Índice de Capítulo

    O corredor ainda carregava o eco silencioso do desafio recém-aceito, como se as paredes tivessem ouvido cada palavra e decidido guardar aquilo como um presságio. O ar estava mais pesado do que antes — não pela presença de inimigos, mas pela certeza do que viria em quarenta e oito horas.

    Os quatro caminhavam de volta.

    Sem pressa.

    Mas também sem descanso de verdade.

    Ryuji Arata seguia à frente, como sempre, mas agora havia algo diferente no ritmo do seu corpo. O passo ainda era firme — por pura força de vontade — porém a respiração já não acompanhava, e a aura ao redor dele parecia instável, oscilando em pequenos picos que denunciavam um desgaste muito mais profundo do que ele demonstrava.

    Ele não falou nada.

    Nem diminuiu.

    Mas o corpo… estava no limite.

    Ao lado, Tsubasa Hayashi percebeu primeiro. Os olhos dele, atentos como sempre, captaram os micro detalhes — o atraso mínimo na pisada, o leve tremor nos dedos, a forma como o foco de Ryuji parecia quebrar por frações de segundo.

    Atrás, Naki Senrou também notou.

    — Ele tá forçando demais… — murmurou, baixo.

    Kaede Shizuma cruzou os braços, olhando com um meio sorriso.

    — Sempre foi assim.

    Mas dessa vez…

    não era só “assim”.

    Ryuji deu mais alguns passos.

    Um.

    Dois.

    E então—

    o mundo inclinou.

    A visão falhou.

    O corpo não respondeu.

    E ele caiu.

    Sem reação.

    Sem defesa.

    O impacto foi seco.

    Antes mesmo de tocar completamente o chão, Tsubasa já estava em movimento. Ele avançou sem hesitar, segurando Ryuji pelo braço e evitando que a cabeça dele batesse com força.

    — Tch… — ele estalou a língua, analisando rapidamente.

    — Exaustão completa.

    Naki se aproximou, expressão séria.

    — Ele passou do limite faz tempo.

    Kaede desviou o olhar por um instante, menos confortável do que gostaria de admitir.

    — Idiota…

    Mas não havia julgamento real ali.

    Só reconhecimento.

    Tsubasa ajustou o corpo de Ryuji nos ombros, levantando ele com firmeza.

    — Vamos.

    — Ele precisa descansar.

    O caminho até o dormitório foi silencioso.

    Diferente de antes.

    Agora não havia tensão.

    Só cansaço.

    Quando chegaram, colocaram Ryuji na cama sem cerimônia, mas com cuidado o suficiente para não piorar o estado dele. A respiração dele estava pesada no início… mas, aos poucos, foi desacelerando.

    O corpo finalmente cedeu.

    E ele apagou.

    O tempo passou.

    Sem sonhos.

    Sem Sistema.

    Sem consciência.

    Doze horas.

    Direto.

    Como se o corpo estivesse tentando se reconstruir à força.

    E então—

    Ryuji acordou.

    De uma vez.

    Os olhos se abriram bruscos, a respiração falhando por um instante enquanto ele se levantava rápido demais, o corpo ainda pesado, mas a mente já funcionando em velocidade máxima.

    — …MERDA.

    A palavra saiu seca, carregada de frustração.

    Ele passou a mão no rosto, tentando organizar o pensamento enquanto olhava ao redor, como se estivesse procurando o tempo perdido no próprio ambiente.

    — Quanto tempo…?

    Naki Senrou, sentado encostado na parede, respondeu sem pressa:

    — Doze horas.

    Silêncio.

    Ryuji travou.

    Processando.

    Calculando.

    E então—

    — Não… não, não, não—

    Ele se levantou de vez, ignorando o peso do corpo, andando de um lado pro outro enquanto passava a mão no cabelo.

    — Meu plano era perfeito.

    A voz começou a acelerar.

    — Dezesseis horas de sono total.

    — Dividido em dois blocos de oito.

    — Recuperação completa, estabilidade mental, controle de Sen no pico—

    Ele parou.

    Respirou fundo.

    E soltou, frustrado:

    — Agora eu só tenho quatro horas.

    O silêncio respondeu.

