Índice de Capítulo

    A tensão aumentava, um conflito sério poderia começar. Então, por que Kamito sorria? Suas chamas queimavam de alegria. Ryruka tomou a iniciativa e disparou várias flechas de gelo na direção de Elarion. Capuz avançou contra Kamito; faíscas voaram durante a colisão das espadas. Yujiro investiu contra Raya. Akane e Ryn ficaram estáticas. Não viam necessidade em uma luta, talvez fossem as únicas a perceber que o conflito não passava de uma disputa boba de egos. Elas gritavam pedindo o fim do combate; ninguém lhes deu ouvidos.

    As flechas de Ryruka eram convertidas ao estado inicial — perdiam velocidade e caiam no chão sempre que entravam no raio de ação de Elarion. A Manifestação do rapaz era estranha, porém, bem interessante. A intensidade só crescia, os ataques não paravam. Uma luta por orgulho chegava a ser assustadora.

    Ao contrário deles, Yujiro e Raya tinham cautela. Ele não queria machucá-la, mas a Manifestação de Gás da rebelde o forçava a revidar. Enquanto isso, Tenebris dava atenção à disputa entre Kamito e Capuz Negro — sentia algo errado na energia do Lobo da Ordem. Espiou Raishi pelos cantos dos olhos; ele não estava preocupado. Confiando no julgamento do Coelho, cruzou os braços e apenas acompanhou a luta.

    Kamito lançava várias bolas de fogo contra o oponente, que as absorveu ao criar pequenos buracos negros. Buracos negros?! Kamito logo reconheceu o problema. Se preparava para uma nova investida — foi quando Akane se colocou à sua frente.

    — Chega, Lobo! — ela abriu os braços. — Você não é assim! Não se deixe levar pelo orgulho da Garça nem pela raiva dos outros! Eu sei que você quer ajudar, mas essa luta não tem sentido a não ser para tentar provar quem é o melhor.

    Akane então tocou as bochechas do namorado. Estava desapontada, mesmo não querendo demonstrar. Lentamente, ela recolheu as mãos.

    — Não lute a não ser que seja preciso. Você não pode se esquecer de que não pode gastar sua energia de forma desnecessária. Por favor, pare agora.

    — D-desculpa, Borboleta. Eu só… Eu não queria deixá-los sozinhos. Você falou que somos um time e, acima de tudo, amigos. Eu não quis deixar eles lidarem com isso sozinhos. Eles já fizeram muito por mim antes… — ele desviou o olhar, constrangido. Não queria parecer impulsivo e descontrolado, ainda mais no Extra-Mundo.

    Após desfazer sua Relíquia, ele se afastou sem olhar para o Capuz Negro. Akane o acompanhava com atenção, a alguns passos de distância. Foi a vez de Ryn agir.

    — Elarion! Raya! Parem, por favor! Não precisamos disso! Eles não são o inimigo! Raya, libertar Eudora era seu sonho! Agora que ele pode ser realizado, vai recusar a ajuda deles por causa de uma idiotice do Elarion?!

    As palavras de Ryn pararam Raya, que criava uma nuvem de gás tóxico ao redor do oponente. Yujiro respirou aliviado, fazendo várias rochas voltarem ao normal.

    — Elarion! Pare, agora! Esse caos só começou por causa do seu comentário idiota! Fomos nós que aceitamos conversar com eles, não o contrário. Mesmo que a garota tenha sido arrogante, você não podia ter caído na provocação dela. Peça desculpas!

    — Já chega, Garça! Não podemos levar isso para o lado pessoal! Ele errou em achar que você só era bonita, e fim de papo! — Yujiro correu até Ryruka, e nesse momento várias flechas de gelo foram atiradas em sua direção.

    Se protegeu com uma barreira de pedras. O olhar de repente ficou bastante sério.

    — Já chega! Não me faça lutar contra você! Você está passando dos limites! Você disse para focarmos na nossa missão e agora está atacando um potencial aliado para proteger seu ego?! E pior, está me atacando! Você não é assim, Garça!

    — Cale-se! Você não deveria ficar contra mim! Você sabe do meu esforço para ser a melhor, você disse que me entendia! Acha mesmo que vou deixar esse idiota ferir todo o meu trabalho por causa da minha aparência?! Não! Eu não irei! — perdida em revolta, Ryruka concentrou uma imensa quantidade de energia em uma única flecha, apontada para Elarion. — Farei você engolir suas malditas palavras, seu fracassado. Beleza não define força! Se definisse, você deveria ser mais forte, feioso!

