Capítulo 102 – Jackpot!
Ponto de Vista de Saki:
Enquanto Pachiru, o narrador, continuava o seu showzinho, eu explicava para Akira e Noelle o que sabia sobre nossos próximos oponentes.
— Então só precisamos manter o ritmo! — meu amigo pontuou, com uma leveza confiante na voz — se esse for o nível de poder deles, vamos conseguir lidar numa boa!
— Não podemos subestimá-los. Só tivemos sorte contra eles — Noelle nos jogou um balde de água fria.
— É, ela tá certa. De qualquer forma, vamos atacar com tudo!
Eu caminhei até a porta de luz à minha esquerda, esperando que ambos me acompanhassem para suas respectivas portas.
— VAMOS PARA MAIS UMA RODADA, PESSOAL! AS FORÇAS DO MAL SEGUEM EM FRENTE! SORTE OU HABILIDADE? SERÁ QUE ELES SÃO TUDO O QUE DIZEM? SEUS PRÓXIMOS OPONENTES VÃO SER DERROTADOS TÃO FACILMENTE ASSIM?
Sem mais delongas, acenamos um para o outro e, enfim, atravessamos a luz.
Meus pés tocaram o chão cinzento e ladrilhado da arena. O teto simulava um céu limpo ao meio-dia, iluminando as pequenas rochas e colunas de pedra quebradas e avulsas. Olhando ao meu redor, o espaço se curvava, distorcendo o horizonte, fechando a arena.
— NOVAMENTE, À ESQUERDA, EMERGINDO DA LUZ BRILHANTE, A CRIATURA DA ESCURIDÃO! ELA, QUE DERROTOU UM SOBERANO EM POUCOS GOLPES, SAKI! O DEMÔNIO PÚRPURA!
Eu entrei na onda. Caminhei um pouco mais perto do centro da arena, acenando para os lados, como se me apresentasse.
— OLHA SÓ! EM UMA SITUAÇÃO COMO ESSA, SOMENTE SAKI NAKAMURA PRA FAZER UMA PROVOCAÇÃO DIRETA AO PÚBLICO!
À alguns metros à minha frente, outro soberano surgia da luz.
— À DIREITA, CALMO E POSTURADO. UM SOBERANO QUE SABE O QUE TEM! ELE QUE SE ENTREGA À MERCÊ DO DESTINO! PARA AQUELES QUE NÃO SABEM… A SORTE SEMPRE ESTARÁ AO LADO DE TWELVIS!
O soberano passeou tranquilamente pela arena, como se não houvesse preocupações em sua vida, chegando ao meio em alguns longos segundos.
Ele vestia uma calça branca, folgada na região dos joelhos, mas apertada por suas altas botas de couro nas canelas. Em sua cintura, uma espécie de manto ladrilhado em preto e branco cobria o lado esquerdo do seu quadril.
Seu colete preto, por cima de uma camisa branca e de manga longa, tinha uma textura em alto-relevo, formando trevos-brancos de quatro folhas nas laterais. Por fim, uma pequena capa preta cobria seus ombros, com suas bordas costuradas com fios dourados, combinando com seu raspado cabelo loiro.
— Que cara é essa? Eu não pareço perigosa o suficiente pra você? — perguntei levianamente, notando sua expressão despreocupada.
— Huh? O que disse? — Twelvis tirou algo de seu ouvido, semelhante a um fone de ouvido sem fio — O Lorien lançou uma música nova ontem, eu não consigo parar de ouvir!
— Tá falando sério? — eu estava desacreditada com tanta tranquilidade.
— Sim! Tá muito boa! — guardando seus fones do bolso de sua calça — Enfim, vamo trabalhar, né? — fechando seus punhos parcialmente, ele parecia segurar duas adagas.
De repente, duas tonfas se materializaram no vão de seus punhos, com um material rígido e esbranquiçado. As tonfas tinham uma estrutura incomum para uma arma, se estendendo até mais ou menos metade do antebraço, valorizando ataques com rotação e utilização do cotovelo.
