Capítulo 118: A Raposa e os Coelhos
Diferente de tantas outras.
Dessa vez, o véu silencioso que cobriu toda a plenitude deles.
Não trouxe conforto, muito menos segurança.
Mal pode se dizer que adormecer, foi algo plausível.
Pequenos momentos de folgas para os olhos, foram os únicos luxos permitidos.
Os primeiros raios de sol ainda nem tocaram a copa das árvores, e os quatro já se encontram no solo, se preparando para retomar a jornada. Sarah balança a adaga com fervor em busca de derrubar alguns pernilongos que azulinaram seu ouvido a noite toda.
— Vamos logo! Antes que esses demônios me deixem sem sangue. — Helvetia termina de falar vendo o pequeno borrão de sangue que ficou no tronco da árvore após matar um que nem era mais capaz de voar.
Shymphony e Adão são os afortunados que não precisam se preocupar com tal problema, cada um à sua maneira.
Ela emitiu uma pequena vibração com a mão a noite toda, o suficiente para nenhum chegar perto. Já a pelagem de adão se torna uma barreira natural.
— Mesmo toda coberta, eles ainda encontram brechas. — Helvetia até acelera a passada para deixá-los para trás quanto antes.
Enquanto caminham entre árvores tão grandes quanto a que usaram a noite, Helvetia observa que Adão olha com estranheza para o chão da mata, curiosa, também procura fazer o mesmo e logo entende o que se passa na mente dele.
— Não vai ter! — Ela fala olhando para ele.
— Faz tanto tempo assim? — Ele a indaga.
— Provavelmente semanas. — Helvetia joga as palavras ao ar voltado a olhar para frente. Shymphony está se aproximando de uma área que tem menos vegetação rasteira e mais pedras.
— Ontem mal dava para enxergar as árvores ao redor da toca. — Ele fala mais para ele mesmo que para qualquer um enquanto vê alguns fios de vapor escorrer para cima por entre as folhas no chão.
— Se quiser entender melhor, é só subir em uma dessas árvores e olhar para onde estávamos ontem. — Helvetia faz uma pausa na caminhada enquanto observa uma árvore ao lado e corre o olhar até lá no alto. — Aproveita, e olha em todas as direções para ver se estamos indo na direção certa se possível.
Enquanto ele faz a escalada, elas aproveitam para repor os cantis.
— Você nunca passou por aqui? — Shymphony questiona Helvetia após beber uma dose contida.
— As poucas vezes que atravessei, foram sempre para o noroeste da trilha que estávamos. — Helvetia responde agachada ao lado do tronco que Adão deixou para trás. Na mão, ela segura uma rolha que serve para tampar o buraco que usam para repor os cantis.
— Porquê? — Shymphony volta a indagar. Ela agora tem sua atenção voltada para Adão que vem descendo igual um verdadeiro felino.
— É mais prático explorar o deserto a partir de lá por causa dos Fai-Fai. — Ela também o observa descer.
Sarah que estava até então mais concentrada nele, volta sua atenção para Helvetia após ouvir tal nome.
— Que azar! Seria bem mais rápido com eles. — Shymphony exclama vagando o olhar primeiro para o chão e depois para Adão que já está de volta. — Apesar de que dificilmente, algum aguentaria ele. — Ela sorri de leve ao ver algumas folhas e galhos presas entre os pelos negros.
— Foi o que pensei. — Helvetia termina de tapar o buraco, e começa a beber um pouco.
— Só tem por lá? — Sarah indaga ainda olhando para Helvetia.
— É que lá fica uma fonte de água que eles usam como local de descanso após a migração. Aí é mais fácil cria-los naquela região. — Helvetia responde transitando o olhar dela para Adão que já está se cobrindo novamente.
— Ela cobre só a região mais próxima do lago. — Adão solta as palavras ao vento enquanto se aproxima para também repor seu cantil.
— Como a humidade por lá é maior, é mais fácil de se formar. — Helvetia complementa a fala dele, enquanto em direção a Sarah.
Shymphony já está de pé e pronta para continuar, então começa a procurar algo atrás de pedras e debaixo de árvores.
— Acho que já está bem melhor! — Sarah faz uma careta enquanto Helvetia volta a examinar sua ferida.
— Você se cicatriza bem rápido em! — Ela observa as cascas já bem rígidas sobre a testa dela.
— Minha mãe dizia que é porque eu sempre pratiquei bastante esportes. — Agora é Sarah que passa a mão na ferida.