    Mas não era dúvida.

    Era realidade.

    Ryuji fechou os olhos por um segundo, forçando a mente a se reorganizar.

    Quando abriu novamente…

    já tinha decidido.

    — Então esquece.

    A voz saiu firme.

    — Eu não vou tentar recuperar.

    — Eu vou compensar.

    Naki ergueu levemente o olhar.

    — Treinar?

    — 100%.

    Ryuji respondeu na hora.

    Sem hesitação.

    Sem espaço pra discussão.

    — Cada segundo que sobrar.

    Nesse momento, Tsubasa Hayashi se levantou da outra ponta do quarto, alongando levemente o pescoço.

    — Então você dormiu bem.

    Ryuji olhou pra ele, confuso por um segundo.

    — …Hã?

    Tsubasa deu de ombros, simples.

    — Eu treinei nas últimas quatro horas.

    Silêncio.

    Ryuji encarou ele por alguns segundos.

    E então—

    um leve sorriso surgiu.

    Cansado.

    Mas real.

    — Claro que treinou.

    Tsubasa já estava indo em direção à porta.

    — Vou descansar agora.

    Ele parou por um instante, sem virar completamente.

    — Não se destrói antes da luta.

    Pausa.

    — A gente vai precisar de você inteiro.

    E saiu.

    A porta fechou.

    O quarto ficou em silêncio de novo.

    Mas agora—

    não era descanso.

    Era preparação.

    Ryuji respirou fundo.

    O corpo ainda doía.

    A mente ainda pesava.

    Mas o olhar…

    já estava no futuro.

    — Quatro horas… — ele murmurou.

    E então—

    um leve sorriso, carregado de intenção.

    — Mais do que suficiente.

    Porque agora—

    não era sobre estar pronto.

    Era sobre…

    chegar pronto mesmo assim.

    O dormitório ficou para trás.

    Silencioso.

    Mas não por descanso.

    Por decisão.

    Ryuji Arata não perdeu tempo. Assim que saiu do quarto, o corpo ainda carregando o peso da exaustão recente, ele já caminhava em direção à área de treino — passos rápidos, respiração controlada à força, mente girando mais rápido do que o próprio corpo conseguia acompanhar.

    O tempo agora era um recurso escasso.

    E ele sabia disso.

    Cada segundo desperdiçado… era uma derrota antecipada.

    O campo de treino estava vazio.

    Amplo.

    Frio.

    Perfeito.

    Ryuji parou no centro, fechando os olhos por um instante enquanto puxava o ar lentamente, tentando alinhar o próprio ritmo interno. Não havia espaço para erro ali. Não agora.

    — Primeiro… controle.

    A voz saiu baixa.

    Focada.

    Ele abriu os olhos.

    E estendeu a mão.

    Por um segundo, nada aconteceu.

    Então—

    uma gota de sangue escorreu da ponta de seus dedos.

    Depois outra.

    E mais uma.

    O fluxo começou pequeno, quase instável, como se o próprio corpo ainda resistisse à ideia de ser usado daquela forma. O sangue pairou no ar, tremendo levemente, reagindo às oscilações do Sen de Ryuji como se ainda não confiasse completamente nele.

    Ryuji franziu o cenho.

    — Não… ainda tá bruto.

    Ele fechou levemente a mão.

    O sangue respondeu.

    Mas com atraso.

    Desorganizado.

    Pesado.

    — De novo.

    Mais fluxo.

    Dessa vez, ele forçou mais.

    Veias saltaram no braço, a pressão interna aumentando enquanto o sangue deixava o corpo em maior quantidade, formando pequenas lâminas irregulares que flutuavam ao redor dele.

    Mas o controle…

    ainda era falho.

    Uma das lâminas perdeu forma no meio do movimento, se desfazendo no ar antes de completar o trajeto.

    Outra simplesmente caiu.

    Ryuji cerrou os dentes.

    — Eu não tenho tempo pra aprender isso devagar.

    Ele respirou fundo.

    E forçou mais.

    O erro veio na hora.

    O sangue saiu rápido demais.

    A pressão aumentou.

    A visão falhou por um segundo.

