Capítulo 103 - Meu Próprio Jeito de Lutar
Ponto de Vista de Noelle:
A segunda batalha estava para começar. Eu caminhei através da porta luminosa, sendo recebida por uma arena elegante, quase que como um nobre salão de festas.
— MAIS! MAIS! MAIS UMA LUTA ESTÁ POR VIR, CAROS ESPECTADORES! A FILHA DE VIOLLET, DEUSA DA LUZ, ENTRA EM CAMPO. O AR VIBRA, O PRÓPRIO RAIO CRUZA A LUZ! O PERIGO DE ALTA VOLTAGEM: NOEEEEELLEEEEEE!
O piso áspero e da cor da areia contrastava com o tom vinho das cortinas que cobriam a arena. Apesar da semelhança com um salão, a arena circular parecia estar suspensa no ar, criando um vão de profundidade infinita entre o limite do piso e as cortinas. No topo, algumas luzes giravam suavemente, focadas no piso e com intensidades diferentes.
De repente, o som da porta de luz surgindo ecoou na arena. Meus olhos, que estavam dispersos ao observar os arredores, se fixaram na lenta caminhada do soberano.
— PARA AQUELES QUE NÃO CONHECEM: O SOBERANO FANTASMA, ELE QUE NUNCA É VISTO À LUZ DO DIA. AQUELE QUE, ASSIM COMO A ÁGUA, CONDUZ O ESPETÁCULO. EX-CAÇADOR DE RECOMPENSAS, TERROR DOS CRIMINOSOS, SPIEGEL BELFORD!
Ele vestia um traje que parecia existir entre o cerimonial e o combate, como se tivesse sido desenhado mais para intimidar do que para proteger. O sobretudo longo, predominantemente branco, caía pesado sobre o corpo, com recortes irregulares e barras assimétricas que se moviam como lâminas de tecido a cada passo. O interior do casaco era azul, quase preto, criando um contraste agressivo sempre que o tecido se abria, como se escondesse seu corpo. Além disso, pequenos tubos translúcidos percorriam a borda interior do sobretudo, circulando uma certa quantidade de água por dentro.
O tronco era protegido por uma armadura ajustada, segmentada em placas escuras com detalhes metálicos azulados que refletiam a luz de forma fria, quase líquida. No centro do peito, um núcleo circular pulsava suavemente, como um reator de energia, oscilando em um tom azul. As placas não pareciam feitas apenas para defesa, mas para moldar o corpo, forçando uma postura ereta e controlada.
Os braços eram cobertos por proteções angulares, com extensões afiadas nos antebraços que lembravam lâminas embutidas. As luvas eram firmes, quase rígidas, feitas para segurar armas com exatidão absoluta, sem espaço para hesitação. Em contraste, correntes finas surgiam aqui e ali, presas ao traje como adornos.
A parte inferior do traje mantinha a mesma lógica, calças escuras, reforçadas nos joelhos e coxas, encaixadas dentro de botas altas e robustas. As botas tinham um design agressivo, com linhas duras e solas espessas, feitas para firmar o corpo no chão, como se ele nunca pretendesse recuar um único passo.
Sobre seu cabelo escuro e liso, um chapéu de abas médias repousava sobre a cabeça, como um inclinado o suficiente para sombrear o rosto. Não era extravagante, nem chamativo, apenas funcional. Um acessório simples demais para alguém tão cuidadosamente construído, o que só tornava sua presença mais desconfortável. Era como se o traje gritasse firmeza e controle absoluto.
— Esse lugar é meio escuro, não acha? — perguntei, notando o tom obscuro e dramático da arena.
— … — seu olhar perfurante parecia atravessar o meu crânio, enquanto seu silêncio ecoava pelo local.
Fazia tempo que eu não apreciava o silêncio antes de uma batalha. Fiquei tão acostumada à forma de Saki e Akira agirem que eu mesma havia esquecido como eu gosto de lutar.
Em silêncio, invoquei minhas garras trovejantes, deixando os raios fluírem no meu corpo, desde a ponta dos pés até o topo das minhas orelhas. Meu cabelo prateado esvoaçava serenamente, apenas com o canto de mil pássaros à minha volta.
Spiegel entendeu a minha postura e logo sacou sua espada, uma lâmina fria e brilhante, com um cabo azul-escuro em adornos brancos.
Quase como em um conto do Velho Oeste, esperamos um sinal para atacar. Uma das luzes acima de nós, a mais potente delas, girava lentamente até o centro. O pequeno feixe de luz que simulava a fresta de uma janela passou entre nós, e assim que ele dividiu nossos rostos, disparamos.
Passos rápidos e precisos ditavam o ritmo da luta. O som da sua lâmina se chocando com as minhas garras era como se estivéssemos em uma tempestade de raios, onde apenas o trovão entoava seu rugido no palco suspenso.
Velocidade, reflexo, precisão e concentração. Caso qualquer um de nós falhasse minimamente em um desses aspectos, a batalha chegava ao fim.
