Track 25. micro stress

Enquanto Kaoru se encontrava sem reação, Megumi tomou a frente e correu ao campo de batalha, que agora se encontrava pausado por conta da luz que havia sido emitida.
— QUE DROGA… ISSO É HORA DE LANÇAR ESSA POTENTIA? — reclamou Hitomi enquanto esfregava os olhos, numa tentativa inútil de voltar a enxergar.
— O Potentia de luz decidiu atacar… — murmurou Iker a si mesmo, enquanto tampava seus olhos para proteger do excesso de luminosidade.
A confusão era grande, e Megumi aproveitou essa chance para se aproximar de Hitomi e puxá-la pelo braço, a levando até um lugar seguro.
“Estão fugindo… está difícil de enxergar…”, Iker via os vultos se movimentando pelo cenário. Permanecia atento, mesmo em meio ao caos.
As duas modelos foram até Kaoru, e os três começaram a fugir. Apertaram o passo, quase correndo, tinham que tomar cuidado com os escombros para não tropeçarem e se machucarem. Qualquer descuido poderia se tornar um acidente grave.
— MEGUMI, EU NÃO VEJO NADA! — gritou Hitomi, agoniada com sua situação.
— Eu quero uma boa explicação para isso. — exigiu Kaoru, que, mesmo tentando sair daquele cenário perigoso, ainda tentava espiar o inimigo às suas costas.
— Hitomi, você não pode lutar. Ele parece ser muito poderoso. — respondeu Megumi, que precisava, ao mesmo tempo, estar explicando o que Senhor Vacchiano lhe exigia e convencendo Hitomi a não resistir.
“Não vou ficar esperando a visão voltar totalmente”, calculava Iker. Teria que trabalhar com as limitações que lhe importunavam naquele momento.
Suas mãos habilmente se moveram, comandando o vento a vir em sua direção como um tornado. Os três fugitivos agora se viam sendo sugados ao encontro de Iker, que parecia ter um emocional inabalável.
— AGORA O VENTO TÁ PUXANDO! — o nervosismo de Hitomi a levou a um nível de estresse maior que de sua batalha anterior.
— VAMOS NOS SEGURAR AQUI. — ordenou Kaoru, encontrando um pilar de estrutura metálica bem fincado ao chão.
Ele primeiro se firmou à barra de ferro e logo guiou Hitomi, com sua visão prejudicada, para que ela pudesse ficar mais segura.
Só faltava Megumi alcançar a estrutura, porém, os ventos foram ficando mais fortes e ela começou a ser puxada. Mas o susto foi grande e ela se viu sem chão por uns instantes. Sua sorte foram os reflexos de Vacchiano, que logo a alcançou e segurou em sua cintura, trazendo-a ao encontro dele.
Os três agora se encontravam temporariamente seguros. Hitomi estava abraçada na barra de metal, com medo de ser levada. Kaoru viu que elas precisavam de ajuda, e naturalmente foi se colocando na posição de liderança e cuidado, apesar do medo. Megumi percebeu que ele a segurava com firmeza e confiou que ele não a soltaria.
Ela soltou a barra, ficou pendurada apenas pelos braços firmes de Kaoru, que por um momento ficou confuso em ver a modelo se soltando e levantando sua mão em direção à Iker.
Das mãos de Megumi, um brilho como nunca visto antes se formou. O clarão que tomou aquela sala era muito mais forte que qualquer outra vez que ela havia utilizado sua Potentia. E desta vez, não era apenas algo etéreo, parte da luz tomou forma de matéria e se misturou aos ventos, sendo sugada diretamente contra o oponente.
Agora totalmente sem visão, Iker não teve tempo de proteger seus olhos do clarão, a última coisa que percebeu foi a luz se materializando, que rapidamente ele mandou para os ares com um comando de seu dedo.
