“A câmera não enxerga como a gente. Ela é mais honesta”, Daniel costuma dizer Daniel costuma dizer enquanto limpa suas lentes com uma flanela de microfibra, tratando o vidro como se fosse a córnea de um ser vivo. Luna sempre guardou essa frase em um canto especial da memória. Para o mestre, a lente não tem traumas, preconceitos ou filtros emocionais; ela apenas recebe a luz e a organiza. No entanto, Luna sabia que a honestidade da câmera dependia do dedo que apertava o disparador, e o seu dedo andava inquieto, quase trêmulo.

    A fotografia sempre esteve presente na vida de Luna como uma extensão de seus próprios sentidos. Ela não sabe exatamente por que, mas, desde que se lembra, sente uma urgência em registrar coisas fugazes, pequenos fragmentos de existência. Ela possui um montão de fotos que, na prática, só ela entende — arquivos digitais e negativos que guardam segredos visuais.

    Algumas coisas a atraem nos momentos mais aleatórios principalmente, as árvores. Verdes vibrantes de primavera, floridas em explosões de cores, secas e esqueléticas no inverno, tortas pelo vento ou mortas e cobertas de musgo. Não importa o humor da natureza, Luna as encontra. Ela olha para uma janela bonita com a tinta descascada. Uma sombra que parece outra coisa. Um rosto no azulejo. Ela olha e o momento está ali.

    Desde a última conversa com Gabriel, no entanto, ela se sente estranhamente inquieta. Está fotografando mais do que de costume, como se precisasse provar algo para si mesma ou para o silêncio dele. Luna sabe, no fundo, que a foto que ele criticou não estava tecnicamente impecável; as sombras estavam pesadas demais e o foco havia se perdido por um milímetro.

    Então por que foi tão difícil aceitar a crítica? Ela sempre gostou de ser questionada, achava o debate artístico divertido e necessário. Talvez o problema não fosse a crítica em si…, mas o crítico.

    O horário do almoço foi o único momento em que Luna se sentiu minimamente estável naquele estranho desconforto. Gabriel saiu para comer e o estúdio só reabriria dali a uma hora e meia. Enquanto esperava, sentada em sua mesa rodeada por memórias impressas, ela olhava o relógio na parede de madeira. Ela não conseguia entender por que uma leve excitação continuava dançando dentro dela, uma ansiedade que a fazia tamborilar os dedos na mesa sem perceber.

    Do outro lado da rua, em um pequeno restaurante de azulejos brancos e comida caseira, Gabriel observava o seu prato. A comida fora servida, mas a fome simplesmente não apareceu. Através da janela, ele olhava os transeuntes, todos apressados, escondidos em seus casacos, correndo para as próprias vidas. Gabriel sentia, há muito tempo, que não pertencia a lugar nenhum. Ele era um estrangeiro em sua própria pele.

    Ficou tentado a voltar mais cedo para o estúdio, atraído por um imã que ele se recusava a nomear, mas algo prendia sua garganta. Parecia medo — e ele não sabia exatamente do quê. O medo de ser visto? O medo de sentir o cheiro de café e o calor? Por fim, permaneceu ali, imóvel, preso nos próprios pensamentos cinzentos enquanto o mundo passava em cores saturadas lá fora.

    ***

    — Para onde envio as fotos editadas? — A voz de Gabriel, baixa e firme, rompeu o silêncio que se arrastou até metade da tarde como uma névoa espessa. O silêncio só não era absoluto porque o rock nacional continuava tocando nos alto-falantes de Luna, criando uma trilha sonora de nostalgia que parecia vibrar nas paredes de madeira centenária.

    Daniel, vez ou outra, aparecia na sala para fazer comentários aleatórios sobre o grão de uma imagem ou tentar piadas rápidas para quebrar o gelo, mas a plateia não se deixou cativar. Bianca e Marina cochichavam no fundo do estúdio, imersas no caos organizado de um grande pedido de roupas temáticas que chegaram cedo. O som de zíperes e tecidos sendo dobrados era o único contraponto à tensão entre as mesas centrais.

    — Salva como “pasta finalizada”. O Daniel envia para a impressão — Luna respondeu sem desviar os olhos do monitor, tentando soar distante e concentrada. Ela se esforçou para que sua voz não tremesse, mas seu coração quase saltava pela garganta a cada vez que ouvia a cadeira dele ranger. Droga de coração. Qual é o seu problema? Pensou, sentindo as bochechas esquentarem.

    Perdida em pensamentos e na análise minuciosa de um histograma, ela não percebeu o movimento dele. Gabriel se aproximou em silêncio, como uma sombra que se alonga. O sol da tarde, agora posicionado do outro lado da janela lateral, batia diretamente no rosto de Luna. Era uma luz de outono, amarela e cruel, que a obrigava a manter a testa franzida e os olhos semicerrados pelo calor claro demais.

