Depois que o último pedaço de gelo parou de tinir no chão, o bordel ficou em silêncio por alguns segundos.

    Depois, todos saíram ao mesmo tempo.

    Oliver e Eliandris voltaram para casa sem falar muito. Havia coisas que precisavam ser ditas, mas nenhum dos dois encontrou as palavras certas naquele momento, então não disseram nada.

    Quando Oliver estava quase entrando, a voz de Archibald o alcançou.

    “Amanhã cedo, garoto. Preciso conversar com você.”

    O semblante do mago era sério, Oliver assentiu e se despediu.

    Na manhã seguinte, o escritório de Agatha estava mais cheio do que Oliver havia visto em qualquer outra ocasião.

    Baldric estava sentado numa cadeira com o braço restante apoiado no joelho, a manga esquerda da armadura dobrada e presa onde o antebraço havia existido. Ele tinha a expressão de alguém que dormiu pouco e processou menos ainda. Solwen, a elfa loira, estava num canto, os cabelos curtos ainda um pouco desalinhados, os olhos levemente avermelhados.

    Três desconhecidos ficaram de pé perto da parede.

    Oliver os observou enquanto aguardava. Eram jovens, nenhum devia ter mais de 20 anos.

    Uma mulher de cabelos muito curtos vestia um robe preto e segurava um cetro com uma gema vermelha na ponta. O rapaz ao seu lado tinha a mesma estrutura óssea do rosto e a mesma coloração de cabelo loiro,  eram claramente irmãos. Além disso,  vestia uma armadura leve que parecia cara. A terceira, que ficava levemente à frente dos outros dois, era baixa e usava armadura completa com uma capa vermelha caindo dos ombros. Cabelos castanhos ondulados até os ombros.

    Foi ela quem falou primeiro.

    “Nos desculpem pelo inconveniente de ontem.” Ela se curvou com uma formalidade genuína. “Groak era um membro recente do nosso grupo. Não tínhamos ideia da extensão do que ele era capaz.”

    Ela explicou o resto com objetividade: Groak havia entrado no grupo de aventureiros havia menos de um mês. Depois de uma luta particularmente difícil, ele havia despertado a aura, e desde então havia mudado. Mais agressivo, mais arrogante, mais imprevisível. Eles já estavam considerando expulsá-lo, mas temiam que ele reagisse agressivamente. Na noite anterior ele havia saído sem avisar. Essa manhã, Archibald havia feito as perguntas certas para as pessoas certas e encontrado o grupo do orc sem dificuldades.

    Oliver achou interessante que ela não tentasse minimizar nada. Não disse que não era responsabilidade deles. Apenas contou o que havia acontecido.

    Agatha ouviu tudo com os braços cruzados.

    “Eu entendo a situação de vocês,” disse, quando a líder terminou. “Mas não posso sair no prejuízo. A luta destruiu mesas, danificou a parede, e o mais importante, minha funcionária quase foi violentada e meu guarda perdeu um braço inteiro.”

    “Sim.” A maga de cabelos curtos abriu a bolsa que havia carregado desde que entrou na sala e a estendeu para Agatha. “Isso é tudo que tenho disponível no momento. Espero que seja suficiente para cobrir os danos.”

    Agatha pegou a bolsa. Abriu. Ficou olhando para o interior por um segundo.

    “É mais do que suficiente,” disse, numa voz um pouco mais contida do que o habitual.

    “Sendo assim, gostaríamos de levar os restos mortais de Groak.” A líder fez uma pausa curta. “Mesmo que ele tenha sido inconveniente e rude, passou um mês conosco. Queremos enterrá-lo adequadamente.”

    Baldric se levantou devagar e entregou uma cumbuca de porcelana, dentro, os fragmentos de gelo que restavam do orc. Já estavam derretendo nas bordas. A líder os recebeu com as duas mãos e acenou com a cabeça.

    Os três se despediram e saíram.

    O silêncio que ficou era mais confortável do que o da noite anterior.

    Oliver foi o primeiro a quebrá-lo.

    “Quanto eles pagaram, tia Agatha?”

    “Pivete malcriado.” Agatha o encarou. “Como você consegue perguntar uma coisa dessas tão diretamente?”

    “Não há motivo para esconder,” disse Archibald, da cadeira onde havia ficado durante toda a reunião sem dizer uma palavra. “O dinheiro precisa ser distribuído.”

    Agatha olhou para o mago por um momento. Depois olhou para a bolsa.

    “100 peças de ouro.”

