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1. LUZ DA MANHÃ
O Estúdio Âmbar fica numa casa antiga que parece lembrar de mais coisas do que qualquer pessoa ali dentro. O cheiro intenso da madeira centenária preenche todo o espaço. O pé direito alto oferece um amplo vislumbre do teto trabalhado em finas ripas brancas, decorado com elegantes lustres vintage em todos os cômodos.
Lindas venezianas avermelhadas guardam grandes janelas de madeira de lei, permitindo que a luz natural invada cada canto da casa. As paredes amareladas, agora decoradas com fotografias de várias épocas, exibem vincos profundos e marcas de outro tempo, enquanto o mobiliário e o chão lustroso parecem sussurrar histórias.
Luna tem o hábito de chegar cedo. Para o carro na vaga sempre disponível naquele horário; o motor demora alguns segundos para se acalmar. Um Fusca 89 amarelo, mais antigo do que ela, mas ainda um tanto novo em relação à casa. Parados ali, carro e casa parecem voltar a um momento do passado. Luna já fotografou a dupla tantas vezes, em tantos climas. Mesmo assim nunca parecem ultrapassados
Ela caminha apressada pela calçada de paralelepípedos. Passa a mão pelos arbustos que ladeiam o caminho de pedras até a porta. Gira a maçaneta e entra. Envolta pelo calor da casa, atravessa o hall em direção à mesa de trabalho com o assoalho rangendo sob os pés.
Daniel já está no escritório — um antigo quarto não muito grande, situado dentro da sala em que Luna trabalha e iluminado por arandelas de bronze. Uma vasta coleção de câmeras fotográficas antigas preenche os pequenos nichos de uma estante de madeira que domina a parede. Uma escrivaninha espaçosa posicionada à frente e um sofá de camurça marrom encostado no parapeito da janela completam o ambiente.
— Bom dia, Chefe — Luna cumprimenta Daniel, sorrindo. Passa pelo escritório dele e pendura a bolsa na cadeira.
— Bom dia, Luna! — O chefe responde, olhando-a rapidamente, e volta a organizar a coleção de fragmentos de âmbar sobre a mesa.
Luna fecha os olhos, inspirando profundamente como se o cheiro de casa velha fosse o combustível necessário para mais um dia de trabalho. Abre as janelas para ver como a luz decide entrar hoje; a claridade nunca entra do mesmo jeito. O ranger das janelas soa como uma melodia antiga. A câmera fotográfica no pescoço parece já ter criado raízes ali. E a luz do sol pinta de ouro as pontas onduladas do longo cabelo escuro enquanto ela se inclina para o clique.
— Fotografando poeira de novo? — Daniel pergunta, saindo do escritório com o aspirador de pó nas mãos. As mangas dobradas revelam antigas tatuagens; ele parece jovem demais para aquela casa secular.
— Claro — responde Luna, estreitando os olhos sem tirá-los dos raios de sol que iluminam o velho assoalho.
O peso leve da câmera sob os dedos, o contraste gelado do metal contra a pele quente… Luna observa os pequenos grãos flutuando em meio ao brilho solar. Sorri enquanto captura o precioso momento onde o invisível ganha vida ao ser exposto à luz certa. O calor aquece seus dedos e o reflexo no chão ganha um novo clique.
Algumas pessoas acreditam que fotografias capturam momentos; Luna sabe: elas salvam coisas prestes a desaparecer.
A sala em que Luna trabalha é grande. A mesa posicionada estrategicamente perto da janela. Do outro lado, fica uma estação desocupada para edição. O lugar está desocupado desde que ela começou a trabalhar lá, às vezes até se pergunta se já não deveria ter sido ocupado por alguém que fale a mesma língua que ela. Editar fotos requer atenção e um olho treinado, que ela tem, mas prefere usar para capturar os momentos.
Um grande arco de madeira separa o ambiente do hall de entrada — espaçoso, decorado com um tapete generoso, poltronas de couro confortáveis e plantas, muitas plantas, que Luna faz questão de adicionar mais uma de vez em quando.
— Por que não tem cheiro de café? — Luna questiona, ainda hipnotizada pelo sol. Olhos atentos buscando detalhes.
— Marina vem mais tarde hoje — diz Daniel, enquanto limpa o saco do aspirador. — O café vai demorar um pouco mais.
— Ah, não! — Os ombros dela caem, ela se senta. A testa franzida dramaticamente.
Sua mesa de madeira antiga exibe as marcas do tempo e do uso. Ali, pilhas de fotos, cartões de memória, post-its e lentes competem por espaço com o monitor. O teclado e o mouse só aparecem quando o trabalho exige. O único lugar imaculado possui uma fotografia. Na foto uma árvore de ipê está no centro. Flores amarelas cobrem o chão e um grande gato laranja se esconde entre elas.
Capturada há cinco anos, numa época difícil. Para Luna, a foto é um lembrete de como a vida pode ser bonita independentemente da estação. Ela observa a foto. Uma pontinha de felicidade surge nos lábios lembrando que temporada dos ipês está prestes a explodir. Se fechar os olhos consegue sentir a textura felpuda das vagens, a maciez das flores sob os pés descalços, a rugosidade na palma das mãos.
