Capítulo 25 – Mudança de forma
O Scaroth inclinou-se sobre o companheiro morto. Tocou o corpo inerte com uma leve balançada do chifre, como se buscasse alguma resposta que nunca viria.
Kai manteve o olhar preso nele. O corpo do inseto ainda tremia em espasmos ocasionais, como se recusasse a aceitar a perda do companheiro caído.
O ambiente pareceu estremecer por um calafrio súbito; o ar ficou mais pesado, impregnado por uma tensão silenciosa que se espalhou pela câmara sem aviso. Kai percebeu a mudança no mesmo instante, sentindo-a como um sinal que não deveria ignorar.
O corpo da criatura vibrou em um ritmo estranho; em seguida, ergueu a cabeça em direção ao teto da câmara e soltou um guincho longo, estridente, que fez o ar vibrar em ondas invisíveis. O som, que antes era apenas um incômodo distante, tornou-se mais profundo e áspero, quase como um lamento distorcido que arranhava o ar.
O jovem sentiu um arrepio percorrer a espinha.
Pela primeira vez, desde que a batalha havia começado, uma sensação de perigo real o atravessou; não veio de raciocínio nem de alguma conclusão lógica. Nasceu de um instinto interno, que sempre o alertava nos momentos decisivos.
Se eu vacilar… não vou ter uma segunda chance. Algo nele sabia disso. E ele confiava naquele aviso mais do que em qualquer outra coisa.
Levou as mãos à cabeça, tentando abafar o som que ainda reverberava pela câmara. A visão vacilou quando olhou de canto, incerto sobre o que estava vendo, e cerrou os dentes ao suportar o desconforto; o som atravessava seus ouvidos como uma agulha fina.
Antes que percebesse, os músculos já haviam enrijecido.
Do outro lado, as placas escuras da carapaça do Scaroth começaram a se afastar umas das outras e, por entre as frestas, uma luz fraca vazou, pulsando em intervalos irregulares. O brilho que emanava clareou o ambiente ao redor, dificultando até mesmo entender o que realmente estava acontecendo.
Ele realmente está evoluindo…?
As asas do bestial inseto se abriram de forma brusca. A energia emanada de seu corpo se intensificou, e a mudança passou a ser acompanhada por pequenos estalos, como se o próprio exoesqueleto estivesse começando a rachar. A temperatura não mudou, mas uma nova pressão começou a se dispersar a partir dele.
Isso não é hora de ficar admirando. Ele vai ficar mais forte… então preciso me preparar para contra-atacá-lo.
Totalmente focado nas mudanças que estavam acontecendo na criatura, nem percebeu que havia ignorado a própria recuperação.
O Scaroth, totalmente alheio aos pensamentos do jovem humano, elevou-se alguns centímetros do chão; a energia que emanava de seu interior pressionava a carapaça, forçando o exoesqueleto a se expandir. A forma compacta, de pouco mais de um metro e vinte, começou a se alongar. Os segmentos do corpo se esticaram, as pernas engrossaram, e as juntas estalaram sob o esforço brutal da própria transformação.
O chifre superior, que antes despontava da testa como uma pequena lança, começou a diminuir à medida que o corpo da criatura se expandia. A estrutura afinou, perdeu forma e, por fim, a ponta se partiu, desmanchando-se em pó como se nunca tivesse existido.
Em compensação, o chifre inferior, sua arma principal, começou a se deformar. Alongou-se curvado para a frente, engrossando dos dois lados da ponta, que ganhou contornos mais definidos; lembrava um antigo martelo de guerra prestes a esmagar tudo o que encontrasse pela frente.
Seu corpo continuou a se expandir até ultrapassar um metro e setenta de comprimento. Agora pairava no ar, projetando uma grande sombra sobre o jovem, visivelmente, uma ameaça muito mais perigosa do que antes.
“Isso não é mais o mesmo Scaroth de antes…” Quis questionar sua mestra sobre aquilo, mas não conseguiu desviar o olhar.
As asas da criatura, antes pequenas e discretas, tornaram-se largas e rijas, com uma membrana escura que refletia uma luz opaca. Cada batida gerava uma pressão sutil contra o solo, levantando camadas de poeira, como a fúria contida de uma tempestade que estava prestes a se soltar.
Essa aura… não lembra mais aquele bestial comum. Kai ponderou, sentindo o peso do olhar agressivo que quase o sufocava. A criatura o encarava com uma sede de sangue tão intensa que ele engoliu em seco involuntariamente
Se eu der um passo errado… ele me mata.
Do outro lado da câmara, Ygdraw observava em silêncio, mas seus olhos se estreitaram, revelando um sinal discreto de preocupação. As mãos cruzadas à frente do corpo se apertaram com leve tensão. Sentiu o fluxo de Éther se agitar ao redor do Scaroth, anunciando uma transformação que não presenciou pessoalmente há muito tempo.
Bestiais comuns possuíam duas formas; ela sabia disso. Mas raramente testemunhava o momento exato da mudança. O ponto de ruptura entre a forma inicial e o estágio adulto sempre exigia uma quantidade absurda de energia, além de concentração e tempo. Ainda assim, aquela criatura sobrevivente havia decidido pagar esse preço ali, diante deles.
