Ygdraw observou o estado de Kai em silêncio. O corpo do jovem permanecia imóvel, respirando de forma irregular, como se cada fôlego pudesse ser o último. Ela fechou os olhos e soltou um longo suspiro, lento, carregado de um peso antigo e incompreensível.

    “Achei que teríamos mais tempo!”

    A voz saiu baixa, quase se perdendo no ar úmido da câmara. Sua expressão murchou ao murmurar para si mesma, seus ombros cederam por um breve instante.

    “Dessa vez… eu sei que seria diferente.”

    Os olhos se abriram novamente, fixando-se no rosto ferido do rapaz. Havia ternura ali; uma ternura rara, quase dolorosa. Ygdraw ajoelhou-se ao seu lado e tocou-lhe o rosto com cuidado, como se temesse quebrá-lo.

    “Eu posso sentir essa grande força de vontade emanando de dentro de você, minha criança.”

    Seus dedos deslizaram pela pele quente, num gesto de carinho, assim como uma mãe para com seu filho.

    “Pode até demonstrar esse jeito fechado para os outros. Mas, no fundo, seu coração não suporta ver as injustiças do mundo em silêncio. Não é verdade?” Uma lágrima escapou de seus olhos e caiu sobre o rosto de Kai, misturando-se ao suor, sangue e ao pó. 

    No instante seguinte, uma aura intensa se desprendeu de seu corpo, expandindo-se ao seu redor. Sua postura se transformou de imediato; os ombros se alinharam, a respiração se estabilizou, e o corpo assumiu uma rigidez serena, daquelas que se impõem mesmo em silêncio. A suavidade que a envolvia anteriormente recuou, dando lugar a uma presença resoluta, como a de um ancião que se ergue diante de outros sem precisar dizer uma única palavra.

    Ela esticou a mão e recuperou o cajado que havia caído não muito longe deles. Assim que o tocou, raízes brotaram de seu braço e se prenderam à madeira. A arma começou a perder o viço, como se toda a vida estivesse sendo drenada. Em poucos instantes, o cajado secou por completo, fragmentando-se em pó fino, até restar apenas uma única semente repousando na palma de sua mão.

    Sem hesitar, Ygdraw segurou o braço decepado de Kai e implantou a semente no local da perda. O jovem não esboçou qualquer reação. O silêncio que se seguiu criou um clima pesado, mas nada que pudesse afetar sua concentração.

    Ela não parou. Com um movimento rápido, cortou o próprio pulso. Não houve jorro de sangue. Sua aura conteve o ferimento, comprimindo-o com força invisível. A expressão de Ygdraw se contorceu, revelando o esforço necessário para manter o controle sobre o que pretendia fazer. Após alguns segundos, um líquido escorreu pelo ferimento, formando uma única gota de cor esverdeada bem no canto do corte. Ela levou o pulso próximo a boca do jovem.

    “Criança… sei que não está sendo fácil, mas tente suportar até o fim.”

    ✦ ✦ ✦

    Dentro de seu espaço privado, uma dimensão isolada da realidade externa, Kai ouviu a voz de Ygdraw ecoar em sua mente.

    Mestra…?

    Olhou para cima tentando encontrá-la, mas antes que pudesse questioná-la, sua garganta começou a queimar. A sensação desceu lentamente, agressiva, alcançando o estômago e logo após se espalhando por todo o corpo. Ele já estava exausto. A chama da alma havia sugado quase tudo o que restava de sua energia. Quando sem aviso prévio sentiu milhares de agulhas perfurarem cada centímetro de seu ser, quase perdeu a consciência.

    Então é isso que ela quis dizer…

    A dor não era apenas física. Era profunda, estrutural, como se algo estivesse sendo reescrito à força dentro dele.

    ✦ ✦ ✦

    Fora da dimensão espacial, Ygdraw encarava o corpo de Kai se contorcer. Veias verdes surgiram sob a pele, avançando em ramificações irregulares, marcando o corpo do jovem com linhas pulsantes que contrastavam de forma perturbadora com a palidez da pele. O contraste com o corpo pálido era perturbador. Caso outro humano visse a cena, acharia com toda a certeza de que ele estava sendo torturado pela entidade ao seu lado.

    Veias verdes surgiram sob a pele, avançando em ramificações irregulares, marcando o corpo do jovem com linhas pulsantes que contrastavam de forma perturbadora com a palidez da pele.

    Criança, receber uma essência de linhagem tão pura não será nem um pouco fácil. Muito menos agradável. Mas é a única escolha que temos agora. O pensamento se formou no silêncio, esperou que ele não a culpasse. Nem guardasse ressentimento por ter tomado as decisões por conta própria.

    Sabendo que não receberia qualquer resposta, controlou a própria energia interna e a dividiu em duas partes. A primeira foi enviada diretamente ao núcleo do jovem, com o intuito de substituir o que ele estava perdendo, usando a própria reserva como pagamento em seu lugar.

    No instante em que o fluxo fez contato, a chama da alma de Kai reagiu à pureza do Éther de Ygdraw e passou a absorvê-lo com violência extrema, sem qualquer contenção. A drenagem se intensificou de forma abrupta, como um impulso instintivo e voraz, lembrando uma força que não era saciada havia eras.

    O efeito foi imediato. A tensão no rosto do jovem começou a ceder pouco a pouco; a palidez se dissipou de maneira gradual, e o tom da pele retornou em pequenas frações, sinalizando que o colapso havia sido contido, ao menos por enquanto.

    A segunda parte foi direcionada à semente, que reagiu de imediato e começou a se expandir em alta velocidade.