— Esportes? — Helvetia a indaga indo na direção de Shymphony, que vem voltando com um galho bem cumprido na mão.
— Como eu posso explicar? — Sarah se indaga em voz alta.
— O que você quer? — Agora quem faz a careta é Shymphony.
— Era de se esperar! Se tratando de você. — Helvetia sorri ao ver que o corte no rosto dela sumiu por completo. — Você não tem nenhuma cicatriz?
Então Shymphony muda sua expressão, olhando vagamente para baixo, enquanto começa a levantar a túnica e desamarrar a lateral da armadura que protege o abdômen e depois levanta a regata de couro.
Helvetia é pega de surpresa com a visão.
Adão desvia o olhar, procurando algo distante de mais para existir ali.
Sarah também não pôde deixar de observar.
— O que fez isso? — Helvetia a indaga estendendo a mão, mas se contendo enquanto admira a cicatriz sobre o abdômen marcado.
— Uma raposa aí. — Shymphony esboça um sorriso de boca fechada enquanto vê a luta interna de Helvetia.
— Existe raposa capaz de fazer isso? — Ela se aproxima um pouco mais para analisar detalhadamente cada centímetro da ferida. Três rasgos na diagonal cortam os músculos desenhados.
— Tem uma que pode fazer muito mais do que isso. — Shymphony lança um olhar rápido para Adão e depois volta para Helvetia ao sentir um pouco da respiração dela tocar a pele da barriga. — Pode tocar. — Ela fala olhando para baixo levemente envergonhada.
Ela nem termina de falar e já pode sentir os dedos dela correndo por cima da cicatriz.
— Interessante! — Helvetia sussurra para si mesma, e logo vai retomando a compostura. — Então até mesmo vocês podem se ferir para valer. — Agora ela esboça uma expressão pensativa.
— Sim! Más só eu fico com cicatrizes. — Shymphony fala enquanto volta a equipar a armadura e faz um bico com a boca para o lado.
— Adão, o que mais você conseguiu ver? — Helvetia se vira para ele que já está com o reservatório nas costas e pronto.
— Infelizmente só consegui ver mais e mais árvores. — Ele suspira de leve enquanto vê ao fundo que Shymphony já está se cobrindo com a túnica.
— Obrigada! Vamos então! — Ela aponta a direção para Shymphony que faz a frente. Sarah se junta a ela no meio da formação e Adão novamente na retaguarda, atento como sempre.
Os três voltam a procurar por galhos enquanto desviam de uma árvore que aparenta estar caída ali a mais tempo que podem imaginar. Algumas centopeias se alastram pelo lugar como se estivessem avisando, que aquele território já tem dono.
Mais à frente, as pedras voltam a ficar escassas, dando lugar a uma vegetação rasteira mais densa. Shymphony se vê obrigada a usar o escudo a frente para ir abrindo passagem.
Alguns buracos dificultam ainda mais o trajeto.
O barulho de animais correndo pelas moitas ao redor, fazem eles dobrarem a atenção. Em um determinado momento, Adão vislumbra algumas orelhas brancas despontarem em um canto e depois sumirem indo na mesma direção que eles.
Mais à frente, uma nova clareira ganha forma, ela não é muito grande, e diferente das outras que encontraram, essa tem uma vegetação que se estende rasteira por todo o lugar.
Shymphony é a primeira a parar enquanto observa alguns movimentos a frente. Ela também repara nas flores brancas e pentagonais que desabrocham entre as folhas verdes.
— Que raro. — Helvetia deixa as palavras escaparem enquanto olha várias das mesmas orelhas que Adão viu se movendo de um lado para o outro em meio a clareira.
Em um momento, algo mais além das orelhas, desponta de entre as folhas. Um coelho branco de olhos vermelhos some tão rápido quando aparece.
Vendo que aparentemente não tem tanto perigo a frente. Shymphony começa a adentrar o lugar. O que faz os pobres animais se dispersarem para a mata,
Helvetia a acompanha.
Adão vem se aproximando enquanto repara que Sarah está parada à beira da clareira. Ao se aproximar e ficar lado a lado, ele repara nas mãos dela que estão juntas como se estivesse orando, e com os olhos fechados. A princípio ele estranha, mas pensa em seguir. É então que ela se ajoelha perante a clareira deixando uma lágrima escorrer pela bochecha. Nesse momento, ele não consegue encontrar nenhuma palavra que se encaixe na situação.

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