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    Ruby, ao vê-lo retornar, correu imediatamente para ajudá-lo. Kamito ficou confuso, pois não fazia sentido Raishi trazer o corpo de um inimigo. Todos permaneceram em silêncio enquanto ele se aproximava e colocava o corpo de Falcão no chão com cuidado. Em seguida, ele olhou diretamente para Kamito, com uma seriedade que o fez estremecer. Logo depois, lançou o mesmo olhar para Akane e para os demais. Solum e Coruja ainda estavam desacordados, então Raishi se sentou e voltou a encará-lo, claramente esperando que Kamito fizesse o mesmo.

    — Akane, Kamito… — ele começou respirando fundo enquanto ajeitava a postura. — Meu real nome é Adfectus. Eu fui um membro da antiga Ordem dos Cavaleiros Brancos, junto da Ruby. Eu era o Coelho. Após a queda da Ordem, viemos para a Terra com o objetivo de impedir que os Extra-humanos tomassem conhecimento desse mundo e tentassem tomá-lo. Por causa disso, adotei um novo nome e permaneci nas sombras… até o dia em que vocês acidentalmente despertaram suas Manifestações.

    Ele manteve os olhos fixos em Kamito, firme, quase como se temesse ser mal interpretado.

    — Eu não os usei por vingança pessoal ou por algum objetivo egoísta. Eu lhes dei a escolha de salvar esta cidade de uma ameaça. Uma ameaça que eu deveria ter acabado dezesseis anos atrás. Eu realmente peço desculpas por não ter contado tudo desde o início…, mas havia coisas que nem mesmo a Ryruka sabia.

    Kamito sentiu a tensão crescer. Todos estavam chocados, quase sem reação. Então Raishi continuou explicando o motivo pelo qual havia traído a Ordem, narrando a queda dela, sua culpa por não ter salvado seus amigos e o fato de ter fugido no final. Nenhuma palavra parecia fácil para ele.

    — Mas as coisas serão diferentes agora. — ele declarou, com um brilho cansado, porém decidido nos olhos. — Eu pretendo manter a Ordem ativa e reestruturá-la com todos vocês. Sei que Falcão não era o único com conhecimento sobre este mundo. Outras ameaças podem estar próximas, e manter a Ordem dos Cavaleiros Brancos aqui seria uma defesa.

    Kamito respirou fundo antes de responder, ainda abalado.

    — Raishi… digo, Adfectus, eu entendo os seus motivos. — ele falou, passando a mão no próprio braço em incerteza. — Eu não saberia o que fazer no seu lugar. Me desculpe por ter duvidado de você. No final, você só estava ajudando. Agora que tudo acabou… e que você pretende manter a Ordem… eu e a Akane poderemos finalmente voltar às nossas vidas.

    Kamito desviou o olhar, apreensivo e triste. Seu peito doía e ele não sabia explicar o porquê. Tudo havia acabado. Eles tinham aliados poderosos. Não havia mais necessidade de lutar. Mas o medo estava lá, apertando sua garganta. Ele não queria mais lutar. Não queria reviver aquilo.

    — E-Eu não quero perder o controle novamente… — ele disse, trêmulo, apertando o próprio peito. — Todas aquelas visões e temores eram reais. Eu não suportaria ferir um dos meus companheiros. Eu não sei se isso vai ou não voltar… e eu não quero que volte. Eu não quero ferir ninguém. Me desculpem de verdade.

    Raishi o observou em silêncio por alguns segundos, até sua expressão endurecer de leve.

    — Você realmente está falando sério?! — Ryruka perguntou, inclinando-se um pouco para a frente. — Vai mesmo desistir depois de tudo? Entendo… Esse nunca foi mesmo o seu lugar, e você só percebeu isso agora.

    Ryruka estava conformada, pois desde o início sempre fora contra o envolvimento de Kamito. Ela então se virou, irritada, respirando fundo como quem tentava conter algo. No fundo, ela não queria que as coisas chegassem àquele ponto.

    — Lembre-se que não há como voltar atrás! — disse ela, apontando para ele com um movimento brusco. — Então, se essa realmente for a sua escolha, pode ir mesmo. Não precisamos de fracos como você.

    — Kamito, então essa é a sua decisão? — Yujiro perguntou, inclinando a cabeça e dando um pequeno sorriso compreensivo. — Eu te entendo, meu amigo. Depois de tudo que você passou, é normal querer parar antes que seja tarde.

    Yujiro o olhou normalmente e sorriu, como se quisesse acalmá-lo. Ele realmente era um grande amigo, pois sabia como Kamito se sentia e, mesmo depois daquele incidente, tinha sido o único que não o olhou diferente. Em seguida, olhou para o céu, como se pensasse alto.

    — Vai ser um pouco chato caçar Carniceiros e treinar sem você. — comentou, com as mãos atrás da cabeça. — E se você parar, tenho certeza de que a Akane também irá. É uma pena mesmo.