    Ygdraw não se surpreendeu. Já havia feito algo parecido antes.

    Manipulando cada detalhe do desenvolvimento, guiou o crescimento com precisão absoluta. Raízes brotaram, expandiram-se e começaram a se conectar a cada artéria, nervo e ligação energética do braço perdido. O processo foi rápido, porém intenso. Gotas de suor escorreram por seu rosto enquanto ela mantinha cada detalhe sob controle absoluto. Mas o sacrifício deu resultado e não demorou para que um novo braço artificial fosse moldado.

    O formato era idêntico ao original, sem qualquer deformidade. Ainda assim, a composição denunciava sua origem. A superfície tinha a mesma aparência vegetal do corpo de Ygdraw; viva de uma forma que não imitava a carne, mas a substituía perfeitamente, podendo até considerar que seria ainda mais resistente.

    O esforço foi imenso, mas o resultado se refletiu em sua expressão de forma clara, difícil de ocultar. Assim que concluiu o processo, a energia em forma de tentáculo que nutria a semente foi interrompida de maneira abrupta, recolhendo-se em silêncio.

    Ela respirou fundo, recuperando a própria instabilidade.

    “O tempo é um luxo que infelizmente não possuímos.” murmurou ao vento, embora, no fundo, desejasse que aqueles dias como mentora se estendessem indefinidamente. Havia muito tempo que não se permitia sentir daquela forma. Sem perceber, o canto de seus lábios se ergueu em um gesto instintivo, pequeno e quase imperceptível.

    Sem se permitir mais nenhum segundo de descanso, Ygdraw golpeou o chão e enfiou a mão no solo. Seu braço começou a crescer, alongando-se de maneira antinatural, adentrando cada vez mais fundo na terra. A câmara vibrou. As paredes tremeram de forma anormal, fazendo detritos caírem por todos os lados e, uma névoa de pó se espalhar pelo ar. Mas não o suficiente para tampar a visão.

    Do outro lado da câmara, rachaduras se espalharam pelo chão da pequena ilha no centro do lago, onde ela costumava permanecer em seus raros momentos de quietude. O solo se partiu, como se algo colossal estivesse despertando no subsolo.

    E então emergiu.

    Uma mão vegetal gigantesca rompeu a superfície se elevando acima do solo. Madeira viva, espessa, grande o suficiente para esconder um humano adulto em seu interior.

    “Para o bem ou para o mal, chegou a hora de você retornar, velho amigo.”

    Ygdraw abriu a mão formada do outro lado, sobre o lago, e um casulo de energia azul-celeste surgiu em sua palma em resposta ao seu gesto. Sua superfície era coberta por inúmeros símbolos antigos, dispostos em camadas irregulares, reagindo ao fluxo de Éther de forma natural. Apenas sua presença já fazia uma pressão densa se impor sobre o ambiente, comprimindo o ar até o ponto onde se tornaria difícil para qualquer um respirar normalmente. Mas este não foi o caso para Ygdraw.

    Em seguida, ela fechou os olhos, como se buscasse algo além daquele espaço. Dois segundos depois, retirou um pergaminho antigo de seu próprio espaço dimensional, o objeto surgindo entre seus dedos com a naturalidade de algo há muito familiar.

    Ela lançou um último olhar para a barreira antes de injetar uma pequena porção de Éther no papel, que reagiu no mesmo instante, as bordas se incinerando até que o pergaminho se desfez por completo em pequenas partículas, dissolvendo-se no ar em fragmentos de luz que se apagaram em silêncio.

    Os símbolos reagiram imediatamente, como se tivessem recebido um comando. Moviam-se de forma irregular, girando em ordens incompreensíveis, reorganizando-se como se obedecessem a uma lógica além da razão comum. O ar ao redor do casulo tornou-se denso, vibrando em ondas silenciosas que faziam a superfície do lago ondular.

    Quando finalmente cessaram, a barreira começou a se desfazer lentamente.

    Uma grande luz irrompeu do interior, intensa o suficiente para ocultar qualquer forma. O brilho pulsava, expandindo-se e retraindo-se, como um coração recém-desperto. Ygdraw manteve-se imóvel, os olhos fixos no centro daquela claridade, enquanto a energia reverberava por toda a câmara.

    A luz começou a diminuir aos poucos.

    Levou vários segundos até que uma silhueta fosse projetada no centro do brilho, primeiro indefinida, depois foi ganhando contornos mais claros. Pequena. Compacta. Estranhamente delicada diante do poder que havia sido liberado.

    Quando a luminosidade enfim se dissipou, revelou-se a figura por completo.

    Ygdraw fechou os olhos por um breve instante. Ao abri-los novamente, voltou a encará-lo. Em sua expressão havia algo raro, uma mistura silenciosa de alívio e melancolia, como quem reencontra uma parte do passado que jamais acreditou rever.

    O pequeno autômato, até então suspenso no ar, desceu lentamente e pousou no solo sem produzir som algum. O corpo era metálico e antigo; ainda assim, qualquer um que o observasse com atenção dificilmente o confundiria com uma relíquia obsoleta. Exalava tecnologia em estado puro. Cada superfície era composta por camadas precisas, com detalhes minuciosos e inscrições internas quase ocultas pelo desgaste do tempo.

    Os olhos se acenderam aos poucos. Dois núcleos luminosos de tom azul pulsaram suavemente antes de se estabilizarem. O brilho percorreu o ambiente em alta velocidade, como se escaneasse cada fragmento daquele espaço esquecido, registrando o mundo em que havia acabado de despertar.

    “Há quanto tempo, Brotinho.”


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