Eu me lembrava das minhas primeiras sessões de treino com Galliard, em que, logo após despertar meu núcleo mágico adormecido, aprendi a controlar o fluxo de mana que corria em meu corpo. Dias intensos sob constante concentração, mantendo a eletricidade viva em cada veia do meu corpo.
Fortalecer o básico era tudo que meu mestre prezava e, graças a isso, eu fui capaz de me manter focada na luta, sem vacilar, sem tremer, apenas indo contra a calma lâmina do meu oponente. As memórias daquele tempo me trouxeram à tona qual era o meu verdadeiro objetivo naquela torre, quem eu buscava resgatar depois de tudo aquilo.
— CESSAR! — recuando brevemente para trás, estendi a palma da minha mão gravada com uma runa mágica.
Correntes de raios escaparam da minha mão, distorcendo seu percurso em torno da espada de Spiegel, que desferia uma estocada furiosa.
As correntes se prenderam em seu torso, juntando seus braços.
Naquele momento, eu recolhi as minhas garras, preparando um golpe poderoso com a palma da minha mão.
Alguns podem chamar de reflexo, outros de sexto sentido ou até mesmo de instinto animalesco, mas, independentemente do que você acredita que seja esse fenômeno sobrenatural que acontece durante as batalhas, ele sempre surge como uma espécie de anjo da guarda.
Não havia nada ao nosso redor, nenhuma lâmina ou arma levantada, nada que indicasse o ataque repentino em minha direção. Ao mesmo tempo, tudo parecia ter se tornado um possível instrumento letal, até mesmo o suor que saltava do meu corpo.
Eu apenas movi o meu rosto alguns centímetros para o lado, que ainda assim, foi o suficiente para deixar um corte superficial em minha bochecha.
Rapidamente, o puxei com as correntes, acertando seu estômago com meu pé banhado em uma torrente de raios.
Spiegel girou no ar, aparentemente, recebendo o ataque de bom grado. As correntes se desfizeram de seu corpo quando pousou com os pés no chão.
Sem tempo para respirar, o soberano avançou novamente, cortando o ar de baixo para cima. Ele pressionou a batalha, enquanto eu buscava mais uma brecha para atacar durante o bloqueio dos seus golpes.
Meus instintos agiram novamente, dessa vez, mais aguçados. Eu senti um corte vindo de trás da minha nuca, que, apesar de visualmente não se manifestar, rasgava as cortinas penduradas nas paredes.
A atmosfera se tornava densa, meu corpo pesava em ansiedade, como se qualquer passo que eu desse pudesse invocar um corte desconhecido.
Meus movimentos se tornaram mínimos, consequentemente, dando liberdade a Spiegel, que continuava atacando sem parar.
Quanto mais intensa ficava a batalha, mais eu suava, mais o meu corpo cansava as limitações mentais que pus em mim mesma, até que, de repente, em uma gota de suor que pairava entre nós, eu vi o fio de sua lâmina trespassar a gota, criando mais um corte superficial em meu ombro.
Com um estalo em minha mente, sobrecarreguei minhas garras com a eletricidade que fluia em mim, causando uma pequena explosão que nos afastou.
“Até onde sei, ele é um manipulador da água, apesar de que em seus relatórios, ele não parece usar muito magia” me lembrei das palavras de Saki ao nos contar sobre nossos oponentes.
— Não… não é que você não usa magia… eles só não conseguem ver que você usa! — comentei brevemente, esperando sua reação.
Assim como imaginei, apesar de sua expressão centrada, pude identificar certa surpresa.
— É a água em si? Ou seria apenas o reflexo dela? — mais uma vez, seu corpo parecia reagir às minhas hipóteses, o que me fazia chegar mais perto de entender as suas habilidades.
Eu relaxei minha postura, fingindo não prestar atenção no nosso embate, continuando a teorizar sobre Spiegel.
— Àgua, reflexos, cortes invisíveis… parando pra pensar, estamos em um ambiente fechado, com luzes fortes e quentes, a temperatura daqui fica bem elevada, ainda mais quando nos movimentamos tão rápido…
— Você é igual a sua mãe… — Spiegel enfim rompeu seu voto de silêncio.
— Hm? — eu me voltei para ele — Conheceu a minha mãe?
— Você fala tanto quanto ela, tão esperta quanto ela e ainda assim… escolheu destruir tudo que ela construiu.
Calado, calmo a ponto de parecer estar sozinho na sala, ele tocou a atmosfera ao seu lado. Seu toque parecia tocar a superfície de um lago, gerando pequenas ondas que criavam o seu reflexo.
— Reflectere: Espelho D’água.
No centro da arena, uma superfície fina de água a partiu em duas, nos refletindo em um espelho. Spiegel ergueu sua postura, coluna ereta, ombros alinhados e espada no centro do tórax, uma postura 100% defensiva. Por outro lado, seu reflexo apontava sua espada afiada para mim, como se me provocasse para um duelo.
