Kai manteve o olhar fixo no horizonte da cúpula, digerindo toda informação recebida. Ao redor, dezenas faziam o mesmo exercício mental, embora a maioria de forma desordenada, quase à beira do colapso. Pequenos murmúrios começaram a se espalhar, contidos, mas insistentes. Olhares se cruzavam com urgência, buscando respostas onde só encontravam o reflexo da mesma incerteza.

    Os olhos invisíveis de Hoikuen percorriam o campo lentamente, detendo-se em micro-reações: um maxilar tenso, dedos se contraindo. Analisava aqueles que ainda sustentavam dúvida diante de suas palavras.

    Uma mão se ergueu entre a multidão.

    A presença de Hoikuen se concentrou ali. Seus olhos invisíveis se estreitaram, fixando-se no indivíduo que ousara se destacar.

    “Diga, pequeno.” exclamou.

    Não havia irritação em sua voz. Ao contrário, um leve traço de interesse podia ser percebido, como se aquela interrupção tivesse despertado sua curiosidade genuína.

    Kai piscou uma única vez, surpreso.

    Ele realmente me chamou? A dúvida surgiu, não por medo. Tinha certeza de que não havia quebrado nenhuma regra. O que o desconcertava era outra coisa; não esperava ser notado.

    Respirou fundo. 

    Endireitou a postura, ajustando o peso do corpo sobre os próprios pés. Era uma oportunidade única e, não pretendia desperdiçá-la.

    “Tudo o que vivemos no [Sonho Eterno] não pode ter sido apenas uma mentira sem sentido, né?” perguntou. A dúvida o acompanhava desde o instante em que descobrira sobre a ilusão.

    “Perspicaz.”

    Aquilo soou mais como um alívio do que como um elogio. Ainda restavam alguns que demonstravam algum nível de consciência.

    “Deixe-me lhe perguntar algo.”

    O jovem estreitou levemente os olhos. Ele não respondeu… e agora quer me questionar? pensou, ainda assim, manteve a postura firme. Não ousou demonstrar qualquer sinal de insatisfação.

    “Seu jeito de pensar, andar, falar e até mesmo agir… vem de onde?”

    O silêncio se intensificou.

    Kai permaneceu alguns segundos em silêncio. O olhar, antes fixo no horizonte, perdeu o foco, como se atravessasse a cúpula sem realmente enxergá-la. A respiração desacelerou lentamente.

    Um quase sorriso surgiu no canto da boca.

    “Mas é claro…” murmurou, quase inaudível. Compreendendo a lógica por trás das perguntas.

    Dois jovens à sua frente se entreolharam, confusos. “Como assim?” sussurrou a garota, para não atrair atenção da entidade. “Também não entendi…” o rapaz respondeu, coçando a nuca.

    Os murmúrios aumentaram, se espalhando por todo o local. A dúvida não se limitava ao casal. Uma reação em cadeia se iniciou. Mãos começaram a se erguer uma após a outra, como se apenas aguardassem o primeiro abrir o caminho.

    “Eu sou o próximo!” O grito veio carregado de desespero. O jovem esticou o braço enquanto dava pequenos saltos.

    Ao lado, uma jovem sussurrou quase sem mover os lábios.

    “Será que, se eu pedir, ele me manda de volta?” Não conseguiu prestar atenção em nada do que foi dito, só passava uma coisa em sua cabeça. Quero voltar para casa.

    “Isso é loucura.”

    A voz cortou o ambiente como uma lâmina. Todos se viraram ao mesmo tempo, procurando pela origem.

    “Alguém aqui realmente acredita em tudo isso?” O jovem de cabelos pretos manteve o tom estável, convicto. Seus traços dignos de modelo conseguiram prender a atenção, na maioria o público feminino.

    “Eu exijo voltar!” gritou em seguida, erguendo o olhar para o topo da cúpula.

    Outro rapaz, mais afastado, apontou para o céu.

    “Concordo. Ele está mentindo!” gritou com toda a força que seus pulmões permitiam. “O governo deve estar fazendo experimentos com a gente!.” Seus olhos estavam dilatados além do normal, brilhando com uma convicção sinistra. “Passei anos pesquisando conspirações. Desaparecimentos. Agora tudo faz sentido!” As palavras saíam rápidas, atropelando umas às outras, como se precisasse sustentar a própria lógica antes que ela desmoronasse.

