Capítulo 73 — Fim Dos Dias de Paz
Na hora da saída, Kamito e Akane se despediram, pois ela havia prometido levar a irmã a uma festa. Ele aproveitou para ir até o mercado comprar os ingredientes que Lília havia lhe pedido. Durante o caminho, porém, pôde sentir uma sensação estranha, como se algo ou alguém o estivesse seguindo. A energia daquela presença parecia bem ocultada, mas sua existência era impossível de ignorar. Ainda assim, decidiu seguir em frente e continuar até o mercado.
Na saída, a sensação permanecia. Kamito passou a caminhar de forma mais calma, percebendo que estava sendo seguido até uma rua deserta, como se aquilo fosse intencional. Quando sentiu que a presença se aproximava demais, parou de andar e se virou abruptamente.
— Por que você não aparece?! — disse em voz firme, cerrando os punhos. — Eu sei que você está me seguindo todo esse tempo. Vamos, por que não mostra sua cara logo de uma vez?!
Ao confrontá-lo, diversas adagas foram arremessadas em sua direção. Kamito reagiu rapidamente, desviando para a esquerda e evitando os ataques sem dificuldade. Ele então ergueu o olhar na direção de onde vieram as lâminas, mas não conseguiu ver ninguém.
— Você não quer mesmo conversar, não é?! — provocou, assumindo uma postura defensiva. — Por acaso veio me matar? Hoje não foi um bom dia… você vai se arrepender, isso eu te garanto.
— Então você sabe fazer ameaças! — respondeu uma voz, surgindo do nada, carregada de escárnio — Isso é mesmo interessante. — Houve uma breve pausa antes de continuar — Não se preocupe, Kamito Takeda, não vim aqui para te matar… Eu vim para te levar!!!
No mesmo instante, aquele homem surgiu à sua direita. Ele colocou a mão direita no rosto de Kamito e o arremessou violentamente contra um muro, destruindo-o por completo com o impacto.
— Você não é lá essas coisas. — comentou o homem, caminhando lentamente enquanto o observava entre os escombros. — Eu me pergunto como O Grande Imperador foi ter interesse em alguém como você, mas não posso questioná-lo. Ordens são ordens, e as minhas são de levá-lo até o meu senhor, você querendo ou não.
— “Grande Imperador”?! — Kamito se levantou com dificuldade, limpando o sangue do canto da boca. — Nunca ouvi falar dele… A princípio eu achava que você era algum amigo ou subordinado do Falcão, mas parece que não. Eu não irei a lugar algum com você. Você vai pagar por ter me atacado!
Ele se ergueu completamente dos escombros, encarando o homem com fúria enquanto chamas começavam a emanar por todo o seu corpo. Ao ver aquilo, o homem sorriu e assumiu uma posição de combate. Kamito começou a caminhar lentamente em sua direção, à medida que as chamas ao seu redor cresciam.
— Quem é você? — perguntou, com a voz carregada de tensão. — E quem é esse tal Imperador? O que vocês querem comigo?
— Isso não é do seu interesse. — respondeu o homem, mantendo o sorriso enquanto firmava os pés no chão.
— A única coisa que importa é o desejo do Imperador. — seus olhos brilharam perigosamente. — Você fazer parte desse desejo é a única coisa que você deve saber!!!
O homem avançou na direção de Kamito, arremessando mais adagas. Rapidamente, ele criou uma lâmina de chamas e as derreteu no ar. Aquilo não fez com que o inimigo recuasse. O mesmo saltou até as costas de Kamito, mas ele se virou no mesmo instante e tentou socá-lo.
— Você é bom! — disse o homem, recuando levemente. — Parece que os relatórios sobre você estavam incompletos, eu deveria saber que você era mais forte do que foi coletado.
— Lamento tê-lo desapontado. — respondeu Kamito, cerrando o punho. — Agora é a minha vez de saber o quanto você é forte! Prepare-se, seu desgraçado!!! Prove um pouco das minhas chamas!!!
Assim que o homem esquivou do soco, Kamito abriu os braços rapidamente, criando uma imensa onda de chamas em sua direção. O homem pulou para o alto tentando se esquivar. Em seguida, Kamito criou uma lâmina de fogo azul e saltou, tentando cortá-lo.
— Para onde pensa que vai?! — gritou Kamito, avançando. — Eu estou apenas começando!!!
— Droga! — reclamou o homem, pousando no chão.
— Você é muito mais rápido e ágil do que consta nos registros. É quase impossível alguém evoluir tão rápido em pouco tempo. — ele o encarou assustado. — Você não é humano!
O homem puxou duas adagas e bloqueou o ataque. Rapidamente, recolheu a mão esquerda e tentou golpear o braço direito de Kamito, mas ele o chutou no estômago, se impulsionando para trás.
— Agora eu entendi o motivo do Grande Imperador ter interesse em alguém como você. — disse o homem, recuperando a postura. — Você sem dúvidas é uma aquisição e tanto para ele.
— Não sou aquisição de ninguém! — retrucou Kamito, irritado. — Vá você e seu Imperador para o inferno!!!