    O corpo deu um aviso claro:

    limite.

    Mas ele ignorou.

    — Anda…

    As lâminas voltaram a se formar.

    Dessa vez, mais estáveis.

    Mais densas.

    Ele moveu o braço—

    e elas acompanharam.

    Melhor.

    Ainda imperfeito.

    Mas melhor.

    Então ele mudou.

    — Forma.

    O sangue se reorganizou.

    De lâminas… para projéteis.

    Pontas afiadas.

    Compactas.

    Perfurantes.

    Ele lançou.

    As estruturas cortaram o ar em alta velocidade e se cravaram no chão ao longe, deixando marcas profundas.

    Ryuji observou.

    Respirando pesado.

    Analisando.

    — Velocidade… ok.

    Pausa.

    — Precisão… ainda não.

    Ele levantou a mão de novo.

    Mas dessa vez…

    parou.

    Os olhos mudaram.

    Foco total.

    — Não adianta só atacar.

    Ele murmurou.

    — Eu preciso enxergar.

    O campo ao redor pareceu desacelerar.

    Não fisicamente.

    Mas dentro da mente dele.

    Ryuji fixou o olhar em um ponto distante — uma pequena rachadura no chão, quase imperceptível. Ele começou a acompanhar o próprio fluxo de Sen, tentando sentir cada movimento, cada variação, cada micro alteração na energia que passava pelo corpo.

    No início…

    era caos.

    Informação demais.

    Detalhe demais.

    Mas ele forçou.

    — Filtra…

    A respiração desacelerou.

    O coração bateu mais pesado.

    E aos poucos—

    o mundo começou a se organizar.

    Os detalhes deixaram de ser ruído.

    E viraram padrão.

    Uma leve corrente de ar.

    O som distante de metal se contraindo.

    A vibração mínima do próprio sangue ainda flutuando ao redor.

    Tudo começou a fazer sentido.

    Mas—

    o custo veio.

    Uma dor aguda surgiu na cabeça.

    Instantânea.

    Como se o cérebro estivesse sendo forçado além do limite.

    Ryuji cambaleou um passo para o lado, colocando a mão na testa.

    — …tá cedo demais pra isso.

    A dor não era física comum.

    Era sobrecarga.

    Mas ele não parou.

    — De novo.

    Ele levantou o olhar.

    Forçando a percepção.

    Forçando o controle.

    Forçando tudo.

    O sangue voltou a se erguer ao redor dele.

    Mais estável.

    Mais preciso.

    Agora, cada movimento era acompanhado por intenção real.

    Sem atraso.

    Sem perda.

    Sem desperdício.

    Mas o preço…

    estava acumulando.

    A respiração ficou mais pesada.

    O corpo começou a responder mais devagar.

    E a dor na mente…

    só aumentava.

    Mesmo assim—

    Ryuji sorriu.

    Cansado.

    Mas satisfeito.

    — É isso…

    O sangue girava ao redor dele agora com mais fluidez, como se finalmente começasse a aceitar aquele controle. Não era perfeito.

    Mas já não era bruto.

    E a percepção…

    ainda instável…

    já começava a mostrar resultado.

    — Ainda não é o suficiente…

    Ele murmurou, olhando para as próprias mãos.

    — Mas já é uma arma.

    O corpo tremia levemente.

    A mente gritava por descanso.

    Mas ele ignorou.

    De novo.

    Porque agora—

    não era sobre conforto.

    Era sobre sobrevivência.

    E lá na frente—

    esperando por ele—

    estava o topo.

    E dessa vez…

    Ryuji não ia chegar despreparado.

    O tempo passou.

    Quatro horas.

    Sem pausa real.

    Sem descanso.

    Só repetição.

    Erro.

    Ajuste.

    E de novo.

    Quando o relógio finalmente deixou de importar, o campo de treino já não era mais o mesmo. Marcas profundas cortavam o chão, crateras menores se espalhavam como cicatrizes recentes, e o ar carregava aquele cheiro metálico constante — sangue, esforço e energia queimando ao mesmo tempo.

    No centro de tudo…

    Ryuji Arata.

    Parado.

    Respiração pesada.

    Mas estável.

    Diferente de antes.

