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    A paisagem local tinha seu próprio charme graças ao céu vermelho. Campos abertos e montanhas majestosas davam a ilusão de que o horizonte parecia não ter fim; outrora a mata fechada o deixava ao alcance do toque.

    O destino se situava num campo com algumas árvores, onde havia uma enorme casa de dois andares. Uma mulher, nas escadas da frente, não recebeu o grupo com hospitalidade e carinho, mas com um olhar mortal. Tinha a pele clara, olhos vermelhos e cabelos azuis claros, assim como os de Kamito. O corpo parecia ser esculpido à mão; o vestido azul escuro com detalhes brancos definia suas curvas. Sob o canto esquerdo do lábio inferior, destacava-se uma pequena pinta.

    — Adfectus, seu rato sarnento! O que faz aqui?! Tive uma grande surpresa ao ver um caminhão imperial na minha propriedade, mas me deparo com um rato imundo, uma vadia e onze vagabundos imprestáveis. Aqui não é um hotel! Pode…!

    Algo mudou. Ao ver Kamito, que também se surpreendeu em encontrar alguém de aparência idêntica, ela encarou Raishi sem reação, que retribuiu com um sorriso.

    — Ei, Adfectus, podemos conversar em particular?! Há um assunto importante que quero tratar com você, a sós. Me siga, agora.

    — Você não deveria falar assim com uma visita, principalmente quando é seu velho amigo. Também não deve ofender meus companheiros. Nunca te falaram que é falta de respeito tratar os visitantes daquela forma? Tenha modos. — ele subia as escadas sem preocupação, deixando os demais para trás. Ruby parecia incomodada.

    A sós, ele olhou tranquilamente para a mulher.

    — Você tem uma bela casa, Katharine. Ainda tem raiva de mim pelo que aconteceu no passado? Eu vim para livrar o Extra-Mundo dessa praga.

    — Cale-se! Não quero ouvir mais nenhuma das duas asneiras. Adfectus. Quem é aquele garoto? E por que ele é extremamente parecido com o meu irmão?! — apesar das palavras fortes, os olhos começavam a se encher de lágrimas.

    Raishi manteve um olhar sereno, sem perder contato visual. A falta de respostas a fez se aproximar com um olhar ameaçador — sem efeito sobre o homem.

    — Responda, seu maldito! Ele é o filho do Kayn?! Eu não posso estar enganada. Só os membros da nossa família possuem essa tonalidade de pele, olhos e cabelos. Se ele realmente for o filho do Kayn, como você teve coragem de trazê-lo para o Extra-Mundo do jeito que ele está? Você enlouqueceu?

    — O que você acha, Katharine? Kamito não é tão fraco e inocente. Posso garantir que ele é mais forte que o pai quando ele tinha a mesma idade. Eu não o forcei a vir, ele veio por vontade própria. Por que a preocupação? — ele se aproximou.

    Embora sua atitude parecesse tentar afrontá-la, ele mantinha a calma. Ao ficar cara a cara com ela e ao ver sua preocupação, ele se lembrava do seu falecido amigo.

    — Ele não sabe a verdade, se é isso que te preocupa. Eu não contei nada a ele, não é o meu dever e nem meu direito. Kamito só sabe que há dezessete anos um membro da Ordem, chamado Lobo, a traiu e a destruiu, mas não sabe que o Lobo na verdade é o próprio pai. E ele também não sabe que tem uma tia.

    — Isso dói, Adfectus. Você tirou meu irmão de mim, agora trouxe meu sobrinho até minha casa e eu não posso dizer a verdade. Sinto como se tivesse perdido meu irmão outra vez, mas não deixarei o mesmo acontecer com o menino, nem que eu precise me sacrificar em seu lugar. — uma aura azul tomou conta do seu corpo, seus olhos começavam a brilhar. Raishi recuou sem demonstrar preocupação. — Você pode continuar com seu plano idiota de libertar o Extra-Mundo, mas não o arraste para isso. Se algo acontecer com o garoto, eu mesma te matarei. Você levou meu irmão de mim e eu nem pude enterrá-lo, agora está guiando o filho dele para o mesmo destino.

