04 Asalin
Autor: Glauber1907
Tatatatatatatata!
— Avancem! — disse um homem trajado em uma roupa militar.
Logo após a ordem, os soldados avançaram de forma destemida, disparando com suas armas.
Swish!
Um dos soldados foi partido ao meio, antes que pudesse ver o que o atingiu. Uma criatura semelhante a um inseto gigante surgiu debaixo da terra, seus longos braços lâminados foram os responsáveis por matar o soldado.
— Os Insectóides chegaram ao subsolo! Corram! — gritou um dos homens, aterrorizado.
Enquanto isso, em uma parte avançada da região, um pequeno pelotão disparava contra os insectóides. Até que um dos homens percebeu algo.
— Ei! As tropas atrás de nós, elas estão recuando?! — Um dos militares alertou.
— Maldição! Eu sabia que esse novo Major era um tolo! Estamos ferrados, eles vão nos abandonar na linha de frente! — exclamou o tenente. Seu rosto mostrava medo e raiva, já a sua expressão era atenuada por uma cicatriz que cruzava sua bochecha até o olho esquerdo.
Bang!
— Ahhh! Meu braço! — Um dos soldados gritou, enquanto seu braço derretia como se fosse lama. Ele havia sido atingido por uma espécie de bola luminosa verde.
— Merda, atirem! Não deixe os Tiraks chegarem mais perto, ou estamos acabados.
— Tenente, o que devemos fazer? — indagou um soldado careca. Os outros quinze também olharam em sua direção, aguardando sua ordem.
Ele parecia aflito, indeciso sobre qual ação tomar nessa situação. Até que um olhar sinistro tomou conta de sua expressão.
— Vocês três, recrutas! Vocês vão cobrir nosso recuo, segurem os Insectóides o máximo possível!
Ao ouvir a ordem do superior, os três ficaram pálidos.
— Tenente, por favor! Meu tempo de serviço termina em um mês! — Um dos recrutas disse desesperado.
— O que? Você acha que a vida um mero humano terráqueo vale mais do que os soldados da Tropa Estelar? — Ele respondeu com um rosto cheio de desprezo.
Os outros homens também olharam para os recrutas. Os três entenderam que se não servissem de isca, seriam mortos ali mesmo.
— Apenas façam o que eu digo, senão, se eu sobreviver, farei suas famílias pagarem por criar traidores. — O tenente disse de forma ameaçadora.
Os jovens se entreolharam, pavor poderia ser visto em seus rostos.
Todos sabiam que os Insectóides eram uma raça brutal. Quando achavam uma presa, eles não iriam parar de atacar até que fossem mortos. Então o único jeito de despistá-los era deixar algumas tropas para se sacrificar, permitindo que a maioria do grupo se salvasse. Esse era o dever deles, como recrutas.
…
Algumas centenas de anos atrás, a humanidade dominou a tecnologia espacial, permitindo que o ser humano expandisse seu território para outros planetas. Até então, pensava-se que os humanos eram a única raça inteligente do universo, mas logo descobriram que isso não era verdade.
No ano de 2227, o ser humano conquistou seu primeiro planeta, Marte. Por meio de estações orbitais, chamadas de VIDAs, que retinham os gases de CO² na atmosfera, foi possível terraformar o planeta, tornando possível sua habitação.
Em 2271, houve o primeiro contato com uma forma de vida complexa extraterrestre. Enquanto investigavam um possível planeta habitável, chamado Ostaron, encontraram diversas criaturas não inteligentes. Em sua maioria ofereciam uma baixa ameaça, compostas principalmente de herbívoros. Apesar da baixa inteligência, apresentaram uma resiliência extremamente alta.
Após conquistar Marte, Ostaron e outros cinco planetas em menos de 100 anos, a espécie humana não ficou conformada e começou uma corrida espacial.
Todos os países queriam ter seu próprio planeta. Logo mais de dez planetas na Via Láctea estavam povoados. Foi então que uma grande descoberta foi feita. Os humanos que passavam longos períodos de tempo em Ostaron e outro planeta chamado Gaplas, desenvolveram habilidades físicas que excediam o limite comum. Aqueles que nasciam nesses planetas tinham efeitos ainda melhores.