    Ao lado dele, Will permaneceu imóvel por um instante. O olhar avaliou o homem de cima a baixo, sem pressa. Depois deu dois passos para trás.

    Sempre existe alguém assim, não importa aonde se vá. pensou, mas não discutiu. Não rebateu. Tampouco demonstrou irritação. Apenas se afastou do centro da agitação, escolhendo observar em vez de alimentar o caos.

    “Eu vi reportagens sobre pessoas sumindo…” Uma garota loira comentou, com a voz rouca, tremula e o rosto pálido ao recordar as reportagens. 

    “Não… não pode ser…” comentou outra moça, de longos cabelos castanhos. As mãos pressionando o próprio peito enquanto a respiração se tornava curta e irregular. “Eu não quero morrer!” Ao cair de joelhos no chão, implorou desesperada.

    Parece que vim parar bem no meio dos idiotas. Will pensou, desviou-se das pessoas mais barulhentas, mantendo a cabeça baixa e os passos silenciosos. Estava tão concentrado em se afastar do tumulto que não percebeu alguém reagir ao vê-lo passar.

    Ao ver Will cruzar poucas pessoas à sua frente, Roy levou a mão ao rosto. Colocou-se parcialmente atrás de outros corpos, quase implorando para não ser reconhecido.

    Você também está aqui? Roy pensou, encarando as costas daquele que considerava quase como um inimigo mortal. 

    Será que Kai também esta aqui? O pensamento o atingiu de forma súbita. O peito se contraiu enquanto o olhar vasculhava o campo em busca de um rosto familiar.

    Bom, isso não importa.

    Roy cerrou os punhos com força. Baixou o olhar para as próprias pernas, como se precisasse confirmar aquela realidade com os próprios olhos várias vezes. Agora que saí daquele pesadelo, não vou mais aceitar ser tratado como um brinquedo. pensou, sentia uma convicção inabalável.

    Agora sou um homem livre.

    “Kkkk…”

    A gargalhada escapou de forma descontrolada. Não conseguiu se conter.

    Era um hábito antigo, difícil de se livrar, que escapava nos momentos em que sua mente perdia o equilíbrio.

    Kai estava bem distante. Ainda assim, virou o rosto de repente para o lado. O olhar se fixou em uma direção específica.

    “Roy?” disse, de forma involuntária.

    Não sabia explicar o motivo. Não viu ou ouviu nada. Ainda assim, algo surgiu em sua mente naquele instante, uma breve pensamento incômodo.

    “Não pode ser.” sussurrou, crente de que era apenas um sentimento aleatório.

    Cansei de ser uma mera sombra sua, sem emoção, perseguindo um passado ao qual você quis se apegar. As lembranças emergiram a contragosto, invadindo a mente de Kai com imagens que ele preferia manter enterradas. Ainda assim, aquele momento, por mais caótico que fosse, serviu para reafirmar algo muito importante.

    Serei um homem livre agora.

    O caminho que queria seguir parecia claro diante dele. Viveria cada segundo, cada momento, com a firmeza de quem decidiu não voltar os olhos para o que ficou para trás.

    Vários jovens ao seu redor se jogaram no chão. Caíram de joelhos um após o outro, interrompendo seus pensamentos. Ao olhar para os rostos deles, percebeu que todos tinham algo em comum; medo, pânico e desespero.

    “Por favor… deixe-nos ir embora!” gritou um deles, erguendo as mãos para o céu. Outros logo seguiram o exemplo. “Não vamos contar nada do que vimos!” disse, a primeira coisa que lhe veio à cabeça.

    “Eu prometo!” 

    “Sim, nós prometemos!” ecoaram outras vozes, carregadas de desespero.

    Aquele que iniciara a comoção percebeu que havia conquistado um grupo considerável de apoiadores.

    “Irmãos!”

    Chamou a atenção deles com um grito. “Em momentos como este, devemos orar!” Juntou as mãos. Começou a proferir sua reza.

