Capítulo 120: Mata a alma e envenena
Deslizando sorrateiramente pelas entranhas cada vez mais obscuras da floresta, passos leves avançam enquanto dançam entre arvores, folhas, raízes e clareiras.
Quando o tumulo dos derrotados começa a se despir perante os olhos daqueles que buscam vingança.
A primeira coisa que se apresenta, é o cheiro pútrido que vem junto com o vento.
Em seguida, abutres e hienas se debatem enquanto dividem o banquete.
Ao fundo, um urso-pardo termina de arrastar seu por entre as moitas, enquanto some, lança um último olhar que corta a clareira e atinge os recém chegados.
Um dos homens aponta em uma direção, em seu pescoço, e possível ver uma vermelhidão com alguns hematomas.
Desviando com campo aberto, eles seguem pela esquerda. Arcos, lanças, adagas e espadas curvas balançam com o leve trote que se inicia.
Os mantos se misturam com a floresta de tal forma, que quanto eles param ao lado de uma arvore ou entre uma moita, mal dá pra se dizer que de fato ali estão.
As cicatrizes aparecem e somem por debaixo dos capuzes e das armaduras de couro.
Chegando ao ponto onde Sarah enfrentou os mercenários, um deles devia o olhar com tristeza para um canto onde um bando de mariposas amareladas se acumula sobre sangue seco misturado a folhas e terra.
Retomando o foco, ele segue em silêncio pela retaguarda tentando acompanhar os outros quatro. Seu arco tremula enquanto seu punho cerrado emite o barulho de dedos estralando.
O crepúsculo começa a cobrar seu preço, e a visão antes clara, começa a obscurecer. O encapuzado de puxa o bando, busca por rastros, e sinais de sua caça.
Passos são dados.
Estrelos são ouvidos.
E o homem que corria mais desgarrado a esquerda, se vê sendo puxado enquanto grita.
Nesse momento, mesmo antes do sino tocar, a floresta se cala.
Todos ali se espantam a princípio, ficam horrorizados em seguida, enquanto começam a assumir uma postura agitada com olhares para todos os cantos ao som da melodia que toca lá do alto.
E por último, sentem em seus corações o mais profundo e desnudo dos sentimentos ao perceberem que estão sendo observados.
Um deles começa a ter um ataque de pânico, coisa que nunca teve. Seus pulmões abnegam de função tão primordial, seus olhos encaram aqueles dois pares de bolas amarelas com tanto medo, que seu extinto entre correr e não se mover entram em conflito.
Quando ele consegue desviar o olhar para o lado por um segundo, encontra um de seus companheiros agachado e com a cara enterrada entre os braços. Mais ao lado, aquele que antes estava na retaguarda, agora é o único ali, com olhar convicto enquanto aponta o arco em um ato de pura heresia e abandono do senso comum. Mais ao fundo, o último deles desponta pela mata enquanto corre com tanta velocidade, que nem aparenta mais ser um mero humano.
No instante seguinte, quando ele volta a olhar para as criaturas à espreita, percebe tarde demais sua falha, um deles não está mais ali enquanto o que ainda está, já deu alguns passos em sua direção. É então que um grito de sofrimento corta a floresta vinda da direção por onde aquele tentou fugir, mas ele não ousa desviar o olhar ainda com falta de ar.
Uma flecha corta a obscuridade cruel desse mundo e atinge em cheio aquele pequeno círculo amarelo, a perfuração faz a fera grunhir de dor e se debater. Por um ínfimo momento, o mais fino dos raios de esperança atinge aqueles pulmões renegados, o fazendo retomar o controle de seu próprio corpo.
Foi o suficiente para puxar um pouco de ar e o soltar em forma de uma fala seu último ato.
— Corre! Agora!
Então ele segura sua espada curva com o que lhe resta de força e inicia uma investida.