— Ganma fez parecer com que os soberanos fossem fracos — ele tomava uma postura ofensiva, pronto para atacar a qualquer momento — Ele tem o péssimo hábito de subestimar seus oponentes, isso fez com que ele não demonstrasse todas as suas habilidades… mas eu te garanto, eu não sou como ele — cerrando seus olhos com ferocidade, disparou em minha direção como uma flecha.
Seu corpo se inclinava próximo ao chão, preparando o que parecia ser um golpe para cima. Seu ataque varreu a poeira para o alto ao atingir a palma da minha mão, que resistia ao impacto.
Eu sentia meu corpo querendo sair do chão, como se a sola dos meus pés estivesse sendo rejeitada pelo concreto, e mesmo assim, fui arremessada para cima, acertando o teto falso.
Twelvis continuou parado no chão, enquanto eu me recuperava do golpe, caindo em queda livre. Eu via um sorriso convencido em seu rosto, prepotente demais para o meu gosto, mas mal pude me irritar com sua expressão ao ser surpreendida com uma enxurrada de ossos voando em minha direção.
Eu encarei os disparos com os meus punhos, obliterando cada um dos ossos com socos poderosos, até enfim pousar.
— Isso foi estranho — a voz de Anzu soou na minha mente.
— Relaxa, esse golpe não foi nada!
— Não… esse ataque não foi normal.
Voltando minha concentração para a luta, alonguei meu corpo brevemente. Eu já conhecia um pouco das suas habilidades. Nada que não pudesse dar conta, mas também nada que eu pudesse baixar a guarda.
— Esse seu poder me é meio nostálgico, sabia? — brinquei, me lembrando de um jogo que costumava me dar uma certa dor de cabeça — Mas acho que você vai dar menos trabalho!
— Vá em frente. Tente se acha que vai vencer!
Dessa vez, eu avancei. Buscando priorizar força e agilidade, desferi golpes simples, mas poderosos, que, apesar de serem bloqueados por placas de ossos ou esquivados, causavam um grande impacto e dificultavam o seu contra-ataque.
Em um instante, durante a minha sequência de golpes, uma das colunas espalhadas na arena desabou nas minhas costas, me levando ao chão.
— Mas que porra! — eu arremessava a coluna, irritada com o acontecimento inusitado.
— Parece que hoje é meu dia de sorte… — sem perder tempo, o soberano invocou espinhos de ossos no chão abaixo de mim.
Eu me esquivava com pequenos saltos para trás, criando uma grande distância entre nós, o que consequentemente me colocou em desvantagem novamente.
O silêncio permeava enquanto eu recuperava meu fôlego. Twelvis sorria confiante, como se estivesse com toda a luta na palma de sua mão.
— Eu aposto que consigo te derrotar sem isso… — ele desconjurava seus ossos, enquanto tirava de suas mangas duas tonfas semelhantes com as que já utilizava.
— HA! — eu desacreditei, pensando o quão estúpido estava sendo — Tá abusando demais da sorte!
— A sorte é pra ser testada… não saber o que vai acontecer é a graça da coisa.
Twelvis disparou, tão rápido que mal pude acompanhá-lo. Eu me virei para defender seu ataque, mas sua arma já estava prestes a me acertar.
— GAH! — consegui erguer meu braço no último instante, mas, ainda assim, seu golpe me lançou pela arena, queimando uma dor intensa dentro de mim.
— Presta atenção, garota! — Anzu reclamou, e com razão.
— Foi mal… eu tava — eu tentei me levantar, quase que falhando — que merda foi essa? — segurando meu peito, eu buscava uma forma de aliviar a dor, ainda tentando me manter de pé.
— Pareceu só um ataque comum, mas… ele acertou diretamente no seu núcleo…
— Aí complica tudo. Não tinha essa informação na ficha dele! — eu sentia o incômodo sumir gradativamente, mesmo assim, minha preocupação apenas aumentou.
— Precisa ter cuidado, ele–
— Mas que se foda! — interrompi meu parceiro, sem ao menos perceber que ele estava falando — Ele tá certo, não saber o que vai acontecer deixa tudo mais emocionante!
As chamas púrpuras surgiram acima dos meus ombros. Eu vi meu oponente sorrindo, tão ansioso quanto eu, e então, avançamos.
