13 Noite de Wallpurgis
Autor: Nova13
Eu sou um monstro.
Em um mundo em que todos os pesadelos que os humanos já tiveram desde o início da criação são reais, desde fantasmas, ghouls, lobisomens, demônios, vampiros, até mesmo dragões… O medo do escuro não é algo do que se envergonhar; muito pelo contrário, é um cuidado necessário para qualquer humano comum por aí.
Porém, eu não sou um humano comum. Eu sou um monstro, e aquele do pior tipo possível.
Não interessa se eu tenho de colocar uma bala de prata no coração de um cachorro estúpido. Não interessa se eu tiver de arrancar as asas de um morcego. Não interessa nem mesmo que eu tenha de arrancar a cabeça de um lagarto com um tamanho desproporcional.
Eu sou o pior tipo de monstro, porque eu sou um daqueles que é capaz de caçar pesadelos. Eu sou o monstro que mata as criaturas da noite, e eu adoro o que faço.
Não porque eu sei o que esses pesadelos fariam se permanecessem vivos. Eu não ligo se eles são inocentes ou não, e muito menos se eles já mataram alguém ou se planejam fazer de novo. Eu os caço apenas para poder ver o medo em seus olhos… A figura de um ser que se imaginava invencível, colocado de joelhos enquanto implora por sua vida… Isso é tudo o que importa para mim.
Stephen King disse que monstros são reais, e que eles vivem dentro de nós. Eu não poderia concordar mais.
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14 de Fevereiro. Segunda-feira, 6 pm.
Na periferia da grande metrópole Deapólis, existe uma mansão. Localizada no topo de uma colina, dizem que ela seria tão antiga quanto a própria cidade, e que ela teria sido construída apenas para observar o seu crescimento. Tal comentário não está errado. A mansão pertence a uma família antiga e influente, que presidiu a criação da cidade, e que comanda Deapólis até os dias de hoje. A família Walpurgis.
A cidade criada a mais de 1500 anos atrás, foi governada por apenas cinco gerações da família Walpurgis.
Sim, apenas cinco gerações. Os Walpurgis são uma família de vampiros, o que significa que suas vidas possuem uma duração indeterminada… A menos que eles sofram algum acidente, claro.
Atualmente estamos na quinta geração, chefiada já a mais de 300 anos pelo lorde Dominique. Muitos dizem que se aproxima o momento em que ele irá abdicar de sua posição para se juntar ao conselho de anciões, passando o seu lugar para um de seus filhos.
O conselho, composto pelos líderes das gerações anteriores, mantém contato com organizações espalhadas pelo resto do país e do mundo, e oferece conselhos, ou melhor dizendo, instruções aos líderes da geração atual. Em prática, são eles os reais governantes da cidade.
Uma oligarquia arrogante, composta por resquícios de eras passadas, e que já passaram da hora de deixar esse mundo. Claro que eles também estão na minha lista.
Mas para chegar até eles, primeiro preciso lidar com o chefe atual da família, lorde Dominique. Também conhecido como aquele que implementou a política de usar a minha família como servos de sangue da família Walpurgis.
É triste como a história de toda a minha família, originalmente composta por caçadores de aberrações como o lorde Dominique, tenha sido determinada por uma simples decisão feita antes que os meus pais, ou mesmo os meus avós ainda tivessem nascido. O orgulho de nossa família de caçadores, destruído.
Não interessa o que aconteça, é ele quem está no topo da minha lista. Por minha vida toda eu tenho tido o objetivo de apreciar o seu sofrimento enquanto eu quebro tudo o que ele é.
Mas antes de pensar em como exterminá-lo, eu devo planejar como me aproximar dele. Ele que é um dos indivíduos mais protegidos de toda a cidade, com uma segurança de ponta, a nível mundial.
Essa missão seria impossível se eu estivesse sozinho.
Mas como eu já disse, a minha família é usada como servos da família Walpurgis. Por isso, a mim também foi designada uma mestra. Porém, diferentemente do resto dos Walpurgis, ela não tomou o meu sangue para forçar o meu controle.
Nós não somos limitados por uma relação de servidão. Eu confio nela e a respeito, e eu sei que ela sente o mesmo por mim.
…
Apenas após essa longa introdução eu posso finalmente explicar o motivo de eu ter acordado as cinco da tarde, presenciando o crepúsculo ao invés do amanhecer.
Na velha mansão dos Walpurgis, abandonada pelo resto da família, que se mudaram para residências protegidas do sol no subterrâneo da cidade, eu me encaminho para o quarto de minha mestra. Após esperar pelo pôr-do-sol, eu percorro os longos corredores, me aprofundando cada vez mais até o interior da mansão, enquanto carrego uma bandeja com uma xicara de chá, torradas, e requeijão e geleia de morango como acompanhamentos.
A cada corredor que eu percorro, a presença de janelas fica mais escassa. Os últimos resquícios de luz que desapareciam com o sol poente, se extinguem precocemente, enquanto eu me aproximo do coração da casa, com uma arquitetura desenvolvida para impedir a entrada mesmo do mais mínimo raio de luz. Mas mesmo na escuridão total, eu não perco o caminho com o qual já me habituei.
Chegando ao final, uma enorme porta, que eu conheço apenas pelo tato. Isolada do resto da mansão, do resto da cidade, e do resto de sua família, eu espero até que o sol termine de se pôr para bater três vezes na porta e perguntar:
— Lisa, já acordou?
Eu chamo minha mestra, Elisabete Walpurgis, a mais jovem dentre todos os herdeiros.
Isolada pelo resto da família, todos têm certeza de sua derrota na guerra de sucessão que se aproxima. A pária, presa nessa mansão durante todo o dia, um alvo fácil quando decidirem se livrar dela.
Nós vamos prová-los errados. E a cara de surpresa de lorde Dominique será a última que ele terá, quando estivermos na cerimônia de coroação da Lisa.

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