Planeta Terra, 2025.

    Um homem por volta dos seus trinta e poucos anos permaneceu imóvel diante da janela do nono andar, fixando o olhar no céu além do vidro. A Tcam, maior empresa tecnológica da cidade, ocupava aquele edifício inteiro. Era o início de um novo ano. Os dedos dele repousavam sobre o parapeito, sem pressionar, sem se afastar. Apenas ali, como se precisasse de algo sólido para ancorar os pensamentos que se acumulavam.

    O que, afinal, havia feito de sua vida até então?

    “Ei, ei… KAI!!!” A voz alterada trovejou pelo ambiente.

    Kai piscou uma única vez. Virou o rosto devagar, ainda processando a interrupção. Will estava de pé ao lado da mesa dele, os braços cruzados, as sobrancelhas franzidas numa expressão que já era familiar.

    “Você não estava me escutando?” questionou, sem elevar o tom, mas carregando peso suficiente para deixar claro que esperava uma resposta honesta.

    “Não.” Kai ergueu os ombros num gesto quase defensivo, desviando o olhar de volta para a paisagem além da janela. “Você tinha falado alguma coisa?”

    Will estreitou os olhos, inclinando a cabeça levemente para o lado.

    “O que está acontecendo?” A voz dele perdeu a irritação anterior, substituída por algo mais próximo da preocupação. “Você costuma ser focado, mas hoje está tão distraído que nem parece a mesma pessoa.” Fez uma pausa. Os ombros desceram, e o peso nos braços cedeu. “Sou o seu melhor amigo. Se estiver com algum problema, eu vou te ajudar.”

    Kai forçou um leve sorriso, mas não conseguiu sustentar por mais de dois segundos.

    “Não é nada importante.” As palavras saíram rápido demais, quase tropeçando umas nas outras. Eu espero pensou, apertando os dedos contra o parapeito da janela. Não queria preocupá-lo com algo que nem ele conseguia entender. Um peso se acomodava no peito, pressionando de dentro para fora, como se quisesse romper a superfície.

    Will suspirou, virando-se de volta para o monitor. As lentes dos óculos voltaram a refletir a tela iluminada, mas os olhos ainda estavam semicerrados, não havia engolido aquela desculpa.

    “Então vá atender ao seu chamado antes que alguém registre uma reclamação.” Fez uma pausa, sem tirar os olhos da tela. “Se não estiver bem, posso ir no seu lugar.”

    “Não precisa.” Kai virou-se lentamente da janela, endireitando a postura numa tentativa silenciosa de provar que estava tudo sob controle. “Eu estou bem.”

    Apurou o passo em direção ao elevador, antes que o amigo fizesse mais algum questionamento. Assim que as portas se fecharam, o sorriso se desfez. As mãos se cerraram de forma involuntária. Naquele instante, havia mais um problema o incomodando, algo que vinha crescendo desde a manhã.

    Por que voltou agora… após tanto tempo anos?

    Um calafrio percorreu-lhe a espinha. O coração acelerou sem aviso, e a respiração tornou-se irregular. Memórias antigas emergiram a contragosto, invadindo a mente com imagens que ele preferia manter enterradas. Na manhã daquele dia, havia acordado com o mesmo pesadelo que o atormentou por tantos anos. Um passado que acreditava ter deixado para trás.

    Sempre o mesmo pesadelo:

    Via-se preso. A substância vermelha ao redor era densa, viscosa, agarrando-se a pele. Translúcida o suficiente para deixar passar sombras distorcidas do lado de fora, mas nunca formas definidas. Tentava mover os braços. Nada. As pernas não respondiam. Nem sequer um pequeno espasmo. Era como se estivesse congelado. O corpo permanecia imóvel, suspenso, preso em algo que não conseguia nomear.

    A sensação sufocante se agravava quando tentava respirar. O líquido espesso pressionava contra o nariz, a boca, os olhos. Não havia ar. Apenas aquela presença vermelha e opressiva, envolvendo cada centímetro do corpo.

    “Acorde…”

    “Acorde…”

    A voz profunda ecoava de lugar nenhum, reverberando dentro da própria mente. Mas antes que soasse pela terceira vez, ele saltava da cama num movimento brusco, sugando desesperadamente o ar que havia deixado os pulmões. Levava alguns segundos para perceber o coração acelerado, batendo com intensidade, tentando devolver calor ao corpo sob a pele fria e encharcada de suor.

    “Ding…”

    As portas do elevador se abriram com um som metálico.

    “Vruush…”

    A lembrança se rompeu. O rosto pálido e as mãos frias denunciavam a tensão que ainda insistia em atormentá-lo. Fechou os olhos por um breve instante, puxou o ar com cuidado e, ao soltar a respiração, deu um passo à frente, saindo do elevador.