Usando esses dois locais de base, a humanidade avançou em sua conquista. Até que em 2341 conheceram seu primeiro revés, os Vectras. Uma raça inteligente com tecnologia semelhante à humanidade. Ambas as raças entraram em contato durante algumas explorações. Após tentativas fracassadas de acordo, uma guerra estourou, a Primeira Guerra Planetária.
Nessa guerra houve milhões de baixas humanas, mas, no fim, haviam saído vitoriosos, obrigando os Vectras a fugir para planetas desconhecidos.
Depois dessa vitória, o ser humano pensou ser imbatível no universo, se desenvolvendo sem impedimentos por muitos anos. Até que em certo momento, encontraram seu grande algoz, os Insectóides. Uma raça não inteligente, mas extremamente poderosa e organizada, funcionando como uma grande colmeia. Por meio de criaturas gigantescas chamadas Bisões, que se assemelhavam a grandes besouros com 1km de comprimento, os Insectóides conseguiam migrar entre planetas, consumindo toda e qualquer vida em seu caminho.
Vendo os Insectóides conquistando planeta por planeta, ameaçando extinguir a raça humana, todas as nações se uniram sob uma única bandeira, criando as Tropas Estelares. Guerreiros criados nos planetas superiores, Ostaron, Gaplas, Voxa e Amorra. Esses quatro planetas, eram os planetas Superiores.
Depois de longas pesquisas, descobriu-se que os indivíduos nascidos nesses planetas em específico, tinham seus genes alterados ano a ano, até atingir a idade adulta. Dessa forma, houve o nascimento de super-humanos, conhecidos como Avancks.
Com essa guerra avassaladora, a humanidade decretou que todo cidadão deveria servir as Tropas Estelares, dos 18 aos 30 anos. Seu maior trunfo eram os Avancks, o restante dos seres humanos só serviam de apoio, desde suporte tático, até escudos vivos. O dever dos humanos comuns era garantir a sobrevivência dos Avancks, que carregavam o destino da raça como um todo.
Ano 2395, um pequeno pelotão foi abandonado nas linhas de frente, seu Tenente ordenou que os únicos três homens terrestres ganhassem tempo, para que seus soldados Avancks pudessem recuar.
…
Os três recrutas estavam em pânico. Se não obedecessem, seriam considerados traidores. Não só eles morreriam, como também as suas famílias, em seus planetas natais, seriam penalizadas.
Os quinze soldados levantaram suas armas, pressionando os recrutas para que saíssem da trincheira e segurassem os Insectóides.
— Vão! — O tenente gritou.
Ouvindo a ordem e o som de armas sendo carregadas atrás deles, os três recrutas correram para fora da trincheira. Assim que saíram, avistaram os primeiros Insectóides, os Tiraks. Pequenos insetos de 1m de comprimento, se assemelhavam a joaninhas, mas disparavam bolas luminosas de sua parte traseira, quando abriam suas asas.
Assim que viram os Tiraks levantarem suas asas, os recrutas ficaram pálidos; um único tiro e a parte acertada de seu corpo derreteria.
— Não parem de atirar! — Um dos recrutas gritou, levantando sua arma e atirando, sem parar um segundo de correr.
Tatatatatata
Os outros dois recrutas viram isso e seguiram o exemplo, derrubando alguns Tiraks, mas um deles foi lento demais e foi acertado na perna.
Ah!
— Me ajude! — A perna do recruta derreteu em segundos, ele continuou se arrastando em direção aos outros dois, mas nenhum deles parou.
Ao ver uma das presas no chão, agonizando, os Tiraks avançaram em sua direção, suas bocas com duas pinças mordendo os membros do recruta.
— Não! Me larguem, isso dói! — A voz desesperada do recruta foi ouvida por alguns segundos, até que subitamente cessou.
Os outros dois recrutas tinham rostos pálidos, aquele que havia instruído os outros dois a atirarem tinha um rosto abatido, seus olhos levemente marejados. Ele queria parar e socorrer seu colega, mas sabia que se fizesse isso, os três morreriam.
— Malditos Avancks! Malditas Tropas Estelares! — O jovem gritou com raiva, seu rosto completamente pálido e suado. Seu cabelo castanho escorrido estava extremamente bagunçado.
Enquanto corriam, eles se distanciaram dos Tiraks. Nesse ponto, o jovem de cabelos castanhos parou de atirar e se abrigou atrás de um rochedo, o outro recruta seguiu o exemplo.
— O que fazemos agora? — O recruta perguntou, sua voz tremendo devido ao medo.