Assim que tocou o chão, Kamito fez com que a chama da espada se acumulasse em seu braço, criando uma imensa chama azul, maior que o próprio corpo.
— Já que você não tem o interesse de me falar quem você realmente é. — disse, preparando o ataque. — Eu não tenho escolha se não ter que acabar com você aqui. Atomic Flaming Fist!!!
— I-impossível… — murmurou o homem, dando passos para trás. — Isso não pode ser possível! Como alguém é capaz de manifestar tanta energia assim do nada?! Você não é normal!
O homem começou a recuar, claramente assustado. Kamito correu em sua direção, mas o inimigo se virou e começou a fugir.
— N-não foi para isso que eu vim! — gritou, em pânico. — Eu não sabia que as coisas acabariam assim!
— Covarde! — berrou Kamito, avançando. — Encare as consequências dos seus malditos atos! Morra como um homem. Seu Imperador também não passa de um covarde miserável!!!
Kamito avançou o mais rápido que conseguiu, ficando próximo dele. Quando se preparou para atacar, sentiu sua energia se desestabilizar completamente. O golpe falhou e toda aquela energia foi disparada para o céu. Ele parou, olhando assustado enquanto suas mãos tremiam.
— O-O que eu tentei fazer?! — disse, confuso. — Por que eu estava tão agressivo? Isso não deveria ter acontecido… não, não agora, justo quando eu estava tão perto de assumir o controle.
— Que patético, Kamito. — disse uma voz atrás dele. — Por que você não o acertou?! Você não queria matá-lo?
Solum apareceu repentinamente atrás do homem. O inimigo se assustou, mas antes que pudesse reagir, Solum atravessou seu peito com as espadas. Ele as puxou em seguida, fazendo o homem cair sem vida a seus pés.
— Mais um fracote eliminado. — disse Solum, guardando as lâminas. — Espero que você não tenha dado ouvidos às asneiras que ele disse. Ultimamente esses Carniceiros andam inventando cada coisa.
— E-eu não tenho certeza… — respondeu Kamito, ainda atordoado. — Ele parecia estar falando sério. Ele falou algo sobre um tal Imperador e sobre eu ser o maior desejo. Você não sabe nada disso?
Kamito o olhou meio perdido enquanto Solum se aproximava. A expressão dele parecia desconfiada.
— Entendo. — disse Kamito, desviando o olhar. — Me desculpe, não queria te atrapalhar. Eu podia dar conta dele, a luta estava quase ganha. Mesmo assim, obrigado por me ajudar, Solum.
— Não precisa me agradecer. — respondeu Solum, sério. — É o meu trabalho. Você é que não deveria se esforçar tanto ou tentar resolver esses assuntos sozinho.
O mesmo estendeu a mão para ajudá-lo a se levantar, e Kamito aceitou a ajuda sem dizer nada. Solum então se aproximou do cadáver, pegando-o e colocando-o sobre os ombros. Antes de ir embora, ele se virou para olhá-lo uma última vez e sorriu de leve.
— Não se preocupe. — disse, tranquilamente.
— Eu ocultei a sua energia durante a luta. Ninguém além de mim sabe o que aconteceu aqui, e eu não direi uma palavra a ninguém. — ele inclinou a cabeça. — Espero que você possa retribuir isso com a nossa revanche.
Solum se afastou dali levando o corpo daquele homem. Kamito permaneceu parado por alguns instantes, enquanto as dúvidas continuavam martelando em sua cabeça. Tentou ignorá-las e caminhou até a sacola de ingredientes que havia sido arremessada durante a briga, abaixando-se para pegá-la. Por sorte, nada havia estragado, e ele poderia voltar para casa tranquilamente.
Enquanto caminhava, sentiu sua energia se alterar levemente, acompanhada por alguns sussurros que tomavam sua mente. Kamito tentou ignorar aquilo, focando no que faria naquela noite.
No caminho de volta, a cidade estava quase vazia e silenciosa, como se ele fosse a única pessoa ali. Um enorme vazio começou a crescer dentro dele, drenando seu ânimo. Aquele maldito ser tentava tirar tudo o que ele tinha, e todos os dias Kamito lutava contra isso, sem saber até quando conseguiria aguentar.
Ao chegar em casa, entrou sem dizer nada e foi direto para a cozinha, colocando a sacola sobre a mesa. Lília percebeu o movimento e se aproximou. Ao notar seu semblante perdido, chegou mais perto com cuidado.
— Bem-vindo de volta, Kamito. — disse, em tom suave. — Como foi o seu dia? Aconteceu alguma coisa?
Ela colocou as mãos em seus ombros e começou a massageá-los, tentando fazê-lo relaxar. Kamito se afastou rapidamente, assustado, fazendo com que Lília soltasse uma risada enquanto pegava a sacola e começava a tirar os ingredientes.
— Suas reações são sempre as melhores. — comentou, divertida. — Mesmo depois de todo esse tempo você ainda tem medo de mim?! Vamos, me diga o que aconteceu que te deixou tão pensativo. Você e a Akane brigaram? Notei que ela ainda não chegou em casa.