    — O destino é engraçado, não acha? Você e Shiro não querem que ele me siga, ou ele acabaria trilhando o mesmo caminho do pai que sequer conheceu. Mesmo dando liberdade de escolha, qual rumo ele escolheu? — ele pôs a mão sobre o ombro dela e deu um sorriso sincero, o bastante para acalmar a mulher. — Não se preocupe, eu gosto daquele garoto. Eu o protegi até agora e não vou deixar nada acontecer a ele. Eu posso ter falhado com seu irmão, mas não falharei com o Kamito. Ele é o melhor de todos nós e o único a carregar o fardo de viver entre dois mundos. Libertaremos esse mundo juntos.

    — Você acredita mesmo que vai derrubar o império? Nem a grande esperança do povo foi capaz, quem garante que vocês conseguirão? São treze contra um exército.

    Katharine se afastou, abriu a porta e caminhou até as escadas. Fitava Kamito de relance — precisou conter as emoções — e desviou o olhar para encarar a todos.

    — O Adfectus me contou o que vocês estão planejando fazer. Acham mesmo que são capazes de lutar contra o império?! Vocês não passam de um bando de crianças brincando de justiceiros usando o nome de uma Ordem caída. Vão para a casa! Não vou acomodar um bando de idiotas na minha propriedade!

    — Enfrentar o império?! Solum, foi por isso que você voltou? Eu pensei que você tinha tirado essa ideia da cabeça! Depois de anos, você ainda não se esqueceu disso?!

    Helenae se afastou de Solum, o fitando com pavor. Ele tentou se aproximar, mas ela deu outro passo para trás — não queria ser tocada por ele.

    — Você enlouqueceu?! Eu pensei que na Ordem você abandonaria esse sonho idiota e mudaria de ideia! Eu pensei várias vezes que você finalmente tinha esquecido de mim e dessa ideia, e que seguiria em frente! Por quê? Por que você quer tanto lutar?!

    — N-não é isso, eu só seguia ordens. Helenae, eu jamais te esqueci. Eu prometi ficar forte o suficiente para derrotar todo o império e livrar o Extra-Mundo desse mal. Esse é o meu propósito e o Kamito me lembrou disso. Não só ele, como você também me lembrou após o combate contra o Coruja, não é? — ele deu um sorriso leve, notando que essa afirmação pegou a amiga desprevenida. — Eu sabia que era você naquele dia, não uma alucinação qualquer.

    Solum ameaçou dizer algo mais, mas foi interrompido por um grito do amigo.

    — Ei! Sua velha maluca! Quem você pensa que é para nos julgar?! Esse mundo vai de mal a pior e quando alguém está disposto a mudar isso, você diz essas coisas? Eu não sou desse mundo, mas decidi ajudar porque essa guerra colocou meu mundo em perigo! E daí que a maioria de nós ainda não seja adulto?! Somos fortes o bastante para lidar com qualquer ameaça, é para isso que essa Ordem existe! Eu, Lobo, jamais permitirei que você nos julgue sem nem ao menos nos conhecer! — Kamito avançou na direção da mulher, nitidamente irritado. Esse ímpeto a fez enxergar a imagem do irmão no rapaz, e por instinto ela se aproximou. — Embora eu não seja daqui, lutarei por vocês! Eu salvarei esse mundo e essas pessoas! Quero a paz dos dois mundos! Por isso, retire o que você disse! Meus amigos depositaram seus sonhos e seus sentimentos para estarem aqui! Eu poderia estar em casa, mas estou aqui querendo ajudar um mundo que não é meu e uma velha ingrata que nem você!

    — Moleque da língua grande! Vou ensinar você a ter mais respeito com os adultos! Você vem até a minha casa sem ser convidado e ainda me insulta? — sem hesitar, Katharine socou o rapaz na face esquerda.

    Kamito revidou na mesma moeda. O impacto jogou uma onda de poeira ao redor de ambos, impedindo os outros de ver o que tinha acontecido. Entretando, algo podia ser dito com certeza: Katharine nocauteou o sobrinho.

    — Você teve coragem de acertar o rosto de uma mulher, Lobo. Você é mesmo um idiota, mas as suas palavras me convenceram… Obrigada.

    As palavras perdiam sentido e forma conforme Kamito perdia a consciência. Antes de cair, Katharine o segurou nos braços e o apertou com força.

    Quando a poeira baixou, Akane, Yujiro e Camily se aproximaram às pressas para verificar o estado do companheiro. Katharine sorria enquanto olhava para o céu, feliz por segurar o sobrinho, cuja imagem a recordava do amado irmão, em seus braços.

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