O jovem de cabelos castanhos olhou para o outro com pena. Era um jovem de apenas 18 anos, que mal havia vivido a vida, mas foi jogado nesse matadouro cruel. Ele por sua vez não era velho, mas já tinha 29 anos, estava quase no fim de seu serviço militar, mas teve esse infortúnio. Seu nome é Asalin
— Por hora vamos tentar dar a volta nos Insectóides, se conseguirmos recuar até a base, estaremos salvos — disse Asalin, tentando parecer calmo, mas internamente ele sabia que era praticamente impossível conseguir isso.
Ao saber que havia alguma esperança, o jovem recruta assentiu com alívio. Então olhou para Asalin, com olhos esperançosos.
Asalin viu isso, mas não disse nada. Ele sabia que o jovem recruta estava dependendo dele, mas ele próprio não tinha garantia alguma de sobreviver.
— Vamos! — Depois de sair de trás do rochedo, Asalin correu na direção que os Tiraks vieram.
Normalmente fazer algo assim seria suicidio, mas essa era a única esperança deles, torcer para que os Insectóides que passaram não voltem, permitindo que eles os contornarem sem entrar em contato.
Ah!
O recruta atrás gritou. Asalin virou para trás e viu o garoto com a perna presa, afundada na terra seca. Então ele se sentiu em conflito, se deveria voltar e ajudar ou abandonar o rapaz.
A terra seca afundando era o sinal de que Insectóides já haviam escavado a área, o fato do jovem garoto ter pisado ali, poderia significar que ele havia alertado os Insectóides.
— Por favor! — O jovem pareceu saber o que Asalin estava pensando, então ele implorou com lágrimas nos olhos, sua perna havia afundado até o joelho, a terra seca prendendo sua perna tornava impossível ele sair por conta própria.
Rangendo os dentes com a indecisão, Asalin voltou atrás.
— Segura minha mão, rápido!
O jovem rapidamente agarrou a mão, cheio de desespero, tentando se puxar para fora da terra.
— Espera, espera! — Asalin gritou, ao ver que não só o rapaz não saia da terra, como estava afundando mais com essa movimentação.
— Não! Você vai me abandonar! — O jovem gritou em pânico, puxando-o para a terra fofa.
— Merda, para com isso!
Shhhhhiiiii!
Antes que um dos dois pudesse fazer algo, toda a terra em torno deles cedeu, afundando como um funil.
Bang!
Os dois afundaram na terra, caindo por vários metros, até atingir o solo fofo.
Cof! Cof!
Asalin tossiu, tentando cuspir a terra que entrou em sua boca.
Olhando em volta, ele viu o recruta no chão, boa parte da terra havia caído por cima dele, o soterrando do peito para baixo.
Zhiiii! Zhiiii!
Um som foi ouvido vindo de um lado do túnel, ambos sabiam o que era esse som, eram Rakars, Insectóides de 2m de altura, com longas patas que se assemelhavam a lâminas, eles lembravam uma mistura de aracnídeos com louva deus.
— Me salve! — disse o jovem recruta, esticando sua mão.
Vendo isso, Asalin não teve qualquer expressão, ele sabia que o recruta não tinha mais salvação. Além disso, isso havia sido causado por ele próprio. Sem pensar duas vezes, ele pegou sua arma e correu para o lado oposto do túnel escuro, sem saber o que o esperava.
Ahhhh! Ahhh!
Sons de gritos do jovem recruta e ossos sendo triturados foram ouvidos vindo de trás.
Asalin balançou a cabeça e continuou correndo, não havia como se preocupar com os outros agora.
Enquanto ele pensava nisso, ouviu algo se movendo na parede ao lado. Assim que ligou a lanterna, algo saltou em sua direção.
— Droga! — Asalin sentiu uma forte dor em seu ombro esquerdo, a criatura havia cravado suas garras nele.
Tatatatata!
Sem pensar duas vezes ele colocou o cano da arma na criatura e atirou.
Plac!
O inseto caiu no chão morto. Ele reconheceu o que era, um Rakar filhote.
Zhiiii! Zhiiii!
Logo sons de Rakars foram ouvidos, mesmo com a dor extrema, Asalin correu.
Enquanto corria, encontrou vários túneis bifurcados, sem pensar muito a respeito, escolheu o menor, um túnel de 50 centímetros de diâmetro. Ele havia escolhido esse túnel, pois os Rakar não conseguiriam entrar com seu grande tamanho e levariam muito tempo escavando.
