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    Akemi certamente não esperou por aquilo. “De onde ela veio?”

    Elegantemente recostada na borda de uma mesa rente à parede, uma mulher de cabelo preto na altura do maxilar e delineado turquesa nos olhos escuros estava envolta pela penumbra da sala.

    O brilho alaranjado da lareira ao fundo iluminava parte do vestido tradicional, revelando as sutis estampas de folhagens em meio ao preto profundo da peça que era comprimida por uma faixa estampada por paisagens montanhosas. Um jaleco negro de mangas dobradas combinava com as luvas de latéx escuro.

    Toda a vestimenta insinuava excelência em medicina, mas outros detalhes contradiziam: 

    Enquanto um batom verde vívido ampliava a beleza venenosa dos lábios, a mão esquerda sustentava um cigarro aceso.

    O verdadeiro diferencial vinha logo abaixo, especificamente no lado direito do queixo erguido em plena confiança revelava, onde uma carpa tatuada representava um salto parado no tempo; as cores, tons de prata e verde-água sobre o mar preto, entravam em harmonia com o gótico moderno que vestia a mulher. 

    Aquilo não era só estética, era herança, uma marca cravada na carne como juramento de clãs oriundos do país do sol nascente.

    “Essa mulher é suspeita. Não é tão alta e nem tão baixa… E aqueles olhos… tem um brilho branco neles?”

    As íris escuras dos olhos delineados acrescentavam nas anormalidades: bem no centro de cada uma, um minúsculo ponto branco, ou melhor, pupilas desbotadas e pálidas como se tivessem a vida drenada, insinuavam uma sedução perigosa direcionada ao Miyazaki.

    — Não sou ao menos digna de um cumprimento, Mestre Masaru? — Com seu charme malicioso como uma víbora, a mulher sabia exatamente onde cutucar.

    O homem recusava olhares. — Não me recordo de ter dado permissão para que uma pessoa marcada pelo delito me chamasse desta forma.

    — Hmmm. Tão rígido… tão nobre… — O cigarro encontrou os lábios esverdeados, a familiaridade de um vício antigo ocasionaram alívio com o escape das breves fumaças espirais rumo ao teto, arrepiando os ombros da misteriosa animada. — Uuuh, que homem de princípios! — exaltou, afastando-se da mesa.

    Com seus calçados altos tilintando contra a madeira, a mulher fissurada no instrutor se aproximava. — Venho te analisando a tempos. Você é do tipo que se prende ao certo, ao puro, ao imaculado, e claramente não está disposto a variar. Que pena… — Passando lentamente por trás daquele que a evitava, diminuiu o passo. — Eu já provei todos os sabores do mundo, sabia? Fortes, frágeis, melosos, sujinhos. Cada coração era uma experiência diferente e única. Mas o seu, Sr. Masaru Miyazaki… — Os passos pararam. As pupilas brancas em meio à escuridão observavam o homem pelas costas. — Este seu coração de fogo é o único que me faz querer conquistar alguém por completo.

    — Você é apenas uma funcionária, não uma colega.

    A mulher avançou um passo, e mesmo lado a lado daquele de seu interesse, não foi presenteada por uma troca de olhares. O perfil estoico e impenetrável de Masaru a deixava mais curiosa. — Tudo bem, entendo suas preferências. Talvez eu não seja tão letal quanto as mulheres da sua família. Maaas… —  Com um sorriso enviesado, ela apoiou-se levemente no ombro dele — garanto maestria nas minhas habilidades específicas que também requerem um bom domínio anatômico. Tenho certeza de que elas seriam muito úteis para você…

    Amplamente preocupado, Akemi só observava.

    Estava claro que Masaru, cercado por elogios melosos e sufocantes daquela que quase o tirava do sério, estava no limite. — Tire suas mãos imundas de mim antes que eu a incinere naquela lareira.

    A mulher recuou com classe. — Calma, calminha. Não pense que vim apenas por diversão. No fundo, Masaru, você adora minhas habilidades, e pelo seu tom agora pouco, era óbvio que estava implorando pela minha presença.

    O instrutor suspirou e mão passou a mão pela gravata, disfarçando o incômodo de sua confissão. — Dizer que você está parcialmente certa é uma lástima, mas felizmente, não vamos perder tempo com esse caso. Quanto antes acabarmos, mais cedo você voltará ao seu lugar.

    — Qual é o problema da vez?

    — Este garoto.

    Akemi transformou-se no centro das atenções quando Masaru lhe apontou. A mulher o viu, e interessada, aproximou-se.

    — Ah, sim. Você é Akemi Aburaya, certo?

    — C-como sabe o meu nome!?

    — Huhuu, sei de tudo desta academia, garotinho. Principalmente os detalhes de jovens bonitos como você.

    — A-ah, o-o que você quer dizer com isso!? Que diabos sabe sobre mim!?

    — Não se lembra? Ontem eu cuidei de você.

    — Ontem?