    Mal colocou o pé para fora e já avistou uma senhora à espera. A perna dela batia contra o chão em um ritmo insistente, como uma britadeira prestes a romper o piso.

    “Qual é o problema dessa vez, Sra. Clepsom?” perguntou, aproximando-se. O tom profissional foi cuidadosamente calibrado, cada palavra escolhida para disfarçar o turbilhão que ainda o atormentava.

    “Ainda bem que você chegou! Eu já não sabia mais o que fazer!” A funcionária agarrou-o pelo braço sem cerimônia, conduzindo-o pelo corredor como se temesse perder aquela última chance de resolver o problema.

    ✦ ✦ ✦

    Uma hora depois, Kai retornou ao escritório. Diminuiu o passo ao passar pela mesa do amigo.

    “Ah, por falar nisso, está tudo certo para hoje, né?”

    Will não tirou os olhos da tela. Os dedos continuaram se movendo com precisão pelo teclado.

    “Vai levar o Roy também?”

    Kai suspirou pesadamente, passando a mão pelo cabelo antes de responder.

    “Não sei por que insiste sempre na mesma questão, sabendo a resposta.” Fez uma pausa, buscando as palavras certas. “Se eu não insistir, temo que ele acabe se tornando alguém de quem vou me arrepender depois.”

    Will interrompeu a digitação por um breve instante, suspirando antes de retomar o ritmo habitual.

    “Tudo bem. Mas você sabe que ele não gosta de mim, sem falar que nossas reuniões sempre terminam em discussões.”

    “Dessa vez será diferente.”

    Sustentou um olhar firme, como se pronunciar aquelas palavras em voz alta fosse a única forma de torná-las reais.

    ✦ ✦ ✦

    Sob o luar da noite, Kai empurrava com cuidado uma cadeira de rodas pela calçada. Observava o caminho à frente, desviando de rachaduras e pequenos obstáculos.

    “Eu disse que não queria ir nessa merda!” A voz carregada de irritação cortou o silêncio. “Por que você está me obrigando a sair de casa?”

    Kai não respondeu. Continuou empurrando a cadeira, mantendo o olhar perdido à frente. A expressão vazia, distante demais para aquele momento.

    O homem na cadeira virou-se de forma brusca. Foi então que percebeu os olhos de Kai. Opacos. Sem qualquer brilho.

    “Eu não pedi para você cuidar de mim.” A voz saiu mais baixa, quase um resmungo. Abaixou a cabeça logo em seguida. “Só me deixa em paz.”

    “Prometi à nossa vó que cuidaria de você, e é isso que vou fazer. Você gostando ou não.” As palavras saíram firmes, sem elevar o tom. As mãos de Kai permaneceram presas à cadeira, como se aquela promessa fosse a única coisa que ainda o mantinha ali.

    O silêncio se impôs entre os dois. Pesado. Acompanhado apenas pelo som distante da noite.

    “Roy.” Kai quebrou o silêncio. “Quando você vai conseguir enfiar nessa cabeça dura que o que aconteceu não foi minha culpa?” As palavras saíram de uma vez, carregadas de tudo o que vinha guardando até então. “Descontar suas frustrações nos outros não resolve nada. Só piora a situação.”

    Parou de empurrar a cadeira em frente à casa. Deu a volta, colocando-se à frente do homem, obrigando-o a encará-lo. O olhar permaneceu firme, segurando a atenção do cadeirante.

    “Você tem que aceitar a sua condição. Só assim a gente vai conseguir seguir em frente.”

    Roy manobrou a cadeira de forma violenta, obrigando Kai a sair da frente. Sem dizer mais nada, atravessou o portão e entrou na casa.

    “Bam!”

    O estrondo da porta do quarto batendo quebrou o silêncio, como um aviso de que aquela conversa havia terminado da pior forma possível.

    Roy levou as mãos à cabeça, apertando-a com toda a força. Os dedos pressionaram as têmporas até doer.

    Por que sempre tem que terminar desse jeito?

    Por que eu sou assim?

    Os olhos se abriram cada vez mais, fixando-se em nada, como se estivessem prestes a saltar para fora.

    Não… é culpa dele. Sempre foi culpa dele… Sempre estragando a minha vida! Principalmente na frente daquele insuportável amigo dele!

    De repente, muitos pensamentos possuíram sua mente, acumulando-se um sobre o outro.

    No quarto ao lado, Kai escutou os resmungos através da parede. Ignorou. Entrou em seu quarto, desabando sobre a cama com um gemido involuntário.

    “O que… o que está acontecendo comigo…?” murmurou, quase sem ar. A voz soou distante, como se viesse dele mesmo. A garganta estava seca.

    Isso não é normal pensou, engolindo em seco. Mas o nó na garganta não cedeu.

