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    Chegando no local, Coruja invocou vários olhos com asas e os fez mapear toda a área — precisavam de um local ideal para a emboscada. O plano era simples: os rebeldes plantariam pregos e tachinhas ao longo da estrada para que, com o tempo, os pneus murchassem e os obrigassem a parar. Um grupo comandado por Solum os atrairia para fora da estrada enquanto Camily entraria no veículo e faria a nobre falar. O desafio? O tempo. Não poderiam ser muito rápidos, pois Camily seria capturada, nem muito lentos, ou a escolta chamaria por reforços e tudo estaria perdido.

    Coruja alertou os aliados assim que avistou uma caravana. Todos entraram em posição. Lília segurava a mão de Camily, Solum e seu grupo aguardavam o sinal — nada mais do que o pneu estourando — para agir.

    Os veículos, enfim, se aproximaram. Passavam pela estrada tranquila e quieta. A calmaria foi cortada pelo som de um pneu estourando. Os outros veículos pararam. Vários guardas imperiais desceram para proteger a nobre, outros dois foram verificar o pneu. Estavam nervosos, temendo uma emboscada de bandidos ou rebeldes.

    — Parece que algo ficou preso no pneu e o furou. Droga! Temos um pneu reserva? Não podemos ficar parados por muito tempo no mesmo lugar!

    — Temos um reserva no outro carro, chefe, irei buscá-lo imediatamente! — um guarda mais jovem corria até o veículo mais próximo, até um som de fora da estrada chamar sua atenção. — Eu ouvi algo! Pode ser mesmo uma emboscada! Vamos atacá-los antes que eles nos ataquem! Vamos, rapazes!

    — E-esperem, idiotas! Não deixem suas posições sem uma ordem minha! Bando de palermas, alguém venha aqui e troque logo esse pneu! — ordenou o superior.

    Em meio ao tumulto, o vidro do carro principal baixou lentamente. Uma mulher ruiva com olhos verdes questionou os guardas próximos sobre o motivo da parada.

    — Minhas humildes desculpas, senhorita. É só um contratempo, estamos cuidando disso. O pneu estava murcho e acabou estourando, não há com o que se preocupar.

    — Espero que vocês não sejam tão imprestáveis ao ponto de demorarem para trocar um pneu. Eu tenho um compromisso importantíssimo ainda hoje e não pretendo me atrasar, então apressem-se com isso! — ela fechou o vidro e se acomodou no banco.

    Nesse momento, sentiu algo frio encostar na garganta. Uma garota se revelava.

    — Nem pense em gritar. Se tentar, minha lâmina entrará na sua garganta, entendeu? Eu farei perguntas e você me dará as respostas. — Camily a assustava com o olhar mortal, mas ainda tentava segurar a faca com firmeza. Agir com tamanha frieza era algo novo para ela. — Eu não estou atrás de você, então facilite as coisas para nós duas. Estou procurando um homem conhecido como “O Político”. Soube que você tem uma pista sobre ele, então me fale, agora.

    — “O Político”? Está falando do Sora? — ela deu um sorriso prepotente.  — O que uma criança quer com ele? Vamos, pare de brincar e saia logo do meu carro.

    Ela tentou se mover em direção à porta, a ponta da faca lhe cutucou na garganta. A nobre fitou Camily, que ostentava um olhar assustador, e encarou a realidade.

    — Está bem, eu falo, mas por favor não me machuque. Sora está em sua mansão na Cidade do Sul. Ele pretende dar uma grande festa exclusiva para as famílias nobres para conseguir mais apoio para o império. É impossível se aproximar dele, entendeu? Há muitos guardas. O que pretende fazer? Você não conseguirá nada além da morte.

    — Eu disse que você me daria apenas as respostas. Não lembro de ter pedido sua opinião ou deixado fazer perguntas. Parece que você não está levando isso a sério.

    Ela a puxou para longe da porta, mantendo a faca encostada na garganta dela. Camily tentava manter seriedade, mas o nervosismo estava quase a dominando.

    — Quando será essa festa? E como eu consigo entrar? Se me responder isso, eu te deixarei em paz e irei embora.

    — Você está tentando se matar, menina, mas está bem. Se quer tanto morrer, eu lhe direi o que quer. Será no último domingo do mês, apenas os nobres foram convidados. Sem o convite, você não entrará, e nem adianta tentar pegar o meu, pois cada convite tem o brasão específico da casa nobre que foi convidada. — ela se ajeitou no banco, buscando uma posição mais confortável para combater o nervosismo.

