31 - A Pior das Raças
Autor: Edward.M
Há 5 anos, no dia 11 de Janeiro de 2023, um evento considerado sobrenatural ocorreu. Por volta de 12.000 pessoas desapareceram ao redor do mundo simultaneamente, sem deixar qualquer rastro.
O mundo se encontrava perplexo, enquanto as autoridades afirmavam que, uma hora ou outra, uma explicação seria dada.
1 ano, 4 meses, e 9 dias depois, o incidente se repete, provocando o sumiço inexplicável de 10.400 pessoas, novamente de diferentes locais do globo.
A esse ponto, as nações mais importantes deixaram de lado seus problemas para tratarem desse mistério, que assolava a sociedade cada vez mais.
Religiosos apostavam no fim dos tempos, ufólogos em abduções, e os conspiracionistas em uma manobra do governo mundial para reduzir a população. Entretanto, não havia uma explicação real para o evento, que logo foi batizado de “Grande Exclusão” pela mídia.
No ano seguinte, o mesmo, em uma data diferente, deixando a ideia de um acontecimento anual e imprevisível. 3.700 pessoas desapareceram, dessa vez, oriundas apenas de países subdesenvolvidos.
O grande problema com esses desaparecimentos era justamente a imprevisibilidade. Políticos importantes desapareciam enquanto exerciam suas funções, e pilotos enquanto conduziam aeronaves comerciais. Centenas de acidentes ocorreram nas datas do evento, e grandes problemas surgiam.
Nos anos de 2025 e 2026 nada aconteceu, o que deixou o mundo às cegas, sem saber o que esperar para o futuro. Se havia acabado ou não, ninguém sabia.
Atualmente…
17/01/2027 – 20:27
— Cacete, meu refrigerante! — exclama um jovem estudante de pé na porta de sua sala de aula, se afastando da poça feita por sua lata caída.
— Desastrado, vai chamar o zelador, vai — diz um colega, sentado sobre uma carteira.
— Tsc, desastrado é seu pai, e nem preciso dizer o motivo… — murmura enquanto caminha até uma salinha no fim do corredor. — Senhor Dante, um garoto derramou refrigerante na porta da nossa sala… Poderia limpar?
Organizando alguns instrumentos de limpeza em uma prateleira, um homem de 27 anos recebe o pedido, assentindo com a cabeça e um leve sorriso em resposta. Aproximadamente 1,74 de altura, um físico mediano, pele parda, cabelo escuro, corte social, e uma barba mal feita.
— Claro, deixe comigo.
— Beleza — fala o menino enquanto deixa o lugar.
Dante suspira, mudando sua expressão para uma cansada e levemente irritada.
— Moleques folgados — murmura, puxando um esfregão.
Caminhando rumo à poça, com o esfregão em uma mão e um pequeno balde com água na outra, a sirene ecoa, anunciando a saída dos alunos. Uma multidão de adolescentes disparam de suas salas simultaneamente, praticamente atropelando o homem, que após alguns minutos consegue se livrar daquela horda de alunos.
— Que coisa, pensei que fossem me arrastar junto… — diz irritado, enquanto torna a procurar a poça, que agora está espalhada pelo corredor, pisoteada por sapatos de solas sujas.
Outro suspiro, antes de mergulhar o esfregão no balde e lança-lo contra o chão com certa força, esfregando-o em seguida.
Eu errei feio mesmo… — Pensa enquanto se acalma — Tantos anos para me decidir, e eu nunca criei um objetivo decente…
Ele mergulha o esfregão novamente.
Deveria ter aproveitado melhor o ensino médio… — Torna a esfregar o chão — Mesmo depois da formatura, estou na escola… A diferença é que sem perspectiva de vida.
Após alguns minutos Dante termina a limpeza, e volta para sua pequena sala de 6 metros quadrados, preenchida por um armário, duas prateleiras com ferramentas e outros objetos, além de uma mesa velha e danificada.
— Enfim… Acho que vou para casa — fala após guardar os itens utilizados. — Me sinto exaus-
— Dante? — diz a voz feminina de uma professora, parando na porta da sala — O banheiro dos professores está com algum problema… Poderia dar uma olhada?
— Oh, claro — responde gentilmente, gritando em desespero por dentro.
17/01/2027 – 22:47
— Chega… Por hoje chega… — murmura, enquanto bate a porta de seu pequeno apartamento de quatro cômodos.
Ele larga algumas sacolas sobre o balcão que separa a sala da cozinha, antes de se atirar no sofá, afundando seu rosto em uma almofada de felpuda.
