Capítulo 122: O Deserto que se apresenta
— Antes de partirmos, preciso redefinir as coisas a partir de agora. — Helvetia está de pé no limiar entre a floresta e o deserto. Ela começa falando ainda de costas para eles e olhando a imensidão avermelhada a frente, mas vai se virando para eles.
— Até aqui, tudo o que fizemos foi correr e se esconder dos animais. O único enfrentamento real foi com humanos. Conseguimos poupar o máximo de mantimentos e energia que deu. — Ela encara cada um deles no fundo dos olhos enquanto levanta o punho na frente de seu rosto e o fecha.
— Agora vocês terão que lutar, se for recuar, que seja para pegar impulso! Não existe hesitação, não existe esconderijo, só areia e sangue. — Ela faz uma breve pausa na fala enquanto se volta para o deserto e observa ao fundo um gigantesco escorpião dourado se levantar em meio a primeira duna, então abaixa o olhar que vai de encontro com quatro lanças fincadas frente a seus pés.
— Se o sangue será de vocês ou deles, cabe a cada um escolher. — Com um movimento rápido agarra as lanças e dá o primeiro passo. — Mal posso esperar para ver quais armas novas eu criarei. — Ela mais sussurra para si mesmo do que fala.
Quando chegam a pouco mais de cem metros do escorpião que faz movimentos estranhos de um lado para o outro, outro aparece e depois mais um. Nem mesmo segundos foram necessários para eles começarem a se digladiarem.
— Prestem atenção! Esses são machos lutando pelo território. Deve haver uma fêmea por perto a espera do resultado. Quando ela aparecer será a nossa deixa. — Helvetia foi a primeira a parar, e explana a situação enquanto observa atentamente a batalha feroz.
— Quantas vezes você já viu essa situação? — Shymphony a indaga enquanto observa de canto de olho, Adão colocar o reservatório no chão sobre a túnica que já não o esconde mais e começar a se transformar.
— Duas vezes, e eram só dois lutando. Sem contar que esses daí estão bem crescidos. — Ela para a explicação ao ver que um dos escorpiões saltou duas vezes seu tamanho e caiu por cima de outro enquanto finca o ferrão no meio das costas dele. Logo um líquido esverdeado começa a jorrar para todo lado junto de um grunhido de dor selvagem.
— Eles fazem isso mesmo? — Sarah também não consegue tirar os olhos de cada movimento. Ela já deixou para trás os cantis médios junto do seu pequeno e sua bolsa. Ao ver tal ação, até segura com firmeza a adaga ainda na bainha presa a cintura.
— Nunca vi algo assim… — Helvetia até faz um bico para o lado com a boca. Nesse momento o outro escorpião que avia sumindo para baixo da areia a pouco, agora reaparece bem por baixo daquele que já derrotou um. Com movimentos rápidos de pinças, ele desfere um golpe, mas o outro salta novamente caindo a alguns metros de distância. — Isso daí eu já vi.
— Tudo isso por causa de fêmea? — Shymphony até sorri de leve já com o escudo preso ao braço direito.
— Tenho pressentimento que não será uma fêmea qualquer. — Helvetia procura um pouco de ar a mais que o normal. Seu coração já está mais acelerado que de costume. Com a mão direita aperta a coxa com força enquanto segura as lanças com a esquerda. Seu bornal já repousa na areia a suas costas.
Adão se junta a eles enquanto esperam o desfecho.
Um dos escorpiões até tenta se soterrar novamente, mas o outro, com um salto mais baixo, porém mais rápido na horizontal o alcança e o prende com uma das pinças. Ao tentar se desvencilhar, o outro acaba perdendo uma de suas pinças, mas sem grunhido ou lamento, ele aproveita a proximidade esguichar um líquido translúcido que ao entrar em contato com a carapaça do outro, começa a derrete-la.
— Eles não estão para brincadeira. — Shymphony larga as palavras ao vento, e com o olhar focado, procura não perder nenhum detalhe.
— Esse veneno é bem forte, mas ele costuma derreter só partes orgânicas. — Helvetia olha de canto para Adão e depois para Shymphony.
— Só? — Agora é Sarah que solta as palavras ao vento.
— Quando a fêmea aparecer, Adão será a distração, só corra primeiro e chame a atenção. — Ela olha para ele em meio a fala e vê que ele consente com a cabeça sem perder o foco.
— Shymphony irá na sequência, fazendo frente para Sarah com escudo, quando chegar perto, use quele seu ressoar, não deve derrubar, mas com certeza vai atordoá-los. Aproveite para desferir um golpe se possível. — Helvetia fala lançando um olhar par o escudo e o punho dela e depois se virando para Sarah.
— Seguindo o que disse, seu papel será apunhalar elas nas juntas entre a carapaça e os membros, e energiza-los por dentro. Isso deve apaga-los ou até matar quem sabe. — Ela termina a fala e volta a ver como anda a luta. Mas não consegue ver nada a não ser o cadáver do primeiro.
— Eles colaram um no outro e rolaram duna a baixo para lá. — Shymphony a deixa a par da situação.
Mas antes que alguém possa dizer algo mais, aquele sem uma pinça retorna solitário para cima da duna e profere um rugido que ecoa por todo o lugar.
— Se preparem! Eu farei a retaguarda a distância. — Helvetia cerra os punhos e começa controlar a respiração.
O silêncio toma conta do ambiente por quase vinte segundos até que a duna ao lado começa a desmanchar e um escorpião roxo escuro quatro vezes maior que os anteriores, começa a emergir sob a areia e se levantar de forma colossal.
É então que uma risada corta o clima, logo se transforma em gargalhadas.
— Aiai! — Shymphony não faz nem questão de se conter.
Sarah então solta uma bufa de ar e se junta a ela na gargalhada.
— Poxa vida! Arrumei um grupinho bem maluco das ideias mesmo. — Helvetia sorri enquanto sente a confiança tomar conta de seu corpo. Ela até percebe de leve um sorriso na boca daquele felino.
— Se você não me proteger direito, vou fazer carinho naquela coruja viu. — Sarah deixa as palavras sumirem por entre as dunas.
Shymphony sessa o sorriso e risos imediatamente.
— Se esse deserto não te matar eu mesmo o faço! — O olhar violeta dela volta a ficar focado a cena a sua frente. Quando o escorpião fêmeo faz contado com o outro, eles começam a dançar de um lado para o outro enquanto o macho a toca com a pinça que sobra.
— Agora! Vão! — Ela mal dá o comando e um vulto negro desponta pela frente. Shymphony espera alguns segundos e também desponta seguida de Sarah. Por último, Helvetia corre a toda buscando um bom posicionamento, quando vê uma pena branca do tamanho de seu braço cair ao seu lado. Buscando olhar para cima ela os encontra. — Bem na hora! — As palavras escapam de sua boca.
Lá no alto, três aves brancas, duas vezes maiores que Orpheus, planam de forma circular sobre o local, prontas para participar do banquete.
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