7.CAPÍTULO: Sempre a Mesma Coisa
Assim, fui levada de volta para casa…
Quando entrei no carro, uma parte ingênua de mim pensou que receberia conforto. Esperava olhares de preocupação, talvez um braço sobre meus ombros ou um suspiro que demonstrasse o mínimo de empatia. Mas não foi nada disso. Recebi apenas aquele maldito olhar crítico. Um julgamento silencioso através do espelho retrovisor que carimbava meu fracasso antes mesmo de eu chegar ao destino. Era o tipo de expressão que doía mais do que qualquer grito, porque carregava consigo o peso da decepção.
O caminho de volta pareceu muito mais longo do que o normal. Ninguém falava. O silêncio dentro do veículo era denso, sufocante, cortado apenas pelo sinal sonoro do pisca-alerta ou pela mudança de marcha. Nem mesmo o som do motor parecia capaz de preencher o imenso vazio que se instalara entre nós. Eu observava a paisagem pela janela enquanto as ruas do bairro passavam lentamente, mas minha mente estava longe dali. Pessoas caminhavam pelas calçadas, crianças brincavam perto dos portões, alguns pedestres riam de alguma piada casual. O mundo seguia em frente, indiferente ao meu colapso. Eu não. Eu estava estagnada.
Quando finalmente chegamos e o carro estacionou na garagem, senti um aperto violento no peito. O clique do cinto de segurança sendo liberado soou como o início de um cronômetro. Eu já sabia exatamente o que viria a seguir. Assim que pisei dentro de casa, o silêncio do carro se transformou em barulho:
— Você precisa aprender a lidar com situações simples — a voz começou, firme e sem espaço para justificativas. — Não pode travar desse jeito toda vez que alguém olhar para você na sala de aula.
— O mundo real é muito pior do que uma apresentação de escola. Se você não consegue falar diante de trinta colegas, como acha que vai sobreviver lá fora?
As palavras vinham uma atrás da outra, colidindo contra mim. Talvez eles acreditassem sinceramente que estavam ajudando. Talvez quisessem me preparar para o futuro da forma mais prática que conheciam. Mas tudo o que eu sentia naquele momento era cansaço. Um esgotamento que parecia ter se instalado direto nos meus ossos.
Fiquei quieta. Não porque concordava com o que ouvia. Não porque aceitava a humilhação. Mas porque simplesmente não tinha forças para discutir. Explicar meus sentimentos parecia uma tarefa inútil. Era como tentar explicar a mecânica de uma tempestade para alguém que passou a vida inteira sem ver uma única gota de chuva. Eles ouviam os sons das minhas palavras, mas nunca compreendiam o significado. A única coisa que eu queria era paz.
Subi as escadas em silêncio, arrastando os pés. Cada degrau parecia mais pesado que o anterior, como se a gravidade estivesse operando com o dobro da força sobre o meu corpo. Quando finalmente entrei no meu quarto e fechei a porta, o som da fechadura trazendo o clique final ofereceu um pequeno alívio. Pelo menos ali, isolada do resto do mundo, eu podia respirar sem ser avaliada.
Anoiteceu. As sombras da copa das árvores começaram a dançar nas paredes conforme os postes da rua se acendiam. Deitei-me na cama, ainda vestindo o uniforme, sem energia sequer para tirar os sapatos. Fechei os olhos — desabafando em silêncio com o travesseiro, pressionando o rosto contra o tecido texturizado para abafar qualquer ruído que pudesse escapar.
Como todos os dias…
Suportando dores. Aguentando sofrimentos.
Traumas iam se acumulando na minha alma como camadas espessas de poeira que sufocam a luz. Era uma bagunça de fios embaraçados que ninguém se propunha a desatar, e eu mesma já não sabia por onde começar a puxar o nó. Mesmo sabendo que todos sofrem no mundo… Mesmo sabendo que não sou a única a passar por dificuldades… Mesmo repetindo isso para mim mesma como um mantra de consolo…
Por que esses pensamentos negativos não somem?
Por que não consigo controlar essas malditas lágrimas que começam a molhar o lençol?
Fechei os olhos com mais força, tentando forçar a mente a se apagar. Mas a sala de aula continuava ali, nítida, projetada na parte interna das minhas pálpebras. Tentei pensar em outra coisa para desviar a atenção. Pensei nos meus desenhos inacabados sobre a escrivaninha. Nos livros que costumavam me fazer companhia e me transportavam para reinos distantes. Nas histórias que eu criava mentalmente quando a realidade se tornava insuportável.
Desta vez, nada funcionou.
A lembrança do colapso continuava voltando, persistente e cruel. Era como uma música irritante presa na cabeça, repetindo sempre o mesmo trecho em um loop infinito. Eu me via parada diante da sala vazia de empatia. Via meus colegas me observando com curiosidade ou tédio. Via minha própria expressão de pânico refletida nas janelas de vidro.
Quanto mais eu tentava esquecer, mais nítida e detalhada a lembrança se tornava. Talvez fosse isso que as pessoas ao meu redor não entendiam. Elas acreditavam genuinamente que certas coisas podiam ser deixadas para trás com um estalar de dedos, como se a mente humana possuísse um botão de apagar.
“Já passou.” “Esquece isso.” “Amanhã é outro dia, siga em frente.”