Exausto… — Pensa, empurrando sua mão sob seu corpo para alcançar o controle da TV debaixo de seu abdômen.
— Depois desse telejornal vão exibir um filme bacana… — murmura após ligar a televisão, sacando seu celular do bolso, ainda esparramado sobre o sofá — Vou esperar…
Durante algum tempo ele se mantém rolando sua timeline no Instagram, observando as postagens de alguns perfis.
— Oh… Maicon está na Alemanha… Detesto esse cara… — comenta em um tom sonolento, antes de rolar a tela por mais alguns segundos — Caraca, Oliver conseguiu aquele Mustang… Haha, ele ganhou nossa aposta, será que ainda se lembra? Meu melhor amigo… Não vou incomodá-lo com isso agora… — Torna a rolar por mais algum tempo — Nossa… Diana se casou… Lembro de gostar dela até o fim do ensino médio… Uau, o tempo voa mesmo…
De repente, seu telefone desliza e cai de sua mão, porém, Dante não reage, e se mantém na mesma posição, olhando vagamente para um canto qualquer.
— Preciso dormir… — sussurra enquanto fecha seus olhos, agora um tanto avermelhados, ignorando os sons e a luminosidade da televisão ainda ligada.
17/01/2027 – 23:50
— Voltaremos amanhã com mais notícias, tenham uma ótima noite — diz o apresentador, anunciando o fim do telejornal.
17/01/2027 – 23:59
Vizinho arrastando móveis no apartamento de cima.
17/01/2027 – 00:11
Todos os canais são tomados por plantões de telejornais anunciando uma série de acidentes ao redor do mundo. Aviões despencando em pleno vôo, automóveis colidindo nas rodovias, cirurgiões desaparecendo no meio do trabalho… O número de mortos nas tragédias, e relatos de desaparecimento aumentam a cada segundo.
A internet ferve anunciando a volta da “Grande Exclusão”. O celular de Dante vibra incessantemente com as notificações das redes sociais, porém, ele já não está mais ali para olhar.
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Eu não tomei banho… — Pensa Dante, acordando — Saco…
Ao tentar se levantar, ele percebe que já não está em seu sofá. Abrindo os olhos lentamente ele se depara com uma visão confusa.
— Ei… Que escuridão… Acabou a energia…? — indaga sonolento, ainda confuso.
Perambulando pelo breu com as mãos estendidas, buscando encontrar algum apoio, ele tem um pensamento que faz suas pernas tremerem.
— Não… Nem ferrando… Não pode ser… — murmura em choque — A-ASSALTARAM MEU APARTAMENTO! LE-LEVARAM MEUS MÓ-MÓVEIS, E ME DEIXARAM NO ES-ESCURO! MEU DEUS, EU TRABALHEI TAN-
Interrompendo seu surto, uma espécie de tela azul surge na sua frente, lançando luz contra seus olhos despreparados. Dante cobre seu rosto antes de tentar olhar novamente após alguns segundos.
— O que… É isso… — indaga enquanto seus olhos lentamente se acostumam com a iluminação — É a minha televisão…?
A tela, como se fosse um display, apresenta 3 itens escritos:
|Número de Spins: 1|
|Raça: …|
[Sortear]
Perplexo, o homem ergue sua mão direita e tenta tocar, porém se assusta ao ver seus dedos atravessarem aquela placa azulada.
— Injetaram algo em mim… Sim… Eu fui drogado enquanto voltava pra casa… É isso…
Após alguns segundos paralisado, ele nota algo novo na tela. Uma pequena seta vermelha oscilando ao lado do último item.
— O que quer que eu faça porra… — questiona em um tom instável, ainda em um profundo estado de confusão — Raça…? Como assim…
Fazendo certo esforço, ele torna a levar sua mão suada até a tela.
— Não é como se… — Encostando seu indicador sobre a palavra “Sortear”, vários nomes começam a surgir e desaparecer freneticamente na frente da palavra “Raça”, deixando Dante ainda mais assustado.
|Número de Spins: 0|
|Raça: Default|
[Próximo]
Notando a mudança nos itens, ele toca sobre o último novamente.
|Número de Spins: 1|
|Passiva: …|
[Sortear]
— Passiva…? — indaga, observando novamente aquele embaralhamento de palavras após tocar em “Sortear”.
|Número de Spins: 0|
|Passiva: Multiplicador|
[Iniciar]
Encarando a tela, ele nota algo que o faz suar frio.
Não consigo… Mover meu braço… — Pensa enquanto tenta forçar o membro para trás.
Sem saber o que fazer, Dante toca sobre a palavra “Iniciar” sem pensar, assim perdendo sua consciência.

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