    — Espera aí! — Harpia gritou, dando um passo à frente, tomada pela raiva. — Você vai desistir?! Depois de tudo que aconteceu, você quer desistir?! Nem te conheço direito, mas vejo que você é um covarde que deixa o trabalho para os outros! Não precisamos de um fraco como você!!!

    Harpia parecia prestes a avançar, furiosa, sentindo que sua derrota tinha sido inútil. Pombo e Camaleão a seguraram pelos ombros.

    — Pare com isso, irmã! — Pombo pediu, segurando-a firme. — Ele tem os motivos dele. Agora que a cidade está a salvo, ele não tem mais motivos para lutar. Ele é humano, não é um de nós.

    As palavras dele atingiram Kamito profundamente. Desde o início, ele sempre ouvira dos Carniceiros e da própria Ryruka que aquele não era o mundo dele, que ele não pertencia ali. Mas não era isso… não era o que ele queria dizer.

    — Não é isso… — disse uma voz ao longe. — Ele só é um covarde que não quer perder o controle e ferir seus companheiros. Ele quer fugir dos problemas em vez de buscar uma solução.

    Solum apareceu no último instante, apoiando-se na parede. Ele ainda estava fraco e mal conseguia se manter de pé sem ajuda. Mesmo assim, o encarou com seriedade, visivelmente decepcionado.

    — Mas você conseguirá viver como um covarde?! Você pretende fugir em vez de encarar seu medo?! Se você realmente é assim, então acho bom que vá!!!! Eu achei que fôssemos iguais, mas me enganei.

    — Não falem assim do Kamito! — Akane exclamou, avançando para a frente, irritada.

    — Ele pode decidir se quer continuar lutando ou não! Vocês não fazem ideia do quanto ele se esforçou para chegar até aqui, o quanto demos duro para podermos lutar hoje! — ela cerrou os punhos, respirando rápido. — No início, quando descobrimos nossas Manifestações, eu estava com muito medo, mas foi o Kamito que me deu esperanças! Vocês não têm o direito de julgá-lo!!!!

    Akane realmente estava irritada, mas suas palavras tinham razão. Kamito disse para ela não ter medo, mas agora era ele quem estava com medo. Ela o olhava triste, esperando sua resposta. Ele respirou fundo e se levantou lentamente, sentindo o peso do momento.

    — Eu estive o tempo todo do lado dele. — Akane continuou, com firmeza. — E de uma coisa eu sei: o Kamito não é covarde! Se estivessem no lugar dele, vocês fariam diferente?!

    Kamito a ouviu e então olhou para todos, sentindo o peito apertado.

    — Akane, você está certa. — disse ele, passando a mão pelo próprio braço, nervoso. — No começo, eu disse para você não ter medo, mas agora quem está com medo sou eu… Eu tenho medo de perder o controle e acabar ferindo algum de vocês ou até mesmo algo muito pior.

    Ele os olhou seriamente, e isso deixou alguns cautelosos. Mas ele sabia o que precisava fazer. Não podia fugir. Havia chegado até ali. Se Akane continuou no início, ele também conseguiria.

    — Eu não sei o que são essas chamas negras, nem se é possível controlá-las… por isso quero parar antes que seja tarde. — Ele apertou os punhos, tremendo.

    — Tenho medo de perder o controle, tenho medo de machucar vocês ou algum inocente, mas sei que não posso fugir disso! Eu não posso deixar que isso me consuma de novo! Eu não posso ter medo disso, pois sei que, se eu continuar fugindo, meus medos podem acabar se tornando reais. — ele levantou o olhar, decidido. — Então só me resta continuar até encontrar uma forma de controlar esses poderes. Só assim eu poderei ficar em paz.

    Raishi respirou aliviado, embora mantivesse um ar sério.

    — Então essa é a sua escolha? — perguntou, aproximando-se devagar — Fico feliz por ter reconsiderado, por ora, mas devo alertar que sua situação é muito delicada. Manifestações Negras são raras e extremamente poderosas.

    Ele colocou a mão esquerda no ombro direito de Kamito, apertando-o com firmeza.

    — Mesmo se tivesse desistido, você precisaria continuar treinando para ela não tomar seu corpo e te transformar numa Fúria. — seus olhos suavizaram. — Eu prometo que não deixarei isso acontecer com você, Kamito.

    — Vamos encontrar uma forma de conter essas chamas, você tem a minha palavra. — Raishi afirmou, ajeitando o corpo cansado antes de inspirar fundo. — Agora, vamos embora. A luta acabou e eu preciso enterrar o Falcão junto dos outros que morreram aqui. Bom trabalho, pessoal. Vocês realmente conseguiram. Quanto aos que restaram da Ordem, estão livres para irem embora. Se optarem em ficar, serão bem-vindos na Ordem.

    Após essas palavras, todos partiram. O prédio não suportou os combates e realmente veio abaixo, levantando poeira atrás de nós. Todos estavam cansados demais após aquela luta, e tudo o que queriam era um bom descanso.