    Muito diferente.

    O sangue já não tremia mais.

    Flutuava.

    Obedecia.

    Girando ao redor dele em padrões precisos, como se tivesse vontade própria — mas não tinha.

    Era controle.

    Total.

    Sem atraso.

    Sem desperdício.

    Sem falha.

    — Então é assim…

    A voz saiu baixa, quase pensativa.

    Ele moveu levemente os dedos.

    O sangue respondeu instantaneamente.

    Se moldando.

    Se ajustando.

    Se refinando.

    De lâminas… para fios.

    De fios… para projéteis.

    De projéteis… para algo mais complexo.

    Mais letal.

    Mais inteligente.

    — Agora faz sentido.

    Um ruído mecânico quebrou o silêncio.

    Atrás dele—

    os robôs de treino se ativaram.

    Olhos vermelhos acenderam em sequência.

    Um.

    Dois.

    Cinco.

    Dez.

    Eles não esperaram.

    Avançaram ao mesmo tempo.

    Rápidos.

    Diretos.

    Programados pra matar.

    Ryuji não se moveu.

    Nem um passo.

    Só respirou.

    E abriu a mão.

    O sangue reagiu.

    Instantaneamente.

    Um dos robôs surgiu pela esquerda—

    Antes mesmo de completar o movimento, uma lâmina fina atravessou seu núcleo, precisa, silenciosa, sem desperdício de força.

    Outro veio pela direita—

    Dois projéteis perfuraram suas articulações, travando o movimento antes do golpe chegar.

    Atrás—

    um salto alto.

    Ataque descendente.

    Ryuji nem olhou.

    O sangue já estava lá.

    Uma estrutura sólida surgiu acima dele, bloqueando o impacto e, no mesmo movimento, se convertendo em uma lança que atravessou o robô de cima a baixo.

    Sem esforço.

    Sem hesitação.

    Sem erro.

    — Lento demais.

    Agora ele se moveu.

    Um passo.

    Só um.

    Mas foi o suficiente.

    O sangue ao redor dele se expandiu em um arco amplo, varrendo três robôs de uma vez, cortando metal como se fosse papel, deixando apenas fragmentos caindo no chão.

    Mais dois avançaram juntos.

    Coordenação perfeita.

    Ryuji sorriu.

    — Melhoraram…

    Ele levantou a mão.

    E fechou.

    O sangue se condensou.

    Compacto.

    Pesado.

    E então—

    disparou.

    Uma sequência de perfurações atravessou ambos ao mesmo tempo, múltiplos pontos vitais sendo atingidos antes mesmo que qualquer defesa fosse processada.

    Silêncio.

    Os últimos robôs hesitaram.

    Micro segundos.

    Mas isso bastou.

    Ryuji apareceu no meio deles.

    Movimento limpo.

    Direto.

    O sangue se moldou em torno do braço dele como uma lâmina viva—

    E um único giro finalizou tudo.

    Metal caiu.

    Partido.

    Inerte.

    O campo ficou quieto de novo.

    Ryuji permaneceu parado por alguns segundos, observando os restos espalhados ao redor. A respiração estava controlada agora — pesada, sim — mas sob domínio.

    Não havia mais desespero.

    Só precisão.

    — Agora sim…

    Ele murmurou.

    — Isso é utilizável em combate real.

    — Impressionante.

    A voz veio atrás.

    Calma.

    Analítica.

    Tsubasa Hayashi estava encostado na entrada do campo, braços cruzados, olhando diretamente para o cenário destruído… e para o responsável por aquilo.

    Ao lado dele, Naki Senrou observava em silêncio, mas os olhos denunciavam o reconhecimento.

    — Você encurtou meses de treino em horas… — Naki comentou, direto.

    Ryuji virou levemente o rosto.

    — Não tinha escolha.

    Tsubasa deu alguns passos à frente, analisando mais de perto os cortes, as perfurações, a distribuição dos impactos.

    — Não foi só controle.

    Ele parou.

    — Foi adaptação em tempo real.

    Pausa.

    Os olhos dele focaram em Ryuji.

    — Você não só aprendeu.

    — Você refinou durante a luta simulada.

