28 - Maldito Apocalipse
Autor: Glauber1907
Hoje fazem quarenta dias que a porcaria do mundo acabou. Ou pelo menos eu acho que é isso… Droga, eu gostaria de ter um calendário.
Há cerca de trinta dias, criaturas estranhas, com cerca de um metro e meio de altura, mandíbulas tão grandes quanto um punho, pelagem amarela e que andam em quatro patas surgiram. São uns trecos bizarros, peraí eu não tinha dito quarenta dias? Ah que seja.
Enfim, fazem uns vinte cinco dias que o mundo acabou, quando os Dingous apareceram.
Você deve estar se perguntando porque se chama Dingous, certo? Um nome bem ridículo para monstros mortais que tão comendo todo mundo. O motivo para isso é bem simples. Na verdade… Ah foda-se, eu só queria chamar assim! Porra, é o meu fim de mundo, eu escolho!
Faz uns vinte oito dias que o mundo acabou. Peraí, sinto um deixa-vú aqui… Tanto faz.
Dingous são uns bichos bem sinistros, uma descrição apropriada é que eles se parecem com cães gigantes, só que sem olhos. Em suma, rastreiam seus alvos por meio de ruídos e sons. É, sim, a porra do mundo acabou a trinta e um dias atrás pra uns treco cego. Não me culpe se a humanidade é tão incompente para perder para um nêmesis com deficiência visual.
Eu tenho sobrevivido nos últimos trinta e seis dias escondido numa casa que encontrei aberta. Eu não sei quem são os donos, eu só tava trabalhando como entregador do EuComida, um sitezinho mequetrefe que faz desgraçados fodidos como eu trabalharem entregando comida numa bicleta. Porra, pelo menos podaim ter me dado uma moto! Filhos da mãe!!
Enfim, vamos voltar a como tudo começou. Enquanto entregava o almoço de um casal de haitianos, que por sinal nunca me davam gorjeta, ouvi gritos na rua.
Olhando para longe logo vi algo muito louco, um par de criaturas bizarras enormes correndo desenfreadas pela rua, enquanto mastigavam um cara que gritava desesperado.
Quando eu vi isso, fiz o que qualquer pessoa normal faria nessa situação, cai no chão e me deitei em posição fetal, todo cagado.
O que? Qualquer um faria isso! Não é que eu congelei de medo ou algo assim… As fezes? Ah isso… É… Foi uma reação natural de defesa, obviamente, tipo quando os polvos jogam tinta pela bunda pra fugir do seu predador.
Bem, no fim, minha decisão se provou ser, de forma premeditada, é claro, certa. Tinha umas dez pessoas na rua naquela hora, alguns correram, outros gritaram e alguns correram enquanto gritaram. Sem exceção, cada um deles foi perseguido e abocanhado.
Bem na minha frente, eu vi o casal de haitianos, para quem eu fazia entregas a mais de um ano, ser comido vivo! Naquela hora, vendo aquela cena, pessoas que eu conhecia morrendo, eu… Eu me senti…
Ah foda-se, eu não senti nada realmente, os fodidos nunca me deram uma gorjeta!
A verdade é que eu só fiquei lá, paradinho, em posição fetal. Quando os Dingous terminaram o banquete, meteram o pé atrás de mais ‘ruídos’.
No fim, quando percebi que ainda estava vivo e que minha manobra defensiva, friamente calculada, havia funcionado, entrei na primeira casa aberta que achei.
E claro, não acabou aí. Nos três ou quatro dias seguintes ouvi vários gritos, lamúrias e até mesmo explosões do lado de fora. Merda, foi tão assustador.
Fico imaginando se os donos dessa casa ainda estão vivos… Sabe, no primeiro dia teve um pessoal doido batendo na porta tentando entrar. Não acho que eram os donos, mesmo que eles tenham gritado algo sobre ter alguém lá dentro e que não conseguiam abrir a porta.
Sabe, se fossem mesmos os donos, não que eu ache que seja, é claro que não eram, eles possivelmente teriam dificuldade de entrar por causa da máquina de lavar, sofá e uns outros móveis que eu encostei na porta…
Além disso, mesmo que, hipoteticamente falando, fossem os donos, não havia tempo para fazer algo…
Claro, eles meio que passaram uns quinze minutos gritando e tentando arrombar a porta, mas isso é claramente pouco tempo.
