Capítulo 71 — Nova Jornada
Um ano havia se passado desde a luta contra a Ordem dos Cavaleiros Brancos. Depois disso, tudo ficara em paz por um tempo. Desde então, Kamito vinha treinando para ficar mais forte e para conseguir suprimir o monstro que existia dentro dele. Raishi e os outros o ajudaram durante todo esse período, fazendo com que ele se superasse cada vez mais e não cedesse novamente.
Agora, a Ordem havia passado a proteger a cidade e a Terra de qualquer ameaça. Podia-se dizer que o mundo finalmente estava em paz, mas ninguém sabia quanto tempo isso duraria. Restava apenas desejar que demorasse para acabar.
Era uma manhã linda e ensolarada de segunda-feira. Kamito havia acabado de acordar com Hiena o chamando. Ele se levantou da cama ainda sonolento e saiu do quarto, seguindo em direção à cozinha. Ela estava em frente ao fogão, preparando o café da manhã. Hiena pediu para que ele se sentasse, e Kamito obedeceu sem reclamar. Apesar de sua aparência dura e perigosa, Hiena até que era uma pessoa legal.
Ela cuidara dele durante todo aquele tempo, tirando o fato de tê-lo chantageado a morar com ela para poder ensiná-lo a controlar sua energia.
— Andou dormindo tarde de novo?! — Hiena perguntou, virando-se levemente na direção dele. — Se continuar assim, todas as manhãs serão iguais. Estava com a Akane de novo? Vocês não se desgrudam mesmo.
Ela o observou por alguns segundos, percebendo o cansaço em seu rosto. Em seguida, aproximou-se da mesa, colocou algumas coisas sobre ela e lhe entregou uma xícara de café.
— Você tem aula hoje? — continuou, cruzando os braços por um instante. — Estava pensando em pedir para você passar no mercado na volta, quero alguns ingredientes para preparar o jantar. Não vá achando que quero cozinhar para você.
— Eu sei disso. — Kamito respondeu, pegando a xícara com cuidado. — E respondendo à sua pergunta de antes, sim, eu estava com a Akane. Fomos ver as estrelas e acabamos perdendo o horário. Se você fizer uma lista com os ingredientes, eu compro na volta sem problema algum.
Ele olhou para o café por um instante antes de finalmente dar um gole. Hiena terminou de organizar as coisas sobre a mesa e se sentou à frente dele. Kamito começou a se servir, sentindo o olhar dela pousar sobre si de forma sutil, o que o incomodava, pois sabia exatamente o que ela queria dizer.
— Por que está me olhando assim? — perguntou, franzindo levemente a testa. — Não aconteceu nada ontem, nem começa com essa cara logo cedo. Já não basta suas insinuações durante os treinos?!
— Você é mesmo estressado quando o assunto é a Akane. — Hiena comentou, apoiando o cotovelo na mesa. — Isso chega a ser bastante fofo, ela tem sorte de estar com você. Você é um cara legal.
Ela sorriu, o que acabou deixando Kamito envergonhado. Logo em seguida, Hiena também começou a comer, mas não parava de olhá-lo. Talvez aquele tempo de convivência tivesse feito com que eles se tornassem mais íntimos do que com qualquer outro membro da Ordem. Ela agia como uma amiga ou até mesmo como uma tia, o que era estranho, considerando que antes haviam sido inimigos.
— Mudando de assunto, sua mãe ligou. — disse Hiena, quebrando o silêncio enquanto levava um pouco da comida à boca. — Ela disse que viria te visitar nas férias de fim de ano. Também perguntou como estão as coisas e se você precisa de algo.
— Eu acho incrível como ela não suspeitou o fato de uma mulher estranha estar morando com o único filho dela. — Kamito comentou, balançando levemente a cabeça. — Não dá para acreditar que ela realmente acreditou na desculpa de que você é uma empregada que eu contratei.
Ele parou de comer por um instante, pensativo, imaginando que talvez sua mãe finalmente tivesse percebido que algo estava errado. Logo, porém, afastou essa ideia e voltou a se alimentar como se nada tivesse acontecido.
— Depois da aula eu falo com ela, hoje não tem treinamento, afinal. — Continuou, em tom mais sério. — Acho que o dinheiro que ela manda não está mais sendo o suficiente. Sustentar um com aquela quantia era fácil, agora duas pessoas é outra coisa, sem falar que você gasta mais do que deveria.
— Você é tão fofo, Kamito. — respondeu Hiena, sorrindo de forma convencida. — Você sabe que para uma mulher se manter linda e cheirosa ela precisa de muitos produtos de beleza. Obrigada mesmo.
Ela voltou a comer com tranquilidade, aparentando realmente acreditar que ele faria aquilo por ela, e não por conta dos altos gastos causados pelas compras desnecessárias que fazia.
— Você não vai se atrasar para a escola? — perguntou Hiena, lançando-lhe um olhar atento. — Está quase na hora de você sair. Logo, logo, sua amada Akane te chamará aí na frente, e você sabe que ela odeia quando você se atrasa. Acho melhor você começar a se arrumar.
— Droga! Isso é ruim! Muito ruim mesmo. — Kamito exclamou, levantando-se apressado. — É melhor eu me apressar, se eu deixá-la esperando mais uma vez eu sou um homem morto! Desculpa, Lília.