    Conseguir seguidores era fácil para ele. Já fora um pastor. O hábito de conduzir pessoas pelo medo e pela esperança ainda lhe vinha de forma natural.

    Kai e alguns outros sentiram a tensão se tornar quase insuportável, como se estivesse prestes a se romper a qualquer instante.

    Basta dar uma brecha para essas crias de bactéria e já acham que é festa. O bom humor se dissipou por completo; ele não tinha tempo, muito menos paciência, para brincar de escolinha.

    Uma força invisível desceu sobre todos.

    “Ugh!”

    Como um balde de água fria apagando qualquer chama de revolta que ainda pudesse existir. Os corpos foram pressionados contra o chão. O silêncio se impôs como um resultado inevitável.

    Ninguém ousou expressar suas dúvidas ou insatisfação depois disso. A demonstração de poder deixou um medo persistente da morte que silenciava até mesmo os mais ousados. Todos, menos um. Ao menos não abertamente.

    “Droga, eu não fiz nada… por que está me castigando igual aos outros?” Roy mal conseguiu sussurrar. Os dentes rangeram. Seus olhos extremamente vermelhos pareciam querer saltar das órbitas, carregados de ira e impotência.

    O que ele e os outros não sabiam era que a entidade não estava verdadeiramente com raiva. Ainda assim, não podia permitir que a desordem se instalasse.

    “Silêncio!!!”

    A voz soou como um trovão.

    “Vruum…”

    O solo abaixo dos jovens tremeu.

    No mesmo instante, o exterior da barreira se alterou. Transformando o que era apenas um gesto simples de controle de multidões em um verdadeiro tormento para os recém-acordados.

    A aurora boreal fora da barreira iniciou um processo que até o momento não havia manifestado. As cores habituais, azuladas com algumas em tons esverdeados, passaram a arder em um vermelho intenso.

    Perdi a noção do tempo?

    Hoikuen se viu diante de um impasse inesperado. Pela primeira vez em muito tempo, permitira que um deslize acontecesse.

    Memórias antigas emergiram enquanto se perguntava quando aquele passatempo havia começado.

    Sua missão sempre fora apenas proteger a incubação das novas gerações. Evoluiu especialmente para isso. Não soube dizer quando, mas em algum momento adquiriu uma consciência. Ao ver a loucura tomar conta da mente dos jovens antes de serem lançados a um mundo hostil e perigoso, acabara adotando o hábito de dizer algumas palavras que, com o tempo, se transformaram em explicações sem que ele percebesse.

    O resultado, até então, havia sido satisfatório. Desta vez, porém, mal tivera tempo de expor metade do que costumava explicar.

    Se esta é a vontade de Etheryum, que assim seja. pensou, encarando aquele pequeno contratempo como parte do destino deles.

    Saiu dos pensamentos nostálgicos ao ouvir alguns sussurros, frágeis demais para esconder o desespero.

    “Não nos mate… perdoe o nosso erro, apenas esta vez!”

    Imploraram. Usaram as últimas gramas de força que ainda lhes restavam.

    “Hmph!”

    No instante seguinte, um a um sentiram a pressão diminuir, passando a buscar o ar em goladas irregulares. Outros tentaram se levantar, mas as pernas tremiam, incapazes de sustentar o próprio corpo.

    “Inconsequentes.” A entidade exclamou, ainda assim, a atenção que desejava foi imediatamente conquistada.

    “Hoikuen é apenas uma incubadora!” disse, em tom elevado. “Acharam que ficariam protegidos aqui para sempre!” Fez uma breve pausa. 

    A presença da entidade se voltou de forma incisiva para o grupo que iniciara o tumulto, pressionando-os em silêncio.

    “Eu pretendia aconselhá-los sobre o que terão de enfrentar a seguir.” continuou. “Mas agora… colham o que plantaram.” 

    Kai piscou.

    Antes que qualquer pensamento se formasse por completo, o próprio corpo se dissolveu no ar.

    Em seguida, os jovens recém-despertos começaram a desaparecer, um a um. Deixando apenas o vazio onde antes estavam.


    NT: Espero que gostemdessa nova versão, que seja uma experiência única. Se gostou, deixe um comentário para incentivar.


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