    “Ótimo.” Archibald se levantou, ajeitou o robe com o gesto mecânico de sempre. “Eu não preciso de nada. Dê 70 para Baldric, 20 ficam com você pelos danos materiais, 5 para Oliver e 5 para Solwen.”

    O silêncio que se seguiu tinha uma qualidade diferente.

    Archibald havia distribuído tudo sem ficar com nada, e havia dado 70%  para o guarda.

    “Senhor Archibald.” Baldric se levantou, a voz mais firme do que Oliver esperava. “Agradeço imensamente. Mas essa quantia é muito grande.”

    “Na realidade é pouco.” Archibald não disse isso com crueldade, mas sinceridade. “Você ainda não percebeu a extensão do problema? Sem um braço vai ser muito difícil trabalhar como guarda. Quem vai querer contratar alguém nessa situação?” Ele fez uma pausa. “70 peças de ouro não resolvem isso. Mas compram tempo para você pensar no que vem depois, você está praticamente aposentado da carreira como guarda.”

    Ninguém contestou.

    “O senhor Archibald é uma boa pessoa,” Oliver pensou, sem dizer em voz alta.

    Era uma conclusão que havia chegado aos poucos. Archibald fingia ser movido exclusivamente por interesse próprio, e às vezes era, mas havia um padrão nos momentos em que ele abria mão de coisas materiais por puro altruísmo. 

    A sala foi se esvaziando. Quando Agatha saiu por último, Oliver estava prestes a seguir quando Archibald o chamou.

    “Garoto.” A alma do mago brilhava num ciano intenso, curiosidade genuína. “Quem te ensinou aquela magia?”

    Oliver considerou a pergunta por um momento.

    “Ninguém. Eu criei ela na hora.”

    Archibald ficou quieto. Oliver continuou.

    “Se eu não conseguisse fazer alguma coisa, a tia Solwen teria sofrido muito. Então eu tentei.” Ele encolheu levemente os ombros. “Funcionou melhor do que eu esperava.”

    O mago ficou olhando para ele tentando processar o havia ouvido.

    “Você criou uma magia irregular de relâmpago num momento de pressão,” disse Archibald, mais para si mesmo do que para Oliver. “Impressionante.”

    Havia algo próximo de frustração na voz dele.

    “É uma pena que minha especialidade seja gelo. Posso te ensinar até o 2º ciclo sem problemas, mas a partir do 3º você vai precisar de alguém com afinidade em relâmpago para continuar. Eu simplesmente não tenho o que transmitir nessa direção.” Ele soou genuinamente contrariado com isso. “Ah, vai ser um desperdício enorme.”

    Oliver não respondeu e eles se despediram.

    Oliver estava quase em casa quando ouviu passos atrás de si.

    Ele se virou e viu Solwen parada no caminho, os cabelos loiros curtos caindo levemente sobre a testa, os olhos ainda um pouco avermelhados de uma noite que claramente não havia sido tranquila.

    “Tia Solwen. Aconteceu alguma coisa?”

    Ela ficou em silêncio por um momento, como se estivesse organizando o que queria dizer.

    “Não consigo entender como recebi 5 peças de ouro,” disse por fim, “por ter feito absolutamente nada.”

    Oliver abriu a boca para responder, mas ela continuou antes.

    “Eu estava pendurada pelo pescoço no meio do salão. Se você não tivesse feito o que fez, eu…” Ela parou.

    “Eu contei para o senhor Archibald o que o orc pretendia fazer,” Oliver disse. “Provavelmente foi por isso que ele incluiu você na distribuição.”

    Solwen assentiu devagar. Depois, sem aviso, se abaixou e o abraçou.

    Oliver ficou parado por um segundo, havia algo desconcertante em ser abraçado com aquela intensidade.

    Quando ela se afastou, havia lágrimas que ela não estava tentando esconder. Abriu a mão de Oliver e colocou algo nela.

    3 peças de ouro.

    Antes que ele pudesse dizer qualquer coisa, ela já estava indo embora, não que tivesse ido longe, afinal ela também morava nos casebres de madeira atrás do bordel.

    Oliver ficou parado olhando para as moedas na palma da mão.

    Ela havia dado mais da metade do que havia recebido.

    Ele sabia que qualquer tentativa de devolver seria recusada com a mesma firmeza com que havia sido entregue. Então fechou a mão e guardou as moedas no bolso.

    Ao todo, 8 peças de ouro. Mais do que ele e sua mãe gastavam em quatro meses.

    Oliver olhou para o casebre à sua frente e pensou em Eliandris acordando cedo para trabalhar no bordel, na dieta de frutas e legumes, nas velas que eles racionavam para não gastar demais.

    Entrou em casa.

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