Finalmente Heloísa o liberou para andar. E como andou! Ela disse que precisava de ajuda de um menino tão alto e forte quanto ele.

    Parecia uma mentira deslavada, era relativamente pequeno para um nascido nobre, franzino de nascença, mas depois do trauma, fuga e fome constante no último ano só piorara.

    Ajudou-a limpar a casa, organizar caixas, guardar cacarecos antigos. A tarde, trocou suas ataduras, os ferimentos fechavam rápido, rápido o suficiente para surpreender a senhora.

    Não era uma criança normal, só isso lhe dava uma ideia de como aquele menino tinha conseguido alcançar onde muitos homens falharam.

    À noite, seu filho Marco voltou do plantão, era médico como a mãe. Alto, loiro e forte, de constituição larga. Mesmo com a barba era perceptível que puxou muito a mãe. Não importa o quão grande fosse, a paz que passava era contagiante. Aquelas mãos nasceram para cuidar e curar, nunca machucar.

    O sorriso dos dois era aconchegante. Jantaram juntos, rindo, contando histórias. Deixaram-se abertos a conhecê-lo, eram a família mais simples, pura e amável que conheceu.

    Ao longo do jantar ouviu sobre as aventuras que aquela senhora viveu durante seus anos de ouro, as vidas que salvou, as cirurgias que realizou. Às vezes seus olhos embotavam, perdidos, quando ela citava alguém que não conseguiu salvar. 

    Por fim comentaram sobre o que fariam amanhã. Seria o festival das despedidas, seus anfitriões, já haviam marcado de comparecer, eram voluntários, estariam lá para ajudar e ser um ombro amigo para todos aqueles que irão ver as névoas afundarem no mar. Ele os acompanharia, mesmo que temeroso. 

    “Um passeio” disseram. Mas de fato, tinha medo do que veria. Os olhos daqueles que quebraram o selo viam muito mais do que os outros. Questionava-se, se teria o azar de ver seus irmãos em meio às muitas almas que os rios de névoa carregavam para o mar. Teria esse mártir? Talvez, é impossível saber para qual estuário as brumas iriam desaguar.

    Despediram-se com um boa noite. Benjamin deitou na maca, era a única cama livre para ele na casa. O gosto da comida deliciosa que mãe e filho cozinharam ainda dançando levemente em sua boca.

    Ele não conseguia dormir, encarava as caixas com muitas memórias do passado. Lembranças felizes e tristes. Pensava no futuro com receito. Temeroso, se perguntando como seria o dia de amanhã.

    Depois de algumas horas ali, entre os arrependimentos do passado e o peso do futuro, ele dormiu uma noite sem sonhos. Pelo menos também foi uma noite sem pesadelos.

    Acordou como se tivesse piscado, não se sentiu descansado, só se moveu através do tempo, até a hora do café.

    Mesmo naquele estado neutro, sem felicidade ou tristeza, conseguiu rir da dupla de mãe e filho mais uma vez. Todos na casa acordaram atrasados. 

    Marco gritava no banheiro pedindo por uma toalha, esqueceu no meio de sua pressa. Heloísa, andava de um lado para o outro, perguntando onde tinha deixado as chaves.

    No meio de uma gargalhada mal contida, Benjamin respondeu

    — Vovó, as chaves que você tá procurando, são essas aí na sua mão?

    Franzindo as sobrancelhas, a senhora olhou para a mão, como era de se esperar, estavam lá, nem se lembrava de tê-las pego.

    — Ah! Essas mesmo querido. — Sorriu para ele e continuou — Sabe, você é muito mais coração mole que sua irmã, ela demorou muito mais para começar a me chamar de vovó! Já cuidei de mais crianças do que posso me lembrar, quase todo mundo me chama assim, mas você com certeza foi o que pegou o costume mais rápido.

    Deu uma gargalhada sincera, enquanto via o jovem se tocar que de fato, já a chamava de vovó com tanta naturalidade.

    Finalmente, todos prontos saíram, mesmo atrasados compareceram.

    Moveram-se com pressa, a passos rápidos, queriam ver a chegada e a despedida das almas.

    Mas era difícil se mover com rapidez pela cidade, principalmente com a Vovó Heloísa ao seu lado.

    Não bastava as multidões, as carroças, e o trânsito urbano do dia a dia, caminhar com ela por perto era um desafio à parte. 

    A cada alguns passos, alguém aparecia do nada para conversar, lhe agradecer ou entregar algum presente.

    — Muito obrigado por tratar o ferimento do meu marido. — disse uma mulher que os parou e apertou a mão tanto da mãe quanto do filho.

    Mais à frente alguns adolescentes e jovens adultos surgiram do nada, a abraçaram com força e a levantaram no ar. Todos gritavam com animação:

    — Vovó Heloísa!!!

    Assim que a botaram no chão em meio a muitas risadas e abraços eles com muita felicidade contavam as novidades.

    — Eu entrei na faculdade vovó! Eu consegui, vou ser um professor, como sempre sonhei.

    Um mais tímido segurou as mãos da senhora:

    — Vou ser pai! Acredita nisso?! A senhora vai ser bisavó! E é óbvio que eu só confio na senhora para fazer o parto. Por favor, pode ajudar esse neto mais uma vez?

    — Seria uma honra, meu querido!

    Ela parecia brilhar cada vez mais para cada nova notícia que ouvia. O orgulho no olhar, a alegria de tantos sorrisos que já tinham marcado seu rosto.

    Foi assim o caminho todo.