Nossos golpes se chocaram, gerando uma poderosa onda de choque. As chamas em mim me permitiam acompanhar seus movimentos, equilibrando nossa luta.
Diferentemente dos meus últimos oponentes, Twelvis não desferia socos desenfreadamente na esperança de acertar. Graças a ele, tive que pôr todo o meu conhecimento em artes marciais em prática, eventualmente, construindo uma luta com golpes precisos e estratégicos, às vezes batendo e às vezes apanhando.
Novamente, a diversão da batalha trazia um sorriso ao meu rosto. De certa forma, eu concordava com a filosofia dele, apesar de almejar a vitória e precisar avançar. Apesar de saber que conseguia vencê-lo, não saber o que iria acontecer era um fator que me cativava em uma luta.
Em meio à intensa troca de golpes, logo após meu punho se chocar com a sua arma, senti uma dor agonizante correndo do meu punho ao meu peito, interrompendo meus movimentos por um segundo.
— Tsc! Essa demorou um pouco… — Aproveitando a breve janela de tempo que abri, ele resmungou, apesar da vantagem — Probabilidade Avançada!
Ele acertou meu queixo violentamente, em seguida, meu estômago e então, iniciou um combo com golpes poderosos.
— 20% de chance de acerto! 43%! 52%! 71%! 89% 99%! — cada golpe, cada porcentagem aumentada parecia uma contagem regressiva. Sua técnica era excepcional, quase não havia brechas em seus ataques, e eu não pude me aproveitar das que surgiam por estar tentando suportar a dor imensa dos seus ataques.
— SAKI! VOCÊ NÃO PODE RECEBER O PRÓXIMO GOLPE! — meu demônio alertou, desesperado.
— CEM PORCENTO! — erguendo seu braço no que parecia um soco direto, Twelvis atirou seu punho contra mim.
A adrenalina e o perigo desaceleravam o mundo ao meu redor. Meus braços se fecharam à minha frente, a poucos centímetros do seu punho, numa tentativa urgente de amenizar o impacto.
Eu fui lançada pela arena, pingando no chão assim como uma pequena pedra arremessada na superfície de um lago, e finalmente parando ao acertar a parede falsa, apagando minhas chamas.
— Quanta… força… — eu murmurava, tremendo no chão envolto por poeira.
— Eu não sei o que é, mas… alguns dos seus ataques são mais fortes que os outros — Anzu comentou — como se afetasse dentro de você…
— Ah… — eu suspirei, me levantando, ainda com minhas pernas trêmulas — tem alguma ideia?
— Seu poder é baseado na sorte… tá fora do nosso controle… — o soberano caminhava até mim enquanto Anzu falava, ele parecia tranquilo, quase como se cantasse a vitória — Por outro lado, você não tem alma ressonante, nem técnica divina. Sem contrato, sem restrições… não sei nem dizer se isso é azar ou incompetência.
— Pensei que era mais forte que isso… — Twelvis provocou. Ele parou por um instante, com um olhar superior — Não está me subestimando, não é?
De repente, um som, uma melodia agressiva tomou conta do ambiente. Uma estranha inspiração penetrava a minha mente, acalmando meu corpo.
— Aí, Anzu, já leu a minha mente, não foi?
— Isso é ridículo!
— É uma aposta! — exclamei, cerrando meus punhos eufóricos — Além disso, se não fosse assim, não teria graça! — eu fechava meus olhos. As chamas se acendiam sobre o meu corpo, percorrendo um caminho entre meus ombros, braços e olhos — RESSONÂNCIA DEMONÍACA! — Anzu gritou ao meu lado, explodindo em uma intensa pressão mágica.
As folhas e pedras jogadas no chão voavam ao nosso redor, toda a atmosfera tremia ao cerrar dos meus punhos, abrindo meus olhos em um impulso empolgado, meu braço direito criava finos canais de mana que pulsavam em um brilho violeta, destacando a escuridão que o envolvia. Minhas garras, ou as garras do demônio, se afiaram na ponta dos dedos, prontas para rasgar seja lá o que estivesse na frente.