Eu avancei por baixo, invocando minhas garras que cortavam o chão. Meus braços balançaram em um corte horizontal na linha da sua cintura, mas seu ágil reflexo o retirou do meu golpe e rapidamente senti um contra-ataque rasgando o ar de cima para baixo.
Meus olhos viram o tempo desacelerar ao olhar no espelho, vendo o reflexo do meu oponente desferindo o ataque. A vibração do ar causava pequenas ondas no espelho, criando uma distorção no seu reflexo. Eu me movi para trás e avancei novamente, dançando em uma torrente de ataques, bloqueios e contra-ataques.
Possivelmente, aquela foi a batalha mais difícil que tive até então. 2 ataques em ritmos diferentes, um único corpo… meu cérebro mal conseguia acompanhar o que eu tinha que fazer. Eu tentava pensar quais feitiços seriam úteis naquela situação, mas a freneticidade dos golpes mal me dava tempo para respirar.
Em um passo veloz, me distânciei do espelho, numa esperança de ser o suficiente para lidar com os múltiplos ataques, mas não foi suficiente.
A dimensão do espelho fugia da regra tridimensional do mundo real, o senso de profundidade não existe, mas por outro lado, o fato de estar afastada do espelho fez com que meu reflexo diminuísse, o que consequentemente me tornou um alvo ainda mais difícil.
— “Assim como a água que se adapta às condições do ambiente, siga a correnteza, seja ela rápida ou devagar” — ele murmurou uma espécie de provérbio, aproximando seu corpo o máximo possivel do espelho.
Spiegel ergueu sua espada aos céus e a abaixou em uma velocidade extraordinária. Um golpe a metros de distância, enquanto o outro tinha 100% de chance de acerto.
Eu não tinha escolha a não ser bloquear o ataque. Minhas garras trovejantes se chocaram no ar, segurando o ataque invisível acima de mim.
À minha esquerda, a poderosa lâmina de Spiegel me pressionava contra o chão e, ao desviar meu olhar alguns poucos metros para a direita, eu o vi.
O soberano dava total liberdade ao seu reflexo, enquanto o mesmo ficava parado olhando em minha direção, com seu braço estirado em minha direção ao apontar um revólver.
De onde ele tirou isso?
De repente, uma poça de sangue se formou no meu pé. Minha barriga doía como se uma faca a atravessasse, e então, antes de perder minhas forças, explodi meu corpo em uma onda de raios, levantando a espada no reflexo por alguns segundos.
Eu aproveitei a brecha para disparar um pequeno raio no espelho e me projetar para frente como um raio, atravessando o espelho d’água através da pequena distorção gerada pela onda.
Minha respiração pesada pairava no ar enquanto eu pressionava meu ferimento, a eletricidade no meu corpo parecia falhar a cada respiro, mas ainda assim eu tentava me levantar.
“Essa não é a melhor maneira de me curar… mas, vão regenerar quando eu sair daqui… eu só preciso…” fazendo uma posição de pinça com meus dedos indicador e polegar, eu criava uma pequena torrente de raios entre eles.
— HNGH! — eu cerrei meus dentes ao pressionar os raios em cima dos meus ferimentos, cauterizando a ferida e estancando o sangramento.
— IMPRESSIONANTE! ESSA É A VERDADEIRA DETERMINAÇÃO DE UMA BRUXA! — Pachiru berrou, narrando a minha tentativa de sobrevivência — MAS ISSO NÃO PAROU SEU OPONENTE! E AGORA? O QUE VAI ACONTECER?
Spiegel andou através do espelho, pondo calmamente seus pés do outro lado.
— Você é persistente… eu respeito isso — guardando seu revólver num bolso interno do seu sobretudo branco.
— Pois é… — eu consegui me levantar, ainda que cambaleando — eu sou meio ruim de morrer…
— Se é assim… — o soberano pôs a palma da mão na superfície do espelho, absorvendo toda a água para si — vamos ver por mais quanto tempo você vai conseguir fugir da morte.
Estendendo a palma da sua mão para o teto escuro, a água absorvida do espelho viajou como uma cachoeira invertida, criando uma grande poça d’água acima de nós.
Lentamente, a arena inteira foi tomada por uma chuva. Eu via a minha imagem em cada gota que caía, como se cada uma delas fosse uma ameaça, expressando a intenção assassina por trás do seu conjurador.
— Técnica Divina: Tempestade de Espelhos.
Apesar dos meus ferimentos, eu não me dei o luxo de poupar a minha mana.
Uma energia gloriosa caiu sobre mim. O sangue que escorria no meu corpo sumia gradativamente, enquanto uma aura luminosa emanava do meu peito.
Um chapéu de bruxa espectral surgiu sobre meu cabelo e os meus olhos tomaram uma cor esbranquiçada, quase que divina.
— Alma Ressonante: Bruxa Celestial Viollet!

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