Aquele que está agachado, até ousa levantar o rosto para presenciar a última cena de sua efêmera vida. Seu companheiro está a poucos passos de alcançar aquela abnormalidade que termina de arrancar a flecha enquanto solta mais um grunhido de dor. O olhar dele até começa a ganhar vida novamente junto de seus joelhos que já não tremulam.
Como se fosse uma foto tirada diretamente do mais desleal filme de terror, ele presencia primeiramente um vulto despencar do alto de uma árvore, caindo sobre seu companheiro, a espada dele já abandonada, cai para o lado e morre fincada ao solo junto de seu dono. O pequeno fio de esperança, já não existe mais em sua existência.
Então já em pé, ele relaxa o corpo. Seus fios negros e compridos esvoaçam com a ventania que tomou conta da floresta e acelerou a melodia. Ele respira tranquilamente como se nada mais ali fosse uma ameaça. Desviando olhar esmeralda das duas criaturas a sua frente, ele desce até sua adaga presa a cintura e sorri aliviado enquanto solta o ar e fecha os olhos por um momento. Então novamente os abre buscando o herege, mas nada encontra.
— Que bom. — Ele sussurra enquanto fecha novamente os olhos.
Uma terceira criatura despenca de outra árvore o esmagando em definitivo.
Aquele que começa a se adaptar à nova dor, enche o pulmão de ar com tudo que tem.
O arqueiro já a algumas dezenas de metros dali, escuta um rugido furioso abalar as estruturas da floresta. Seus fios negros balançam com a corrida, ao contrário da flecha em sua mão. Seu desejo de encontrar algo que possa usar para se salvar, parece algo que só um milagre pode resolver.
Agora que o rugido se foi, o som solitário e já longínquo do sino e a única melodia a ser ouvida por agora. A cada pedra ultrapassada, e moita cortada ao meio, ele sente seu tempo se esgotar.
É então que ele vê. E isso o faz parar sem acreditar enquanto retoma o fôlego.
Um tatu se enfiando em uma toca debaixo de uma pedra.
Sem muito o pensar, ele se aproxima ao perceber que consegue se enfiar ali rastejando.
Ao chegar lá dentro, se depara com o pobre tatu protegendo suas batatas a todo custo. Sem se importar muito com ele, o arqueiro volta seu foco para a abertura por onde passou. E fica assim por vários e vários minutos.
No campo periférico, ele percebe a movimentação do anfitrião carregando seus tesouros para um buraco no fundo da toca. Aquela cena o faz sorrir de boca fechada, mas ainda não ousa desviar o foco.
Depois de mais de uma hora, já não dá pra se ouvir mais nenhum som em lugar nenhum. Só o barulho do vento chiando entre as pedras, arrastando algumas folhas e balançando a copa das arvores.
Começando a relaxar, ele finca a flecha que está segurando no chão à sua frente, e coloca o arco curto ao lado dela. Sentado com uma perna esticada e outra dobrada, retira um pequeno saco cinza de uma pequena bolsa de couro presa a cintura. Depois de abri-lo, ele derrama uma espécie de farofa amarelada na mão. Misturada a ela, partes traseiras de formigas dão um toque de requinte para o prato.
Depois de mandar uma mãozada para dentro, ele a guarda e volta a observar a entrada da toca. Em algum momento da noite, sente algo molhado que faz cocegas na mão que usou para comer. Sem movimentos bruscos, ele se vira para ver o motivo, e volta a sorrir ao ver o tatu ali em busca de um alimento mais refinado.
Então ele compartilha um pouco de sua farofa, e aproveita para fazer carinho no casco dele, que aparenta gostar. Já em seu colo, o animal que a pouco terminou de lamber sua mão, se aconchega para tirar um cochilo enquanto recebe um merecido cafuné.
— Então foi assim que eles escaparam disso — Ele fala com o tatu enquanto observa o buraco cavado com resquícios de vela. — Acho que dessa vez foram umas três vidas. — Termina a fala sorrindo e olhando o tatu já dormindo de lado.
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