Capítulo 93 — O Confronto Moral: Yujiro Contra Navaro
No templo dos Nomura, horas antes da infiltração, Yujiro e Ryruka debatiam sobre seus próximos passos. Alheios aos novos planos da Ordem, eles se sentiam calmos, felizes. Nem pareciam estar envolvidos com o conflito. A noite chegava timidamente, então Ryruka saiu em busca de algo para comerem. Yujiro ficou sozinho no pátio.
Enquanto ele contemplava o céu, uma terceira presença se manifestou entre os antigos pilares do templo. Um senhor de idade, carregando um olhar calmo e inocente que escondia perfeitamente suas intenções. Yujiro prontamente se levantou.
— Lugar bonito, não acha? Eu pensei que estava abandonado e esquecido há vários anos, e agora me deparo com alguém morando aqui. — comentou Navaro.
Se aproximava com passos lentos, despreocupados. Yujiro manteve distância.
— Está com medo, jovem? Não sou uma ameaça. Só tive curiosidade de saber quem estava nesse lugar. Não irei lhe fazer nenhum mal, eu garanto.
— Eu acreditaria em você, se as condições fossem outras. Como encontrou esse lugar? Somente os Nomura conseguem encontrar esses templos, e a julgar pela sua postura, tenho certeza de que você é um Nomura. Ou melhor, de que você já foi um.
Yujiro cuidadosamente se preparou para um possível ataque. Navaro riu e, sem hesitar, assumiu uma postura de combate que Yujiro prontamente reconheceu.
— Essa posição de combate… Não resta dúvidas, você realmente é um Nomura. Pela sua idade e pela quebra de postura, você é um traidor. Os mais velhos não lutam com os punhos fechados, nem com postura ofensiva. O que um traidor faz num lugar como esses? Procurando redenção? — ele deu um passo para trás.
— Sim, sou um traidor! Recebi essa alcunha por aperfeiçoar meu estilo de luta e por estudar a fundo o meu tema: o medo. Os Nomura estão presos ao passado. Não seja hipócrita, rapaz. Você concorda comigo, pois você é um desviado. Se fosse mesmo um Nomura, não usaria essas vestes nem deixaria o cabelo tão longo. Diga-me, por que rompeu com nosso clã? Poder? Glória? Fama? — ele ergueu as sobrancelhas.
A hesitação e a surpresa do jovem provocaram risos no mais velho. Navaro tentou se aproximar outra vez, mas seus pés ficaram presos ao chão.
— Tem certeza? — ele o encarou seriamente. — Nós somos iguais. Abandonamos uma família decadente para dar vida a ambições próprias. Os Nomura nos controlam como gados em um curral. Nos induzem a acreditar e aceitar suas crenças sem nos dar uma escolha. De que adianta prezar a liberdade se somos presos por leis?
— Engraçado ouvir isso de você, Navaro, o Carniceiro Impiedoso. Não nos compare. Você não sabe os meus motivos, nem tem o direito de questionar as crenças da nossa família! Você matou e torturou inocentes de dentro e de fora do clã, foi acusado de traição por ferir nossos princípios e por uma série de assassinatos.
Yujiro enfim assumiu uma posição ofensiva e invocou sua Relíquia. Chicoteava o chão algumas vezes, sempre atento aos movimentos do inimigo.
— Eu e meu pai deixamos o clã por não aceitarmos seu posicionamento perante a decadência do Extra-Mundo. Se aos olhos deles e de um traidor como você, eu sou um desviado, que assim seja. Estou com a mente tranquila, pois nunca quebrei o código deles. Eu e meu pai saímos para cumprir o principal dogma: garantir a paz!
— “Garantir a paz”? Isso é uma piada? Os Nomura só pensam neles mesmos, nada que fizeram ou farão é pelos outros. Eles não querem nada além de mais idiotas para idolatrar os malditos costumes ultrapassados e injustos. — ele manifestou uma aura negra e pesada; o olhar carregava um ímpeto assassino. — Que idiotice. Que perda de tempo! Você não quer poder? Não quer fazê-los se submeterem a você? Por quê?! Por que você luta por algo tão estúpido? Nunca haverá paz!
— Pode ser estúpido, pode ser que o Extra-Mundo nunca tenha paz, mas essa é a minha escolha. O erro da nossa família é se prender aos dogmas e ignorar o mais importante: evoluir. Eu pretendo mudar isso. — Yujiro se preparou para um ataque.
Mas havia um problema. A aura do inimigo o deixava tão apreensivo a ponto de prejudicar sua análise. Yujiro apertou o cabo do chicote, qualquer vacilo seria fatal.
— Irei reestruturar os Nomura e mostrar a eles o caminho certo! Farei você perceber seu erro e pagar pelos seus crimes, Navaro!
Essa foi a gota d’água.
Navaro avançou violentamente. Yujiro ergueu uma barreira de pedras para se proteger, que foi facilmente destruída. Frente a frente, tentou golpear o inimigo com chicotadas e chutes. Navaro sempre desviava; Yujiro precisava repensar a estratégia.
Dessa vez, investiu em socos e chutes. No momento certo, conseguiu prender o braço do oponente com o chicote. O velho riu e o puxou pelo chicote. Não conseguiu; foi atingido pelas costas por um enorme punho de pedra. Yujiro preparava um golpe com os dois punhos, mas Navaro se recompôs, esquivou e lhe aplicou uma rasteira. O próximo golpe seria no pescoço, e seria derradeiro.