    Em determinado momento, Kamito e Akane se separaram dos demais. Eles ficaram a sós novamente, e Kamito estava um pouco envergonhado, evitando olhar diretamente para ela. Akane então segurou a mão direita dele com firmeza e, com um leve puxão, disse para irem logo para casa.

    O caminho parecia longo, e segurar a mão dela era quase delirante. Enquanto caminhavam, admiraram as luzes e a movimentação da cidade. Tinham lutado por aquilo, para protegê-la a todo custo; ver que seus esforços haviam valido a pena os deixava muito felizes. Kamito apertou a mão dela de repente, e Akane o olhou de lado, sem entender.

    Ela perguntou o que tinha acontecido. Ele respondeu, envergonhado, que estava apenas feliz por terem conseguido salvar a cidade.

    — K-Kamito… Sobre hoje mais cedo, eu… — Akane começou levando a mão livre ao próprio peito.

    — Eu fiquei muito assustada quando aquilo aconteceu, mas eu sabia que aquele não era você. — Ela o encarou seriamente. — Eu pude sentir e ver. Aquele olhar definitivamente não era o seu! Por isso eu ficarei do seu lado e te ajudarei. Eu não vou deixar que nada nem ninguém te tire de mim de novo! Eu realmente não quero que isso aconteça!

    Ela o olhava com uma expressão séria, tão determinada que era impossível questionar. Kamito sorriu e acariciou o rosto dela com a mão esquerda, passando o polegar suavemente por sua bochecha.

    — Não precisa dar ouvidos a eles. — ela disse, tocando a mão dele em seu rosto. — Desde pequenos, sempre fomos eu e você. Agora não será diferente. Agora somos um casal. Essa decisão será tomada por ambos, então você não é um covarde, muito menos perigoso.

    — Obrigado pelas palavras, Akane. — Kamito respondeu baixinho, inclinando o rosto para ela. — Eu não quero que aquilo aconteça outra vez. Não quero te pôr em perigo. Seria bem mais fácil se eu fugisse disso e deixasse tudo que passamos nesses meses para trás, mas eu realmente não posso. Eu preciso seguir em frente, e preciso de você aqui, comigo.

    Ele sorria enquanto acariciava o rosto dela lentamente. Os dois estavam imundos e com roupas rasgadas. As pessoas na rua olhavam confusas, tentando entender o que tinha acontecido. Akane sorriu, envergonhada, antes de voltar a andar.

    — Vamos logo antes que a Senhora Karin fique louca. — Kamito disse, dando uma risada nervosa — Na verdade, ela vai ficar louca quando nos ver nesse estado. Precisamos de uma boa desculpa.

    — Não se preocupe com ela, — Akane respondeu, levantando as sobrancelhas com confiança exagerada — Eu vou te proteger das broncas dela. Ela não fará nada quando eu contar que estamos namorando. Talvez ela até desmaie.

    Ela começou a rir ao imaginar as possíveis reações da mãe. Suas bochechas ficaram rosadas, e ela apertou a mão dele levemente durante o caminho. Kamito não conseguia tirar os olhos dela.

    — Suzumi e Luise talvez nem se impressionem tanto. — ela comentou, balançando a cabeça. — Até porque elas já nos consideravam um casal há muito tempo… Só a minha mãe que vai surtar.

    Kamito riu junto dela. Era quase surreal acreditar que finalmente tudo havia acabado e que poderiam descansar tranquilamente por algum tempo.

    Quando estavam próximos de casa, viram as três: Karin, Suzumi e Luise, paradas na frente, claramente esperando por eles. Era hora de encarar mais uma bronca e tentar escapar…, mas, dessa vez, Kamito não ficaria envergonhado de dizer que ele e Akane estavam juntos de verdade.

    Em outro lugar, Raishi e Ruby observavam o túmulo do Falcão. Ele havia sido enterrado em uma colina longe da cidade. Ruby, com os braços cruzados, perguntou o motivo de tanta generosidade. Raishi respondeu, em voz baixa, que tinha feito aquilo pela Águia, e não pelo Falcão.

    Ele então começou a caminhar sem olhar para trás e chamou Ruby com um gesto. Ruby comentou que a casa deles era pequena demais para tantas pessoas e que precisariam de um lugar maior para abrigar todos da Ordem. Raishi suspirou e disse que daria um jeito nisso depois, mas que agora ele só queria descansar.

    Calmamente, a noite ficou mais densa, levando consigo a luta decisiva que haviam enfrentado. Era o fim daquela nova vida. Estava na hora de encarar a realidade e voltar às rotinas. Fora uma batalha grande e cansativa, mas agora a cidade estava livre de ameaças. Restava apenas torcer para que aquela paz durasse até que todos se recuperassem.

    As batalhas foram árduas, mas, finalmente, eles puderam respirar aliviados.

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