Depois disso os don-. Ahem, quer dizer, os hipotéticos donos foram embora. Ou pelo menos eu acredito que foram, meio que ouvi um bocado de gritos, rosnados, sons de ossos quebrando e um silêncio absoluto depois. Mas tenho certeza que fugiram em segurança…
Bem, no quarto dia eu criei coragem de ligar a TV, bem baixinha. O governo havia declarado estado de calamidade e levantado lei marcial. O exército estava se opondo aos Dingous e tentando exterminá-los.
No início eu tava até otimista, mas com as várias notícias de derrotas e alertas de evacuação para áreas seguras, eu comecei a ficar pessimista sobre o futuro.
Segundo o anúncio do governo, as pessoas deveriam fugir para os pontos de encontro para serem evacuadas.
Sério, por mim eu teria ficado nessa casa pra sempre. É bem fortificada, paredes duras, acho que tem algum material a prova de ruído nas paredes, então nenhum Dingou me incomodou nesse meio tempo. Mas porra, a droga dos antigos donos nem fizeram compras! Já tava a quatro dias vivendo à base de miojo de salsicha.
No sexto dia nem miojo de salsicha tinha mais. No oitavo dia, em meio a meu desespero, comi todas as frutas de isopor de decoração da casa. Droga, não sei se era a fome, mas não eram tão ruins…
Eu realmente não queria sair da casa, mas no décimo dia, meu braço esquerdo estava deliciosamente atraente. Droga, eu sempre pareci tão saboroso?
Enquanto divagava mentalmente, olhando para meu braço esquerdo com água na boca, resolvi sair da casa. Felizmente eu achei um pacote de trakinas mofado num guarda roupas antes de sair. Meio que senti que meu braço esquerdo suspirou aliviado.
O que? É claro que sei que braços não suspiram aliviados. Eu não sou louco, porra!
Pelas informações da TV, um comboio militar passaria perto dali em algumas horas. Obviamente eu não só sai por ai correndo feito uma galinha sem cabeça, não sou burro assim.
Primeiro eu subi numa árvore alta que tinha numa praça próxima, era bem alta, aparentemente uma árvore centenária. Ali eu teria uma boa visão da avenida quando o comboio passasse.
Fiquei em torno de quatro horas na árvore, esperando, esperando silenciosamente. Você deve estar se perguntando, não seria melhor conseguir alguns suprimentos antes, já que eu estava morrendo de fome?
É claro, eu até pensei em ir. Mas subitamente descobri que… Tenho medo de altura. Porra, eu nunca subi em uma árvore, ainda mais uma tão alta, como eu saberia?
Para falar a verdade, estava com tanto medo de um Dingou me pegar enquanto tava tentando escalar, que nem lembro como consegui subir. Só sei que, porra, era alto para um caralho!
Enquanto eu me agarrava em um galho, mordiscando as folhas da árvore como um bicho preguiça, vi algo incrível. Era o comboio!
Naquele momento me vi em um dilema, deveria enfrentar meu medo de altura e descer para ser resgatado, ou deveria me resignar a viver como um primata, me alimentando de folhas pelo resto da minha vida?
A escolha era óbvia, afinal, comer folhas não é tão ruim assim.
Enquanto via o comboio passar ao longe, tendo completamente aceitado que aquela árvore era minha casa, que ali era meu lar, vi algo bizarro.
A árvore centenária era a maior, mas haviam outras árvores um pouco mais baixas próximas. Ali eu vi algo que quase me fez ativar o modo defensivo, de ficar em posição fetal, enquanto me cagava.
Vi a porra de um Dingou escalando uma árvore em uns cinco segundos, tudo para pegar um passaro que tava cantando no alto. Claro, o Dingou caiu no final, se espatifando no chão feito massinha de modelar. Mas… O pássaro tava na boca dele.
