Índice de Capítulo

    — Que tipo de arma será?

    — Eu fiz a mesma pergunta para Sylphie, e ela disse que é uma surpresa.

    — Se uma arma dessas cair nas mãos erradas, até Atlântis pode sofrer. — Ely volta a observar uma das espadas na mesa dos jovens.

    — Uma coisa é ela ser capaz disso, outra coisa é conseguirem. — Lyanna coloca a mão na bolsa e tira algumas moedas de bronze dela.

    — Verdade, só de lembrar da última final. E pelo que eu saiba, ela nem é a mais forte. — Ely também busca algumas moedas de bronze em um de seus bolsos.

    — Mas ela evoluiu muito, e esse ano vai estar mais forte ainda. — Lyanna coloca as moedas sobre a mesa. — Aquelas ondas de choque fizeram até meu corpo vibrar por um momento.

    — Eu me lembro bem daquele golpe. Aquele guerreiro quase resistiu, mas no fim sucumbiu como todos os outros. — Ely também coloca as moedas sobre a mesa. — Como era o nome dele mesmo?

    — Alguma coisa Susia. Ele era bem resistente. — Lyanna começa a contar e empilhar suas moedas.

    — Na semifinal ele aguentou três o atacando ao mesmo tempo, e aos poucos derrotou um por um. — Ely já tem as suas empilhadas.

    — A cor de cabelo dele era bem incomum para as pessoas que vem daquele reino. — Lyanna finaliza sua contagem.

    — Ruivo com mechas roxas… — Ely se perde em lembranças por um momento. — Ele era bem bonito.

    — Quem era bonito? — Helvetia retorna, já se sentando enquanto observa os montinhos de moedas das duas. — E o que vocês estão fazendo?

    — Estávamos falando de um participante de Atlás da primavera passada. — Lyanna observa a expressão de dúvida no rosto dela.

    — Vixe, nem me lembra disso. Levei a maior bronca por não conseguir ajudar nos atendimentos. — Ela coloca as mãos nos bolsos, mas não sente nada além da pedra que recebeu.

    — Você era a curandeira que deu para trás? — Lyanna coloca a mão na boca.

    — Não tive culpa, eu estava prestes à captura-lo. — Helvetia se debruça sobre a mesa. — Eu dei a minha palavra a ele, e esqueci totalmente. — Sua voz sai abafada.

    — Mas agora você conseguiu. E falando nisso, cadê as escamas? — Ely já vai direto ao ponto.

    — Eu quero também. — Lyanna até chega bater a mão na mesa de leve.

    — Aiai. Eu esqueci na bancada de trabalho. — Helvetia levanta a cabeça com o olhar vago. — Mas se você me emprestar essa faca agora, eu consigo retirar um monte bem rápido e já aproveito para testar ela nos ossos.

    — Muito perigoso, só esse tempo que ela está comigo, já é um risco muito grande que estou correndo.

    — Estamos correndo. — Ely complementa. — Vamos fazer assim. Eu vou com a Hel até lá. Ela pega as escamas e testa a faca, e eu trago a faca de volta para a guilda.

    — Não resta muito o que fazer mesmo. — Lyanna olha para Ely. — Conto com você.

    Ely sorri confiante, enquanto Helvetia a encara com desconfiança por um segundo.

    — Bom, tudo certo então. — Helvetia pega uma das moedas de Lyanna. — E sobre isso?

    — Ahh. — Ely também pega uma de seu monte. — Toda primavera, nos juntamos algumas moedas e apostamos em quem vai ser o vencedor de Atlás. Se alguma de nós acertar, fica com todas as moedas.

    — Pena que dessa vez eu só tenho algumas de bronze. — Lyanna até retorce a boca um pouco.

    — Pelo visto, esse ano a aposta será magra para nós duas. — Ely também estampa um olhar triste.

    — Eu achei que vocês ganhavam bem na guilda. — Helvetia devolve a moeda com rapidez.

    — Eu não consegui trocar muitas mercadorias esse verão. — Ely até suspira.