    — Certo, isso basta. Deixei vocês ficarem à vontade por tempo demais. Vocês podem ser fortes, mas ainda são crianças que não sabem se controlar.

    Raishi finalmente interferiu. Inverteu a flecha para uma versão mais fraca, que se desfez naturalmente no próprio arco da irmã.

    — Foi por isso que eu os trouxe comigo. Eu sabia que, em algum momento, vocês se desentenderiam com alguém. Temos um objetivo, não quero brigas. Fazemos parte do mesmo grupo. Mesmo que não queiram conversar entre si, se respeitem.

    — O mesmo serve para você, Elarion. — Tenebris encarou o amigo, que lentamente saiu da posição de combate. — O que passou na sua cabeça quando disse aquilo? Raya e Ryn são lindas e nem por isso são fracas. Sei que vocês não confiam neles por causa do que o Cascavel fez, mas eles não têm relação com aquele salafrário. É bom que você deixe esse preconceito de lado, ok?

    Sem dizer nada, Elarion se afastou até ficar ao lado do Capuz Negro. Tenebris suspirou, desapontado; podia perceber que essa intriga ainda não tinha acabado.

    — Ouçam! — ele bateu palmas para chamar atenção. — Quando eu conheci Raya, tínhamos um sonho: ver Eudora livre do maldito império que se expandia como um incêndio em uma floresta. Nós nos unimos por esse motivo e viramos uma família. Agora, outras pessoas que possuem o mesmo sonho vieram nos ajudar! Esse não é o momento para os negarmos e criarmos rixas! Devemos caminhar lado ao lado para realizarmos esse sonho! É por isso que a Emota existe! Somos a esperança de um povo que aceitou ser escravizado! Com a Ordem dos Cavaleiros Brancos, temos a oportunidade que não tínhamos quando estávamos sozinhos! Impero e seus lacaios cairão diante de nós! Nós iniciamos a chama da esperança. Enfim chegou a hora de lutarmos até o fim! É hora da Emota libertar Eudora!

    — É assim que se fala, Tenebris! Já passou da hora de darmos o troco no Impero. Não sabe o quanto eu esperei por uma revanche! — Raya vibrou e olhou para os amigos, que se aproximavam. —  Não podemos deixar essa chance passar! Dessa vez, não falharemos, pessoal. O maldito império está com os dias contados. Vamos deixar nossas diferenças de lado e nos aliar a eles!

    — Belas palavras, Tenebris. — Raishi se virou para os jovens da Ordem. — O que vocês acham, Lobo, Borboleta, Ratel e Garça? Também vão deixar essas diferenças idiotas de lado e focarem no verdadeiro problema? Se recusarem, podem voltar para casa. Não preciso de pirralhos briguentos e individualistas me atrapalhando.

    A dura realidade os chocou. Talvez fosse a primeira vez que os tratava assim.

    — Ano passado vocês trabalharam bem em equipe, mesmo com suas diferenças. Por que agora é diferente? Aqui, vocês não são meros adolescentes ou grandes heróis, são membros da Ordem dos Cavaleiros Brancos e estão em uma missão de vida ou morte. Ajam com seriedade ou morrerão.

    — Se eu te incomodo tanto, por que não me expulsa da Ordem?! Afinal, você nunca me apoiou em nada! Você sempre depositou sua confiança em outras pessoas e não em mim! Por que você acha que eu não sou capaz?! — Ryruka deu um passo à frente, os olhos carregados de fúria e lágrimas.

    Yujiro tentou acalmá-la, mas ela o afastou e avançou na direção do Raishi. O tapa surpreendeu a todos. Kamito e Akane instintivamente correram para contê-la; Raishi manteve a expressão séria e imparcial.

    — Vamos! Me expulse! Você sempre me viu como um problema! Você teve que me tirar daqui quando fugiu, você teve que me criar! Eu só sou um estorvo para você, um que infelizmente você não pôde se livrar por ser sua irmã! Eu te amava muito, irmão! — ela fez uma pausa, os lábios tremiam. — Mas você mudou… Você mudou e se tornou esse ser sem emoções. Passou a me tratar como um nada, como alguém que precisasse de você para tudo! Eu comecei a te odiar por isso! Eu te odeio!