Naquele momento algo me veio à mente. E se uma hora me desse dor de barriga de tanto comer folha e eu soltasse um peido um pouco mais alto? Foi nesse momento que eu me vi como aquele pássaro. Meu lindo canto atraindo um predador cruel.
Com dificuldade, me abraçando na árvore como um panda, eu de alguma forma consegui descer.
Andando da forma mais silenciosa possível, me dirigi em direção a avenida. Para minha sorte, o comboio ainda estava na metade!
Havia muitos carros parados nas laterais, aparentemente os grandes caminhões da frente jogaram todos para os cantos da pista.
Nesse momento, acenei feito um louco, me aproximando rapidamente dos carros que andavam lentamente, esperando os da frente avançar.
“Aqui, me leva com vocês!” falei alto, cheio de empolgação. Finalmente eu seria resgatado!
No entanto, toda minha empolgação se foi tão rápido quanto surgiu. Um dos filhos da puta levantou seu rifle e apontou na minha direção, me fazendo travar no meio do caminho.
“Mim humano, mim vir em paz!” disse, fazendo dois Vs com as mãos.
Os soldados em cima do carro se entreolharam, mas o desgraçado com o rifle não abaixou a arma.
“Não tem espaço para civis aqui, procura uma base de evacuação!” O filho da mãe com o rifle disse.
“E-eu não ocupo muito espaço, nem como muita comida. Sério, só preciso das sobras, alguns ossos e eu tô de boa.” falei, desesperado. Droga, me lembrando daquilo me sinto tão humilhado, como uma virgem sendo desnuda num palco.
Todos os soldados no carro e os dos carros de trás olharam a situação com curiosidade, alguns apontando e rindo. Malditos desgraçados!
“Vaza.” O sujeito falou, então engatilhou a arma.
Merda, merda! Tava com tanto medo que tropecei na minha própria perna. O que fez os malditos gargalharem alto.
Desgraçados malditos, paguei tantos impostos para manter esses fodidos e eles me ameaçam dessa forma!
Enquanto estava numa mistura de medo, raiva e diarreia, ouvi um puta barulho vindo de longe. Logo depois começaram os tiros e gritos. Os Dingous tinham chegado!
Apesar de querer usar minha arte secreta de posição fetal, algo me dizia que não era o momento certo. Então corri, na ponta dos pés.
Depois de me virar e me afastar do comboio, os sons de tiros que antes estavam longe, começaram atrás de mim também. Ouvi os rosnados assustadores dos Dingous, quase como se estivesse a poucos metros.
Olhando para a direita parei e meu corpo travou. Na verdade eles tavam mesmo a poucos metros, porra!
Um Dingou gigante, de cor bem amarelada, estava caminhando, enquanto rosnava. O treco estava a menos de quatro metros de distância do meu cadáver, quer dizer, corpo.
De repente, o bicho olhou na minha direção. Na verdade, olhar é uma palavra muito forte, já que não havia olhos. Ele apenas virou a cara na minha direção, como se estivesse tentando ouvir algo.
Merda! Merda! Eu queria correr, mas eu sabia que se fizesse isso, estaria apenas adiantando a minha morte.
Meu coração estava pulsando tão forte que fiquei com medo do Dingou ouvir.
Felizmente o som de tiros se intensificou. A criatura rosnou uma última vez, como se estivesse irritada por não ter ouvido nada e correu em direção ao comboio.
Nessa hora eu corri, mesmo sabendo que o ideal é andar calmamente de forma silenciosa, meu corpo não obedecia, o cagaço era grande demais.
Para minha sorte, o barulho de tiros e gritos dos soldados era tão alto que nenhum Dingou pareceu notar minha presença.
Apesar do medo, minha mente não havia perdido a razão ainda, ou pelo menos o que restava dela. Se eu continuasse correndo, uma hora um deles ia me pegar. Então eu vi uma van branca, sem pensar duas vezes abri a porta e me joguei dentro.
Lá de dentro eu me encolhi no banco, enquanto via a merda acontecer.
Dezenas de Dingous estavam destruindo o comboio, alguns estavam rasgando os soldados como se fossem feitos de gelatina.