    — Eu acabei comprando algumas mercadorias interessantes que apareceram recentemente. Esgotei minhas economias. — Lyanna também suspira.

    Após observar aquelas duas, quase como se estivessem de luto. Helvetia quebra o silêncio.

    — Eu tenho uma proposta. — Sua fala chama o olhar das duas para ela. — Eu dou algumas escamas para cada uma de vocês. Vocês vendem ou trocam, e então, usam isso para aposta.

    Os olhos delas brilham de emoção.

    — E para completar, eu também quero participar. E Irei colocar na aposta, não só mais escamas, como também vou colocar vinte quilos de carne e alguns ossos do carvão de sangue, e mais algumas moedas de ouro. — É possível até ver a própria luxúria nos olhos dela.

    De boca aberta, às duas ficam em silêncio por alguns segundos.

    — Se é assim, a aposta terá que esperar, para conseguirmos encontrar algo a altura para apostar. A aposta precisa ser justa. — Lyanna rapidamente esconde as moedas na bolsa.

    — Concordo. E até sei o que irei apostar. — Ely sorri enquanto observa seu bolo de moedas.

    Helvetia e Lyanna a encara com os olhos centrados e brilhosos.

    — Quando chegar a hora, vocês verão. — Ely pega devagar suas moedas e coloca em um bolso.

    — Senhoritas, aqui está o pedido. — Touka em pessoa aparece. Atrás dele, dois homens fortes, um de cada lado, trazem uma grande bandeja de prata coberta com uma grande tampa arredondada de madeira.

    Ely é a primeira a sentir o cheiro.

    Após arrumar a mesa, a bandeja repousa sobre ela.

    — Senhorita Helvetia, em nome da nossa produtiva parceria. Os pedidos que às duas fizeram, é por conta da casa essa noite. — Touka fala com a voz tão macia, que massageia o ouvido delas. — Depois passem na recepção para pegar de volta o pagamento. — O rosto moreno e simétrico dele se destaca em contraste ao uniforme branco.

    — Chefe, aqui está! — Makae chega carregando uma grande garrafa de vidro avermelhada.

    — Obrigado, já ia me esquecendo. Esse vinho vindo diretamente dos campos infinitos, é um presente pessoal meu para as belas senhoritas. — Touka repousa a garrafa sobre o canto da mesa com cuidado.

    — Você sabe como cortejar uma dama. — Lyanna até levanta a sobrancelha. O que faz os rapazes ali até ficarem envergonhados.

    Às três riem de leve da situação.

    — Com sua licença. Bom apetite.

    Touka se despede e já vai se retirando do local. Helvetia observa de relance a pele clara de Makae mais uma vez.

    — O que vocês pediram? — Ely já vai tirando a tampa e a colocando no canto da mesa.

    — Camarão ao molho. — Lyanna já vai petiscando um.

    — E de acompanhamento. Filé de carvão de sangue.

    Nesse instante, é a voz de Helvetia que soa divina.

    — Mentira! — Lyanna até desiste do camarão, enquanto engarfa um pedaço daquela carne extremamente dourada.

    — Nunca tive dinheiro para comer se quer um pedaço. — Ely não fica para trás, já com um pedaço em mãos.

    — Como eu vendi por um preço bem baixo para Touka, ele deve ter feito isso em agradecimento. — Helvetia se junta a elas, para saborear sua presa.

    — Essa é a melhor coisa que já comi em anos. — Lyanna fala de olhos fechados.

    — Não na vida? — Helvetia até olha para ela nesse momento.

    — Os bolinhos que minha vó fazia, eram as coisas mais gostosas que já tive o prazer de comer. — Lyanna até se perde em lembranças por um momento enquanto encara um camarão.

    — E do que eram feitos? — Ely fala de boca cheia, o que tira um sorriso bobo de Helvetia.

    — Feitas com centeio negro, que só nascem durante o degelo. Elas forram as campinas como se fossem um manto peludo e preto.

    — Deve ser um prato bem típico de lá.