✦ ✦ ✦
A transformação cessou tão abruptamente quanto havia começado.
O zunido das asas parou por um segundo, como se a criatura estivesse sentindo a nova extensão do próprio corpo. Em seguida, o som retomou, mais padronizado, sem as distorções instáveis da forma anterior.
“Zummm!”
Ouviu um impulso brutal atravessar o ar. Quando percebeu, o bestial já não estava mais diante do companheiro morto; em um único instante, havia desaparecido do lugar onde estivera. Ele mal teve tempo de registrar a sequência dos acontecimentos.
A intuição gritou, mas seu corpo estava dolorido demais para reagir aos próprios instintos. Cada músculo parecia muito rígido para ser capaz de acompanhar o alerta que ecoava dentro dele.
Sabendo que não conseguiria fazer nada, apenas endureceu o corpo o máximo que pôde e ativou a [Armadura de Éther]. No instante seguinte, o bestial inseto surgiu à sua frente tão rápido que ele mal conseguiu acompanhar aquela agilidade.
O chifre longo e curvado acertou seu peito como um aríete. Soltou um gemido abafado que ecoou pela câmara; mesmo resistindo, não pode evitar que o ar fosse expulso de seus pulmões em um único sopro. Tudo girou diante de seus olhos enquanto era arremessado. Teto e chão trocaram de lugar numa sequência caótica, como se o mundo estivesse girando em alta velocidade ao seu redor.
“Coff…!”
Foi arremessado para trás como um boneco de pano, girando enquanto derrapava sobre o solo, até que seu corpo bateu com força contra uma grande pedra no caminho. Deixou-se escorregar até cair sentado. A [Armadura de Éther] se desfez após amortecer boa parte do impacto.
A dor explodiu em ondas, irradiando da coluna e das costelas para o peito e os ombros; mesmo assim, ignorou o incômodo e tentou se inclinar para a frente, fazendo força para se levantar. As pernas falharam de imediato, e uma pontada aguda o obrigou a recuar instintivamente. Sentiu algo quente subir pela garganta; em seguida, um filete de sangue escorreu pelo canto dos lábios.
“Droga!!!” exclamou, levando a mão à boca para limpar o sangue. “Não imaginei que ele fosse ficar tão rápido assim.” Kai disse, ofegante. A voz rouca, saiu arranhando a garganta.
A mão direita pressionou a lateral da costela enquanto a esquerda buscou o chão para lhe servir de apoio; os dedos se cerraram sobre a região dolorida, tentando conter a sensação incômoda de que algo o machucava por dentro. Ergueu o olhar para o adversário, encarando-o com uma raiva que não conseguiu mais disfarçar.
“Como eu pude terminar assim contra um inseto…” murmurou para si, sentindo uma sensação desconfortável começar a apertar o peito. Virou-se na direção de Ygdraw por um instante.
Imagino que ela deva estar decepcionada comigo… se até eu estou. Balançou a cabeça, afastando os pensamentos antes que o desconcentrasse ainda mais, e voltou a atenção para aquilo que realmente representava um perigo imediato.
O Scaroth completou a volta e pousou no chão, encarando-o fixamente. Ao ver o humano virar o rosto e ignorá-lo por um instante, soltou uma bufada enraivecida.
Sugou uma lufada de ar, tentando recuperar as próprias forças; aquele corpo gigante recém-formado estava drenando sua estamina depressa. Ainda assim, não parecia se importar, desde que pudesse cumprir o objetivo que havia assumido.
Saltou para o ar, preparando-se para executar o ataque. Um leve brilho começou a se acumular nas juntas entre as placas, pulsando em intervalos curtos enquanto a energia, quase invisível a olho nu, se concentrava em seu interior.
Com um gemido contido entre os dentes, Kai forçou o corpo a se mover, arrastando-se até a parede próxima. Apoiou a mão livre na rocha fria, tentando estabilizar a respiração. Os músculos tremiam em pequenos espasmos involuntários, como se cada fibra reclamasse do esforço.
Tenho que pensar em algo logo para sair dessa situação…
Fitou a criatura à distância, vendo-a se preparar para atacá-lo, os olhos fixos naquele chifre recém-evoluído que ainda lhe despertava uma lembrança desagradável.
Do outro lado, Ygdraw já havia descruzado os braços havia algum tempo e contraía levemente o maxilar sem perceber. A expressão descontraída e alegre de sempre já não era vista em seu rosto.
Momentos atrás, seu corpo havia reagido antes mesmo de Kai receber o ataque. Um impulso instintivo de proteção despertou, pedindo que interviesse, que erguesse a mão e encerrasse aquele treinamento ali mesmo. Mas ela conteve o sentimento à força; os dedos se fecharam no ar, rangendo com a tensão acumulada.
Se eu der um passo para impedir agora… posso destruir algo muito mais importante para o seu futuro. Ygdraw ponderou em silêncio. Ainda assim, suas pupilas nunca deixaram de acompanhar cada movimento do inseto com extrema facilidade, agora com atenção redobrada. Em último caso, não hesitaria em fazer o que fosse preciso, mesmo a um alto custo.
NT: Hoje tem capítulo duplo… tambem gostaria de expressar minha gratidão a todos que têm acompanhado.
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