“Droga… agora estou praticamente cego. Será que vai voltar ao normal?”, pela primeira vez na luta, Iker havia suado frio, seus batimentos cardíacos se tornaram descompassados. Ele havia experimentado o medo. “Transformar a luz em matéria nesse nível… se tivesse me atingido talvez tivesse me machucado fisicamente… Que tipo de pessoa… faz isso?”
O campo de batalha agora se encontrava abandonado. Apenas o homem que havia começado o conflito permanecia ali.
“Esse silêncio extremo… fugiram…”, Iker concluiu utilizando seus outros sentidos.
A noite cobria o céu, e com o incidente, a escuridão tomava conta daquela parte da metrópole, apenas a luz da lua iluminava o caminho dos três sobreviventes, que agora se encontravam guiados por Megumi em uma praça de grandes árvores.
— Estamos bem afastados agora — avisou a modelo para seus companheiros.
Kaoru e Hitomi tatearam as árvores e vagarosamente se sentaram onde sentiram ser mais confortável. Megumi permaneceu de pé, vigiando os dois e prestando atenção nos arredores.
— Vou ficar cego? — numa mistura de frustração e indignação, Kaoru perguntou.
— Quando vamos voltar ao normal? Por que não usou esse poder antes? — Hitomi não tinha mais forças para gritar e perguntou com voz fraca.
— Ah… Em algumas horas… vocês estarão bem de novo. — explicou rapidamente, voz tensa e não querendo prolongar aquela conversa.
Não havia mais o que fazer no momento e nenhum deles mostrava ferimentos graves. Eles aproveitaram o momento para descansar e esperar passar o efeito da Potentia. E assim, três horas se passaram.
— Ah! Finalmente! Tô enxergando de volta! — exclamou Hitomi, quebrando o silêncio.
— … — Kaoru soltou um murmúrio, ele havia voltado a enxergar, mas durante todo esse tempo em que permaneceu calado, sua mente continuou inquieta, gerando uma série de questionamentos. — Vocês vão me responder… O que foi isso? O que é essa Potentia que vocês falaram? Vocês pareciam saber tudo o que estava acontecendo comigo.
Ele se levantou e encarou as duas. Seu olhar exigia respostas, e as queria naquele momento. Megumi lhe devolveu o olhar, mas não de maneira gélida, dentro dela, ainda tremia por causa da situação que havia causado. A maneira como aquele homem agia não era a que ela estava acostumada a lidar.
— São… Nossos poderes… — respondeu enquanto fechava sua mão. Sua voz era baixa, mas firme. — Temos os mesmos poderes, por isso eu sabia que estava brilhando…
Apesar de aparentar apatia, Kaoru conseguiu perceber que a modelo estava desconfortável, e o culpado havia sido ele mesmo. Como não queria desmontar sua pose de homem frio, ele se virou para Hitomi, com quem tinha mais intimidade, e a pressionou:
— E essa roupa toda chamuscada? Esse tecido é bem caro!
— NÃO PRECISA AGRADECER POR SALVARMOS A SUA VIDA! — a raiva fez com que Hitomi gritasse com sarcasmo para seu conhecido.
— Esse dia não tinha como estar melhor! — ele cruzou os braços, levantou o rosto, tentando manter sua pose, — O evento foi pelos ares, as roupas se foram, quase morri…
Suas palavras acabaram sendo interrompidas pelo olhar de decepção de Megumi, que parecia estar chateada com o que via e ouvia.
— Me… Me desculpe, Senhor Vacchiano, eu entendo que o senhor teve perdas, mas… — falava com sua voz trêmula, — Tentei fazer o possível para ajudar, sinto muito.
Foi neste instante que ele decidiu baixar a guarda, percebendo que naquele momento ele não precisava manter uma máscara. A expressão se suavizou, ele apoiou a mão na cabeça, deu um pequeno suspiro e conversou com ela com um tom de voz mais suave:
— Megumi, certo? Eu preciso fotografar o catálogo comercial amanhã. A modelo seria Hitomi. Mas posso trabalhar com vocês duas. — fez uma leve pausa para respirar. — Esteja no estúdio na hora marcada.
