Capítulo 109: A caça
Um passo.
Um estralo.
E um puxão.
É tudo que Sarah percebe antes de apagar por completo.
Eles mal podem fazer algo a não ser assisti-la sendo puxada pelos pés por uma corda. Quando atinge um galho bem no alto, um sino começa a tocar ecoando pela região.
Adão já prepara um impulso com as garras à amostra.
Helvetia agachada, abre seu pano às pressas em meio as pedras, folhas e galhos.
Ao mesmo tempo, de uma outra árvore, um tronco vem despencando decorado por pontas longas de madeira. Amarrado por uma corda, ele se direciona para onde Sarah está pendurada.
Adão agora, na base da árvore, começa a escalada enquanto observa o tronco se aproximar. Mesmo com toda sua força, ele sente que tudo está em câmera lenta, menos o maldito tronco.
De repente seu olhar vê o brilho dourado cortar de baixo para cima o tempo quase paralisado. E no instante seguinte, se colocar entre Sarah e sua morte.
Shymphony segurando o escudo com o punho para cima e colado no ombro, absorver o impacto e é lançada, sumindo entre as árvores, moitas e rochas.
Antes que o tronco possa se quer pensar em retornar para finalizar o serviço, Adão já está terminando o movimento de cortar a corda com as garras. E um segundo após o corpo dela começar a despencar, ele a agarra e cai suavemente no chão como um bom felino faria.
Quando ele ainda termina de amortecer a queda, lança um olhar para o lado, e vislumbra Helvetia terminando de disparar uma lança para o alto. Nos segundos que se sucedem, ele vai retomando a compostura com Sarah em seus braços, e direcionando o olhar para o alto.
O barulho do sino cessa em meio a sua queda. Helvetia se esforça para encontrar um bom posicionamento. E como alguém que apanha uma fruta com a camisa, ela deixa o sino dormir em meio aos tecidos avermelhados.
Um respiro de alívio é tudo que ela precisa para relaxar o ombro.
Adão vai colocando Sarah deitada em um espaço que acabou de limpar.
Shymphony surge em meio a alguns arbustos com olhar frenético e a respiração ofegante. Ela finca o escudo no chão enquanto se abaixa e começa a controlar a respiração. Ao ver Sarah aos cuidados de Adão, se tranquiliza e varre o ambiente com olhar atento. Logo encontra Helvetia repousando o sino com cuidado no chão.
— Como ela está? — Shymphony indaga voltando o olhar para ele.
— Desmaiada, mas viva. — Ele vagueia o olhar da testa sangrando de Sarah, primeiro para o pano aberto no chão e depois para Helvetia. — Ela precisa de curativos.
Dois segundos foi tudo que ela precisou para olhar para Sarah, e entender o que precisa fazer. Enquanto corre até seu pano, lança um olhar de canto para Shymphony e repara em um corte perto do olho direito dela.
As mãos dela se movem com tanta agilidade, que Adão até se impressiona.
Nem trinta segundos se passam e ela já tem o cantil de água aberto em uma mão, e dois panos pequenos na outra, um deles foi banhado por um líquido esverdeado e decorado por algumas ervas.
Primeiro ela derrama a água sobre a ferida que corta a lateral direita da testa na diagonal. E em seguida limpa ela com o pano seco, e por último, repousa o outro pano por cima.
— Pegue ela com cuidado para não derrubar o curativo. — Ela fala sem olhar para Adão, e já se virando de volta na direção de seus equipamentos. — Você também! Vem cá. — Ela fala chamando Shymphony com a mão.
Adão com Sarah nos braços, se aproxima enquanto observa a cara de dor que ela faz enquanto é atendida, até sorri de leve por um momento. Mas rapidamente deixa a distração de lado enquanto varre o ambiente ao redor com o olhar e a audição.
— Menos inimigos para se preocupar por hora. — Helvetia explana ao ar, já fechando seu pano e o colocando nas costas. — Agora, precisamos encontrar um esconderijo urgente. — O olhar sério dela não deixa dúvidas de tal urgência.
— Deixa virem, eu dou conta. — Shymphony exclama em voz baixa, ainda com uma leve expressão de dor, e segurando o curativo com uma das mãos.
— Você não está entendendo. Se não nos escondermos agora, não terá um amanhã. — Ela encara no fundo do olhar violeta. — Ele já percebeu a alguns segundos. Isso significa que não temos muito tempo. — Helvetia já está tomando a dianteira em meio a algumas árvores.
Adão a segue com passadas cuidadosas.
— Do que ela está falando? — Shymphony já ao lado dele, o indaga.
— Não tem barulho algum desde que o sino parou de tocar. — Ele continua focado no ambiente ao redor.
Shymphony então presta um pouco mais de atenção em busca de algum som, e quando não encontra nenhum, se sente nua em meio a uma floresta escura. Um calafrio vem subindo pelo corpo e seus pelos se arrepiam.
— Os animais sempre se adaptam para fugir de seus predadores. — Helvetia explana ao vento em um tom baixo e com passadas mais aceleradas que de costume. — O silêncio é sempre a primeira coisa a se fazer.
— Mas nesse caso, provavelmente eles devem ter reagido ao sino e não a tal predador. — Adão vagueia o olhar para Helvetia e a vê devolver o olhar, e depois volta para o ambiente.
— É um padrão, primeiro o sino, depois a morte. — Helvetia já olhando para frente, toma todo cuidado para não fazer barulho.
— Entendi! — Shymphony olha para Sarah e depois para o chapéu avermelhado que dança atrás de uma moita.
— O problema, é que eles não são meros predadores. — A voz de Helvetia fica distante por um momento, o que obriga Adão e Shymphony apertarem a passada a travessar as moitas a frente com mais velocidade. Adão até levanta Sarah um pouco por cima das folhas.
Ao atravessarem para o lado de lá, já não encontram mais Helvetia em lugar nenhum. Por um instante sentem o coração quase pular para fora da boca.
— Aqui! — A voz vem de trás de uma rocha maior a esquerda. Primeiro aparece o chapéu, depois ela. — Rápido! Venham. — Ela faz um movimento com a cabeça os chamando e logo some novamente.
Ao darem a volta na rocha, encontram ela abaixada ao lado de um vão. Largo o suficiente para elas passarem rastejando.
Nesse ínfimo momento.
Um som feral quebra o silêncio da floresta.
Não um rugido.
Mas sim um lamento.
Tão apavorante e macabro. Que faz com que queiram largar tudo, e apenas correr, para onde quer que seja.

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