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    O vento que deslisa sutilmente pelas árvores e pelas moitas, é o mesmo que toca a pelugem branca dos pequenos que se dispersam às pressas. Um deles, percebendo que hoje não foi um bom dia para estar ali, muda de rota bruscamente enquanto acelera ainda mais.

    Hoje a refeição será outra.

    Primeiro ele é visto pela visão periférica de Shymphony e Helvetia. Adão é quem realmente o observa por inteiro antes de todos.

    Pelagem avermelhada como o deserto, tão grande quanto alguns animais de carga que trafegam por Atlântis. Ele mastiga sua presa já despida do véu da vida, enquanto lança um olhar de canto para a clareira após perceber alguns vultos por lá.

    Mas tudo que seu olhar focado e orelhas pontudas percebem, são os resquícios de algumas folhas se mexendo. Desconfiado, começa avançar alguns passos para dentro da clareira após largar sua presa ao solo.

    Com o focinho abaixado, ele fareja entre a vegetação rasteira a procura de algo mais.

    Poucos metros o separam. O ar que circunda o ambiente traz consigo um leve aroma salgado com algo mais que ele aprecia.

    É então que um som agudo penetra de pôr entre as árvores até alcançar a todos ali. Nesse momento, os corações se recusam a funcionar por um mísero momento. Não para ele, que parece entender o sinal, e até balançar o rabo com mais intensidade. Logo inicia uma corrida até a presa que largara a pouco, e mais rápido do que apareceu, desaparece por entre as árvores.

    Foi preciso alguns minutos até que eles percebessem a ausência de tal criatura.

    Helvetia levanta a cabeça ainda desconfiada, mas aos poucos vai se recompondo e voltando a respirar normalmente. Os outros acompanham na mesma reação que parecem ter ensaiado por muito tempo.

    Adão foca a audição procurando algum perigo pelas redondezas, mas não encontra nada que chame sua atenção.

    — Aquilo era o que eu penso? — Sarah ainda de joelhos, indaga ao vento olhando para o horizonte entre as árvores.

    — Provavelmente! — Adão a responde enquanto pisa para dentro da clareira.

    — Vocês também viram? — Helvetia pergunta enquanto vem caminhando na direção de Adão, e lançando o olhar entre ele e a Sarah ao fundo que está abaixada fuçando na vegetação da clareira.

     — Sim, e ainda duvido um pouco da veracidade. — Adão responde olhando para Shymphony que também vem se aproximando mais ao fundo, e depois observa por cima do ombro os movimentos estranhos de Sarah.

    — Pelos relatos, não era para ter nenhum por aqui. — Helvetia solta as palavras ao vento enquanto encara uma das flores entre seus pés.

    — Aquilo com certeza foi um assobio. — Shymphony se junta a Helvetia e também estranha ao ver a Sarah se entranhando entre a vegetação da clareira.

    — Será que era um daqueles da sua história? — Após lançar a pergunta para Helvetia, ele também se pega olhando para baixo. — Será? — Esse sussurro escapa da boca dele mais como um ar expulso do que uma fala.

    — É uma possibilidade! — Helvetia agacha e arranca a flor, então a cheira com cuidado.

    Quando Shymphony observa a Helvetia, ela até abre um pouco a boca antes de falar.

    — Ei, essas não são flores de batatas? — Ela também se abaixa para dar uma revirada na vegetação.

    Quando Adão escuta essa pergunta, ele primeiro expulsa um pouco de ar de forma repentina, e então aos poucos vai surgindo um riso que vai tomando conta do corpo como um todo, ele até coloca a mão na boca para tentar inutilmente conter a crise.

    Helvetia e Shymphony olham para ele com estranheza, mas ao verem ao fundo que Sarah já está em pé carregando em ambas as mãos, várias batatas ainda com folhas, raízes e terra. Elas se entregam e se juntam a Adão. Os três se deixam cair sentados no chão enquanto riem, e tentam recuperar o ar.

    — O que foi? — Sarah os indaga inutilmente, com o cabelo cheio de folhas enroscadas, alguns pedaços da vegetação enroscados no véu.