    Alguém a parava para agradecer algum cuidado médico. Dar um abraço, ou contar como a vida estava.

    Aquela visão era mágica, mas uma dúvida começava a coçar na cabeça de Benjamin. Juntou um pouco de coragem, e na espera de um semáforo, ele perguntou.

    — Por que cuidar de tantas crianças? Parece que todo mundo te conhece, ou tem alguma coisa para te agradecer. Porque você ajuda tantas pessoas?

    O semáforo abriu, e eles continuaram andando. Ali, quando os olhos dela embotaram mais uma vez, ela falou. A expressão de Marco também murchou. Ele sabia do que se tratava?

    Mesmo com os olhos virados para frente, parecia que seu olhar vagava para coisas a muito tempo deixadas para trás.

    — Você pode vê-los, Benjamin? 

    Confuso, ele negou com a cabeça. O que ver além das pessoas nas ruas?

    — Vivi uma vida longa rapaz, salvei tantas pessoas em tantos lugares que é raro ver alguém com tanta experiência médica como eu. Mas, maior que o número de pacientes salvos, é o número daqueles que perdi… você viu a foto, guerra, rapaz, é uma coisa cruel.

    Ela parou de falar, mascarando a tristeza na face, assim que uma adolescente, com idade próxima de Benjamin parou para cumprimentá-la, uma antiga paciente provavelmente.

    — Aquilo não era um hospital, era um abatedouro. Continuou assim que a mulher se despediu.

    — Mas mesmo quando todos sabiam que já estava acabado para eles, eu continuava. Segurava suas mãos até o fim. Até a névoa começar a sair do cadáver.

    Realizei milagres naquele lugar, trouxe de volta pessoas que ninguém pensava que poderiam ser salvas. Mas a maioria, a última coisa que eles viram foi o meu rosto.

    Eu me lembro de cada um deles, Benjamin. Como morreram, o que eu podia ter feito para deixá-los viver um segundo a mais. Um deles me fez jurar, foram suas últimas palavras, que eu cuidaria da filha dele em seu lugar. Uma coisa levou a outra e no fim, se tornou um hábito. 

    Uma vida por uma vida, por fim jurei ajudar os outros por cada vida que não consegui salvar. Me traz paz, sabe? Deitar no travesseiro sem arrependimentos, no fim do dia é maravilhoso e faz tudo valer a pena.

    Benjamin não respondeu. Nada podia ser dito, seria isso uma forma de ressignificar uma tragédia? Se fosse, valia a pena ressignificar algo? Para Benjamin não, nada mudaria o que ele sofreu, e ele faria aqueles que perpetraram seus traumas pagarem com sangue se fosse necessário. Mas não era difícil para ele ver beleza no que aquela senhora fazia, na verdade, era de fato muito bonito.

    Marco tinha um sorrisinho fraco, seus olhos refletiam uma espécie de orgulho, solidariedade e tristeza. Como deveria ser, saber de todas as atrocidades que sua mãe passou? Benjamin nunca saberia, mas na sua frente, ele via como era o orgulho de saber que ela havia vencido a guerra, o ciclo de um império. Não havia surpresa em Marco seguir a mesma carreira da mãe. 

    A caminhada continuou silenciosa, às pessoas até pararam de cumprimentá-los com tanta frequência. Todos estavam com pressa com o festival. Era um momento de luto, de apoio, mas também de recomeço e despedida. 

    Heloísa olhou o relógio, o atraso já era preocupante.

    Apertaram o passo mais uma vez, mas então confusão se abateu no rosto dos dois.

    Cruzando a cacofonia de sons, uma voz familiar chamou, abafada pela infinidade de barulhos ao redor. Eles congelaram por um momento, se perguntando se era real. Não… não poderia ser.

    Muitas pessoas pararam para conversar com Dona Heloísa hoje, no máximo era só mais uma que infelizmente foi levada pela multidão, eles não tinham mais tempo. E assim continuaram.

    Mas então veio a confirmação.

    — Vovó Heloísa! — Ela gritou.

    Benjamin reconhecia aquela voz, Heloísa também. 

    E numa mistura de surpresa e incredulidade, eles se viraram às pressas procurando a dona daquela voz. Ela se movia rapidamente entre as pessoas, indo em direção a eles, seus cabelos metálicos refletindo a luz dos postes, ficando cada vez mais destacada na multidão a cada passo que os aproximava.

    Seus olhares se encontraram.

    Ela estava ali, de braços abertos esperando um abraço da gentil senhora, mas ela congelou no lugar ao olhar pra ele.

    Os olhos de Benjamin se encheram de lágrimas. Ela estava ali, depois de um ano, bem na sua frente. Usando as calças de Rafael e sua camisa. Não estavam mais ridiculamente largas, pelo contrário, serviam bem, como se fosse propositalmente oversized. 

    Seus olhos verdes brilhavam como tochas de esperança. Não pôde evitar chorar, as lágrimas caiam lavando seu rosto. Pintavam sua face de tantos tons de alegria e tristeza, que nostalgia nenhuma podia traduzir.

    Tantos pedidos de desculpas tinha para fazer, arrependimentos para contar e outras tantas memórias e desventuras da jornada que ele queria compartilhar.

    Lágrimas de orgulho também caíram, sua irmã estava ali, forte e saudável. Ela era especial, sempre foi.

    — Benjamin…

    Sua voz foi reconfortante, levou pelo vento sua ansiedade, a preocupação e medo de perdê-la. Sua única família, a única que restou. Finalmente estavam reunidos mais uma vez.

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