— Quê? Catálogo? — perguntou, sua expressão facial foi de decepção para confusão em questão de segundos. Definitivamente o empresário era, para ela, uma pessoa imprevisível.
— Parabéns!! — comemorou Hitomi, abraçando a amiga, nem parecendo que minutos antes bufava de raiva.
— Estamos na praça? Vou chamar um táxi para irmos embora — ofereceu Kaoru.
O táxi buscou os três e encaminhou Megumi e Hitomi até o hotel em que estavam hospedadas. Por último, deixou o empresário em sua residência. Como era a forma de agradecimento que conhecia, ele pagou a corrida para todos.
A exaustão fez com que todos dormissem profundamente naquela noite, mas não por muito tempo, pois as atividades começariam cedo no outro dia.
16 de abril, sexta-feira, seis da manhã
Num dos estúdios fotográficos mais bem equipados da cidade, a correria havia começado cedo. Tudo havia sido milimetricamente preparado no dia anterior para que o ensaio se desenrolasse de maneira ágil e precisa, conforme as exigências de qualidade da marca Vacchiano.
Mas, como em qualquer lugar, principalmente no mundo da moda, o clima podia mudar, e era de confusão. Se ouviam os passos acelerados da equipe de styling, os maquiadores ajeitando as cores da maquiagem, escolhendo novos tons, as fotos sendo replanejadas.
— REORGANIZAR O SET!
— VAMOS REORGANIZAR OS LOOKS! TEREMOS UMA MODELO A MAIS!
— PRECISA RECOMBINAR OS ACESSÓRIOS PRA COMBINAR COM O TOM DE PELE DELA.
Dentre todos esses comandos, uma verdadeira revolução acontecia, tudo por causa da decisão que Kaoru Vacchiano havia feito no dia anterior: chamar Megumi para posar como modelo do catálogo principal.
— Que correria, parece um desfile… — Megumi se impressionou, até então ela havia apenas fotografado para marcas pequenas da região que morava, nada ainda a nível nacional, ou melhor, internacional, pois a marca se fazia presente em diversos países.
Hitomi conhecia toda essa correria, ela entrava pelo estúdio e cumprimentava a equipe que trabalhava arduamente. Ela era obediente e sabia que, sempre que chamada, deveria ir sem questionar.
A responsável pelo catálogo avistou a modelo nova, e, apavorada com o horário, acabou abordando-a de maneira enérgica:
— AH, VOCÊ CHEGOU, CORRE PRA MAQUIAGEM!
— Sim, sim. — Megumi seguiu as orientações, ainda se acostumando com a energia do local.
As duas modelos foram maquiadas e preparadas pelos melhores profissionais de beleza da metrópole, escolhidos a dedo pelo próprio dono da marca. Essa era uma das etapas mais importantes, pois a aparência delas deveria estar impecável. A marca dependia disso para que se tornasse objeto de desejo de seus compradores. Por isso, era um momento que não deveria ser apressado, para que pudessem segurar a imagem perfeita durante um dia inteiro.
Em outro canto, o modelo masculino que participaria do catálogo já estava com cabelo e maquiagem preparados e recebia orientações diretas de Kaoru, enquanto a stylist ajeitava sua roupa. Percebendo a aproximação das duas modelos, o empresário se virou e as cumprimentou:
— Já estão prontas? Estamos atrasados.
— Acordou azedo, é? — respondeu Hitomi de maneira ríspida. — Chegamos antes da hora, sua equipe que nos arrumou. Para de ser um grosso.
Megumi ficou impressionada com a atitude de Hitomi, parecia que ainda não havia se acostumado com a dinâmica dos dois, que, naquele momento, trocavam olhares de desaprovação.

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