Uma flecha de gelo acertou sua mão direita e a congelou parcialmente. Os olhares se voltaram para uma garota loira na entrada do templo. Em suas mãos, arco e flecha.
— Seja lá quem você for, não irei permitir que faça o que bem entender com o Yujiro. Vá embora antes que eu te mate. Não é um aviso. — Ryruka apontava a flecha para a cabeça de Navaro enquanto se aproximava com cautela.
Navaro se afastou com um sorriso de canto, dando chance para Yujiro se levantar.
— Se não quer morrer, eu aconselho que vá embora. Já estou perdendo a paciência. O primeiro disparo foi um alerta, o segundo irá acertar bem no meio dos seus olhos.
— Que garota aterrorizante! Você deve ser muito poderosa para me ameaçar. Diga-me, do que você tem medo? — ele a encarou com interesse. Diferente de Yujiro, ela não parecia ser alguém que conteria todo o seu poder durante o combate. — Diferente do seu amigo, você não treinou um estilo, então você é uma ameaça de verdade. Seu amigo é um idiota que usa o estilo da Harmonização. E ao contrário dele, você pode simplesmente tentar me matar caso seja o seu desejo.
— Engano seu, Navaro. Eu também posso te matar. Lembre-se de que não faço mais parte dos Nomura, então não preciso mais seguir os ensinamentos à risca. Eu já lhe disse, deixei os Nomura para lutar unicamente pela paz!
— Não precisa seguir os ensinamentos à risca, e ainda diz que nunca quebrou o código dos Nomura? Que conclusão adorável! — Navaro gargalhou.
Yujiro apertou o cabo do chicote e criou diversos espinhos de pedra. Ao chicotear o chão, a terra tremeu. Chega de análises.
— Ryruka, obrigado pela ajuda, mas isso é algo que eu devo fazer sozinho. Esse é um assunto entre os Nomura, e eu irei pôr um ponto final nisso hoje mesmo.
— Tem certeza? Ele parece ser muito poderoso. Eu darei suporte, se precisar. — ela desfez o arco e recuou com cautela. Podia não parecer, mas Ryruka estava bastante preocupada. — Vê se você não morre, Yujiro. Temos um Imperador para derrotar. Esse velho só nos custará tempo e energia, então seja rápido.
— O Imperador?! Vocês são opositores do império? — ele levou a mão direita ao queixo. — Hum, é mesmo. Cascavel mencionou uma dupla de Manifestadores como vocês. Yujiro Nomura e Ryruka Scarlet, da Ordem dos Cavaleiros Brancos. O que fazem no Extra-Mundo se vocês estavam protegendo a Terra? Por acaso, o restante da Ordem também está no Extra-Mundo?
— Tch! Droga… — Ryruka franziu a testa. Falou mais do que deveria.
— Significa que Kamito Takeda e Akane Yagami também estão aqui. Meu Imperador ficará contente em saber disso. Obrigado, pequeno Nomura e sua amiga. Agora eu só preciso me livrar de vocês e levar essa informação ao Grande Impero.
— Você está com o Imperador? Esse é mais um motivo para não deixar você escapar.
Yujiro segurou firme o chicote de espinhos e avançou. Assim como antes, Navaro esquivou de todos os ataques. Mas, dessa vez, várias estacas de pedra a surgiram ao redor do inimigo e o encurralaram. Yujiro lançou seu chicote outra vez.
— Acabou, Navaro Nomura! Que seu fim seja aqui, no Templo da Harmonia, e que isso faça todos os seus crimes serem pagos de uma vez!
— Não pense que pode julgar meus atos! Eu não me arrependo do que fiz! Qual é o sentido de vida de um Manifestador senão aperfeiçoar sua Manifestação ao máximo? — Navaro abriu os punhos e golpeou as estacas com as palmas das mãos.
Cada golpe reduzia as estacas em pedaços minúsculos. Em seguida, ele enrolou o chicote no braço, ignorando o dano causado pelos espinhos, e puxou Yujiro. Tentou acertar o jovem com um ataque direto no peito — bloqueado.
— Eu sempre tive a curiosidade de saber qual estilo é o melhor: Harmonização ou Violência? Agora eu posso ter essa resposta!
— A única coisa que você terá é a punição pelos seus pecados! Você se arrependerá por ter profanado o nome dos Nomura!
A disputa de forças era colossal. Representava com perfeição e equilíbrio o duelo de estilos, opiniões e filosofias — e, talvez, a diferença entre o bem e o mal.
— Para um senhor de idade, você até que está em forma. Continuou melhorando seu estilo de luta, como um Nomura faz. Pensei que você odiasse o clã a ponto de deixar tudo que aprendeu para trás. — Yujiro o fitou nos olhos.
— Eu os odeio, por isso aperfeiçoei o estilo defasado deles e criei o meu. Observe a verdadeira cara do medo, pobre coitado!
Navaro fechou a mão esquerda, prendendo o punho do rapaz, e segurou a outra mão. Acabava de deixar o inimigo sem escapatória. Navaro perfurou a alma do jovem Nomura com um olhar diferente de tudo que Yujiro já tinha visto. Eis sua Manifestação. Yujiro ficou paralisado, Navaro deixou escapar uma risada.
— Te peguei. Qual será o seu maior medo? Mostre para mim, Yujiro Nomura. Mostre o medo que você esconde lá no fundo da sua alma.
Mesmo tomando cuidado, Yujiro foi pego pela Manifestação de Navaro. Bastou um único descuido. Ryruka os observava com apreensão. Deveria interferir, ou confiar no amigo e entregar a ele toda a responsabilidade pelo que viria depois?

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