    Ryuji deu de ombros, simples.

    — É o jeito mais rápido.

    Naki soltou um leve suspiro, cruzando os braços.

    — E o mais perigoso.

    Silêncio.

    Mas ninguém discordou.

    Tsubasa se posicionou no campo.

    — Bom.

    Ele flexionou levemente o pescoço.

    — Já que você terminou o seu aquecimento…

    Um leve sorriso surgiu.

    — Vamos ver como isso funciona contra alguém que pensa.

    Naki deu um passo à frente também.

    A aura dele começou a subir.

    Controlada.

    Mas intensa.

    — Treino conjunto.

    Ryuji olhou para os dois.

    O sangue ainda girava ao redor dele, obediente.

    A mente ainda carregava o cansaço.

    Mas o corpo…

    estava pronto.

    Ele respirou fundo.

    E sorriu.

    Dessa vez—

    não de cansaço.

    Mas de empolgação real.

    — Perfeito.

    Porque agora—

    não era mais sobre aprender.

    Era sobre provar.

    O ar no campo de treino mudou no instante em que os três se posicionaram.

    Não era mais preparação.

    Era teste real.

    Ryuji Arata ficou no centro, o sangue ainda orbitando ao redor dele em movimentos suaves, quase elegantes — mas havia tensão ali, escondida na precisão. À frente, Tsubasa Hayashi e Naki Senrou se separaram naturalmente, abrindo ângulos, construindo pressão sem dizer uma única palavra.

    Eles não iam facilitar.

    E Ryuji… sabia disso.

    O primeiro movimento veio de Naki.

    Sem aviso.

    Sem preparação visível.

    Uma linha de chama ciano surgiu já no trajeto de Ryuji — não viajando pelo espaço, mas existindo no ponto onde ele estaria.

    Mas Ryuji não estava mais lá.

    O corpo dele deslizou para o lado no último instante, não por velocidade bruta, mas por leitura antecipada. O sangue reagiu junto, formando uma barreira fina que absorveu o restante da energia residual.

    — Já começou roubando espaço… — ele murmurou.

    Tsubasa entrou no mesmo segundo.

    Rápido.

    Preciso.

    Sem desperdício.

    A lâmina veio direta, buscando o ponto cego criado pelo movimento anterior — mas antes de alcançar, o sangue de Ryuji se condensou no ar, criando uma superfície densa que desviou o corte por milímetros.

    Ryuji girou.

    E respondeu.

    Não com força.

    Mas com controle.

    Três lâminas de sangue surgiram em ângulos diferentes, forçando Tsubasa a recuar enquanto outra estrutura se formava atrás de Naki, obrigando ele a reposicionar o corpo.

    — Ele tá jogando o campo… — Naki percebeu, já ajustando a postura.

    — Não é só ataque.

    Ryuji avançou.

    O sangue se expandiu ao redor dele como extensão do próprio corpo, criando zonas de pressão invisíveis. Cada passo dele alterava o campo, cada gesto criava ameaça em múltiplos pontos.

    Tsubasa tentou acelerar o ritmo.

    Erro.

    Uma linha de sangue cortou o trajeto dele no meio do avanço, forçando uma mudança abrupta de direção.

    Naki tentou punir.

    Outra armadilha.

    Um fio quase invisível se fechou no caminho dele, obrigando um salto defensivo.

    — Tch… — Tsubasa travou por um segundo.

    — Ele não tá reagindo.

    — Ele já montou isso antes.

    Ryuji sorriu.

    — Demoraram.

    Ele fechou a mão.

    O campo respondeu.

    O sangue que antes parecia disperso se conectou em um único fluxo coordenado, criando uma rede de ataques simultâneos — não explosivos, mas inevitáveis.

    Tsubasa bloqueou dois.

    Naki evitou outro.

    Mas o terceiro—

    acertou.

    Uma lâmina curta passou pelo ombro de Tsubasa.

    Outra atingiu a perna de Naki.

    Nada fatal.

    Mas suficiente.

    Ryuji parou.

    Respiração controlada.

    Olhar afiado.

    — Num combate real… vocês já tinham perdido.

    Silêncio.