    — Tenho tudo que eu queria saber. Não preciso mais de você. Se não se importa, irei te pôr para dormir. Quando acordar, não se lembrará dessa conversa. Bom descanso.

    Camily faz um pequeno corte no pescoço da nobre. A lâmina estava banhada em sonífero, fazendo-a desmaiar quase em seguida. Com o objetivo concluído, ativou sua Manifestação e saiu do veículo sem chamar atenção.

    — Essa foi por muito pouco… Espero nunca mais ter que fazer uma coisa dessas. Isso é assustador… Bom, agora é hora de voltar para a Hiena e os outros.

    Com extrema cautela, Camily saiu da estrada enquanto os guardas retornavam sem êxito na busca por ameaças. O local de encontro não era longe, não precisava ter pressa. Mesmo assim, seus passos ficaram cada vez mais rápidos. Antes de se dar conta, Camily corria com tudo que tinha. O coração batia com força, as pernas tremiam, as lágrimas começavam a surgir. O reencontro com Lília foi marcado por um abraço forte, quase materno. E assim a pequenina pôde deixar as emoções fluírem.

    — Calma, minha pequena, calma. Você foi muito bem, me perdoe por ter feito você passar por isso. Me perdoe de verdade. Você e o Lobo são muito preciosos para mim e eu não suporto ver vocês passando por isso. — Lília quase chorava.

    Entendia o peso de uma guerra e sabia que todos os métodos eram necessários para vencer. Apesar disso, criou laços que ficaram maiores do que seus interesses, e por isso não suportava ver seus companheiros sofrerem.

    — Quando estiver segura e à vontade, você pode me contar o que conseguiu. Por enquanto, descanse o quanto quiser, minha pequena.

    — Devo admitir que não confiei nesse plano. Quem diria que vocês conseguiriam sem chamar a atenção daqueles desgraçados. — Duncan se aproximou, animado.

    O abraço entre Camily e Lília era uma linda cena, mas não pôde deixar de reparar em algo: onde estavam Solum e Coruja?

    — O que houve? Vocês conseguiram a informação? Onde estão os outros? Pensei que eles estariam aqui após a missão. Esse era o combinado.

    — E é, estávamos ocupados com outro assunto. — anunciou Coruja, retornando ao lado do Solum. — Parece que há uma caravana lotada de soldados imperiais saindo da capital. Temos que sair daqui imediatamente. Há um rastreador com eles.

    Logo depois, Solum pegou Camily e a colocou em suas costas.

    — Eu a levarei logo para o esconderijo. Vocês dois, se cuidem.

    — Cuide-se também, Coiote. Vá com cautela, ou acabará os levando para o nosso esconderijo com o rastro da sua Manifestação.

    — Sei disso. — e então, Solum desapareceu de vista.

    Enquanto Lília e Duncan se preparavam para fugir, Coruja invocou vários servos com aparência humana e roupas de ladrões comuns.

    — Isso nos dará tempo. Iremos por um caminho diferente daquele que e o Coiote foi, assim confundiremos o rastreador que está com eles.

    — Coruja, acha que eles ficarão bem? Nunca vi o Solum fugir de uma luta. E a julgar pela pressa que estamos, parece ser um exército do qual não podemos lidar. Se for necessário, eu posso ficar para distrai-los. — propôs Lília.

    Ela não parava de pensar no que tinha pedido para Camily fazer e nem em como Kamito poderia estar. Coruja negou e deu início à fuga.

    — Hiena, se você realmente se importa com a Camaleão e com o Lobo, saiba que morrer não os deixariam felizes. Se for preciso, eu mesmo fico para impedi-los. Você não precisa se sacrificar. — ele mandava mais servos para diversas direções e, sem ninguém notar, sorriu. — Então é isso que vocês sentem, Coiote, Lobo?! Antes, eu só me importava em realizar o plano do Falcão e ser um herói aos meus olhos, mas agora eu entendo o que vocês sentem quando lutam para proteger algo.

    — Vocês dizem ser de uma Ordem, mas agem como uma família. Fiz certo em me aliar a vocês. Espero que nossa amizade vá além da queda do império. Eu adoraria fazer mais missões com vocês. — Duncan ria, despreocupado.

    A partir de um certo ponto, indicou para seus homens mudarem a rota.

    — Não queremos chamar atenção para vocês! Estamos indo para a localização que você mencionou, Coruja. Quando precisarem, é só nos chamar!

    Então, a dupla da Ordem se separou dos rebeldes.

    Num lugar remoto, duas pessoas caminhavam por uma floresta intocada. Sequer conversavam entre si, suas roupas não pareciam ser daquele mundo…

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