Uma casca escura se criou acima dos meus ombros, seguindo o mesmo padrão do meu braço, com labaredas roxas voando ao meu redor. Linhas pretas se estendiam do meu ombro até a lateral dos meus olhos, fazendo quase que um delineado estiloso. As linhas também corriam sobre meu braço esquerdo, como rachaduras no solo de terra seca.
— MAS O QUE É ISSO, SENHORAS E SENHORES! — Pachiru gritou — SAKI NAKAMURA APRESENTA UM NOVO VISUAL, MAIS DEMONÍACO DO QUE NUNCA! A BATALHA QUE JÁ PARECIA GARANTIDA, GANHA UM NOVO COMEÇO. O SEGUNDO ROUND ESTÁ PRESTES A COMEÇAR!
— Tá cada vez mais parecida com um demônio… — eu cravei meus olhos no soberano enquanto ele comentava, sorrindo com certa ansiedade.
— Tá com medo?
— Hmph! — em um avanço rápido, Twelvis atacou pelo meu flanco esquerdo.
Confesso que, naquele momento, partes da luta contra Zethar vieram à minha mente, e eu o copiei, bloqueando o golpe do soberano em um tempo perfeito.
Aposto que ele não esperava pela minha reação rápida, expelindo seu braço com o choque dos nossos corpos, e, na sua abertura, enterrei a palma da minha mão fundo na sua barriga.
Antes que pudesse se recuperar do meu golpe, com suas costas deitadas no chão, saltei em sua direção, com meu punho demoníaco cerrado acima dos seus olhos. Twelvis girou agilmente, deixando meu punho cavar um buraco, e se levantou ao meu lado, empurrando o chão com as suas mãos.
Ambos continuamos sem respiro. O soberano girou mais uma vez, rotacionando seu cotovelo apoiado em sua arma, enquanto eu virava meu punho diretamente em seu rosto. Mais uma vez, uma colisão estrondosa repercutiu pela arena.
Eu sentia um poder latente vibrando no meu corpo, aumentando a cada segundo. Nossos golpes continuavam a se encontrar, porém, desta vez, eu ditava o ritmo, eu o pressionava, eu estava dominando a luta.
Em um milésimo de segundo, devido à força aplicada em nossos ataques, o chão se rachou levemente, criando um desnível entre os meus pés. O desequilíbrio veio como uma onda, destruindo um castelo de areia, o que deu a oportunidade perfeita para o meu oponente.
Um ataque de pura sorte.
Seu cotovelo atingiu minha traqueia, eu tossi, sendo empurrada para trás, recuperando o sentido da batalha.
— Jogos de aposta definem o caráter de uma pessoa — retirando sua capa, o soberano se preparava para o que parecia ser uma última aposta — No início, elas ganham, amam e se viciam nos jogos. Os sons, os visuais, os estímulos penetram suas mentes e as tornam dependentes daquilo. Quando perdem, elas se desesperam, tentam recuperar seus bens, dinheiro, dignidade… até mesmo a alma. Dizem que odeiam tudo aquilo, que aquilo destruiu suas vidas. Mas a verdade é apenas uma, elas odeiam a derrota, não o jogo…
Estranhamente, cada movimento do seu corpo fazia um barulho, moedas caindo, roletas girando, alavancas sendo puxadas. Sons que confesso amar, mas não quando partem do corpo de alguém.
— Dentre todos os tipos de jogadores, existem os piores deles. Aqueles que não se contentam com a emoção da aposta. Os trapaceiros.
Eu me levantei, me preparando para o terceiro round.
— Técnica Divina: Manipulação de Probabilidade! — Seu corpo brilhou momentaneamente como um caça-níquel e as pupilas em seus olhos se transformaram em um “7”.
Ele fazia uma expressão completamente nova, como se estivesse eternamente em êxtase, enquanto seu corpo parecia falhar, tal qual um holograma.
— Saki — Anzu me chamou — Tem que ser rápida. Essa “transformação” parece estar consumindo sua mana freneticamente, não vai conseguir manter por muito tempo.
— Hehehe! — eu não julgava a expressão no rosto do meu oponente, afinal, eu estava tão empolgada quanto ele — Relaxa! Você já viu alguém apostar com responsabilidade?

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