    — Aiai! — Helvetia está quase conseguindo se recompor. — Vamos aproveitar e pegar algumas também. Dificilmente teremos outra oportunidade.

    — Ei Sarah! Cuidado! Os Gilas amam caçar os animais que comem batatas em. — Shymphony se esforça mais do que de costume para se levantar enquanto seca uma lagrima prestes a escorrer.

    Adão após arrancar um pé o encara por alguns segundos.

    — Como você pode gostar tanto disso? — Ele analisa cada centímetro das raízes cheias de terras e algumas batatas pequenas escondidas no meio. — Peixe é muito melhor!

    Sarah não faz nem questão de respondê-lo, sua única preocupação no momento e terminar de limpar as que pegou e guarda-las.

    — Um tatu! — Shymphony aponta para um canto enquanto vem retornando.

    Imediatamente Sarah levanta as batatas bem alto enquanto lança um olhar serrado na direção. Quando percebe que não passa de uma mentira, ela suspira aliviada enquanto procura Shymphony com os olhos serrados. Mas ao encontrar só as pernas dela pedalando para o alto em meio a vegetação, também se entrega e solta um sorriso bem tranquilo.

    Após revirar por vários minutos, eles enchem a mochila de Sarah com o máximo que ela consegue comportar. Satisfeitos e com as mãos sujas, retomam a caminhada, porém, diferente de antes, há uma leve tensão a mais no ar, o suficiente para eles mal conversarem por várias horas.

    Passando por partes extremamente rochosas, e depois mais e mais árvores, eles encontram uma pequena lagoa com a água mais cristalina do que esperavam encontrar por ali. Aproveitando o achado, eles lavam as mãos, e deixa a sensação de frescor húmido tomar conta dos rostos.

    Voltando a seguir em frente, agora a vegetação rasteira já não se faz mais presente, e as árvores começam a diminuir de tamanho a cada dezenas de metros. Algumas aves que sobrevoam o local, pousam no topo de uma moita bem alta de cactos, e começam a bicar algumas frutas avermelhadas que se destacam ali.

    — Vamos aproveitar e fazer uma pausa! — Helvetia fala enquanto levanta o chapéu um pouco para olhar para o alto e para as frutas.

    — Pelo visto, estamos quase chegando! — Adão observa o horizonte enquanto se senta em uma pedra.

    — É comestível? — Shymphony solta a pergunta ao vento enquanto para bem ao lado de Helvetia e encara o mesmo que ela.

    — Mandacaru! São bem suculentas! — Ela responde observando uma bem lá no alto.

    Shymphony então se aproxima da base dos cactos e após limpar os espinhos com o escudo. Ela espalma uma das mãos em contato com o tronco verde. Alguns segundos depois, e os primeiros frutos começam a despencar enquanto as pobres aves se veem obrigadas a ceder e levantar voo.

    Helvetia sai correndo de um lado para o outro tentando pegar algumas antes de se chocarem com o chão. Shymphony faz o mesmo. Adão e Sarah observam a distância às duas dançarem de forma apressada em volta dos cactos.

    Depois de alguns minutos, elas voltam com uma parte da túnica envergada e cheia dos frutos. Apartir da primeira mordida, todos concordam que valeu apena o esforço delas e agradecem enquanto lascam mordidas cada vez mais vorazes.

    De barriga cheia e preguiçosos, os quatro se encontram largados ao lado de pedras com os olhares vagos e distantes, cada um com seus pensamentos.

    — Apartir de agora, o clima será um problema mais grave. — Helvetia quebra o silêncio ainda deitada, usando seu bornal como travesseiro e o chapéu na cara para tampar a claridade.

    — E como vimos antes, os animais tanto do deserto quando da floresta podem aparecer. — Adão complementa, deitado de lado em uma pose que parece posar para uma pintura.

    — É melhor seguirmos em frente mais um pouco e preparar um acampamento antes do anoitecer. — Helvetia se força a ficar sentada e lança mais um olhar para o horizonte a frente. — Hoje será a última noite antes daquele maldito lugar.

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