— Você invade o meu espaço pessoal muito rápido. — respondeu Kamito, desviando o olhar.
— Isso é estranho. — rle suspirou. — E não, nós não brigamos. Eu só estava pensando em outro assunto, em algo que eu preciso fazer para poder me sentir melhor.
Lília levou os ingredientes até a pia, organizando-os enquanto ele falava. Kamito puxou uma cadeira e se sentou, olhando para o teto, até que o som de um copo sendo colocado sobre a mesa o fez baixar o olhar. Era um copo com água.
— Eu vi o Solum na volta. — disse Kamito, pegando o copo.
— Conversamos um pouco e ele ainda não tira da cabeça a tal revanche… — ele suspirou. — Eu queria ter aquela disposição para lutar, mas minha luta já acabou. Não vejo mais um sentido em seguir lutando se a cidade está bem.
— Não diga algo assim, Kamito. — respondeu Lília, encarando-o com seriedade.
— Todos temos um motivo, um propósito para lutar, você só não encontrou o seu. — ela apoiou as mãos na pia. — Eu sempre disse que não existem vilões ou heróis, apenas dois lados que buscam coisas por perspectivas opostas. Eu ainda acredito nisso. Então, se na sua perspectiva não há mais um motivo para lutar, procure um motivo por outra perspectiva. Só você decide o que quer.
Ela sorriu após dizer aquilo. Lília realmente se preocupava com ele e demonstrava isso à sua maneira. Logo em seguida, virou-se e começou a preparar o jantar daquela noite.
— Certo! — disse, retomando o tom habitual. — Agora vá tomar um bom banho e descanse. Você teve um dia cansativo, então procure relaxar. Te chamo quando o jantar estiver pronto.
A noite prometia ser longa e tranquila ali, mas em outro lugar as coisas começavam a se intensificar. No esconderijo da Ordem, Solum apareceu carregando o cadáver do homem que havia atacado Kamito. Ele o jogou sobre uma mesa enquanto Coruja se aproximava. Ambos analisavam o corpo atentamente quando mais alguém surgiu, perguntando o que aquele cadáver significava.
— Esse é o terceiro batedor imperial esse mês. — disse Solum, irritado. — As coisas parecem estar ficando bem sérias. Queria saber quando que vamos reagir a essa ameaça.
Ele socou a mesa com raiva. Coruja o repreendeu com o olhar, fazendo com que Solum se afastasse enquanto encarava a outra pessoa. Era evidente que ele não gostava da presença dela.
— E o que você faz aqui?! — questionou, ríspido. — Pensei que assuntos da Ordem não te interessavam. Você não tem nada de melhor para fazer não? Deixe isso para os profissionais.
— Meus assuntos só interessam a mim. — respondeu a voz, fria. — Além disso, eu também faço parte da Ordem. Se você realmente quer profissionalismo, eu estou aqui para isso.
A pessoa saiu das sombras, revelando ser Ryruka. Ela encarava Solum seriamente, com os braços cruzados. Seu cabelo estava preso em uma longa trança que caía sobre o ombro direito.
— Se continuar os matando, não conseguiremos nenhuma informação relevante, principalmente sobre o motivo de eles estarem vindo para a Terra.
— Dessa vez eu não tive escolha — retrucou Solum, sério.
— Ele estava lutando contra o Kamito. Se eu o capturasse, levantaria suspeitas, então o matei como um Carniceiro comum. — ele fez uma pausa. — Se serve de alívio, o Kamito me disse que esse aí falou sobre o Imperador e sobre ele ter um grande interesse por ele. Isso não fez sentido algum para ele.
O mesmo levou a mão direita ao queixo, pensativo, tentando encontrar um motivo. Em seguida, olhou para os dois, como se esperasse alguma ideia, mas nenhum deles se pronunciou. Solum acabou desistindo e se sentou em uma cadeira, cruzando os braços.
— Acho que isso não vem ao caso agora. Ei, Coruja, você disse que ia ver o Adfectus. O que aconteceu na sua visita? Algo de interessante?
— Sim, Solum. — Coruja respondeu em tom sério. — Ele disse para que eu convocasse todos os membros da Ordem. Os rebeldes e o império entraram em guerra. Agora chegou a hora da Ordem também lutar contra o império.
Coruja falava de maneira firme. Ao ouvir aquilo, Solum abriu um sorriso animado, claramente empolgado com a notícia. Ryruka, por sua vez, apenas se virou e saiu do local calmamente, como se já esperasse por aquela decisão. Em silêncio, Coruja invocou suas corujas, ordenando que se livrassem do corpo.
— Acho que sua grande chance acabou de aparecer, Solum. — disse ele, observando-o — Irá atrás dela?!
Um ano de paz estava prestes a chegar ao fim com as notícias de uma possível guerra. Uma nova jornada estava prestes a começar. Aquilo poderia ser a oportunidade que ele tanto sonhava para pôr um fim em tudo, ou o início de sua queda de uma vez por todas. Ainda não sabiam que rumo aquilo tomaria, nem se teriam alguma chance contra esse novo inimigo, mas permanecer sentados esperando não era mais uma opção. Estava na hora de agir.

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