Normalmente eu deveria ficar triste vendo aquilo, mas porra, esses fodidos mereceram! Que tipo de militar abandona um civil? Um lixo desses tem que se foder mesmo!
Naquele momento eu vi algo que chamou a minha atenção. O desgraçado que apontou o rifle pra mim estava no chão, batendo num Dingou com seu braço esquerdo decepado, enquanto ele mastigava sua perna esquerda, o maluco tava gritando pra caralho. Merda, aquilo foi… Hilário!
Toma ai, seu fodido!
Eu tive que me conter para não rir. O que? Eu não sou maluco doente. É apenas… A doce vingança!
Vários soldados dos carros atacados saltaram e correram, tentando fugir, mas os Dingous os pegaram um após o outro.
Um deles veio na direção da minha van. Droga, seu fodido vai pra outra direção!
O cara parecia saber que eu estava ali, mesmo que os vidros fossem escuros. Acho que me viu entrar lá quando o ataque começou.
“Abre, abre!” Ele sussurrou.
Sem pensar duas vezes abri a porta. Assim que ele estava prestes a entrar, chutei sua cara. Pegando uma garrafa de vidro que estava jogada no chão da van, atirei no chão, onde ele havia caído, então fechei a porta devagar e silenciosamente,
O cara tava em choque, quando foi se levantar cortou a mão, fazendo-o dar um leve gemido de dor. Enquanto colocava uma das mãos no nariz que sangrava, olhou na minha direção. Ele tava puto!
Nesse momento, quando o sujeito estava prestes a alcançar a van, um Dingou o pegou, carregando-o na boca, enquanto balançava a cara feito louco e levando sua comida para quem sabe onde.
Naquele momento eu vi a verdade. Ainda existiam soldados bons, mesmo sem me conhecer aquele soldado havia se sacrificado voluntariamente, é claro, para me salvar. Descanse em paz, oh bravo soldado, jamais o esquecerei!
Peraí, como era mesmo o rosto dele? Era moreno? Pardo? Ah, tanto faz, to com fome.
Assisti de camarote o ataque ao comboio. No fim, mais da metade dos carros e caminhões fugiu, abandonando a parte que não poderia ser salva.
Depois tudo se aquietou, os soldados que ficaram para trás ou fugiram, ou viraram rango de um Dingou.
Após algumas horas tudo ficou silencioso, apesar disso, não me atrevia a sair. Depois do show de tiros e gritos, deveria ter vários Dingous na área. Então acabei ficando dois dias naquela van.
Felizmente minha sorte não era das piores, era uma van que transportava alimentos para algum lugar. Havia garrafas de refrigerante, enlatados e algumas coisas, eu enchi o bucho comendo de tudo!
No terceiro dia, eu relutantemente abandonei a van. Eu até queria ficar lá mais uns dois dias, mas… Eu roncava muito, se eu dormisse e numa dessas um Dingou passasse perto… Nem ia saber como morri.
No final de tudo, enchi minha bolsa de alimentos e ainda peguei uma caixa de enlatados, carregando-a nos ombros. Felizmente minha bolsa do EuComidas era grande o suficiente para caber muita coisa.
De alguma forma, eu consegui voltar para essa velha casa e desde então aqui estou eu. Nesses trinta e quatro dias, ou algo assim, desde o apocalipse, só sai quatro vezes, uma no dia do fracasso do resgate e outras vezes para reunir mais alimentos que peguei nas casas vizinhas.
Hoje era mais um dia comum, estava comendo meu atum enlatado, bebendo um refri de 200ml, merda, era minha refeição favorita desde que o mundo acabou!
Agora eu tinha muita comida e não sentia mais urgência em sair. A TV tambem parou de transmitir como antes, apenas ocasionalmente voltava ao ar, falando sobre novos locais de evacuação.
Fodam-se! Como se eu fosse acreditar nesses fodidos do governo de novo!
Eu tava seguro e feliz, porque eu deveria sair?
Apesar de me sentir aconchegado na velha casa, havia um problema crucial. Não havia internet, vasculhei toda a casa em busca de uma revista pornô, mas não achei nada…
Como eu deveria me aliviar?? Sério, até uma playboy serve!