    As emoções transbordavam. Ryruka estava prestes a sucumbir; Yujiro a abraçou com força. Quase chorando, ela retribuiu. Apertava o amigo, as unhas quase furando o sobretudo. Quando se afastaram, lentamente, trocaram olhares breves e, então, ele fitou os amigos com um olhar triste e vazio. Não era apenas uma reação de momento. Kamito e Akane sentiam que algo iria mudar. Yujiro respirou fundo e encarou Raishi.

    — Se for expulsá-la, me considere fora também. Não voltaremos para o abrigo. Vou levá-la a um lugar que conheço. Quando ela se sentir melhor e estiver disposta a conversar, procuramos vocês. — ele voltou a olhar para Kamito e Akane, que estavam há muito sem reações. — Lamento pela confusão, amigos, e por deixá-los.

    E, assim, eles se foram. O silêncio foi ensurdecedor. Ninguém soube como reagir. Na verdade, alguém conseguiu. Raishi manteve-se intacto, como sempre. Sequer teceu comentários. Foi demais para Akane suportar. Correu para fora da caverna, o namorado a perseguiu de perto. Quando a alcançou, notou os rios de lágrimas.

    O abraço foi natural. Akane escondia o rosto no peito de Kamito, que acariciava os cabelos dela, tentando conter a tristeza. Queria consolá-la, não chorar junto.

    — Está tudo bem, Akane. Eu estou aqui. Eles vão ficar bem, são fortes. — ele respirou fundo, sentindo o coração dela bater próximo ao seu. — Eu prometo que nunca iremos nos separar, não importa o que aconteça. E também farei nossos amigos voltarem. Somos uma equipe, certo? Eles só precisam de um tempo para pensar melhor…

    — Não deveria ser assim! Não deveria! Justo quando ela estava se reaproximando, ela se afasta de novo! Pensei que fôssemos amigas! Pensei que fôssemos um time! Me sinto uma idiota por não tê-la defendido e por ter deixado eles partirem. Eu não quero perder ninguém! — ela o agarrou com força pela camisa, o olhar era sério e determinado. — Não vá a lugar algum onde eu não possa te alcançar, Kamito. Não me deixe, nunca. Eu não suportaria viver sem você. Se acontecer com você, eu… eu morreria. Eu morreria para não suportar tanta dor. Por favor, nunca me deixe!

    — Eu não irei a nenhum lugar sem você! Você nunca ficará sozinha, eu prometo. Eu prometo que sempre estarei aqui, custe o que custar.

    Com o coração acelerado, Akane o beijou. Kamito a acariciou na bochecha, sentia o cabelo dela cair sobre sua mão. Quando se afastou, fitou seus belos olhos.

    — Akane, quando isso tudo acabar e voltarmos para casa, vamos nos casar! Eu quero ficar ao seu lado pelo resto da minha vida. Mesmo que demore, eu quero me casar com você! É meu desejo! — ele segurou as mãos dela.

    — Ka-kamito… É verdade? Sim! Sim! Eu aceito! É com você que quero estar, é você que eu quero, Kamito! E eu esperarei ansiosamente até o dia que poderemos nos casar. — o lindo sorriso se misturava às lágrimas alegres. A emoção os uniu em um novo abraço. — Agora, nós somos noivos. Pena que as circunstâncias desse pedido não foram as melhores… Parece injusto ficar feliz em um momento como esse…

    — Não se preocupe, eu a pedirei de novo quando tudo acabar. E de novo, e de novo, até você se cansar de ouvir tantos pedidos de casamento. — ele bagunçou o cabelo dela em meio a uma risada. Por um momento, a guerra que tanto o assustava perdeu peso. A alegria daquele momento foi maior do que suas preocupações. — Nunca iremos nos separar, Akane. E mesmo se isso acontecer um dia, eu irei te encontrar. Não importa como, eu sempre irei te encontrar e ficar do seu lado.

    Eles trocaram olhares e ameaçaram outro beijo, mas recuaram quando Raishi e a Emota saíram da caverna, carregando algumas bagagens. Era hora de partir.

    A chuva ainda caía, o caminho de volta seria longo e silencioso. A Ordem ganhou novos aliados, mas ao custo de dois preciosos amigos.

    Mais um passo foi dado em direção à guerra. A certeza do caos iminente era, de certa forma, aterrorizante. Perguntas, medos e preocupações eram tão frequentes que, às vezes, Kamito se esquecia do principal motivo de estarem ali: garantir a paz.

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