela fala baixo, mas o suficiente para ele ouvir.
Enquanto levanta a guarda para um último combate. Ele vislumbra o impensado até esse dia. Sua própria espada sendo lançada contra si. Com um gingado ligeiro para o lado, até desvia dela, mas não do que se sucede. Um golpe com a face do escudo dourado bem na face. A última coisa que vê, é a árvore esculpida nele.
Já no chão, buscando ver algo sem conseguir abrir o olho direito. Ele mal sente o metal atravessar a garganta e separar a cabeça do corpo.
Deixando o escudo fincado ali mesmo. Helvetia se levanta, e caminha lentamente para o centro da clareira. E como um último ato, pega uma lança, e finca bem no peito do homem que já estava morto a alguns segundos.
Esse último ato foi presenciado por Adão, Sarah e Shymphony.
Seus olhares ficam focados nela.
Seus corações começam a desacelerar.
Seus punhos relaxam.
E a respiração já agora está de volta ao que sempre foi.
Helvetia respirada profundamente enquanto relaxada os ombros.
— Por que demoraram tanto? — Ela sussurra para si mesma encarando o corpo no chão com as mãos ainda trêmulas.

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