Apesar dos meus esforços contínuos, não achei nada. O melhor que consegui foi uma revista de amostras de unhas postiças.
Merda, os dedos daquelas modelos são tão incríveis. Principalmente o dedo indicador da página 23 e o anelar da página 47 parecem tão macios e sedosos…
Dia 57, talvez 61, algo assim. Estava entediado, mesmo que tivesse alimentos e uma revista de unhas postiças, não era suficiente para me entreter mais.
Naquele dia eu comecei a jogar damas comigo mesmo, mas eu nunca vencia… O desgraçado do meu outro eu sempre ganhava! Maldito eu!
Enquanto estava entediado, subi até a varanda, era algo que normalmente não faria, já que morria de medo dos Dingous.
Olhando para baixo, vi as ruas vazias, algumas partes cheias de sangue e destroços dos eventos dos primeiros dias. Ocasionalmente era possível ouvir alguns rugidos de Dingous ao longe.
Não consegui evitar de suspirar, a minha vida antes era um saco, mas ainda era muito melhor que agora… Eu era feliz e não sabia.
Enquanto olhava desanimado para as ruas abaixo, vi algo que fez todo meu corpo se arrepiar. Era uma… Mulher!
Uma garota, deveria ter por volta dos 16 aos 19 anos. Era uma gatinha colegial!!
A menina estava se esgueirando entre os destroços de carros, parecia bem magra e faminta, mas ainda dava pra ver que era bonita.
Merda, merda, merda! Uma mulher! Quantas vezes eu não sonhei com isso? Nem conseguia mais me lembrar de como se pareciam, por algum motivo tudo que me recordava é que tinham dedos macios e unhas bonitas.
Eu tava empolgado, tão empolgado! Eu estava prestes a descer la e convidá-la para entrar, mas o que eu vi em seguida me fez travar. Não muito atrás dela havia um Dingou!
A criatura parecia não saber onde a garota estava, mas de alguma forma sabia que havia alguem por perto, já que parecia procurar algo, revirando tudo que encontrava no caminho.
A garota, ao ver o Dingou, não parecia surpresa, apesar de assustada. Apenas continuou vagarosamente e silenciosamente andando para longe, o mais rápido que podia.
Vendo sua reação, percebi algo. Ela parecia estar tentando despistar ele há algum tempo.
Nesse momento fiquei cheio de dúvidas, eu queria muito ter uma mulher me fazendo companhia, mas eu deveria arriscar minha vida por isso? Para salva-la?
De um lado meu cagaço dizia para eu ficar bem ali, quetinho e seguro, do outro o que estava dentro das minhas calças falava para mim não ser um covarde e salvá-la.
Qual deles eu deveria ouvir? Ah sim, também havia meu lado depressivo, ele dizia pra mim não ouvir nenhum dos dois, simplesmente pular da varanda e acabar com minhas dúvidas. Foda-se seu desgraçado, eu não vou morrer virgem!
Depois de me decidir, desci apressado. Pela velocidade da garota, ela deveria chegar em frente a minha casa a qualquer momento.
Usando a fresta da porta, observei o lado de fora. Assim como imaginei, a garota continuava a andar silenciosamente, vindo nessa direção. No entanto, algo me pegou de surpresa, a porra do Dingou estava na cola dela, quase a alcançando.
Mesmo que não pudesse ouvi-la, o bicho de alguma forma parecia poder fareja-la. Merda, um Dingou com nariz? Por que esse desgraçado não é como os outros?
Meu corpo congelou, em meio a minha indecisão, a garota e o Dingou estavam quase na frente da casa. Ele estava apenas dois metros atrás dela, nesse ritmo ela a pegaria antes dela chegar até aqui…
Droga! Você não vai comer ela seu maldito! Eu é quem vou! De forma sexual, é claro. Ainda não enlouqueci o bastante para virar canibal. Pelo menos ainda…
Abrindo a porta lentamente, sai, de peito estufado e cheio de coragem. No entanto, quando vi o Dingou, toda a coragem fugiu, me largando ali sozinho. Sua coragem covarde!!