Depois de alguns minutos se arrastando, ele não conseguia mais ouvir sons dos Insectóides, mas sua respiração estava pesada e sua visão escurecendo, mesmo com a lanterna ligada mal conseguia ver alguma coisa.
Ao colocar a mão em seu ombro, sentiu uma dor que quase o fez desmaiar, o corte era profundo e a perda de sangue era grande. Foi então que Asalin percebeu que não iria sobreviver.
“Desculpe pai, desculpe Laylin e Zakar. Eu não vou conseguir manter minha promessa.” Asalin pensou, lamentando por não conseguir manter a promessa que fez a seus pais e seus dois amigos, de voltar com vida da guerra.
Mesmo sabendo que era inútil, continuou se arrastando pelo túnel escuro, ele queria morrer sabendo que fez o seu melhor.
Foi então que ele viu algo, uma luz verde brilhando fracamente à frente. Então ouviu uma voz.
“Venha, venha até mim.”
Asalin ouviu uma voz em sua cabeça, o que o deixou espantado, mas logo ele sorriu ironicamente. Sabendo que deveria ser sua mente alucinando em seus momentos finais.
“Venha, se quiser viver.”
A voz soou novamente em sua cabeça, mais nítida do que antes.
Foi tão clara, que o fez questionar se era realmente uma alucinação.
Depois de chamá-lo uma última vez, a voz ficou em silêncio. Asalin pensou que estava louco, mas ele não tinha nada a perder.
Então juntou o restante de forças que lhe restava e continuou se arrastando com tudo que tinha, em direção a luz verde.
Rapidamente suas forças estavam se esgotando, mas pouco a pouco a luz verde estava ficando mais forte. Até que ele chegou a uma abertura larga, no fim do túnel, era de lá que a luz emanava.
Com dificuldades, Asalin puxou seu corpo para fora do túnel apertado, saindo em uma área espaçosa com formato oval, com cerca de 10m de diâmetro. No centro do lugar, uma planta verde iluminava todo o local.
“Você veio.” A voz soou novamente.
— Quem é? — Asalin exclamou, olhando em volta, mas não havia nada ali. Foi então que a planta no centro do salão de terra se movimentou. Abrindo-se, uma espécie de rosto se formou.
— O que é isso?! — Asalin gritou em pânico.
“Não tema, humano. Eu me chamo Lujah.” A voz soou em sua mente.
— Você é um ser vivo? Como isso é possível? — Ele disse sem acreditar.
“Acalme-se humano. Eu sou da raça Trant, os antigos governantes deste planeta.” A voz disse.
Asalin estava confuso, atualmente eles estavam em Exa-2, um planeta desabitado que era dominado pelos Insectóides. As Tropas Estelares haviam iniciado uma campanha militar para assumir esse planeta e usá-lo como base defensiva contra os Insectóides.
“Há muito tempo, a raça Trant dominava esse planeta, nós éramos uma raça poderosa. Um dia fomos invadidos pelos Insetos, no início os repelimos com facilidade, mas os insetos se reproduzem rapidamente, enquanto os Trants são uma raça com baixo metabolismo. Temos grandes capacidades de regeneração e longa longevidade, mas no fim nosso poder não foi suficiente. Então, depois de centenas de anos, sucumbimos aos insetos e seus números.” A voz contou, mostrando uma pitada de emoção.
Asalin estava prestando atenção na voz, mas então sua visão começou a nadar. Tudo estava escurecendo rapidamente.
“Humano, você está morrendo. Não há mais tempo. Quero fazer uma proposta. Deixe-me habitar seu corpo e me ajude a me vingar dos Insetos, em troca salvarei sua vida e lhe darei minha força. Tudo que você precisa fazer é consumir meu fruto.” A voz disse, então a planta se abriu e uma fruta verde brilhante apareceu.
A mente de Asalin estava confusa, ele não sabia se deveria fazer isso ou não, sua visão estava nadando e tudo parecia girar.
“Não há tempo! Me consuma, agora!” A voz gritou em sua mente.
Reunindo suas forças restantes, Asalin se levantou, se aproximou da planta e arrancou o fruto. Ele não sabia se poderia sobreviver ou não, mas essa era sua única escolha.
Nhoc!

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