    Sem dizer nada, ele esticou o braço. Luna viu a mão dele cruzar seu campo de visão e puxar a cortina de linho. A luz agressiva se dissolveu instantaneamente na trama do tecido e ela emergiu na sombra suave. Por um instante que pareceu durar uma eternidade, os olhos se encontraram. Luna se perdeu na profundidade daquele olhar, esquecendo-se por completo da foto que estava editando.

    — A luz estava forte — Gabriel justificou-se, o tom formal e quase defensivo, antes de soltar o tecido e voltar a se sentar.

    A música Eu nunca disse adeus começou a ecoar no estúdio, e Gabriel sentiu-se novamente arremessado ao passado. A letra falava de coisas não ditas e de partidas sem retorno, e ele desejou, por um momento, poder se desligar de alguns sons, de algumas memórias que insistiam em latejar.

    Luna examinou o momento em silêncio. A luz estava forte? O sol nem chegava perto da mesa dele. Ela não sabia o que pensar; tudo parecia estranhamente fora do lugar.

    — Você sempre fala assim? — Luna questiona, rompendo a nova barreira de silêncio.

    — Assim como? — Ele pergunta, os olhos fixos na tela, os dedos imóveis sobre o mouse. Por dentro, ele já começava a se arrepender do gesto da cortina. Foi um impulso inconsciente que saiu de lugar nenhum. Aquilo aconteceu antes que pudesse considerar melhor as consequências.

    — Como se estivesse corrigindo tudo. — Ela responde, ainda olhando para ele, buscando aqueles olhos que se recusavam a encará-la.

    — Eu só falo o que vejo — ele responde de forma displicente, retomando o trabalho com uma rapidez mecânica.

    A resposta pairou no ar, pesada como chumbo. O corpo de Luna estava em brasa, a adrenalina da pequena confrontação correndo por suas veias. Fala o que vê? E ele, por acaso, está me vendo? Ela não conseguia entender. Como ele conseguia ter aquele efeito devastador sobre ela sem dizer quase nada? Era como se Gabriel fosse um enigma que ela precisava fotografar para compreender, mas a luz nunca era a certa.

    O resto da tarde passou devagar, com os ponteiros do relógio parecendo lutar contra a resistência do tempo.

    — Ótimo trabalho, pessoal — Daniel despediu-se da equipe reunida na sala, fechando seu escritório com o habitual ranger da porta.

    Luna, Bianca e Marina conversavam descontraídas sobre onde iriam jantar, rindo de alguma bobagem que Bianca dissera, mas Gabriel não participou. Ele organizou sua mesa com uma meticulosidade silenciosa. Após os “até amanhã” de praxe, Luna e Marina saíram primeiro, conversando enquanto entravam no carro. Antes de dar a partida, Luna olhou pelo retrovisor.

    Gabriel saiu do estúdio logo em seguida. O rosto sério, mais do que o habitual. Ele parecia envolto por uma nuvem densa, uma aura de melancolia que parecia anunciar chuva. A postura era reta, quase militar, mas havia algo nos ombros dele… uma leve inclinação que sugeria que ele estava fazendo uma força hercúlea para mantê-la. Luna sentiu uma vontade avassaladora e irracional de descer do carro e abraçá-lo. Parece que ele carrega o mundo nas costas e ninguém nunca se ofereceu para ajudar com o peso, pensou, sentindo um nó na garganta.

    O céu de Curitiba estava naquele momento poético em que não é mais dia, mas ainda não é noite; um azul cobalto silencioso e familiar. Gabriel buscou esse instante de transição o dia todo, o único momento em que se sentia parte da paisagem. O frio cortante tocou seu rosto e os pelos dos braços se arrepiaram. Está com pouca roupa, reparou, sentindo-se frustrado consigo mesmo pela distração.

    Colocou as mãos nos bolsos da jaqueta, buscando algum calor para os dedos, e seus dedos encontraram algo inesperado. Algo frio, fino e delicado. Ele puxou o objeto com cuidado, temendo que se partisse. Era uma flor amarela com as bordas amassadas e secas. A mesma que ele havia resgatado dos fios escuros dela naquela manhã, num impulso que ele ainda não sabia explicar e que se recusava a analisar.

    Gabriel passou suavemente as pontas dos dedos pelas pétalas murchas, sentindo a textura da planta que Luna tanto amava. Observou-a por um segundo a mais do que deveria, deixando que a cor amarela contrastasse com o cinza da calçada sob a luz do poste. Sem pensar muito, como se quisesse esconder um segredo de si mesmo, guardou-a de volta no bolso, protegida.

    E seguiu seu caminho solitário por entre as sombras das árvores. Agora, estranhamente, sentindo-se um pouco mais quente.

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