A garota me viu, cheia de choque, mas não podia falar nada e muito menos andar mais rápido em minha direção, pois o Dingou estava a menos de dois metros atrás dela, cheirando o chão enquanto andava.
Se eu fosse fazer algo, deveria fazer logo, era agora ou nunca.
Colocando a mão no bolso, tirei uma bolinha de gude, uma daquelas grandes banhadas em metal. Então, sem pensar duas vezes, a joguei para longe. Merda, era minha bolinha de gude da sorte…
Assim que a bolinha de gude atingiu o chão, o Dingou levantou a cabeça, rosnou alto e então correu na direção do som.
Felizmente eu a joguei longe, do outro lado do muro de um terreno abandonado.
O Dingou correu de forma frenética em direção ao som que se distanciava. A bolinha continuou quicando para longe.
Quando a criatura, com dificuldades, subiu no muro e saltou para o outro lado, eu fiz um sinal de mão para a garota, indicando que viesse na minha direção rapidamente.
Apesar de hesitante, a garota correu, com passos apressados na minha direção.
Vendo-a de perto, meu corpo arrepiou, era uma loirinha magrinha de olhos verdes… Ah, tirei a sorte grande. Isso mesmo novinha, vem!
Eu entrei na casa e logo que a garota entrou, fechei o portão de metal. Mesmo que o Dingou tentasse fareja-lá, acho que não vai conseguir entrar, pelo menos assim espero…
Ambos subimos para o fundo da casa, sem falar nada um para o outro, mas estava claro que estavamos aliviados de sair daquela situação.
Chegando no interior da casa, suspirei. Merda, eu podia ter morrido… Tirando a vez do comboio e do primeiro dia, nunca tinha estado tão perto de um Dingou.
Apesar disso, eu estava feliz. Olhando para a garota, que havia sentado no sofá, meu coração acelerou. Merda, tinha uma mulher comigo, finalmente! Adeus cabaço!
“Err… Você tá bem?” perguntei, um pouco nervoso.
“Sim.” A garota respondeu, desviando o olhar da minha direção. Isso me incomodou um pouco.
Foi aí que eu notei, ela estava tão magra, deveria estar faminta. Rapidamente peguei alguns refris e enlatados, entregando para ela.
“Aqui, pode comer e recuperar suas forças.”
“Obrigado.” respondeu, de forma curta e simples.
Enquanto a garota estava comendo, tentei conversar.
“Como você se chama?”
“Julia.”
“Qual sua idade?”
“Dezoito.”
“Você tá machucada em algum lugar?”
“Não.”
Não importa como eu tentasse puxar assunto, ela sempre desviava o olhar e dava respostas curtas. Porra, eu salvei tua vida! Realmente precisa me tratar de forma tão fria?
Não sabia como falar com ela mais… Droga, sabia que tinha que ter comprado aquele livro que me ofereceram ‘Como conversar com mulheres, até fracassados conseguem’.
Como não sabia o que dizer, fiquei apenas a olhando em silêncio, encostado na bancada da cozinha. A garota hora e outra levantava o olhar, mas tornava a abaixar a cabeça depois de um vislumbre em minha direção.
Qual é, eu sou tão feio e bizarro assim? Ok, talvez eu seja, mas eu te salvei, ta? Pelo menos me trata como um humano…
Apesar da vergonha, me aproximei dela, o que fez a garota levantar os braços, como se para se defender. Droga… Eu não vou tentar algo sem o seu consentimento, mulher!
“Ahem… Meu nome é Lucas, tenho 23 anos, 13 centimetr- quer dizer… Gosto de ouvir samba rock. É um prazer te conhecer.”
Enquanto a observava, a vi dar mais um olhar na minha direção, apenas para baixar de novo. Nesse momento percebi que ela apenas olhava para minha cintura.
Foi nesse momento que eu percebi algo… Eu tava de barraca armada! E porra, tava muito armada!
Finalmente entendi o porquê dela estar tão constrangida. Olhando para minhas calças, não consegui evitar de amaldiçoar o Johny. Seu maldito dedo duro, pelo menos saiba esconder suas intenções!
E foi assim que eu, Johny e Julia nos conhecemos, nesse maldito apocalipse.

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