Ele terminou de comer o mais rápido que conseguiu e correu em direção ao banheiro. Precisava correr contra o relógio, pois só tinha dez minutos. Tomou banho o mais rápido possível e seguiu para o quarto, onde finalmente se vestiu. Pegou o uniforme que já estava separado e o vestiu sem demora.
— Acho que está tudo pronto agora. — Murmurou para si mesmo, respirando aliviado. — Ufa, ainda tenho dois minutos, é melhor eu ir saindo antes que aconteça algum imprevisto. Preciso pegar a lista também.
Kamito pegou a mochila e saiu do quarto com um pouco de pressa. Antes de sair de casa, passou rapidamente pela cozinha para perguntar sobre os ingredientes, e Hiena lhe entregou a lista. Após guardá-la na mochila, finalmente saiu, no exato instante em que Akane também deixava a própria casa. Tinha sido por muito pouco.
Ele caminhou até o portão tentando manter a calma enquanto disfarçava o nervosismo. Akane já o esperava. Kamito sorriu, meio nervoso, ao cumprimentá-la e se aproximou, beijando-a de leve. Ela sorriu, um pouco envergonhada.
— Bom dia para você também, finalmente não se atrasou. — disse ela, inclinando levemente a cabeça enquanto o observava. — Aconteceu alguma coisa, Kamito? Você parece estar com bastante pressa, tem algum compromisso antes da aula? Você podia ter dito e eu te encontrava no caminho.
As bochechas dela estavam levemente coradas. Akane ajeitou a gola da camisa dele e colocou o pingente para dentro, escondendo-o com cuidado. Em seguida, deslizou a mão pelo peito dele e começou a caminhar.
— Você sabe que é contra as regras da escola que os estudantes usem esses tipos de acessórios. — comentou, lançando-lhe um olhar atento. — Os únicos que eles permitem são anéis de compromisso.
— Eu sei, sempre me esqueço disso. — respondeu ele, coçando a nuca sem graça. — Eu já me acostumei com o pingente no meu pescoço, então eu sempre acabo deixando-o exposto.
Kamito começou a caminhar tentando acompanhá-la e, timidamente, segurou sua mão direita. Akane o olhou e sorriu, meio envergonhada, e os dois continuaram andando juntos. O clima estava agradável, e a cidade seguia movimentada como sempre; era difícil acreditar que já havia se passado um ano desde todo aquele caos.
— Prometo que vou ter mais cuidado com ele. — disse ele, apertando levemente a mão dela. — Falando nisso, você teve algum problema com a sua mãe por chegar tarde em casa? Me desculpa se teve algum problema. Não achava que acabaria acontecendo aquele imprevisto.
— Tudo bem, eu não tive nenhum problema. — respondeu Akane com um sorriso tranquilo. — Por sorte a Suzumi me ajudou. Não precisa se culpar por aquilo, querido… Eu também estava lá, a culpa não foi só sua. O importante é que já passou e que está tudo bem.
Ela sorriu enquanto caminhava, e seu olhar estava calmo. O sorriso sincero fez Kamito se perder por um instante, admirando-a sem perceber. Akane então voltou o olhar para ele e sorriu novamente ao notar a expressão boba dele.
— Você tem treino hoje?! — perguntou, inclinando um pouco a cabeça. — Tem alguma novidade sobre o Yujiro e a Ryruka? Queria muito saber alguma coisa, não nos vemos tem algum tempo.
— Hoje eu não tenho treino. — respondeu ele, desviando o olhar para a frente enquanto pensava — Pelo que eu soube, o Yujiro está mesmo cursando advocacia. Já a Ryruka eu não faço a mínima ideia. Ela não contou a ninguém o que ela escolheu, típico dela. O Yujiro às vezes aparece no treino para me ajudar e para treinar a Camily. Você deveria aparecer lá algum dia.
Kamito continuou acompanhando Akane até chegarem a um cruzamento. Enquanto aguardavam o sinal abrir, ele pensava em mais algumas coisas. Fazia tempo que ela não via os amigos, e talvez aquilo estivesse realmente a deixando preocupada.
— Que tal depois da aula nós sairmos? — sugeriu ele, quebrando o silêncio. — Eu aproveito para passar no mercado e compro algumas coisas que a Lília pediu. O que me diz?
— Hoje não vai dar. — respondeu Akane, desviando o olhar para a rua — Eu prometi à Luise que a levaria à festa da amiga dela. Desculpa por não ter dito, mas eu posso te ver hoje de noite, que tal?
Akane parecia um pouco triste com aquilo e manteve o olhar à frente. O sinal logo abriu e eles retomaram o caminho, mas dessa vez sem trocar uma única palavra durante todo o percurso. Kamito entendia muito bem o que ela sentia.
Já na escola, foram para a sala e se sentaram em seus lugares. Como de costume, Kamito ficou olhando para fora, perdido em pensamentos sobre tudo o que havia acontecido, até sentir uma leve alteração em sua energia. Uma energia escura tentava crescer dentro dele, acompanhada da imagem daquele ser surgindo em sua mente.
Era por isso que ele treinava: para mantê-lo distante e provar, para si mesmo, que era muito mais forte do que aquilo.

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