    — É bem cobiçado. Mas por conta dos Raranynx, é sempre um risco tentar coletar.

    — Raranynx? — Agora quem fala de boca cheia é Helvetia.

    — Pense neles como, grandes gatos, peludos e com chifres.

    — Porque eles são um perigo?

    Enquanto às duas até param de comer para conversar. Ely aproveita cada segundo.

    — Eles usam exatamente os campos de centeio como ninhos.

    Lyanna faz uma pausa para beber um pouco de vinho e retoma.

    — Eles só se reproduzem durante o degelo daqueles campos. Se acredita que até trocam de pelagem nesse período?

    — Eles devem ser bem territorialistas nesse período.

    — Sim, além de territorialistas, como eles ficam com os pelos negros, se tornam quase invisíveis em meio ao centeio.

    — Faz sentido.

    — Mas os filhotinhos deles são tão bonitos. — Lyanna encara o copo de madeira em sua mão. — Minha vó achou um filhote abandonado, e o criou. Por causa disso, ela conseguia colher centeio em uma campina próxima de casa.

    — Era o território dele. — Helvetia parece se interessar mais pela história do que pela carne. — Sua vó tirou a sorte grande pelo visto.

    — Sim, ela cuidou dele até morrer. — Os olhos de Lyanna até brilham humedecidos. — Sempre vinha até nós na época de gelo. Eu fazia carinho, e até montei nele uma vez. Mas infelizmente nossa casa foi atacada por… — Ela pausa a fala por um momento e retoma. — Criaturas abomináveis, e minha família acabou morrendo. — Ela vira seu olhar para o céu estrelado. — Eu fui a única sobrevivente.

    — Sabe, mais cedo um homem falou sobre demônios e tal. Essas criaturas abomináveis…

    Helvetia é interrompida.

    — Sim. Mas ninguém acreditou em mim. Falaram que fomos atacados por um bando de Raranynx, como castigo divino por termos roubado um dos filhotes deles. — É possível ver a mandíbula dela marcar a pele.

    — Mas esses deuses? — Ely pula no meio da conversa.

    — Reza a lenda, que à terra congelada ao norte, depois do Estreito de Ragnarok, e habitada por deuses que lutam dia e noite para impedir o avanço de demônios contra a humanidade.

    — Acreditar que demônios realmente atacaram vocês, seria como trair a crença nos próprios deuses. Estou certa? — Helvetia esboça um semblante sério.

    — É como trair a confiança que todo um povo deposita em seus deuses. — Lyanna busca um camarão. — Eu era muito nova para entender isso.

    — Mas são só lendas né? — Ely até para de comer um pouco. — Se eles existissem de verdade, esses tais demônios, não atacariam sua família.

    — Sim… — Lyanna volta a se perder em pensamentos enquanto vai degustando o camarão. — Mas eu tenho um sentimento estranho, que algo me protegeu naquele dia. Eu sinto um calor aconchegante quando lembro disso.

    — Agora entendi tudo, você quer esse veneno para se vingar desses demônios. — Helvetia fala com convicção e pega um copo para si.

    — Se for verdade, deve haver um demônio primordial naquela terra congelada. Eu só quero estar bem preparada para caso isso seja real. — Lyanna vira o copo de uma vez.

    Helvetia após beber um gole, fica observando a madeira da mesa com olhar vago e distante.

    Ely também compartilha desse olhar vago e distante.

    Um silêncio estranho toma conta do local por um momento.

    Quando então, elas escutam um alvoroço, vindo de diversas mesas.

    Ao olharem para o mesmo lugar que eles. Pequenos balões feitos de papel, começam a surgir dos mais diversos cantos da Atlântis. Eles tomam conta da paisagem noturna. E são refletidos nos olhares delas. E começam a ser carregados pelo vento na direção do lago, que como um espelho infinito, reflete a luz delas criando uma pintura sem fim.

    Helvetia observa Ely de canto de olho.

    Os punhos cerrados. O olhar mais sério que de costume.

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