    Tsubasa encarou ele por alguns segundos.

    Depois relaxou a postura.

    — Concordo.

    Naki soltou o ar, passando a mão pelo ferimento leve.

    — Você não lutou.

    — Você decidiu o resultado.

    O campo acalmou.

    O sangue voltou a orbitar lentamente ao redor de Ryuji.

    O treino… pausou.

    Eles se afastaram um pouco, o clima mudando de combate para análise. O corpo ainda quente, a mente ainda acelerada.

    Tsubasa foi o primeiro a falar:

    — Aquele golpe do final da luta anterior…

    Ele olhou direto para Ryuji.

    — Aquilo não é sustentável.

    Ryuji soltou um pequeno riso sem humor.

    — Nem um pouco.

    Ele passou a mão pelo cabelo, pensativo.

    — Não é só energia.

    Pausa.

    — Aquilo destrói o cérebro.

    Naki franziu levemente o cenho.

    — Não é exagero?

    Ryuji balançou a cabeça.

    — Não.

    O olhar dele ficou mais sério.

    — Usar Sen Reverso em larga escala… não é só difícil.

    — É instável.

    Ele abriu a mão, como se estivesse segurando algo invisível.

    — Você não tá só liberando energia.

    — Você tá moldando.

    — Reconstruindo.

    — Controlando fluxo fino em nível absurdo.

    Pausa.

    — Se errar… já era.

    Tsubasa cruzou os braços.

    — Já li sobre isso.

    — Mas nunca vi alguém usar de verdade.

    Ele encarou Ryuji.

    — E você usou em escala massiva.

    Ryuji deu um leve sorriso.

    — Pois é.

    Silêncio curto.

    Então ele continuou:

    — Mas eu pensei em um jeito de ajustar.

    Os dois olharam na hora.

    — Penumbra.

    A palavra saiu pesada.

    Carregada de significado.

    — Ao invés de uma esfera gigante…

    Ele fechou levemente os dedos.

    — Eu posso dividir.

    — Criar versões menores.

    — Com quase o mesmo nível de destruição local.

    Naki inclinou a cabeça.

    — Mais eficientes.

    — Menos custo.

    Ryuji assentiu.

    — Na teoria.

    Pausa.

    O olhar dele ficou mais profundo.

    — Na prática…

    — É bem mais complicado.

    Tsubasa soltou um leve riso.

    — Como tudo que você faz.

    Ryuji ignorou.

    — O maior problema ainda é o cérebro.

    Ele tocou levemente a própria testa.

    — Sen Reverso em alta escala cobra daqui.

    — Não do corpo.

    — Da mente.

    Silêncio.

    Pesado.

    Real.

    E então—

    Ryuji mudou.

    O olhar voltou a ficar focado.

    Direto.

    — Mas dá pra aprender.

    Os dois olharam.

    — Eu vou ensinar vocês.

    Pausa.

    — Pelo menos o básico.

    O clima mudou.

    De novo.

    Agora não era só treino.

    Era uma evolução coletiva.

    O tempo passou.

    Rápido.

    Sem perceber.

    Treino.

    Erro.

    Ajuste.

    Repetição.

    E então—

    quando deram por si—

    faltavam vinte minutos.

    O campo de batalha já estava sendo preparado.

    Os dois times caminhavam.

    Em direções opostas.

    Até se encontrarem.

    Na entrada.

    O ar travou.

    De um lado—

    San Ryoshi.

    Ao lado dele—

    Renji Asakura.

    Karaku Sabito.

    E Sander Shimo.

    Do outro—

    Ryuji Arata.

    Naki Senrou.

    Tsubasa Hayashi.

    E Kaede Shizuma.

    Silêncio.

    Pesado.

    Como se o mundo inteiro tivesse parado pra assistir.

    Ryuji deu um passo à frente.

    Os olhos fixos em um só alvo.

    Renji.

    Um leve sorriso surgiu.

    Provocador.

    Frio.

    — E aí, Renji…

    Pausa.

    O ar ficou mais denso.

    — Eu vim te buscar de volta.

    Silêncio.

    E naquele instante—

    ficou claro.

    Isso não era só uma luta.

    Era pessoal.

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