O silêncio da manhã é rompido pelo som de saltos finos. Bianca entra no estúdio, impecável: bolsa combinando com os sapatos e um conjunto preto de calça e blazer, cuja gola se transforma em um laço elegante. O cabelo, em um tom de vermelho profundo, cai sobre os ombros em ondas milimetricamente modeladas contrastando perfeitamente com a cor dourada de sua pele. Antes que se aproxime mais o perfume já tinha dominado toda casa empurrando novamente para as paredes o cheiro de madeira antiga.
— Bom dia, Luna. — Bianca cumprimenta, analisando o caos sobre a mesa. Os olhos fixam os de Luna por um breve momento. Então descem analisando toda extensão do corpo dela. Quando chega nos pés, ela ergue as sobrancelhas e enruga o nariz — Ah! Bom dia, All Star surrado.
Luna espera, pacientemente. A análise acontece sempre, desde muito antes de trabalharem juntas. Se conheceram na faculdade, Bianca fazia Design de Moda, enquanto Luna fotografia. Desde então, a análise se tornou completamente natural.
— Bom dia, Bi. E não é surrado, é vivido! Deixe o meu calçado em paz, tá bom? Chata! — Luna se defende revirando os olhos.
— Você sabe que fotógrafas sérias usam salto, né? — Bianca cruza os braços.
— Eu nem consigo pensar de salto, Bianca. — responde Luna rolando o scroll em busca da música perfeita. Clica numa faixa e Vilarejo da Marisa Monte preenche a manhã. Agora, ela se concentra em sentir a melodia.
Luna ama o que faz e entrega o coração ao trabalho, mas lidar com o perfeccionismo alheio às vezes cansa. Para ela, fotografar é liberdade, e ela veste esse conceito da cabeça aos pés.
— Bom dia, Bianca. Você sabia que, antigamente, uma fotografia podia levar horas para existir? Imagina pedir para alguém sorrir por tanto tempo? — Daniel observa, parado em frente à porta do escritório, a parede abarrotada de fotos em preto e branco. Pessoas que não existem mais, lugares que ficaram no passado, mas que ele, por sorte, os tem eternizados.
— Sabe o que eu acho? — Bianca o encara, irônica. — Você deveria fazer um painel com todas as suas frases filosóficas e colocar no escritório. Como um papel de parede. Quem quisesse saber, era só ler. — Ela tenta, mas não consegue entender a obsessão que ele tem por coisas “velhas”.
Daniel sorri, balançando a cabeça. — Bianca, o que seria de mim sem minha filosofia, hein?
— Continuaria sendo fotógrafo — ela diz, apontando para a parede abarrotada como se fosse a coisa mais óbvia na prateleira de obviedades.
A ausência de cafeína já mostra os efeitos. Luna entende Daniel como ninguém. Quando entrou pela primeira vez no estúdio, sentiu-se instantaneamente atraída, como um gato quando vê uma coberta macia. Depois da primeira conversa com o mestre, já não se via trabalhando em nenhum outro lugar. A conexão de ideias foi imediata; até o nome do estúdio afugentou a insegurança dela. Ali era um lugar totalmente seguro para aprisionar os momentos dentro de uma fotografia.
Luna levanta rápido. A jaqueta de couro roça forte a costura nas costas com o atrito contra a cadeira e ela sente um arrepio.
— Vou deixar os irmãos brincarem de infância. Preciso de um café. Posso ir à cafeteria? — ela pergunta a Daniel, que agora encara a irmã.
— Eu quero! — Bianca e Daniel dizem em uníssono, quase competindo, olhando-se de soslaio.
Daniel tem 58 anos: é alto, tem cabelos grisalhos, um sorriso cativante e olhos expressivos. Bianca tem 30; nasceu quando ele já tinha a própria família. A diferença de idade nunca foi um problema, mas as picuinhas de irmãos acontecem com frequência. Daniel ajudou a moldar a irmã no que ela é hoje. Desde pequena, Bianca era a própria definição de garota mimada; como Daniel não pôde ter filhos, supria a irmã e os sobrinhos com tudo o que podia.
— Um preto puro e um cappuccino — Luna afirma e sai, desviando da dupla em debate.
Ao atravessar a porta de entrada do Estúdio Âmbar, o vento gelado alcança suas bochechas. Passa pelas pernas cobertas apenas por uma meia-calça e um short que vai até a metade da coxa. A jaqueta bloqueia um pouco do frio, mas ela não se importa em senti-lo. Luna recebe a luz brilhante e gelada com uma reverência. O céu, de um azul quase pálido, exibe poucas nuvens, e o cheiro de café fresco que vem da cafeteria a guia como uma entidade protetora.
As singularidades das manhãs de Curitiba evocam em Luna a necessidade de fotografar. A câmera balança em seu peito: um pequeno lembrete de que tudo ali fora está prestes a desaparecer.
Menos as coisas que ela decide salvar.

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