Parecia incrivelmente fácil quando eram elas falando, do lado de fora da situação. Mas algumas experiências não desaparecem quando o sinal toca ou quando o dia termina. Elas permanecem no organismo. Mudam a velocidade com que o coração bate. Mudam a forma como enxergamos o mundo e, pior de tudo, mudam a forma como enxergamos a nós mesmos. E eu sentia que aquela humilhação havia deixado uma marca profunda, uma cicatriz psicológica que eu ainda não conseguia compreender totalmente. Os rostos distorcidos pela zombaria. As risadas baixas. O momento exato em que o ar faltou e minha voz desapareceu por completo. Tudo estava gravado dentro de mim, repetindo sempre que o silêncio se instalava.
A pior parte não era o que tinha acontecido naquelas quatro paredes da escola. Era a projeção da lembrança. Era a armadilha de reviver tudo outra vez, com a mesma intensidade física, enquanto estava deitada em segurança na minha própria cama. A vergonha continuava ali, intacta. Não importava quantas horas tivessem se passado desde o término da aula. Não importava que a apresentação estivesse formalmente encerrada e que a professora já tivesse guardado as notas no diário de classe. Meu corpo parecia não entender que o perigo imediato já havia passado. O medo permanecia ativo. A dor permanecia viva. E, junto de todas essas sensações incapacitantes, algo que eu tentava esconder até de mim mesma começou a queimar no fundo do peito: A raiva.
Vocês não entendem a minha raiva!
Eu não quero ser como vocês, moldada por uma frieza que ignora a dor alheia!
Quero ser eu mesma, com todas as minhas falhas e limitações!
Quero ser útil de verdade, trilhando um caminho que faça sentido para os meus olhos!
Quero que, ao menos uma vez na vida, tenham orgulho de quem eu realmente sou — e não da versão perfeita e inalcançável que vocês projetaram na cabeça de vocês!
Todos os dias eu sofro… e sofro… e sofro…
Parece que todos os meus colegas ao redor encontraram um lugar ao qual pertencem. Todos parecem saber exatamente como respirar, como andar, como interagir e como viver sem questionar a própria existência. Todos parecem avançar. Menos eu.
Mas eu estou tentando. Estou tentando continuar todas as manhãs. Tentando melhorar minha postura, minhas palavras e minhas reações. Tentando não desistir diante do primeiro obstáculo. Tentando, desesperadamente, acreditar que existe algo melhor me esperando no final deste túnel escuro.
Então por quê!?
Por que continuo afundando na lama, mesmo quando nado com todas as forças que restam no
Por que continuo afundando na lama, mesmo quando nado com todas as forças que restam no meu corpo?
Por que cada novo passo parece exigir mais energia do que o anterior?
Por que tudo precisa ser tão absurdamente pesado?
Eu só queria… um abraço. Um abraço forte, apertado. Daqueles que transmitem segurança e fazem a gente sentir, nem que seja por alguns segundos, que o corpo não vai quebrar em mil pedaços sob a pressão do mundo.
Só queria sua atenção legítima. Seu amor sem cobranças. Seu carinho sem condições. Coisas que pareciam tão simples e naturais quando pertenciam à dinâmica familiar de outras pessoas, mas que aqui pareciam artigos de luxo.
Mas você nunca me respeitou. Nunca enxergou o esforço homérico por trás de cada pequena ação minha; enxergava apenas as falhas inevitáveis. Nunca ouviu o meu grito de socorro, apenas o meu silêncio retraído. Seu afeto parecia condicionado ao meu desempenho, uma moeda de troca por uma versão de mim que simplesmente não existe.
As lágrimas escorreram pelo canto do meu rosto, quentes e silenciosas, sem que eu fizesse qualquer movimento para impedi-las. Eu já estava cansada de escondê-las sob sorrisos amarelos. Cansada de fingir que estava tudo bem quando o meu mundo interior estava desmoronando. Cansada de parecer forte para manter uma paz artificial dentro de casa.
O quarto permaneceu imerso no silêncio da madrugada. A lua, alta no céu cinzento, iluminava suavemente uma parte da parede descascada perto do guarda-roupa. Observei aquela faixa prateada de luz. Era pequena. Era fraca diante da imensidão da noite. Mas ainda estava presente, insistindo em cortar a escuridão. Talvez fosse exatamente assim que eu estava me sentindo.
Pequena. Frágil. Quebrada por dentro. Mas ainda presente. Ainda aqui, ocupando este espaço. Ainda resistindo, mesmo sem saber o motivo. Talvez amanhã tudo continuasse rigorosamente igual. Os mesmos corredores frios da escola. As mesmas pessoas com seus olhares avaliadores. Os mesmos medos paralisantes me esperando na primeira curva do dia.
Mas, como todos os dias, eu me levantaria quando o despertador tocasse. Não porque eu fosse dotada de uma força heroica. Não porque estivesse recuperada ou bem. Não porque tivesse encontrado as respostas para os meus problemas. Mas simplesmente porque continuar andando era a única coisa que eu ainda sabia fazer. Parar significava aceitar o fim, e uma parte teimosa de mim ainda se recusava a ceder por completo.
Como todos os dias… Irei caminhar em frente — sozinha, como sempre. Com a certeza amarga de que o caminho, por mais longo e tortuoso que seja, serei apenas eu a percorrer do início ao fim.

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