    Está piorando cada vez mais…

    E o que mais o assustava não era a dor.

    Era não entender.

    Não… eu não consigo mais mexer meu corpo. O pensamento atravessou a mente como um estalo seco.

    Tentou erguer o braço.

    Nada.

    As pernas não responderam. Nem sequer um pequeno espasmo pode sentir. Era como se o comando nem tivesse sido enviado.

    Mexa. ordenou, a si mesmo.

    Concentrou toda a força nos ombros. Depois nas mãos. Depois nas pernas. Forçou até sentir a mente girar de tanto pressionar.

    Mas nada.

    Quando viu o mesmo líquido espesso, vermelho e translúcido emergir do próprio corpo, avançando lentamente, exatamente como no pesadelo. O coração acelerou de forma incontrolável, batendo com tanta força que parecia prestes a saltar pela boca a qualquer instante.

    Não pode ser real!

    Mas, para o seu desespero, a situação não parou ali. As paredes da casa começaram a se desfazer. Os contornos ficaram instáveis, depois borrados, até desaparecerem por completo, como uma ilusão se rompendo. Não queria acreditar, mas tudo estava acontecendo bem diante de seus olhos.

    E, no momento em que seu subconsciente aceitou a mínima possibilidade de aquilo ser real, o líquido vermelho o envolveu, fechando-se lentamente em um casulo até que o último resquício de luz se apagasse.

    “Acorde…”

    Kai abriu os olhos abruptamente, certo de que estava revivendo mais um dos incontáveis pesadelos. Contudo, o coração não encontrou nenhum alívio ao perceber que continuava preso no mesmo casulo vermelho semitranslúcido.

    Cansado de fugir. Uma raiva subiu em seu peito. 

    “GLLRRGGH!”

    Gritou, socando e chutando na tentativa de se livrar daquela prisão.

    Mas, no instante em que abriu a boca, percebeu o erro. O líquido invadiu-lhe a garganta, abafando o grito e despertando o desespero. A cada golpe executado, o seguinte tornava-se mais lento e fraco. Não demorou para um sentimento emergir.

    Aqueles poderiam seus últimos momentos.

    “Creck… Shhrrrrk…”

    Como se contrariasse suas expectativas, escutou um som estridente. Foi então que viu a fissura se formar bem à sua frente. Não pensou duas vezes. Enfiou as duas mãos e rasgou a membrana de uma só vez. O líquido se esvaiu de forma abrupta, levando-o junto.

    Só então percebeu que estava a poucos centímetros do chão. Cerrou os dentes, preparando-se instintivamente para o impacto.

    “Plaft…”

    “Ai…” reclamou, massageando os membros inferiores.

    Paralisou no instante seguinte. Sentiu algo se mover sobre o próprio corpo. A cabeça desceu abruptamente, antes mesmo que a mente conseguisse formular qualquer hipótese. Ao olhar para a coxa esquerda, viu o mesmo líquido subindo pelo corpo, como uma gosma viva.

    Está tentando me prender novamente. Foi o primeiro pensamento que lhe veio à mente.

    “Sai de mim, porcaria!”

    Saltou, lançando vários tapas na tentativa de se livrar daquilo.

    Mas nada adiantava. Pelo contrário, só piorava a situação. A cada golpe, a gosma se fixava ainda mais nos pontos de contato. Em um ato de desespero, jogou-se no chão, rolando de um lado para o outro até gastar a última gota de fôlego, certo de que assim conseguiria se livrar.

    Suspirou fundo, tomado por um alívio momentâneo. Já que não sentia nada se mover sobre a pele. Ao dar uma última conferida para se certificar, os olhos se abriram completamente.

    Cerca de setenta e cinco por cento do corpo estava coberto por uma fina camada do que quer que fosse aquilo.

    Mas não parou por aí. O que realmente o deixou sem reação foi o líquido mudar gradualmente de forma e cor. Uma que ele conhecia bem.

    “Está assumindo a forma da minha roupa!?” disse, incapaz de fechar a boca por vários segundos.

    “Se for a merda de outro pesadelo, quero acordar, porque acho que já vi o suficiente por hoje.” resmungou, soltando o ar que havia prendido.

    Mas, ao olhar para frente, arrependeu-se de ter aberto a boca.

    As mesmas coisas que acabara de vivenciar desde que acordara naquele maldito lugar repetiam-se por todos os lados, bem diante de seus olhos.

    Sem terem noção de que estavam sendo observados. Uma voz murmurou:

    “Finalmente saíram do [Sonho Eterno]”


    NT: Estive decepcionado com o rumo e com o nível que a história havia tomado. Por isso, tomei a decisão de fazer um rework completo. Espero que gostem e que essa nova versão seja uma experiência única. Se gostou, deixe um comentário para incentivar.


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