    — Oh, é mesmo, você esteve inconsciente o tempo todo. Nunca imaginaria que alguém ficaria tão exausto a ponto de desmaiar logo no primeiro dia.

    “Então foi ela quem trocou minhas roupas enquanto eu estava desacordado”, Akemi perdeu o brilho nos olhos quando a identificou. — Você é a médica do primeiro setor?

    A mulher estendeu a mão livre do cigarro aceso para um cumprimento. — Especialista em Medicina Áurica e chefe de todos os setores de enfermagem da Academia Shihai de Asahi, meu nome é Kurogatsuyori Kurosawa, mas pode me chamar por Dra. Kurori.

    “Kurosawa?” Supondo que a médica provavelmente era da mesma família que Yui Kurosawa, a recepcionista, e Rin Kurosawa, sua colega de turma, Akemi respondia o aperto de mãos enquanto se perdia nos pensamentos. “Ela não parece ser uma má pessoa, só tem uma energia extravagante embora seja meramente obscura.”

    — Algum problema, garotinho?

    — Não! E-eu só nunca tinha visto alguém tão… diferente.

    — Está envergonhado por eu te ver despido, é?

    — N-não é nada disso! Você é uma médica, afinal! — A desculpa não livrou o constrangimento. “Ela não tem vergonha!”

    — Huhu… não me leve a mal, mas eu sou extremamente acostumada a ver coisas que os outros não veem, até porque, meus olhos estão a todo instante captando os detalhes ocultos dos corpos alheios, mesmo contra a minha vontade. Tudo que você esconde dentro de si, rapazinho, eu estou vendo neste exato momento. Nada em seu interior escapa de mim. Artérias, veias, vísceras, ossos…

    — Está dizendo que tem uma visão raio-X?

    — Basicamente. Apenas acostume-se com o fato de que tudo dentro de você está bem claro em minhas retinas, especialmente, o seu núcleo áurico, que por sinal… — Kurori agachou-se e estendeu a mão para tocar a região bem acima do umbigo do jovem. — Seu núcleo não mudou quase nada desde a última vez em que o analisei… Estranho.

    Masaru soltou a voz. — Aburaya é meu primeiro e único pupilo. Ele foi vítima de um acidente que resultou no despertar de suas habilidades áuricas mesmo após a idade prevista. Resumindo, o que temos diante de nós é um raro áurico elétrico retrator marcado por um evento anômalo que forjou uma aura igualmente incomum, mas que não pode ser utilizada por alguém tão inexperiente.

    “Após a idade prevista? Já ouvi casos antes”, pensou Kurori. — Está tão curioso que se sujeitaria a desvendar o que realmente há no corpo deste garotinho mesmo sob minha companhia, Sr. Miyazaki?

    — Podemos concluir isso ainda hoje?

    — Para tal, exijo uma única condição.

    O silêncio foi a aceitação mais expressiva possível de Masaru.

    A moça levantou-se, e olhando de canto, abusou do tom maroto. — Você vai tirar um tempinho pra dar uns tragos comigo quando tudo acabar.

    O homem cruzou os braços. — É uma bela aproveitadora, não?

    — Estrategicamente charmosa, corrigindo. Pessoas espertas dominam o mundo, sabia?

    O suspiro serviu de assinatura para o contrato imaginário. — Está bem. Farei como deseja.

    A resposta surtiu palmas rápidas e delicadas.

    — Maravilha! Agora, vamos sair desse ninho abafado. Preciso de um espaço digno da minha genialidade. A minha clínica nos espera — a doutora caminhou até a parede da direita, direta, sem hesitações.  

    Duvidando da própria sanidade, Akemi apontou com o polegar para trás. — A porta é por aqui, não?

    — Huhuhuu! E perder a chance de impressionar vocês? Nem pensar. Cheguem mais perto.

    Os dois a seguiram com receio: no caso de Masaru, quase imperceptível; no de Akemi, bem visível.

    Kurori colocou a palma aberta na madeira da parede, e então, disse com a naturalidade de quem oferecesse um chá. — Prontinho. Podem atravessar.

    Akemi deu um passo atrás. — I-isso é sério!?

    Já Masaru, não recuou. — Vamos logo.

    O garoto observou a parede engolindo Masaru até que não sobrasse nada.

    Kurori inclinou-se novamente, aproximando o rosto para o sussurro de um segredo. — Não seja tímido, a parede é mais gentil do que muita gente desta academia.

    Akemi entendeu uma colocação feita instantes atrás por Masaru. “Concordar com ela é realmente estranho demais”, ele inspirou fundo, fechou os olhos, e atravessou.

    Quando seus pés tocaram o outro lado, uma sala imensa o recebeu; era fria, limpa, com paredes de aço e luzes brancas refletidas em equipamentos médicos envolta de uma maca no centro de tudo.

    Era um laboratório de outro século…  

    — Isso aqui tava atrás daquela parede fina? — duvidou Akemi, surpreendido.

    Kurori surgiu logo atrás, e com seu sorriso tendencioso, encostou-se numa bancada clara. — Bem-vindo à minha realidade, docinho.

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